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21/05/2009

CASE STUDY: o racional da 3.ª travessia rodoviária do Tejo

«Quando o Governo anunciou a construção da Terceira Travessia do Tejo associada ao projecto TGV Lisboa - Madrid fiquei surpreendido porque foi anunciado um bónus: esta travessia iria ser construída não só com um tabuleiro ferroviário, mas também com um tabuleiro rodoviário. Fiquei surpreendido porque justificaram a iniciativa com o aumento de tráfego que o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL) iria trazer às actuais infra-estruturas. É certo que o NAL vai acarretar um aumento do volume de tráfego, mas será assim tanto?

Começo por recordar que o actual aeroporto de Lisboa é apenas servido pela pior, repito, mais congestionada via rodoviária de Portugal: a 2ª circular. Não é sequer servido por comboio ou metropolitano e o cais de chegada é uma ilha ridícula de refúgio a passageiros auto-transportados. Com isto "despachámos" 13,6 milhões de passageiros em 2008. A previsão da procura realizada pela Parsons mostra que para 2018, data de abertura do novo aeroporto, o volume de passageiros deverá ser de aproximadamente 18,8 milhões, o que entre chegadas e partidas permite prever que teríamos um volume diário médio de 51 mil passageiros por dia. Admitindo que 60% dos passageiros se deslocariam em viatura de e para Lisboa (o comboio e os restantes destinos escoariam o remanescente) e que cada veículo seria ocupado por 1,5 passageiros (dados semelhantes a estudos de auto-estradas), teríamos uma média de 11 veículos por minuto para a nova ponte. Ora, uma vez que na 2ª circular passam hoje 70 veículos por minuto na hora baixa (contei-os eu!) não consigo perceber como é que 11 veículos por minuto justificam uma nova ponte rodoviária com 3 pistas para cada lado.

Pode argumentar-se que a média não serve e que as contas devem fazer-se com recurso ao tráfego em hora de ponta. Muito bem. Então vejamos. De acordo com os mesmos estudos da procura para a hora de ponta, e usando pressupostos semelhantes, concluo que a pressão rodoviária marginal pelo efeito "passageiros do aeroporto" seria, no limite máximo, de 19 veículos por minuto, o que mesmo assim ainda deixa muito a desejar quanto à bondade de um novo investimento rodoviário para servir o NAL a efectuar de imediato. Mesmo em 2035 com o novo aeroporto a esgotar a sua capacidade, o tráfego marginal rodoviário em hora de ponta seria de 31 veículos por minuto...»


[A feijoada, João Duque, no DE]

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