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08/06/2005

SERVIÇO PÚBLICO: pregar aos peixinhos

Faz pelo menos 10 anos que a reengenharia dos processos de negócio (business processes reengineering - BPR) é utilizada correntemente no redesenho de empresas, departamentos governamentais e em outras organizações. Para arrumar de vez o assunto, basta dizer que é actualmente uma metodologia adoptada para as certificações em qualidade segundo os standards ISO. Centenas de empresas portuguesas já foram certificadas com base abordagem dos processos de negócio.

Basicamente a BPR utiliza o conceito de processo de negócio como um conjunto coerente e sequencial de actividades que recebe inputs (produtos, recursos, etc.) e tem um output que é um input para outro processo (por exemplo um raio X da radiologia para a cirurgia) ou um produto (por exemplo um acto médico prestado a um «cliente» dum hospital público). É uma ferramenta de gestão tão poderosa que, por ter sido usada no downsizing de muitas empresas, ficou com má reputação nos sindicatos. Apesar disso, toda a gente já devia ter percebido que a BPR é como a cirurgia - pode ser usada para salvar uma perna, ou uma vida, ou para a amputar.

Por isso, quando uma luminária como o engenheiro José Tribolet do INESC nos vem dizer que «a auditoria aos serviços de dois ministérios a cada três meses, anunciada no mês passado pelo primeiro-ministro, não vai resolver os problemas de sobreposição de funções da Administração Pública, nem dar respostas sobre a sua organização, só vai "perpetuar as quintas" que já existem» (Público) e sugerir que seja adoptada a BPR para atacar a paralisia do estado napoleónico-estalinista deveria ser recebido com um puf, olhá novidade.

Em vez disso, é recebido com um silêncio embaraçado (O que é que o gajo quer dizer com aquilo. Até parece que é parvo.), na melhor hipótese. Na pior dizem que o gajo é neo-liberal e arrumam o assunto em duas penadas.

Enquanto isso, o «monstro», como lhe chama um dos seus pais, engorda e o país definha.

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