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02/06/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: o mundo não é perfeito

Secção Sol na eira e chuva no nabal

Como é possível que os contribuintes deste país se resignem a aceitar passivamente ser depenados pelo monstro (d'après M. Cavaco) / estado social (d'après M. Sócrates) / Moloch (d'après Mme Joana) / estado napoleónico-estalinista (d'après M. Câmara)?

Como é possível que, em cima disso, 75% deles se declarem prontos a encorajar o governo a torrar mais uns milhares de milhões de euros no TGV para umas dezenas de milhar (entre eles muitos espanhóis) chegarem meia hora mais cedo às reuniões no Porto/Lisboa ou 2 horas mais cedo às reuniões em Madrid/Lisboa?

Como é possível que, não contentes com isso, 42% dos portugueses ainda vão mais longe e se declarem prontos a deixar o governo torrar mais outros milhares de milhões de euros no aeroporto da Ota para uns poucos milhões de aborígenes e uns vários milhões de turistas chegarem mais tarde aos seus destinos?

E, no final, como é ainda possível encontrar 42% a concordarem que o governo torre ainda outras centenas de milhões de euros numa nova travessia do Tejo para mais umas dezenas de milhar queimarem mais uns litros de gasolina todos os dias?
(ver Barómetro DN/TSF/Marktest aqui)

Será Portugal «um país de incorrigíveis patetas»? Só se estivessem «dispostos a financiá-lo do próprio bolso». Não estão.

Nada mais falso, portanto. A maioria dos portugueses adapta-se com inteligência aos sinais que recebe. Uma boa parte poderá, talvez, ser distraída e separar mentalmente o fraco calor emitido pela vaca marsupial pública dos gargantuélicos fardos de palha com que o estado social a alimenta. Mas vejamos a coisa mais de perto.

Quais são os impostos que preocupam mesmo os portugueses? O IRC? Deus nos livre. Isso é coisa dos capitalistas. O IVA? Nem por isso. Para a maioria o IVA é uma componente inseparável do preço que pagam pelas mercearias, ou pelos electrodomésticos, ou pela pizza engolida ao balcão do snack bar, ou pelo almocinho com a famelga ao domingo.

O IRS? Até o funcionário público mais estúpido percebe que é um pequeno sacrifício a que se sujeita para que os tansos lhe paguem o ordenado. O pensionista também não precisa de grandes explicações. Com estas duas categorias de cidadãos arrumamos metade dos contribuintes. Na outra metade é bom não esquecer que os super-tansos que tinham em 2003 rendimentos brutos acima de 50.000 euros são apenas 8,8% mas pagam 53,9% do IRS (ver aqui). Dos restantes 91,2%, porque se deveriam preocupar os que não são funcionários públicos ou pensionistas?

(Em intenção dos adoradores de Paretto: 20,3% dos agregados familiares tiveram em 2003 rendimentos brutos acima de 32.500 euros e pagaram 74,2% do IRS.)

Em resumo, fora do grupóide de super-tansos, como aqueles das contas da Joana, as únicas preocupações fiscais que afligem os cidadãos são os impostos sobre os combustíveis e, para os agarrados pela nicotina, o imposto sobre o tabaco. E daí? Quem é que não percebe que o mundo não é perfeito e o estado social vale bem estes pequenos sacrifícios?

Feitas as contas, há prémios para todos. Chateaubriands para o grupóide de super-tansos que ainda por cá se encontram (como o Sócio Gerente, à espera de se mudar para Vigo) que serão trocados por afonsos tão cedo emigrem (taxa de câmbio: 1 chateaubriand = 0,5 afonsos). Bourbons para os funcionários públicos. Urracas para os pensionistas. Ignóbeis> para os administradores da máquina de extorsão.

Já me esquecia: pilatos para os restantes.

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