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12/06/2005

O MEU LIVRO DE CABECEIRA: Rodasnepervil

O meu amigo LG reincide. O seu quinto livro «Conversas à Mesa do Café» trata de conversas imaginárias sobre coisas da vida e da morte com a mesma inocência e simplicidade dos outros quatro.

«Havia tratado pela manhã das tarefas do dia.
Rara é a vez que a minha agenda está em branco.
Ninguém tem mais afazeres do que os reformados, assim dizem os que são.
Quando no activo foi-nos negado, pela força das circunstâncias, em nos ocuparmos do que tanto gostaríamos de fazer, portanto, agora, há que aproveitar todo o tempo do mundo.
Uns prometeram a si próprios, passar ao papel tanto do que foram memorizando; outros comprometeram-se a catalogar os livros e manuscritos que foram amontoando; há aqueles que sempre pensaram ordenar os postais e fotos de viagens que foram encaixotando ao longo da vida; e ainda aqueles outros que têm todas estas e outras mais tarefas a tratar. Mas eu havia prometido ao João Rodasnepervil voltar, de quando em vez, ao café e para isso entendi logo incluir numas quantas folhas da agenda tal "afazer".
Ora, aquando da nossa última conversa apresentei o João, apenas pronunciando o seu nome e apelido
Mesmo que não vá traçar uma longa biografia do nosso amigo dos bancos da escola e da adolescência, julgo interessante que mesmo a partir do seu nome fiquemos com uma ideia do meio em que cresceu e se fez homem. Sua mãe era uma senhora ocupada na lida da casa e da Família, muito recatada e devota do cristianismo, sendo São João Baptista, aquele que fez a "ponte" entre o Antigo e o Velho Testamento, para ela, o Santo a quem, desde muito nova dirigia as suas preces, havendo-lhe prometido que João seria o nome do seu primeiro filho.
O pai era operário da construção naval, muito dado ao sindicalismo e leitor de obras que passavam às malhas da censura.
Para o pai não havia inconveniente algum que o seu primogénito tivesse o nome de João, até que, segundo ele, João, Jesus e os Apóstolos foram os primeiros homens a pôr em pratica ideias socializantes, porém, não dispensava que o nome João fosse seguido de Livre-pensador.
Aconteceu, no entanto, que Livre-pensador não era permitido (estávamos em plena Ditadura) e, assim, o pai invertendo a expressão prantou-lhe Rodasnepervil.
O João, filho de um casal com doutrinas diferentes, mas de certo modo convergentes, fez-se um Humanista com quem dá prazer manter uma boa conversa à mesa do Café.»

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