Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
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de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
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19/01/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (71) - A selecção social fez dos portugueses os mais ansiosos (e avessos ao risco)

Outros portugueses no topo do mundo.

Cruzei-me acidentalmente com este vídeo de Mark Manson, uma criatura que os produz com regularidade sobre os temas mais variados, alguns deles, como este, sobre certas características dos nacionais de alguns países. No caso do Portugal dos Pequeninos sobre a ansiedade - o título do vídeo publicado em Novembro de 2024 é «Understanding the Most Anxious Country in the World» - uma emoção exacerbada - um transtorno - que segundo as estatísticas assalta os locais muito mais intensamente do que em qualquer outro país do mundo.

Mark Manson, um observador perspicaz, ficou tão intrigado com a prevalência da ansiedade entre nós que visitou Portugal e falou com um certo número de pessoas e concluiu que na génese do fenómeno se encontra a selecção resultante da saída maciça a partir do século XV dos mais afoitos, ambiciosos e inconformados deixando para trás os conformados e o seu receio patológico das mudanças e a baixa tolerância ao risco.

Concordo, isso mesmo venho escrevendo há duas décadas (por exemplo neste post de 2006 precisamente sobre a aversão ao risco) baseado nos estudos e no modelo de Geert Hofstede, desenvolvido nos princípio da década de 70, e em particular num post desta série onde escrevi sobre o «processo de selecção social dos últimos cinco séculos que fez sair os inconformados de Portugal nos Descobrimentos e os fez e faz sair pela emigração».

06/11/2024

Vitimizar e vitimizar-se são os verbos mais conjugados no Portugal dos Pequeninos

O modelo 5-D de Geert Hofstede (várias vezes citado neste blogue) inclui a dimensão feminilidade / masculinidade em que o Portugal dos Pequeninos obtém um score que o posiciona no sétimo lugar mais feminino nas cinco dezenas de países que foram estudados. Este estereotipo feminino (que existe, como existem os cromossomas sexuais X e XY), inclui a simpatia pelo desafortunado, a valorização da vítima e o ciúme pelo sucesso. Ocorreu-me esta epifania laica ao ler o artigo de opinião «República das “vítimas”» de Pedro Gomes Sanches do qual não resisto a citar o seguinte excerto:
«Se és “racia­lizado”, és vítima de racismo, se és mulher, és vítima de machismo, se és imigrante, és vítima de xenofobia, se não tens casa, és vítima do turismo, se não te identificas com o sexo com que nasceste, és vítima de transfobia, se gostas de alguém do mesmo sexo, és vítima de homofobia, se não tens bom desempenho escolar, és vítima da meritocracia, se vives, és vítima das alterações climáticas.

Sempre que se pergunta a uma destas “vítimas” por que não rompe com essa condição ouve-se a mesma resposta: a sociedade capitalista, liberal, branca e heteropatriarcal é opressora e não deixa.»

E, já que estou com a mão na massa, e a propósito do Dia Mundial do Cuidador Informal que se comemorou ontem, remeto para com um artigo com o saboroso título “De que vale ter o estatuto?” Cuidadores pedem que cuidem deles em que se dá voz aos 15 mil cuidadores recenseados pela Segurança Social que esperam eles próprios terem um cuidador formal que, como se adivinha, é o Estado sucial, afinal o cuidador em cujo colo quase todos os portugueses ambicionam acolher-se.

17/10/2024

Não há valores universais. Há os valores ocidentais que apelam à universalidade

Baseado nos World Values Surveys realizados em cada cinco anos que entrevistam dezenas de milhares de pessoas em países de todo o Mundo (130 mil em 90 países no último inquérito), a Economist publicou o ano passado um estudo (*) onde compara os valores predominantes nesses países e a sua evolução entre 1990-98 e 2017-22.

Esses valores são organizados em dois eixos: Tradicional-Secular, onde é avaliada a influência da família e religião e o respeito pela tradição, por um lado, em oposição às crenças não religiosas e ao pensamento mais científico; Sobrevivência-Autoexpressão, onde é avaliado a ligação a um grupo, etnia, nação ou raça, ou seja valores colectivistas, por um lado, em oposição ao individualismo.

Os resultados representados nos diagramas seguintes são muito sugestivos e mostram diferenças notáveis e uma evolução distinta em três décadas, representada nos diagramas seguintes correspondendo os pontos a países individuais.

O primeiro diagrama mostra uma evolução contraditória que esconde a evolução diferente entre as regiões, diferença que os diagramas seguintes confirmam.


Nestes três últimos diagramas torna-se visível que a evolução entre 1990-98 e 2017-22 foi muito diferente nos três conjuntos de países: Língua inglesa/Protestantes que se tornaram mais seculares; Ortodoxos que se tornaram mais tradicionais e Latino Americanos que se tornaram ligeiramente menos tradicionais e menos colectivistas.

No diagrama seguinte representa-se a situação actual de três conjuntos de países em três grandes regiões (os inquéritos não abrangeram os países asiáticos).


E a conclusão é que, no conjunto, os valores dominantes na Europa, que os europeus tomam como valores universais, são completamente distintos dos latino-americanos e africanos-islâmicos que têm em comum um forte tradicionalismo, ainda que partilhem em graus muito diferentes os valores colectistas-individualistas, estando os latino-americanos mais próximos dos europeus a este respeito.

___________

Desde há 20 anos que cito regularmente (por exemplo aqui) os estudos do antropólogo holandês Geert Hofstede que comparou as culturas de dezenas de nações, usando um modelo que considera quatro dimensões na cultura dominante de uma sociedade, entre as quais a dimensão individualismo / colectivismo. Desses estudos resultam conclusões compatíveis com e complementares às retiradas dos World Values Surveys.

20/04/2023

Mitos (328) - A lenda do macho português

A propósito das desventuras do Dr. Boaventura, já aqui e aqui tratadas no (Im)pertinências, foram gastos rios de tinta para o condenar. Menos tinta foi gasta para lhe limpar a folha e muito menos para o desculpar, não por falta de vontade, mas por falta de tomates, digamos assim, que o tema pede.

Entre as tentativas de lhe limpar a folha, conta-se uma do jornalista de causas Paulo Baldaia relativizando o alegado assédio à pala do Portugal dos Pequeninos ser, segundo ele, um «país profundamente machista». Ora, esquecendo o Dr. Boaventura, era aqui que eu queria chegar.

Na verdade, por muitos sujeitos que por cá vivem se autoconsiderem machistas não acredito que sejam mais do que uma pequena proporção do homo Lusitanicus. Mas o que entre as muitas coisas que Portugal não é, não é um país machista do ponto de vista da cultura dominante.

Aqui no (Im)pertinências pela mão do outro contribuinte, foram citados dezenas de vezes os estudos do antropologista holandês Geert Hofstede, baseados em  milhares de entrevistas em dezenas de países, comparativos das culturas desses países, que mostraram que na vertente masculinidade / feminilidade (*) Portugal é um dos países mais "fêmea" do mundo, de acordo com a predominância dos estereótipos comportamentais associados à masculinidade e à feminilidade.

(*) Isto foi explicado em vários posts, incluindo este, em que o Impertinente contraditou o Dr. Pacheco Pereira por uma declaração semelhante.

08/03/2023

CONDIÇÃO FEMININA: O mulherio português tem cada vez menos razões de queixa (2)

Continuação de (1)

The Economist

O ‎glass-ceiling index da Economist mede o papel e a influência das mulheres na força de trabalho abrangendo dez factores. O diagrama mostra os valores do índice para 29 países da OCDE. Com valores mais elevados estão os países nórdicos e com valores mais baixos o Japão e Coreia do Sul, onde as mulheres têm de escolher entre família e carreira profissional. A Suíça continua com alguma surpresa em 26.º, sobretudo devido aos factores "Higher education" e "Net child-care costs".

Portugal foi o país que mais subiu entre 2016 e 2021 de 12.º para 5.º lugar, onde se mantém em 2022, só superado pelos países nórdicos. É difícil encontrar algum outro índice onde Portugal esteja mais bem colocado, com excepção dos indicadores relativos à dívida pública e privada ou da produtividade, em ambos os casos numa escala invertida.  

Nos dez factores considerados, Portugal está acima da média, excepto em "Paid leave for mothers". A maior progressão foi em "Gender wage gap" e "Women in managerial positions". 

Vem a propósito citar os estudos, várias vezes aqui referidos, do antropologista holandês Geert Hofstede, comparativos das culturas de dezenas de países, usando um modelo que desenvolveu e que distingue 4 dimensões na cultura dominante numa sociedade. Uma dessas dimensões é a masculinidade / feminilidade, definida com base nos estereótipos comuns a quase todas as culturas (confronto/consenso, simpatia pelo sucesso/simpatia pelo desgraçadinho, grande e rápido/pequeno e lento, orientação para as coisas/orientação para as pessoas, performance/qualidade de vida, concorrência/cooperação, etc.). Num país que alimenta a mitologia de ser muito "macho", na verdade é o oitavo país mais "fêmea" do mundo, logo atrás dos países que precisamente no glass-ceiling index estão à nossa frente.

Enquanto o mulherio (entenda-se o mulherio da classe média-alta) progride, o facilitismo, a orientação dos métodos para os estereótipos femininos de aprendizagem e a infecção do sistema de ensino pelo politicamente correcto estão a avariar irremediavelmente o elevador social e, em consequência, a reduzir as oportunidades de progressão social dos pobres, principalmente dos homens pobres. Ninguém parece incomodar-se com isso.

05/08/2021

CASE STUDY: A coragem da desistência ou o culto dos desgraçadinhos e os portugueses na vanguarda

A propósito da decisão da ginasta Simone Biles - a melhor do mundo, diz-se -  não competir em várias provas, alegando que estava a enfrentar problemas mentais, uma comovente onda de solidariedade percorreu os mídia nacionais e internacionais e, ao que parece, as redes sociais (não tenho a certeza porque não consumo o produto) enaltecendo frequentemente a «coragem de uma desistência».

É claro para mim que, não havendo nada a censurar à mocinha por ter sucumbido ao peso da responsabilidade e à enorme expectativa dos fãs, também não haveria nada a exaltar. Afinal trata-se de uma atleta profissional de alta competição em dedicação exclusiva que deveria estar preparada para enfrentar estas situações. Mostrou que não estava e, no seu pleníssimo direito, desistiu, mas daí a legiões de jornalistas de causas várias e patetas de várias outras profissões se curvaram perante o feito, ou melhor perante o não feito, vai uma grande distância.

O assunto não justificaria gastar tinta com ele, não fora o facto da unanimidade à volta da exaltação da desistência ser em si mesmo muito revelador das mudanças ideológicas e culturais introduzidas pelos movimentos politicamente correctos, da identidade de género, etc., em suma pelo chamado marxismo cultural que contamina uma boa parte da intelectualidade (mais uma batalha que a direita está a perder na guerra das ideias). A unanimidade foi tão evidente que as únicas vozes dissonantes que encontrei foram, et pour cause, de dois humoristas (José Diogo Quintela e Tiago Dores).

E, já que estou com a mão na massa, sempre acrescento que um fenómeno induzido por essas mudanças é a crescente feminização das sociedades, feminização caracterizada pela prevalência do estereotipo feminino (sim isso existe, como existem os cromossomas sexuais X e XY), o que, como mostra o modelo 5-D de Geert Hofstede (amplamente citado neste blogue) inclui a simpatia pelo desafortunado, a valorização do underdog e o ciúme pelo sucesso. É nesta matéria das sociedade femininas que podemos dizer com toda a propriedade que os portugueses estão desde há muito no topo do mundo entre os países mais femininos (ver em especial este post).

15/11/2019

ARTIGO DEFUNTO: Desigualdade da riqueza - se os factos não confirmam as teses, tanto pior para os factos

A divulgação de dados sobre a distribuição da riqueza e dos rendimentos é sempre uma oportunidade para confusões por ignorância e por má-fé.

Desta vez, com a divulgação recente dos resultados do Inquérito à Situação Financeira das Famílias  do INE, não foi excepção e podemos encontrar em diversos jornais a confusão entre riqueza, isto é o património das famílias, e rendimento, ou seja uma confusão entre um stock e um fluxo, equivalente a confundir o caudal de uma torneira que corre para um tanque o volume de água existente no tanque.

A divulgação desses dados é também uma ocasião para as lamentações ditadas por uma inveja secular que é dominante na cultura do Portugal dos Pequeninos e convenientemente sublimada pela ideologia igualitária da esquerdalhada.

De facto, como já por várias vezes referi, as análises de Geert Hofstede mostram os portugueses como um dos povos mais femininos do mundo e também um dos mais colectivistas, de onde a extrema sensibilidade à desigualdade (corolários: direitos adquiridos e progressão automática nas carreiras independente do desempenho) e a forte expectativa que o governo trate disso (corolários: tendência esquerdizante e preferência pelo nanny state). Isso mesmo ficou patente no Eurobarómetro «Fairness, inequality and inter-generational mobility» em que a «Percepção sobre as desigualdades de rendimento» mostram que os portugueses na UE28 são os mais sensíveis às desigualdades (apesar de Portugal não ser o país mais desigual) e os que mais esperam que o governo intervenha para as reduzir.

Mas a verdade é que não há assim tantas razões para a lamentação. Segundo os dados do INE, entre 2013 e 2017 a riqueza líquida média por família (é disso que se trata e não do rendimento) medida pelo valor de todos os seus activos (imóveis e financeiros) líquido das dívidas, aumentou 13,2% e a mediana (isto é o valor da riqueza que divide as famílias em dois grupos com o mesmo número) aumentou 10,0%. Por isso, não surpreende que a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini tenha diminuido ligeiramente de 68,4% para 67,9% (0 corresponderia à igualdade absoluta e 100 à concentração numa única família de toda a riqueza).

Note-se que a redução da desigualdade dá-se na fase final da crise de 2011 o que contraria a tese muito popular entre a esquerdalhada e o jornalismo de causas que a crise e o governo de Passos Coelho agravaram as desigualdades. A este respeito, leia-se o post «A mitologia esquerdista do agravamento das desigualdades em Portugal durante o governo PSD-CDS» que deita por terra essa tese.

16/10/2019

O PS aproveita o pior do socialismo e o pior do Portugal dos Pequeninos

O socialismo é de esquerda e a esquerda, escrevi aqui há mais de uma década, mas voltaria a escrevê-lo hoje, é para mim o credo que sacrifica a liberdade em nome da igualdade, na dúvida (esquerda «democrática») ou sempre (a «outra» esquerda).

Para prosseguir a igualdade, o socialismo democrático usa em doses variadas o Estado Social como instrumento das suas políticas. As doses variadas vão desde a dose mínima da social-democracia nórdica até à dose máxima do socialismo mediterrânico, nomeadamente do luso-socialismo encarnado no Partido Socialista.

Por outro lado, a sociedade portuguesa segundo o modelo 5-D de Geert Hofstede, frequentemente citado no (Im)pertinências (aqui, por exemplo), é entre as muitas estudados por ele uma das menos individualistas ou, por outras palavras, uma das mais colectivistas em todo o mundo. É uma sociedade em que assume um papel primordial a pertença ao grupo, ao clã, seja a família, o clube, o partido, grupo do qual o indivíduo depende emocionalmente e com o qual se identifica e no qual se apoia e a que é fiel. Daí a forte tendência para a endogamia nas universidades, nas empresas, nos partidos e o nepotismo, como especialidade do colectivismo.


E assim chegamos ao Partido Socialista com a sua tendência para fazer crescer o Estado, a pretexto das suas políticas, e a sua tendência para o ocupar com gente pertencente ao clã socialista e, sempre que possível, ao clã familiar ou ao pequeno círculo de amizades baseadas na cumplicidade.

05/03/2019

O colectivismo imanente e o juiz-sociólogo vítima da violência pública da manada

Os portugueses têm uma fortíssima tendência para se comportarem em manada. A primeira vez que me dei conta disso foi por alturas do 25 de Abril, ao ver nos tempos agitados que se seguiram conversões em massa de indígenas, durante anos submissos ou mesmo activamente aderentes ao Estado Novo, que de um dia para o outro se transmutaram em ruidosos democratas e até em revolucionários.

Mais tarde, tive oportunidade de conhecer o modelo 5-D de Geert Hofstede, bastamente citado no (Im)pertinências (por exemplo aqui), e constatar que os portugueses são entre os países estudados por Hofstede um dos povos menos individualistas ou, para dizer o mesmo por outras palavras, um dos povos mais colectivistas em todo o mundo.

Colectivismo que explica imensa coisa, a começar pelo desvelo pelo Estado e a continuar pelo pendor esquerdizante que ainda hoje alimenta instituições bizarras já extintas em outros países como o Partido Comunista, como também dá pasto a agremiações pós-modernas do politicamente correcto, como o Bloco de Esquerda, a que, por paródia, aqui chamamos frequentemente de Berloque de Esquerda.

Um exemplo em curso deste comportamento de manada é a indignação obsessiva (a manada é sempre obsessiva) e a condenação violenta do juiz Neto Moura por ter produzido uns acórdãos que a polícia de costumes da esquerdalhada, potenciada pelo megafone do jornalismo de causas, condenou com violência, chegando em certos casos ao insulto como o rolo de papel que Ricardo Araújo Pereira, um conhecido humorista também de causas, sugeriu fosse introduzido no ânus do juiz ou o jogo escatológico que apresentou no seu programa de televisão.

Leiam-se com a devida distância as partes mais polémicas desses acórdãos, como por exemplo as seguintes citadas pela Visão:
«O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) (e por isso a dita sociedade) vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher».
Repare-se que sendo certo que se pode reconhecer no autor uma mente um tanto atormentada por um passado de seminarista e comunista, por esta ordem, não é menos certo que também, se aumentarmos a distância, é possível vislumbrar uma vocação perdida de sociólogo, profissão que, se prosseguida, o teria protegido da manada esquerdista, ainda que dissesse alarvidades como as do professor doutor Boaventura de Sousa Santos.

Pois não é verdade que os preconceitos atribuídos pelo juiz Neto Moura à sociedade são partilhados por grande número de portugueses e portuguesas fora do Bairro Alto ou, vá lá, de alguns bairros de Lisboa e, vá lá outra vez, também do Porto? Que disso se faça um princípio moral é outra coisa, mas não parece ser o caso da criatura que até disse à revista Visão não ser tolerante com a violência doméstica.

Postfácio: por coincidência, este post é publicado no dia de Carnaval, mas isso não o torna necessariamente numa paródia. Dependerá de quem o lê.

30/08/2018

CONDIÇÃO MASCULINA / ESTADO DE SÍTIO / CASE STUDY: O homem português é um queixinhas, a CIG é um zingarelho inútil e o Estado Sucial português está contaminado pelo parkinsonismo

«Em 2017, apenas cinco pessoas se queixaram à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) de terem sido discriminadas no acesso a bens e serviços. Mas quem o fez foram sobretudo homens, assinando quatro das cinco participações. A quinta queixa foi enviada por uma mulher, só que com o mesmo motivo: alegando prática discriminatória em relação a homens.» (Público)

Conclusões:

1.ª Confirma-se que, ao contrário da lenda, os portugueses do sexo masculino são em média criaturas meio-efeminadas, pouco másculos e com os tiques característicos do sexo feminino, por exemplo queixinhas - o último índice de masculinidade conhecido de Geert Hofstede era um dos mais baixos em todo o mundo colocando a cultura portuguesa como uma das mais femininas.

2.ª A CIG é um pesado e inútil zingarelho que proporciona dúzias de tenças a dúzias de apparatchiks para tratar cinco queixas por ano.



3.ª A CIG, como todos os organismos do Estado Sucial português, é mais um case study das leis de Parkinson, comparável por exemplo ao da Câmara Municipal de Lisboa (o locus socialista por definição).

27/04/2018

CASE STUDY: A luso-sensibilidade à desigualdade e a luso-expectativa que o governo trate disso

O Eurobarómetro «Fairness, inequality and inter-generational mobility» permitiu comparar a percepção dos 28 países em três dimensões. Em duas delas («Justiça e igualdade de oportunidades» e «Progressão temporal») não há diferenças assinaláveis entre as percepções dos portugueses e as médias europeias. Como se pode ver nos diagramas seguintes, onde se encontra um verdadeiro abismo é na «Percepção sobre as desigualdades de rendimento» em que os resultados de Portugal mostram que os portugueses: (a) são os mais sensíveis às desigualdades (apesar de Portugal não ser o país mais desigual) e (b) os que mais esperam que o governo intervenha para as reduzir.


Não há razão para surpresa. Já por diversas vezes citei as análises de Geert Hofstede que mostram os portugueses como um dos povos mais femininos do mundo (com um baixo score na dimensão cultural masculinidade do modelo de Hofstede) e também um dos mais colectivistas (com um baixo score na dimensão cultural individualismo), de onde a extrema sensibilidade à desigualdade (corolários: direitos adquiridos e progressão automática nas carreiras independente do desempenho) e a forte expectativa que o governo trate disso (corolários: tendência esquerdizante e preferência pelo nanny state).

01/03/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Portugal-Grécia, iguais mas diferentes e diferentes mas iguais

Há mais de 11 anos que intermitentemente aqui no (Im)pertinências se recorre ao modelo 5-D de Geert Hofstede para compreender a cultura (no sentido sociológico) dos indígenas e de outros povos. Pois bem, o modelo é igualmente adequado para compreender a diferenças entre países.

Vejamos o caso Portugal-Grécia à luz das reacções à intervenção da troika, agora rebaptizada de «instituições», e mais recentemente à luz da visão dominante nos mídia e nos opinion dealers domésticos do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) conduzido pelo governo Syriza-Anel.

Enquanto por cá a “resistência” à troika foi bastante pacífica com manifestações de indignados que em poucos meses se cansaram e voltaram às suas vidinhas, na Grécia a coisa foi bastante violenta e durou bastante mais tempo.

Quando o Syriza, com pouco mais de 1/3 dos votos teve quase a maioria dos deputados e se coligou com o Anel, um partido xenófobo de extrema-direita, e iniciou o PREC grego com a tentativa de chantagem dos outros 18 países da Zona Euro, o jornalismo de causas, muitos opinion dealers e vários dirigentes políticos portugueses começaram por enfunar as velas dos amanhãs que cantariam, hoje em Atenas, amanhã em Lisboa e depois de amanhã em Berlim.

Gorada a tentativa de chantagem, o «movimento» lusitano reconverteu os cânticos tentando criar uma onda de simpatia piedosa para com as desgraças gregas, onda que, reconheça-se, está a ter muito mais sucesso do que os cânticos circunscritos a umas centenas de oficiantes.

Dito isto, vejamos no diagrama seguinte a comparação de Portugal com a Grécia no modelo de Hofstede.


Como se vê, não são muito diferentes, salvo no que respeita à masculinidade. Vejamos agora a posição de ambos no desconcerto das nações a respeito de 3 dimensões: individualismo-colectivismo, masculinidade-feminilidade e aversão ao risco, nos dois diagramas seguintes (estes diagramas são mais antigos do que o primeiro e podem apresentar pequenas diferenças de score).



E pronto. Está quase tudo explicado. Dois países muito próximos no que respeita à aversão ao risco e ao colectivismo e daí a falta de gosto comum pelo empreendedorismo, a dependência do Estado e o capitalismo de compadres – um ersatz do «verdadeiro» socialismo. Dois países colectivistas, mas bastante diferentes no que respeita à dimensão masculinidade-feminilidade: uma Grécia de machos batendo-se contra a polícia e, agora, dedurando os traidores (Portugal e Espanha) e um Portugal de fêmeas, apiedado dos desgraçadinhos, e daí as diferentes formas e intensidades da «luta contra o governo ao serviço da troika».

18/12/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Uma revolução francesa … à portuguesa?

«Como, para não sairmos da matriz francesa, percebeu o malogrado Luís XVI. Isto não vai acabar bem para o TC e muito menos para o parlamento: provavelmente iremos assistir a uma tentativa de presidencialização do regime que no seu messianismo só agravará os nossos problemas. Mas o esfrangalhar das instituições inquieta bem menos a pátria do que uma tentativa falhada de negociação.


18/03/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Não estamos mal, mas já estivemos melhor

Foi publicado há dias pelo United Nations Development Programme o «2013 Human Development Report» com os índices de desenvolvimento humano calculados para 185 países. No índice são ponderados vários indicadores: esperança de vida à nascença, número médio de anos de escolaridade, PIB per capital, RNB per capita.

Depois de ter melhorado o índice de desenvolvimento humano ano após ano, sobretudo nas décadas de 80 e 90, Portugal desceu 3 lugares no ranking em 2012 e em relação a 2007 desceu um lugar e ocupa agora globalmente a 43.ª posição.

Em contrapartida, no índice de desigualdade de sexos Portugal situa-se no primeiro decil, ocupando a 16.ª posição, no primeiro terço do pelotão da frente onde se encontra a maioria dos países europeus. Em termos relativos, as nossas mulheres não deveriam ter muitas razões de queixa, o que é não é surpreeendente já que somos um dos países mais femininos em todo o mundo, segundo os estudos de Geert Hofstede.

12/10/2011

DIÁRIO DE BORDO: Já não era sem tempo

Desde há meia dúzia de anos e uma dúzia de vezes, o (Im)pertinências vem recorrendo aos estudos do antropologista holandês Geert Hofstede para explicar as nossas desgraças. Já agora, é interessante esclarecer que Hofstede não desenvolveu o seu modelo das 4 dimensões culturais numa torre de marfim duma qualquer universidade. Em vez disso, assentou as bases empíricas desse modelo no seu trabalho durante vários anos no departamento de recursos humanos da IBM, onde teve a oportunidade de ter acesso e analisar mais de 100.000 questionários de empregados provenientes das sucursais da IBM em mais de 70 países.

Finalmente, alguém na blogosfera se apercebe da importância desses estudos para compreender a influência da cultura dominante numa sociedade e, em particular, para compreender como boa parte das nossas fatalidades são explicadas pelas características da sociedade portuguesa nas 4 dimensões consideradas por Hofstede: um dos países menos masculinos do mundo, com grande distância ao poder, profundamente colectivista e com enorme aversão ao risco. Está lá tudo.

26/06/2010

ÉTUDE DE CAS: L’exception française et la toxoplasmose

O toxoplasma gondii é um agente patogénico que causa a toxoplasmose, uma doença bastante comum que atinge 60% da população mundial e que até agora parecia ter apenas consequências benignas não mais graves do que uma vulgar gripe. O agente é transmissível para os humanos através das fezes dos gatos domésticos, os quais frequentemente a contraem quando papam um rato. Nos ratos a coisa tem consequências mais drásticas podendo o toxoplasma g. formar quistos no cérebro e no fígado.

Também já eram conhecidos outros possíveis efeitos subtis e mais deletérios do agente patogénico nos humanos: por exemplo a esquizofrenia, quatro vezes mais frequente nas pessoas com anti-corpos ao toxoplasma g. Estudos mais recentes citados aqui mostram outros possíveis efeitos, como a propensão significativamente maior dessas pessoas para sofrer acidentes rodoviários, propensão aparentemente resultante de maiores tempos de reacção e menores capacidades de atenção.

Muito mais interessante pelo seu potencial explicativo dos padrões de comportamentos sociais é a elevada correlação estatística observada entre taxas de incidência da toxoplasmose e frequências de neurose. O caso mais interessante é o da França com altíssimos valores do score de neurose (1,8) e da taxa de infecção (45%), quando comparada, por exemplo, com a Grã-Bretanha, com valores muito mais baixos: -0,8 e 6,6%, respectivamente. Eventualmente isso explicará as dimensões culturais esquizofrénicas da França que os estudos de Geert Hofstede mostram com um índice de distância hierárquica duplo do britânico, explicação possível da conhecida propensão gaulesa para manifestações violentas e mudanças revolucionárias do poder por oposição às reformas graduais. Se tivesse que dar um conselho ao presidente Sarko e à sua bela Bruni para contribuírem para a pacificação da sociedade francesa e a promoção do espírito reformista seria: cuidem melhor da higiene sanitária dos franceses, exterminem os ratos e, em caso desesperado, como último acto de mudança violenta (revolucionária), exterminem também os gatos.

[Informação eventualmente útil para dona Carla do bomba inteligente e o seu gato Varandas]

22/10/2009

ÉTUDE DE CAS: l’exception française – la France suicidaire (2)

[Continuação especulativa de (1)]

Antes de especular sobre a génese das tendências suicidárias dos franceses, deixai que especule sobre as razões que levaram quase toda a imprensa a não considerar dados estatísticos facilmente disponíveis e requerendo apenas uma aritmética elementar para os tratar, consideração que levaria a pôr em causa todo o edifício psico-sindical construído para justificar o que não precisaria de justificação. Ou, precisando, seria para explicar porque só houve 24 suicídios na France Télécom (FT) em 20 meses.

Confesso que alguns leitores do (Im)pertinências foram até mais longe do que a imprensa e concluíram que os dados estatísticos para o caso não interessavam nada face à sua inabalável fé. Pelo meu lado, acredito que a razão para não considerar os factos é o lema por muitos cultivado: se os factos contradizem a sua «teoria», tanto pior para os factos. No caso dum povo de poetas como o nosso, acresce a esse lema a congénita dificuldade de lidar com números, sejam dados estatísticos, sejam contas, sejam orçamentos, e a sublimação freudiana dessa limitação pela retórica, com mais ou menos substrato metafísico.

É diferente o caso da administração da FT, que ontem interrompeu as reestruturações para acabar com a «espiral de suicídios» (a semana passada tinha sido «vaga» o que mostra uma tendência para a coisa se retorcer). Pelo menos os dois administradores enarquistas - estudaram na École Nationale d’Administration, frequentada por la créme de la crème do regime - sabem muito bem fazer contas, saber que também sabem não ser relevante para este problema político - a visível crescente impaciência de Sarko.

Antes de concluir esta minha parte retórica, é preciso esclarecer que nem toda a imprensa desconsiderou os factos. Exemplos: a Economist («Bonjour tristesse») e o Monde («Pas de vague de suicides à France Télécom, selon un statisticien»). Que a taxa de suicídios na FT é inferior à média francesa, está pois suficientemente demonstrado nestes artigos e no meu post. Resta apenas compreender porque se suicidam tanto os franceses? Recorde-se que a taxa de suicídio é 35% mais alta do que a Alemanha, quase 60% mais alta do que Portugal e 2,5 vezes a do Reino Unido.

Qual será então a génese das tendências suicidárias dos franceses? A minha especulação é que a causa reside na grande distância hierárquica (power distance) que caracteriza a sociedade francesa, como foi amplamente constatado nos estudos de Geert Hofstede, inúmeras vezes citados no (Im)pertinências. Escrevi aqui, a propósito duns suicídios na Renault em Março de 2007, que a França é uma sociedade muito hierarquizada em que os subordinados têm muito pouco controlo sobre o seu trabalho e as suas vidas, o que, sabe-se hoje, tem efeitos nefastos no sistema imunitário e na saúde mental. Não é por acaso que todas as mudanças relevantes em França foram pela via de revoluções sangrentas ou por pressão de grandes conflitos sociais. Que outro país europeu queimou nos últimos anos milhares de carros (ainda o mês passado 15 numa noite numa só região) e adoptou legislação para compensar com 4 mil euros os proprietários pobres de veículos incendiados?

No coração da Óropa social, escrevi então a propósito da Renault, no seio dum dos campeões nacionais, as relações de trabalho estão pouco mais do que nos finais da década de sessenta, quando as pedras da calçada foram levantadas e os assustados patrões franceses descobriram Peter Drucker e a sua management by objectives com uma década de atraso e apressaram-se a desfraldar a bandeira da gestion participatif, a que foram timidamente acrescentando par objectifs.

Voilà.

09/03/2008

Não deitemos fora a água de lavar o menino, com o próprio menino

João Miranda atirou para cima de João Galamba, que «tenta discutir um tema cuja essência não compreende», o peso da sua autoridade liberal a propósito da descrição deste último do facto óbvio da cultura dominante na sociedade portuguesa ser colectivista e caracterizada pela distância ao poder, como o meu parceiro Impertinente tem insistentemente referido, citando os estudos de Geert Hofstede.

É por isso que, à parte uma criatura como eu poder subscrever com pouca dificuldade uma parte do liberalismo ético de João Miranda, e à parte João Galamba poder eventualmente ter um «projecto de sociedade» (quase toda a esquerda cultiva tal coisa) mais ou menos colectivista, o qual nem com dificuldade subscreveria, o juízo que faz sobre o status quo da sociedade civil portuguesa parece-me inatacável.

«A ideia de que por detrás do que actualmente existe se encontra uma essência reprimida, pronta a revelar-se, não fosse o estrangulamento estatal, não passa de uma fé. É pensar que, não fora o Estado, nós seríamos algo parecido com a Inglaterra ou os EUA. Se os Portugueses que somos precisaram do Estado, onde é vamos buscar os portugueses que poderíamos ser? Não há possibilidade que não dependa da actualidade.»

Onde é vamos buscar os portugueses que poderíamos ser? é a melhor pergunta que li este mês. Espero que a resposta dos liberais não seja que é preciso construir o homem novo liberal.

17/03/2007

CASE STUDY: l'exception française

Nos últimos 4 meses suicidaram-se 3 engenheiros da Renault. Das duas uma, ou é obra de puro acaso, o que é possível ainda que pouco provável, ou há uma ou várias causas comuns aos 3 suicídios.

A dúvida não é irrelevante, e a Renault parece ter encontrado a resposta ao anunciar que vai contratar 110 novos engenheiros, melhorar as condições de trabalho, e apresentou um plano aproximar as chefias das equipas de engenharia e «facilitar o diálogo». (Le Figaro)

É surpreendente? Nem por isso. No coração da Óropa social, no seio dum dos campeões nacionais as relações de trabalho estão ao nível dos finais da década de sessenta, quando as pedras da calçada foram levantadas e os assustados patrões franceses descobriram Peter Drucker com uma década de atraso e apressaram-se a desfraldar a bandeira da gestion participatif, a que foram timidamente acrescentando par objectifs.

São os frutos duma sociedade profundamente hierarquizada (*) em que os subordinados não têm qualquer controlo sobre o seu trabalho e as suas vidas, o que, sabe-se hoje, tem efeitos nefastos no sistema imunitário e na saúde mental.

(*) Como mostram os estudos de Geert Hofstede a França é o país europeu com o índice Power Distance mais elevado.

23/11/2006

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: aversão ao risco é o que nos sobeja

A propósito do desemprego e da inflexibilidade das leis laborais transcreve o Blasfémias um comentário de Jorge A. de onde respigo a seguinte passagem: «não acredito que a aversão ao risco dos portugueses, seja maior que noutras sociedades, simplesmente o risco cá é maior. As leis que regem o mercado de trabalho é que deviam mudar radicalmente».

Nada mais errado. Não é por acaso que as leis laborais portuguesas são o que são. Elas são assim porque a aversão ao risco dos portugueses não é apenas maior do que noutras sociedades, ela é uma das maiores do planeta, como demonstraram os estudos de Geert Hofstede (*) a que o Impertinências já fez referência várias vezes (por exemplo aqui). E o risco, isto é a combinação da probabilidade dum evento e das suas consequências, por cá não é maior, é menor, porque a probabilidade de perder o emprego é baixa e as suas consequências são mitigadas por um generoso esquema de subsídio de desemprego.

Se ser uma das sociedades com maior aversão ao risco não fosse tragédia suficiente, a sociedade portuguesa acumula com o facto de ser uma sociedade tão colectivista como as asiáticas (que têm uma aversão ao risco menor, ou mesmo geralmente muito menor, do que a portuguesa).

É por isso que os portugueses apreciam tanto o liberalismo como a sarna.

(*) Em boa verdade, o trabalho de Hofstede só confirma o óbvio ululante que resulta da observação do estereotipo do trabalhador luso.