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14/10/2019

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (1)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Et maintenant que vais je faire?

Durante 150 semanas publiquei a «Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça» à qual, por falta de comparência até então da avaria irreparável, sucedeu durante outras 58 semanas a «Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País».

Realizadas as eleições, os parceiros do PS na ménage à trois perderam no conjunto mais de 170 mil votos (os comunistas suportaram dois terços dessa perda), perdas que só parcialmente foram compensadas pelos 124 mil votos ganhos pelo PS - 124 mil depois de quatro anos de governação numa conjuntura irrepetível por longos anos é muito poucochinho, não é verdade Dr. Costa? Desses resultados desastrosos concluíram os parceiros do PS que afinal a relação poliamorosa tinha sido como a estória da fusão entre o porco e a galinha para fazer uma omelete de presunto em que os berloquistas e comunistas fariam o papel do porco.

Percebido qual o seu papel, os comunistas recusaram desempenhá-lo e os berloquistas imaginaram vender o seu presunto mais caro, preço que o PS não quis pagar. E Costa concluiu que só com um fornecedor o preço do presunto ficaria demasiado alto e encenou uma negociação cujo propósito ficou claro quando deixou de fora da equipa socialista Pedro Nunes Santos, o mestre-de-obras da construção da geringonça e seu putativo sucessor em concorrência com o favorito Medina.

Avariada assim, segundo parece, a geringonça e decidido a prosseguir uma espécie de serviço público gratuito com uma outra crónica, qual seria o seu título? Consumido pela dúvida, ocorreu-me que segundo a lenda o padre Bartolomeu de Gusmão fez várias experiências, quase todas mal sucedidas, com um zingarelho cuja configuração exacta se perdeu nos tempos, ficando para a história com o aspecto que um discípulo do padre, um infante que viria a ser o 2.º Marquês de Abrantes, desenhou com a concordância do mestre para confundir os curiosos. A esse zingarelho botaram-lhe o nome de Passarola de Gusmão. E foi assim que, decidido a continuar com uma crónica, a alusão à Passarola de Costa se me impôs com naturalidade.

Os votos são iguais, mas há uns mais iguais do que outros

Por falar em eleições, em consequência do método de Hondt, o número de votos para eleger um deputado situou-se entre mínimo de 17.609 para o PS, 18.450 para o PSD e 25.921 para o BE, até máximos de 66.648 para o Chega, 65.545 para o Iniciativa Liberal e ao 55.660 para o Livre (fonte: O Insurgente). Uma boa razão para modificar o sistema eleitoral criando também círculos uninominais.

Ainda não é o mafarrico, mas já se sente o cheiro das brasas

Os avisos vão-se multiplicando. O BdP chamou a atenção para o preço que a banca terá de pagar pela continuidade das taxas artificialmente baixas e o quantitative easing do BCE. O FMI reviu outra vez em baixa o crescimento mundial. A CE avisa para o risco de derrapagem da despesa pública devido ao descongelamento das carreiras, ao aumento do número de funcionários e aos aumentos extraordinários de pensões num quadro de envelhecimento da população.

Quando chega o mafarrico? perguntareis e eu respondo que não sei; só posso dizer que estamos há quatro anos a trabalhar para isso. Se me disserem que tudo parece caminhar sobre rodas, lembrarei que me disseram o mesmo desde 2008 até à véspera do pedido de resgate pelo governo de Sócrates em Abril de 2011. Ainda assim, o mafarrico ainda pode demorar porque a navegação à vista da costa por Costa levou-o, para não perder o apoio de Bruxelas, a deixar cair a treta de «virar a página da austeridade» substituindo-a pelas «contas certas».

E nesse caso, se o mafarrico não vier? perguntareis de novo, e eu respondo que um dia acabará por vir e quanto mais tarde pior. Para manter o Estado Sucial a flutuar com as «contas certas» e satisfazer a sua clientela eleitoral, sem a qual não conseguirá manter-se no poder, Costa não hesitará em parasitar a sociedade civil e exaurir a economia.

Apreciamos a liberdade da nossa imprensa

É conhecido o desvelo do PS pela imprensa que explica muitas coisas, a começar pelas tentativas do governo Sócrates de colocar a TVI sob o controlo da PT, e também a proximidade entre o poder socialista e o grupo Impresa, a que pertence o semanário de reverência Expresso, também conhecido por Acção Socialista. Proximidade visível por exemplo na operação de venda do edifício de Carnaxide ao Novo Banco ou no sucesso da manobra do grupo para sabotar a venda da TVI à Meo, sucesso que agora pretendem reeditar para evitar a compra pela Cofina da Media Capital que detém a TVI através do «arrastar o processo de compra, nomeadamente junto da Autoridade da Concorrência».

O choque da realidade com a boa nova

Há duas semanas, os milagres tecnológicos da gestão do Dr. Costa, do Dr. Medina e do Arquitecto Salgado, a Web Summit e das startups que florescem em cada esquina não contam, deram a Lisboa o 76.º lugar no ranking IMD Smart City Index 2019. Na semana passada, os milagres da gestão do Dr. Costa e do Dr. Siza Vieira não fizeram subir Portugal do 34.º lugar em 141 países do Global Competitiveness Index 2019, apesar de bons desempenhos nalgumas áreas como a esperança de vida saudável e a infraestrutura de transportes (21.º em ambas), áreas em que este governo nada fez, sobretudo pelos maus desempenhos em áreas como peso da regulação (96.º) , funcionamento da justiça (113.º) da governação das empresas (77.º), estabilidade macroeconómica (62.º), mobilidade no mercado de trabalho (120.º), estabilidade do mercado financeiro (124.º), salário e produtividade (88.º).

«Em defesa do SNS, sempre»

Não obstante os 41 mil novos contratados pelo governo desde que tomou posse, este fim de semana o Hospital Garcia de Orta fechou a urgência pediátrica por falta de médicos.

O desvelo socialista pelo SNS também se vê no agravamento do défice para 848,2 milhões de euros. O passivo do SNS atingiu 3,8 mil milhões de euros dos quais 90% correspondem a dívidas a fornecedores a quem o Estado Sucial coloca no papel de financiadores do SNS.

Para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei

A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos apresentou uma queixa contra a adjudicação pelo governo sem concurso público da recolha selectiva de resíduos orgânicos urbanos à EGF do grupo Mota-Engil. (Expresso) O grupo Mota-Engil, como é sabido, foi onde pousou durante alguns anos o estradista Dr. Jorge Coelho.

Entretanto, o programa Sexta às 9 da RTP, que curiosamente esteve suspenso até às eleições, veio lembrar os 11 arguidos do governo e revelar quatro novos suspeitos de crime relacionados com a concessão de lítio, entre os quais o amigo Siza Vieira.

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

O crédito para compra de casinhas voltou a subir em Agosto para 975 milhões de euros - recorde-se neste post o impacto que o crédito à habitação teve na génese da crise que originou o resgate de 2011.

1 comentário:

Anónimo disse...

Ó Caríssimo,

olhe que a passarola voou mesmo...

Zingarelho existe? Se existe, boa palavra...
Obrigado por continuar o serviço público. Imprescindível. Ainda bem que pouca gente sabe (será?), fica uma cosa nostra e até parece que recebo informações privilegiadas.

Com os melhores cumprimentos,
IRF