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09/09/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (204)

Outras avarias da geringonça e do país.

«Os portugueses não gostam de maiorias absolutas». Nós gostamos

As sondagens da Eurosondagem costumam ser sondagens amigas. Ainda assim, as últimas, apontando para um novo aumento das intenções de voto no PS e colocando-o com 38,1%, à distância de quase 15 pontos percentuais do PSD-Rio, não mostram resultados substancialmente diferentes de outras sondagens.

De passagem, notemos que o PSD de Rio e o CDS de Cristas perderam na oposição e em conjunto mais de 7 pontos percentuais em relação à coligação nas eleições de 2015, apesar de se esforçarem imenso por ficar parecidos com o PS (ou talvez por isso mesmo).

A verificar-se a previsão do impacto das mudanças da distribuição de eleitores pelos distritos, a maioria absoluta poderá alcançada com uma percentagem menor do que no passado. Se assim for, teremos com maior probabilidade uma governação socialista por quatro anos ou até à próxima crise, o que primeiro ocorrer. Até lá, a oposição não socialista atravessará o deserto e deve aproveitar para se depurar da ganga socializante e preparar uma alternativa viável para governar libertando o país gradualmente da tutela estatizante que lhe foi impondo a esquerdalhada - supondo que o país quer ser libertado, o que é uma dúvida perfeitamente razoável.

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

O debate entre os parceiros Costa e Catarina Martins na RTP foi mais uma demonstração da deriva programática de ambos. Pelo lado de Costa, a troca do combate à "austeridade neoliberal" pelas "contas certas" já tinha barbas e foi só confirmação. Pelo lado da líder do BE, foi uma relativa novidade o seu apego à rectitude fiscal em linha com a recente conversão à social-democracia revelada na entrevista do Observador. Contudo, essa deriva programática não é uma grande vitória de Passos Coelho, porque é puro oportunismo, como o passado recente mostra, e não parece nada que no futuro «as esquerdas terão uma enorme dificuldade para contestar as políticas orçamentais mais ortodoxas dos governos de direita», porque tudo indica que o farão com enorme facilidade, como agora.

Quem se mete com o PS leva

O episódio protagonizado pela professora Carmo Miranda Machado, que ousou interpelar António Costa durante o seu número na TVI, perguntando-lhe se sabia «que há escolas sem papel higiénico nas casas de banho e que nos dias seguintes foi alvo de insultos e investigação pela PIDE socialista para a descredibilizar, é um bom exemplo da política do quem se mete...

Em defesa do SNS, sempre

635 mil "utentes" sem médico de família, 10 meses de espera para uma cirurgia prioritária, confusões na troca de cirurgias e falta de camas, doentes com cancro “a correr risco de vida”, tudo isto poderia ser explicado como resultado das políticas de um governo neoliberal. É mais difícil de explicar quando resulta das políticas de um governo socialista apaixonado pelo SNS e apoiado por comunistas de diversas famílias (ressalva: algumas famílias declaram-se agora sociais-democratas) .

Já virámos a página da austeridade

O investimento público, outra das paixões socialistas, «está a crescer dez vezes menos do que o governo prometeu. A este ritmo Centeno vai poupar mais de 1,4 mil milhões» escreve o semanário de reverência que a respeito de notícias, como esta, que o governo não gosta merece toda a credibilidade. Por isso, não admira que haja escolas a começar o ano lectivo em contentores e outras singularidades do socialismo costista.

Cuidando da freguesia eleitoral

O desleixo do governo com o SNS e a máquina administrativa do Estado contrasta com o desvelo pela freguesia eleitoral. Desvelo que se confirma no presente com o aumento previsto este ano de 900 milhões de euros das despesas com salários da função pública e que se promete no futuro nos programas eleitorais dos socialistas e de todos os partidos com aspirações a governar.

O Estado Sucial como máquina de extorsão

Por muito que a falta de vergonha de Costa o deixe mentir descaradamente, como na entrevista ao sempre compreensivo semanário de reverência, declarando que estão a baixar impostos, os factos falam por si e a OCDE mostra que em dez anos a carga fiscal em Portugal foi das que mais aumentou enquanto na Irlanda baixou mais de 7 pontos percentuais. E não foi para financiar o SNS, ou as escolas ou para investimento, foi para manter feliz a freguesia eleitoral da geringonça à custa dos portugueses que não vivem pendurados no Estado Sucial.

Boa Nova

O ministro do Trabalho mandou a imprensa amiga corrigir a Unidade Técnica de Apoio Orçamental e anunciar com grande júbilo «Máximo histórico: Almofada da Segurança Social supera os 20 mil milhões».

Também foi anunciado um investimento de 300 milhões que criará 600 empregos em Estarreja e que o governo, segundo a ingénua notícia do JN, que não esconde ao que vem., «tem ainda esperança de anunciar o investimento antes das eleições legislativas marcadas para 6 de Outubro»

Para concluir este capítulo temos as promessas de Centeno, «se ficar nas Finanças». Ai fica, fica, diria Fernando Ulrich na circunstância, porque Costa não o deixa ir embora (por agora) e ele está preso pela Eurozona por mais uns meses.

O choque da realidade com a Boa Nova

Começando o choque pela almofada da Segurança Social, leia-se aqui o post Vamos todos fingir que o problema não existe? do Impertinente que disseca a grande treta e a reduz ao mero adiamento por um módico de tempo da insustentabilidade da SS.

Recordam-se dos Programas de Arrendamento Acessível concorrentes e da disputa entre Fernando Medina e Pedro Nuno Santos, os dois putativos sucessores de Costa? Pois bem, dois meses depois, o programa da corrente pedronunista fechou 20-contratos-20 e, ainda assim, provavelmente angariados entre os pedronunista para salvar o chefe. Quando aos contratos da outra corrente não se sabe, mas, na ausência de ribombar mediático, é razoável presumir que deve ter idêntico sucesso.

Lembram-se do anúncio de 104 milhões de euros para reduzir o preço dos passes sociais de onde resultariam mais 100 mil pessoas por ano nos transportes públicos, mais 63 milhões de viagens e menos 72 mil toneladas de dióxido de carbono? Pode ler-se aqui o ponto de situação do Impertinente.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

São incontáveis as vezes que o par Costa-Centeno nos colocam a crescer mais do que a Europa sem nunca especificarem qual a Europa e qual o intervalo temporal.

Observador
Quando comparamos a taxa de crescimento homólogo do PIB no 2.º trimestre constatamos que o crescimento português é o 9.º mais baixo da UE28, que todos os países que tem uma taxa inferior são países da Europa dos "ricos" e que todos os países da Europa dos "pobres", sem excepção, têm taxas mais altas, nomeadamente os da Europa de Leste, com quem nos podemos comparar, apesar deles terem saída de baixo da bota soviética há 30 anos e nós termos saído de baixo do chinelo salazarista há 45 anos.

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

A venda de automóveis continua a decair e nos oito meses até Agosto desceu 6,1% relativamente a 2018. Poderia significar que os portugueses se estão a preparar para o que aí virá, o que é pouco provável porque os portugueses só estão preparados para tudo correr bem, como de resto indicia o aumento das vendas a retalho que continua a crescer acima da média europeia. Por isso, a redução da venda provavelmente resulta mais de uma saturação do mercado do que outra coisa - existe actualmente em circulação um veículo para cada par de portugueses. Também a concessão de crédito parece estar a desacelerar, incluindo às empresas, o que pode indiciar uma antecipação por parte destas do arrefecimento da economia.

Centenómetro, o indicador avançado de recessão

O aroma a recessão das principais economias começa a sentir-se e os departamento de estudo dos bancos, por exemplo BCP e BPI, antecipam taxas de crescimento inferiores às do governo. Contudo, o indicador mais confiável que sugere o princípio do fim da prosperidade socialista é-nos dado nos bastidores pelo centenómetro, que mede a vontade do Ronaldo das Finanças se pirar daqui para fora quanto antes. A sua falhada candidatura ao FMI e a sua relutância em jurar que ficará no próximo governo mostram que o centenómetro está no vermelho.

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