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07/01/2006

SERVIÇO PÚBLICO: o conflito palestino visto por um palestino desalinhado

Numa entrevista, de que a seguir se transcrevem alguns excertos, ao semanário brasileiro Veja de 30 de Novembro (exemplar ali esquecido no fundo da pilha para ler e agora recuperado), «o palestino Bassem Eid, de 47 anos, ... denuncia violações de direitos humanos cometidas pelos próprios palestinos e que têm como vítimas os habitantes da faixa de Gaza e da Cisjordânia.
Eid trocou a carreira de jornalista pela de activista de direitos humanos em 1988, quando começou a trabalhar para uma ONG israelense que investigava abusos das tropas de Israel nos territórios ocupados. Em 1996, indignado com o comportamento ditatorial da recém criada Autoridade Palestina, fundou o Grupo Palestino de Monitoramento de Direitos Humanos.
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Eid falou a VEJA de Jericó, onde vive.

VEJA - Qual a explicação para a passividade diante de tanta violência?
O medo da repressão ajuda a explicar esse silêncio. Mas há outros motivos. Os palestinos, é bom lembrar, fazem parte do mundo árabe. Jamais estudamos na escola conceitos como democracia, liberdade, pluralismo e direitos humanos. Nossa única referência são os regimes autoritários da região. Ou seja, em nossa natureza, somos um povo violento. No que se refere à humilhação imposta às mulheres e ao desrespeito aos direitos individuais, não há diferença entre o que ocorre em Damasco e na Faixa de Gaza.

VEJA - Uma tentativa de desarmar os terroristas palestinos poderia resultar em guerra civil? Caso Abu Mazen decida desarmar os grupos terroristas na marra, e provável que tenhamos um conflito. Milhares de palestinos seriam mortos por outros palestinos. Mas, sinceramente, não seria algo terrível ou duradouro. Historicamente, em determinadas situações, a guerra civil é até benéfica. No caso palestino, obrigaria o governo a combater e desarmar grupos extremistas como o Hamas e a Jihad Islâmica. Isso ajudaria a abrir caminho para uma solução do conflito com os israelenses.

VEJA - Por que israelenses e palestinos não conseguem fazer a paz?
A liderança israelense e a palestina passaram a depender do conflito para sobreviver politicamente. Foram assinados vários acordos de paz, e sempre um dos lados acaba tomando a iniciativa de violá-los. Não acredito que a liderança palestina esteja interessada em fazer a paz com Israel. Tampouco vejo empenho do governo israelense em selar um acordo definitivo. E duro, mas essa é a realidade no Oriente Médio.

VEJA - O senhor concorda que, após meio século de violência, é difícil acreditar que não haja interessados numa solução para o conflito?
A população israelense sabe que um acordo de paz traria segurança a Israe1 e, por isso, apoia uma solução negociada. Por causa do sofrimento acumulado por tantos anos de ocupação, o palestino comum não tem tão claro esse desejo de paz. Ele olha para o país vizinho e vê que os israelenses têm liberdade de movimento e levam vida normal. Enfim, tudo o que não pode fazer ou nem sequer sonhar. Essa diferença colossal toca fundo nos palestinos. Nós não queremos ser vistos como um povo perdedor. Tivemos várias oportunidades de fechar um acordo definitivo, inclusive os que contemplavam a criação de um Estado independente. Mas o rancor pelo sofrimento vivido o orgulho sempre falaram mais alto, e acabamos desperdiçando todas as chances.

VEJA - Qual é a possibilidade de extremistas islâmicos tomarem o poder pelo voto?
Essa possibilidade existe, mas considero pequena. Temos uma tradição laica, até mesmo entre a liderança da Autoridade Palestina, e arrisco dizer que formamos a sociedade mais aberta o Oriente Médio depois de Israel. Os palestinos têm elevado grau de instrução. Cerca de 80% da população usa a Internet. Comparados com o restante do mundo árabe, somos os mais propensos a assimilar a cultura ocidental E claro que o factor religioso pesa. Os palestinos consideram-se mais religiosos que os israelenses. Mas sabemos o que significa o fundamentalismo no poder. A maioria dos palestinos não deseja isso.

VEJA – O senhor fala como se os palestinos estivessem dispostos a renunciar ao sonho de ter um Estado independente...
Pergunte a qualquer palestino que passa três horas por dia nos postos de controle israelenses qual é seu maior sonho, e ele vai responder: liberdade de movimento para poder trabalhar em Israel. Isso mostra que o que nós, palestinos, precisamos é de uma economia robusta, para termos acesso a uma vida mais digna. O mundo acredita que o Oriente Médio será um paraíso se houver paz entre israelenses e palestinos. Não é bem assim. O ex-premier israelense Shimon Peres acertou quando disse que o desenvolvimento económico da região, e não um acordo de paz, ajudaria a criar um novo Oriente Médio. Estamos diante de uma oportunidade de ouro para captar recursos no exterior, investir em infra-estrutura e criar instituições fortes. O momento exige estratégia de acção - coisa que a autoridade Palestina não tem, pois há muito deixou de lado a causa pública para privilegiar os interesses de poucos. Por isso, considero mais importante priorizar o desenvolvimento económico dos palestinos do que a criação o Estado independente.

VEJA – o senhor quer dizer que a criação de um Estado palestino não é uma prioridade?
Não estamos prontos para assumir nosso próprio Estado, e por uma razão simples: nunca fomos governados por palestino. Nossa dura realidade é que não aprendemos nada em 38 anos de ocupação israelense. Receio que vamos precisar de mais vinte anos para aprender a cuidar de nosso próprio destino. Antes disso, não acredito na criação do Estado palestino.
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