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18/01/2006

BLOGARIDADES: não é a cóltura, estúpidos!

«Jerónimo sabe a língua de pau e as convenções, conhece o partido de dentro e sabe como ele se move. Mas tem uma vantagem sobre muitos dos burocratas que não saem das sedes e das reuniões de organismos. Jerónimo conhece o eleitorado comunista, não conhece só o partido. Pode falar aos deficientes das Forças Armadas, dizendo naturalmente que também esteve na guerra (desobedecendo ás instruções do PCP, que pedia aos seus militantes que fizessem o serviço militar e depois desertassem), pode falar dos seus namoricos, da sua infância, do seu trabalho como afinador de máquinas. Conta que não podia ter o cabelo comprido, quando ele se usava entre os jovens, porque isso era incompatível com a higiene exigida numa fábrica, onde as máquinas sujam tudo de óleo, e onde é perigoso deixar-se “agarrar” por uma alavanca, uma roldana ou uma roda dentada.

Isto é o tipo de frases que só quem conhece o mundo fabril de dentro pode dizer, e que obviamente mais ninguém na primeira divisão da vida política portuguesa sabe ou pode dizer. É outro mundo, que os yuppies, os funcionários públicos, os estudantes da Católica, os jornalistas, os frequentadores do Lux, os “jovens” da JSD e da JS, os autores de blogues, não conhecem e não lhes passa pela cabeça que lhes digam que também “é a cultura, estúpidos!”.»


(Abrupto, aqui)

O camarada Jerónimo pode deixar fascinado um intelectual como Pacheco Pereira, mas a mim não me fascina nada. Porque não sou intelectual e porque conheço as duas espécies o suficiente para não me deixar nem seduzir por uns, nem convencer por outros. Não falo do homem Jerónimo, que esse até me seria, mais ou menos, simpático. Seria, porque o camarada Jerónimo não tem essa dimensão. O camarada é um militante da causa comunista, é um sacerdote da religião marxista-leninista, ponto final. Por muito que a queda do muro tenha mudado os paradigmas e essa condição, nos dias que correm, tenha que estar convenientemente ataviada por camadas de cosmética democrática.

Também me parece muito discutível a inclusão dos autores de blogues na lista dos que não percebem o outro mundo que o discurso do camarada nos revela. Também aqui, Pacheco Pereira pode estar absolutamente equivocado. Por duas razões. À uma porque a vivência do camarada Jerónimo no mundo operário já se perdeu na noite dos tempos. Faz mais de trinta anos que a única máquina que o camarada afina é a velha máquina do partido comunista. A ferramenta dele é o hoje o paleio. Tal como todos os outros políticos e aquelas categorias sociais que Pacheco Pereira enumera nos surdos ao discurso. À outra, porque os autores de blogues são uma categoria quase tão pouco homogénea como os contribuintes. Entre eles há gente que percebe melhor o que é a vivência a que o paleio do camarada faz referência, do que o próprio camarada Jerónimo.

Para a coisa se compor, PP deveria ter rematado o último parágrafo citado, não como o fez, mas com não é a cóltura, estúpidos!

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