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11/01/2006

BLOGARIDADES: o talento de Zé Mourinho visto por um rocinante

Não foi só o maradona que leu a review deste rocinante ao «Anatomy of a Winner», livro escrito com baba por um tal Patrick Barclay, grande admirador do Zé Mourinho - até ver o melhor treinador do mundo em exercício, digo eu, que de futebol só sei vagamente que se joga com uma bola.

Levado por este encomiástico post (devia ter desconfiado), li a prosa do rocinante e tive logo o impulso de pegar no cacete. Pousei-o por falta de tempo e por carência de ciência futebolística - que aliás não é nada chamada aqui para o caso, como então desconfiei e agora tenho a certeza. Ganhei um novo impulso depois de ler o post do maradona, que apesar de ser mau em ortografia é bom em muitas outras coisas. Escreveu ele, melhor e com muito mais propriedade (e mais erros ortográficos) quase tudo o que eu gostaria de ter escrito. Quase, mas não tudo. A propósito, vão lá depressa antes que o marmanjo apague tudo, como é seu mau costume.

Que o livro deve ser uma boa merda, percebe-se sem dificuldade, por isso nem vou perder tempo com ele. Mas a crítica não lhe fica atrás. Pelo contrário, fica-lhe muito à frente. Enquanto Patrick Barclay afaga com a baba o Zé, mas não afoga os factos, o rocinante, para além do grandioso dispêndio de erudição, só escreve duas coisas dignas de registo. A primeira é uma tosca tentativa de reduzir um profissional excepcional como o Zé Mourinho a um gajo com sorte. De passagem, o rocinante consome-se de ressaibo a falar duma criatura que além de ser a natural born leader e bem parecido, tem uma mente inteligente, metódica e racional, é um trabalhador infatigável e, por isso, será capaz de gerir qualquer coisa incluindo até, possivelmente, o departamento de Política da universidade de Cambridge onde o rocinante ensina estas aleivosias.

A segunda coisa notável que o rocinante escreve é uma notável asneira, típica dum emplastro (segundo o Glossário esta categoria abrange, entre outros, os multiculturalistas, os ambientalistas compulsivos, e em geral quase todos os sociólogos e antropólogos, profissões onde o emplastrum é endémico e que, por isso, emplastram tudo onde tocam). Para ele aquela coisa que faz a diferença nas equipas, nas empresas, nos partidos e nas organizações em geral, não existe. Aquele suplemento invisível, mas bem real, que transforma uma manada de jogadores ou de outros profissionais num todo coerente, eficaz a atingir os objectivos e eficiente a utilizar os recursos, não existe para o rocinante. Duma pazada o emplastrum rocinante soterra com a sua prosa rebarbativa não apenas a ciência do management (sim, essa coisa existe), o que já não seria pouco, como a evidência dos factos que todos os dias nos mostram a diferença de resultados entre um gestor medíocre e um gestor com talento, por muito que inevitavelmente alguns constrangimentos condicionem um e outro. Para dizer uma banalidade, o gestor medíocre sofre as ameaças, o gestor de talento transforma-as em oportunidades. Como dizia o outro, o gestor é ele e a oportunidade. Mesmo que a oportunidade seja igual, eles são diferentes. Viva a diferença.

Informação inútil: O rocinante chama-se David Runciman e a prosa chama-se «He shoots! He scores!».

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