Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.
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E também é claro que as emissões com origem humana não são as únicas a contribuir para o aumento do dióxido de carbono na atmosfera. Para ficar por Portugal, nos incêndios de 2010 até 15 de Agosto, os 70 mil hectares de floresta e mato ardidos emitiram um milhão de toneladas de CO2 equivalente, o mesmo que a 29 milhões de automóveis a viajarem de Lisboa ao Porto (estimativa da Quercus). Nos incêndios deste ano até 31 de Julho os 128 mil hectares ardidos libertaram 2,9 milhões de toneladas de CO2 (estimativa da Agência Portuguesa do Ambiente) o equivalente (segundo as contas da Quercus) a 84 milhões de automóveis a viajarem de Lisboa ao Porto ou (segundo as minhas contas) o equivalente a todos os 5,4 milhões de veículos ligeiros existentes em Portugal a circularem durante quatro ou cinco meses.
Mas, sejamos honestos, é igualmente claro que tudo isto ainda menos suporta as teses negacionistas.
