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18/09/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (101)

Outras avarias da geringonça.

Comecemos pela celebração da saída do lixo que para Costa representa «a viragem da página da austeridade que nos permitiu também agora virar a página do lixo». Que Costa tenha sido capaz de celebrar como um grande feito a melhoria do rating por uma agência que ele há dois anos considerava «lixo» com «uma gente que já demonstrou não ser minimamente credível, fiável» só confirma que o seu descaramento está à altura da sua ignorância. De facto, o upgrade da notação da S&P para BBB- (o nível mais baixo de investimento) significa que a dívida portuguesa passou em 15 de Setembro para o mesmo nível que tinha em 29-03-2011, com o resgate à vista. Como o outlook é estável isso significa adicionalmente que a S&P não prevê a curto prazo uma melhoria.

Outro feito muito celebrado foi o leilão de OT a 10 anos com um yield de 2,785% o mais baixo desde... 2015, quando ainda por aí andava o governo neoliberal e a economia não tinha atingido «o maior crescimento deste século». Ora confira-se:

OT 10 anos (Bloomberg)

Continuemos com a putativa promoção do Ronaldo das Finanças a presidente do Eurogrupo, um spin que tem feito gastar muita tinta e saliva aos spin doctors domésticos, que a confirmar-se ter fundamento poderá ser um tiro no pé do governo e envenenar as relações com os parceiros da geringonça.

E falando de veneno, de parceiros e de geringonça, registem-se as declarações de obsolescência do zingarelho por parte de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins que, qual Dupont et Dupond, o declararam em uníssono a geringonça irrepetível. É possível que não passe de bluff no contexto das eleições autárquicas, mas o certo é que a geringonça existe apenas enquanto for possível o equilíbrio instável entre forças centrípetas e forças centrífugas e esse equilíbrio é ameaçado com o aumento das intenções de voto do PS. «Se o Costa não perceber o que se passa, entramos numa fase complicada» avisou em entrevista ao Expresso Arménio Carlos, o apparatchik que comanda a CGTP.

Se a CGTP fala grosso com o governo as vozinhas dos castrati da UGT não querem ficar para trás e defendem o aumento médio dos salários de 3% a 4% em 2018 e do salário mínimo para 585 euros. Tudo isto com uma produtividade que não melhora é o caminho mais curto para o desastre.

Um dos acontecimentos mais insólitos da semana foi o pedido de demissão do comandante da Protecção Civil, um organismo que falhou em toda a linha na resposta aos incêndios deste ano dos quais resultaram 65 mortes. Demissão que ocorreu quase três meses depois e foi devida não ao desastre da Protecção Civil mas ao facto de o seu comandante, que foi nomeado por Costa juntamente com uma dúzia de outros apparatchiks socialistas, ter feito uma licenciatura com 32 equivalências em 36 disciplinas... Outro insólito - se não fosse o protagonista - foi a dúvida cartesiana do ministro da Defesa que não sabe «se alguém entrou em Tancos e no limite, pode não ter havido furto». Nada insólita, em vista do colectivismo atávico da geringonça, é a anunciada ejaculação legislativa a proibir os jogos de futebol em dia de eleições - seria um enorme insulto à maioridade e capacidade de discernimento dos portugueses se os portugueses não vivessem num estado de infantilização.

O stock de crédito às famílias teve um aumento líquido homólogo de 9% em Julho em contraste com os empréstimos às empresas em que os novos empréstimos caíram no mesmo período 8,1% , o valor mais baixo desde 2003, e o stock de crédito caiu 4,3% (fonte). É claro que, diferentemente do «maior crescimento deste século», não se ouviu ninguém celebrar a queda do financiamento para investimento privado que inevitavelmente vai comprometer o crescimento futuro. E também ninguém celebrou o aumento da dependência do BCE que voltou a elevar a cedência de liquidez aos bancos portugueses.

É verdade que as emissões obrigacionistas das empresas não financeiras têm vindo a subir - o stock teve um aumento homólogo de 5,9% em Julho, mas é sabido que essas emissões só estão ao alcance de um pequeno número de empresas e a esmagadora maioria depende o crédito bancário. Por isso, não admira que o relatório do FMI acentue a fragilidade do crescimento num país que sofre o «ciclo vicioso entre bancos fracos, malparado elevado e fraco investimento».

Uma ou outra luminária socialista em contacto esporádico com a realidade manifesta alguma preocupação com o caminho. Foi o caso do ministro do Planeamento Pedro Marques que lamentou que «pode dar-se a ideia de que há uma espécie de folga». Quem terá dado a ideia? Se não encontrarem o culpado sempre podem apontar o deu ao Passos.

À socapa, o governo fez em Agosto mais uma reposição. Desta vez repôs o facilitismo na educação à pala da «flexibilização curricular» que será adoptada em regime piloto em 240 escolas - remeto para este artigo de Jorge Buescu, matemático, professor, investigador e autor de «Matemática em Portugal -  Uma questão de Educação», uma leitura muito recomendável.

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