Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

09/01/2016

DIÁRIO DE BORDO: Dois tugas com as rodas no sítio

Até ao lavar dos cestos ainda é vindima, mas so far, so good

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da terra (10)

[Outros céus vistos de outras terras]

Nebulosa «Little Gem» na constelação de Sagitário a 6.000 anos-luz de distância, vista do Hubble Space Telescope
(Fonte: Wired)

08/01/2016

ESTADO DE SÍTIO: O preço do prolongamento da vida política de Costa – a componente «paz social» nos transportes públicos

Foi ontem aprovada no conselho de ministros da geringonça a «reversão do processo de subconcessão das empresas de transporte público de Lisboa e Porto».

É cada vez mais patente o preço que o país vai ter de pagar para prolongar a vida política de António Costa, preço que inclui uma série de parcelas entre elas as que resultam de atrelar o PCP à geringonça, proporcionando-lhe em troca a manutenção do seu controlo dos transportes públicos através dos sindicatos, o que requer a bendita «reversão».

Nos próximos dias vão ter lugar várias reuniões do ministro (que já declarou querer a «paz social») com os sindicatos para discutir os aumentos salariais. Um resumo do que estará em causa (fonte: jornal SOL):

CP
  • Os trabalhadores e reformados da CP e familiares voltaram a viajar à borla; 
  • Pagamento de “dívidas” de 14 milhões de euros aos mais de mil maquinistas da CP por horas extraordinárias, prémios de condução (o salário dos maquinistas não é para conduzir comboios) e trabalho nocturno; 
  • Subsídio de 17% do vencimento base do pessoal da CP a título de «horas de escala»; 
  • Subsídio de emergência de 100% do salário horário para os maquinistas chamados de «emergência»; 
  • Prémio de produtividade por cada período completo de trabalho; 
  • Prémio de produtividade de 500 euros por ano; 
  • Prémio de deslocação de 5,26 euros por dia de trabalho; 
  • Diuturnidade de 20 euros;
Metro
  • Subsídio de 30% dos maquinistas do metro para premirem o manípulo que abre e fecha portas; 
  • Subsídio de 9 centavos por km percorrido dos maquinistas do Metro (tal como na CP, o salário dos maquinistas do Metro não é para conduzir comboios) e de 45 euros por cada 500 km nos maquinistas de manobras; 
  • Prémio de assiduidade de 68 euros; 
  • Subsídio de turno de 59,48 euros
Resultado das somas de muitas parcelas

Os trabalhadores da CP e do Metro podem ganhar mais de 60 mil euros por ano; um revisor, por exemplo, tem um salário de cerca de 1.400 euros mas pode receber mais 4 mil em abonos.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (56) – He’s hopeless (II)

Backward, comrades!
Ainda em consequência da ambiguidade do actual líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, o amigo recente de Costa, face ao terrorismo e às organizações terroristas, mais deputados tomaram posição contra essa ambiguidade e dois deles foram forçados a demitir-se do governo-sombra e um terceiro demitiu-se em directo na televisão (Observador).

É claro que nada disso poderia acontecer neste nosso Reino de Pacheco, onde os deputados são empregados do líder do partido a quem servem com muita humildade, algum zelo e pouca competência.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: No Reino de Pachedo

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Querer viver (deixai-nos rir!)
seria muito exigir...
Vida mental? Com certeza!
Vida por trás da testa
será tudo o que nos resta?
Uma ideia é uma ideia
- e até parece nossa! -
mas quem viu uma andorinha
a puxar uma carroça?

Se à ideia não se der
o braço que ela pedir,
a ideia, por melhor
que ela seja ou queira ser,
não será mais que bolor,
pão abstracto ou melhor
sem amor!

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Neste Reino de Pacheco
- do que era todo testa,
do que já nada dizia,
e só sorria, sorria,
do que nunca disse nada
a não ser prá galeria,
que também não o ouvia,
do que, por detrás da testa,
tinha a testa luzidia,
neste Reino de Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-la de pernas pró ar?

Por isso, aqui, acolá
tudo pode acontecer,
que as ideias saem fora
da testa de cada qual,
para que a vida não seja
só mentira, só mental...

Alexandre O'Neill, Poemas com endereço

07/01/2016

DIÁRIO DE BORDO: À força de querer parecer outro, ele já não deve saber quem é


Ou, se preferirem, «Marcelo é como o Blob, uma massa gelatinosa que absorve tudo à sua volta», como escreveu João Miguel Tavares no Público, a respeito do catavento do regime a quem se aplica «a velha piada de Groucho Marx – “estes são os meus princípios, e se não gostarem… bom, eu tenho outros”».

Ou, ainda, se preferirem, escreveu Henrique Raposo no Expresso, «é a cobardia de quem não gosta ou não sabe discutir ideias. Ou é a cobardia de alguém que não acredita mesmo em nada e que precisa da palmadinha no ombro de toda a gente, É o chamado ecumenismo da cobardia»

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XLIV) – O futuro da geringonça portuguesa é a geringonça grega?

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Contrariando o quase blackout que o jornalismo de causas impõe ao purgatório grego a caminho do inferno, venho aqui dar testemunho (uma formulação ajustada ao tema do caminho do purgatório para o inferno) de que o governo Syriza-Anel depois de ter feito voz grossa à troika, perdão às instituições, recusando-se a aceitar os cortes propostos nas pensões, dispôs-se ele próprio a propor à troika, perdão às instituições, cortes crescentes de 15% a partir de 750 euros e até 30% para os rendimentos mais altos.

Recorde-se que a pensão média na Grécia era de 1.480 euros em 2010 (mais de quatro vezes a média portuguesa) e é agora, antes dos novos cortes, de 863 euros, apesar de tudo mais do dobro da média portuguesa.

Estranhamente, não se escutam gritos de indignação dos nossos esquerdalhos que tanto prezam o Syriza.

Títulos inspirados (53) – A lusofonia e a recessão

«Quatro das dez economias com maiores recessões em 2016 são lusófonas», titulou o Económico, sem relevar que, dessas dez economias com maiores recessões, pelo menos três são governadas por socialistas ou assimilados (Brasil, Venezuela e Grécia). De onde se poderia concluir, considerando que há mais países que se reclamam do socialismo ou estarem a caminho dele do que lusófonos, que pior para o crescimento do que adoptar o socialismo é ter o português como língua nacional. É claro que o pior de tudo é quando uma espécie de socialismo coexiste com uma espécie de português, como é o caso do Brasil.

06/01/2016

BREIQUINGUE NIUZ: A família Kim não se poupa a despesas no fogo de artifício

Fogo de artifício do Querido Líder Kim Jong-Un 
A Coreia do Norte anunciou que fez explodir a sua primeira bomba de hidrogénio, muito mais potente do que as bombas nucleares convencionais, para comemorar o aniversário do Querido Líder no próximo dia 8 ou, talvez, os sucessos da sua versão de comunismo, um regime que Bernardino Soares, o camarada presidente da câmara de Loures, não tem a certeza de não ser uma democracia, sucessos que fizeram do reino um dos países mais miseráveis do mundo.

Aditamento:
Entretanto, no debate com a berloquista Marisa Matias, Edgar Silva, o ex-padre que trocou a fé em Jesus Cristo pela fé em José Estaline, também confessou ter as mesmas dúvidas do seu camarada Bernardino Soares.

Dúvidas (141) – Quem são os nossos alquimistas? Onde está o nosso Duque da Baviera?

Porquê ao ler este artigo de Pinho Cardão (do 4R) no Jornal i sobre «o alquimista de Veneza (que) acabou enforcado em Munique», a propósito dos alquimistas políticos que surgem nas democracias, me ocorreram prontamente os nossos (vade retro) José Sócrates e António Costa?

Não vou (re)contar a estória toda de Marco Bragadino, mas apenas recordar que começou em Florença por pretender curar a infertilidade da Grã-duquesa com a pedra filosofal e acabou em Landshut, onde prometeu criar ouro para o Duque da Baviera pagar as suas dívidas e, já que estava lá, curar-lhe as enxaquecas. Face ao insucesso, por sua ordem foi executado em Munique, para o que foram necessários três golpes de espada para o decapitar. Pelo meio, fugiu aos credores em Florença para Roma onde se abrigou num convento dos frades Menores Capuchinhos; chegou a Veneza como alquimista para outra vez criar ouro, sem sucesso, de onde fugiu para Pádua, onde finalmente se colocou ao serviço do Duque da Baviera que poria fim aos seus truques.

Chegado aqui, interrogo-me onde está o nosso Duque da Baviera e se, quando e como ficarão os citados sob a lâmina da sua espada?

DIÁRIO DE BORDO: O Céu visto da terra (9)

[Outros céus vistos de outras terras]

Os braços em espiral da galáxia Messier 63, vista do Hubble Space Telescope (Fonte: Wired)

05/01/2016

ARTIGO DEFUNTO: A autocensura instalada nos mídia

Que os mídia estão infestados de jornalismo de causas e praticam um enviesamento sistemático em que se contrabandeiam opiniões disfarçadas de factos com o propósito de manipular as fracas meninges dos portugueses, só não vê quem não quer ver.

Se isso é fácil de ver nas notícias é mais difícil de ver na ausência delas. Pouca gente se aperceberá que, tão sistematicamente quanto a distorção infecta as notícias, o silêncio deliberado as omite. É, por isso, relativamente invulgar alguém, sobretudo um jornalista, tirar das sombras das redacções exemplos dessas omissões.

Foi o que fez Helena Matos no seu artigo do Observador «Coisas que nunca mudam: as não notícias» onde aponta os exemplos das «não notícias sobre a França» (centenas de veículos incendiados todos os dias - 804 na passagem de ano), das «não notícias sobre a Grécia» (que saiu do radar dos jornais apesar dos acontecimentos – ver a série de posts «De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório») ou das «não notícias sobre Guantanamo» (ver estes posts).

Pro memoria (283) – 37 anos depois, a mesma conclusão

«E voltamos ao princípio: como pode ser controlado um poder que concentra nas suas mãos a administração e a economia? Quem o pode limitar, quem se lhe pode opor? O poder político por si só é já formidável, como o mostrou em Portugal a era do salazarismo. O que fará se se lhe acrescentar o poder económico?

Actualmente em Portugal, onde mais de metade da economia está estatizada, ou directamente ou por intermédio dos bancos, só uma circunstância infelizmente feliz tem salvaguardado a liberdade dos cidadãos: a própria desorganização do Estado, incapaz de prosseguir uma política coerente. Virtualmente o Estado tem todos os meios para exercer um poder discricionário, que nunca foi conseguido nos tempos do salazarismo. Só que não soube ainda usar deles.

A conclusão deste razoado é que a sobrevivência da liberdade exige que o poder económico e o poder político constituam duas esferas separadas. Será isso possível com o socialismo?»

Excerto de «Socialismo e Liberdade», capítulo de «Filhos de Saturno», de António José Saraiva (publicado originalmente no Diário de Notícias de 22-12-1978

04/01/2016

Chávez & Chávez, Sucessores (40) – Duas semanas depois o chávismo recomeça a «governar com o povo» (II)

Sem surpresa, após o chávismo ter perdido as eleições, depois de 17 anos no poder, seria de esperar que as ameaças de Maduro de «governar com o povo» não se ficariam pelas palavras. Não ficaram.

O herdeiro consultou o pajarito, que não lhe havia aparecido durante as eleições, e pediu ao Supremo Tribunal de Justiça a impugnação de nove deputados da oposição. Obediente, o STJ decidiu para já suspender a tomada de posse de 3 deputados.

SERVIÇO PÚBLICO: A obra de Costa. A herança. (3) As contas públicas (I)

Outras heranças.

Valores reais até 2014 e estimados para 2015
O governo PSD-CDS não tem motivos para se orgulhar da sua gestão das finanças públicas. Foi forçado, sob a pressão da troika e da falta de dinheiro, a travar o descalabro da governação socratista e em matéria de défices deixa uma situação menos má do que a herdada.

Começou a inverter a evolução - vejam-se as linhas de tendência polinomial (ordem 3) dos défices em valor e em percentagem do PIB -, mas foi atropelado pelo impacto das resoluções do BES e do Banif (4,9 + 2,3 mil milhões de euros), ou seja o equivalente a 4,2% do PIB, e atropelou-se por causa das eleições.

Sem estes atropelos das resoluções, que, de facto, não são sua responsabilidade, a evolução teria sido mais positiva e teria o aspecto do gráfico seguinte.

Valores reais até 2013, corrigidos da resolução do BES em 2014 e estimados (sem resolução do Banif) em 2015
(Continua)

Pro memoria (282) – Há coisas que não mudam o suficiente (2/2)

«Mas esta questão do saber tem ainda outro aspecto que exige um certo esforço de atenção. Há urna tendência antiga nas nossas escolas, sobretudo no ensino médio e no dito superior, para considerar o saber corno um conjunto de conhecimentos puramente intelectuais. Saber é meter na cabeça o que os livros dizem sobre as coisas; pelo menos, é isso o que se aprende nos liceus e nas universidades, e é nesse sentido que se preparam os respectivos mestres.

Ora esta ideia do saber leva a um desenvolvimento unilateral das faculdades dos educandos. Eles tornam-se criaturas amputadas do corpo, das mãos e das zonas cerebrais que não sirvam para manipular ideias abstractas. Não são homens que saem das escolas, mas monstros desumanizados. Quando lhes tiram o livro das mãos sentem- se como meninos perdidos na floresta, perdidos e cegos, pois nem sequer obrigam a luzinha ao longe. Falta-lhes a educação do corpo, a educação das mãos, a educação da sensibilidade e a educação da vontade. Quase temos que nos dar por felizes por muitos dos nossos estudantes serem rebeldes aos estudos que lhes pretendem impor, porque isso é uma maneira de não ficarem completamente paralisados nas suas faculdades naturais. Pena que essa rebeldia não se manifeste de maneira positiva pela procura e pelo cultivo de qualidades que a escola destrói.

Quando se fala do alargamento e da elevação da escolaridade não posso deixar de sentir um certo arrepio pelos malefícios que daí vão resultar se persistirmos neste ideal de escola. A não ser que esse ideal mude, mais vale que a criança conserve as qualidades de espontaneidade e de actividade que ainda conseguiu salvar da educação primária.

O que nas nossas escolas se pretende ensinar (e também nas de muitos outros países) não é propriamente saber, a não ser que este se confunda com diplomas. O saber não é isso. O saber irriga a personalidade interna, dá-lhe capacidade para resolver situações dentro e fora de quem o possui. O que se transmite além da escola primária é, digamos, «sabença».

Antes de alargar e de subir a amplitude e o nível da escolaridade é preciso que se pense na sua qualidade. Quer- se uma escola donde saiam homens que saibam mexer nas coisas de que os livros falam, que saibam tomar decisões e aplicá-las, que saibam escolher, que saibam «ver» (como queria o Alberto Caeiro, mas, coitado, ele nem sabia os nomes das plantas...) uma flor, que saibam cumprir com rigor o que a si próprios propuseram, que saibam empenhar- se em projectos concebidos com paixão e com lucidez. E não uma escola de (pseudo-) intelectuais. Sem isso o aumento da escolaridade não é só inútil, é indesejável.

Dir-se-á que aquelas qualidades se aprendem fora da escola. Seja. Mas então que não venha ela destruí-las.»

«Democratização do ensino e democratização do saber», capítulo de «Filhos de Saturno», de António José Saraiva (publicado originalmente no Diário de Notícias de 10-11-1978

03/01/2016

ACREDITE SE QUISER: Volta Korba, estás perdoado

Sessenta e dois anos após a sua morte, Iossif Vissarionovitch Djugashvili, mais conhecido como Estaline, ou Korba para os amigos, continua a ser venerado na Federação Russa, apesar desta já não incluir a Geórgia, a sua terra natal.

Em 2016 a Penza, uma pequena cidade com meio milhão de habitantes nas margens do rio Sura a 600 km de Moscovo, irá celebrar o «ano de Estaline» inaugurando um museu e um centro cultural dedicados ao culto da criatura, coincidindo com o 80.º aniversário da constituição soviética promulgada por Estaline.

Apesar de todas inumeráveis e inenarráveis atrocidades de que foi o primeiro responsável (ver a série de posts «CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível»), 39% dos russos mostram respeito ou simpatia pelo ditador – apesar de tudo, menos dos que mostram respeito ou simpatia por Vladimir Putin.

02/01/2016

Pro memoria (281) – Há coisas que não mudam o suficiente (1/2)

«A democratização do saber é a condição essencial para a existência de uma sociedade democrática, porque é no saber - e hoje talvez mais que nunca - que reside o Poder. De nada servem as revoltas das massas, mesmo aparentemente triunfantes, quando o saber está fora delas. Nem de nada servem eleições quando os eleitores são manipulados por aqueles que «sabem» e que lhes consentem a ilusão de conseguirem aquilo que elas querem.

E daí que o direito ao ensino seja considerado importante em democracia, daí que se projectem esquemas de escolaridade cada vez mais prolongada e que abranja um número cada vez maior de pessoas.

Mas esquece-se, ou até mesmo se ignora, que o «ensino» (tal como geralmente se entende) é uma coisa, e o «saber» é outra.

E mais grave ainda: confunde-se o direito ao ensino, ou a democratização do ensino com o direito a possuir um diploma atestando que uma pessoa frequentou uma determinada escola. Em nome da democratização do ensino reivindica-se a abolição do exame ou de qualquer prova que o substitua, reivindica-se a entrada sem discriminação nas escolas ditas superiores. A revolução de Abril foi celebrada com a famosa passagem administrativa, confusamente sentida como um acto de democratização, quando, na realidade, foi uma medida de degradação do saber. Nesta lógica, o ideal de democratização do ensino seria a distribuição de diplomas a todas as pessoas que os requeressem e independentemente das provas anteriormente prestadas.

Esta «democratização do diploma» é o nome que verdadeiramente cabe à «democratização do ensino» tal como muita gente a concebe. E mereceria uma análise que aqui não tem lugar. O diploma é concebido como um privilégio de certas classes mais favorecidas e, portanto, a sua obtenção o fácil, como uma forma de democratização. E infelizmente, na sociedade portuguesa, o diploma é carta de nobreza e via de acesso a vários empregos.

Ora esta maneira de conceber a democratização da escola é o mais perigoso inimigo da democratização do saber, porque é evidente que quanto menos se aprende na escola tanto mais baixo será o saber que se alcança. Urna sociedade de diplomados à maneira portuguesa, isto é, sem verdadeira selecção, não pode deixar de ser uma sociedade de ignorantes. A escola é facilitada, e, nessa mesma medida, o saber é diminuído. Se nos contentássemos com a nossa mediocridade nacional, esta distribuição geral de diplomas, na medida em que acabasse com privilégios, poderia talvez ser um ideal de democratização, porque por essa via seríamos todos iguais na ignorância. Mas Portugal vive no mundo, um mundo em que, a par de uma aparente igualdade entre as nações (todas têm igualmente direito a dizer disparates na ONU), se processa um desnivelamento cada vez mais fundado no saber de urnas e na ignorância de outras· O poderio ainda crescente dos Estados Unidos, mais do que do capital matérias-primas, mais do que do capital moeda, vem do capital saber ali acumulado. A continuarmos na política demagógica daquilo que se entende aqui por «democratização do ensino», atingiremos qualquer dia o nível do Uganda: no fundo, só o ideal democrático que estamos procurando, perfeitamente coerente com um «socialismo» que parece orientado para a criação de sinecuras pagas pelo Estado. Sermos todos contínuos doutorados - eis a que parece tender a nossa preguiçosa originalidade.


«Democratização do ensino e democratização do saber», capítulo de «Filhos de Saturno», de António José Saraiva (publicado originalmente no Diário de Notícias de 10-11-1978

(Continua)

01/01/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (14)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando uma grande sintonia com os novos ventos que sopram de S. Bento a administração da CP fez a sua parte no pagamento das promessas do PS ao PCP e de prosseguimento da política de protecção do corporativismo, anunciando que os trabalhadores e reformados da CP e seus familiares vão reconquistar um importante direito adquirido suspenso pelo governo neoliberal: vão recomeçar a viajar à borla nos comboios.

A grande novidade dos últimos dias é Costa ir receber importantes reforços internacionais. James Corbyn, líder do Old Labour, com quem Costa terá feito amizade em Bruxelas, virá a Portugal fazer um tour de discursos de apoio ao programa anti-austeridade socialista. São complementares: Corbyn é bastante mais esquerdista e Costa é bastante menos confiável.

À semelhança do governo Syriza que, antes de aplicar um 2.º pacote de medidas pior do que o primeiro que recusou, readmitiu resmas de empregadas de limpeza despedidas pelo governo anterior, a geringonça vai readmitir 211 múmias do Instituto da Segurança Social que ainda estavam em regime de requalificação.

Entretanto, as previsões do PIB e do desemprego para 2016-2019 do documento do PS «Uma década para Portugal» «sumiram-se», escreveu o DN. Espera-se que as previsões reapareçam no OE 2016 devidamente vitaminadas com a política de incentivo ao consumo que tão bons resultados deu no passado. Na verdade, as medidas previstas são um bocado pífias (à volta de 0,6% do PIB ou mil milhões de euros) o que equivale a uma dose que, por um lado, não chega para salvar o paciente e, por outro, também não é suficiente para o matar.

As medidas de incentivo ao consumo são pífias mas o governo já tem um alibi para não aumentar a dose: Portugal não vai sair em 2016 do regime de défices excessivos e, por isso, a CE estará de olho em cima do orçamento. E porquê? Ora que pergunta! Por causa da resolução do Banif que, como se sabe, é culpa do governo neoliberal.

Ainda que pífias, essas medidas já estão por antecipação a ser muito bem acolhidas pelos portugueses que, cansados de tanta austeridade neoliberal, gastaram este ano um valor recorde nas compras de Natal (3,7 mil milhões de euros). As economias chinesa, japonesa, alemã, etc. agradecem.

O que também se espera que dê bons resultados, além dos que já deu (abandono do porto de Lisboa pela Maersk e Hapag-Lloyd) é o prosseguimento da greve dos estivadores.

Mas nem tudo são boas notícias para a geringonça que se divide uma vez mais a propósito dos serviços mínimos decretados pelo governo PS à greve da Galp, decisão que o BE considera ilegal. Razão tem António Galamba ao acusar PCP e BE de ingratidão porque, segundo ele, só reclamam as boas notícias. «É como se uns ficassem com o bife do lombo e outros com os ossos para roer», escreveu com amargura.

DIÁRIO DE BORDO: Desejo apenas que você tenha muitos desejos (outra vez)

Dedicado aos leitores do (Im)pertinências à entrada do novo ano
Cortar o tempo em fatias
[Carlos Drumond de Andrade]

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente...

...Para você,
Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida, 
Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente...

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!

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