Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

13/05/2012

A defesa dos centros de decisão nacional (9) - a procissão já saiu do adro mas ainda há muitos penitentes com promessas por pagar

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8)]

Não é paradoxal que o BES, um banco do regime, defensor dos centros de decisão nacional, e a Caixa, o banco por excelência do regime, cuja natureza pública é justificada pela necessidade de manter nas mãos do Estado um instrumento estratégico para prosseguir o interesse nacional (esta poderia ser dita pelo Tozé Seguro), estejam a tentar vender à Kento Holding da família Eduardo dos Santos as suas participações na Zon a qual, por coincidência, acabou de comprar a posição da Telefónica na Zon?

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O bom investimento público é o que tem um bom retorno

«É hoje mais rentável pagar dívida (recomprando-a no mercado secundário) do que investir no que quer que seja. A recompra de dívida a 10 anos tem um retorno de mais de 10% ao ano. Não há nenhum investimento público que possa ter essa rentabilidade de imediato.»

João Miranda, no Blasfémias.

Podem estar a perder-se oportunidades

12/05/2012

SERVIÇO PÚBLICO: o milagre do défice tarifário faz toda a gente feliz? (4)

[Continuação de (1), (2) e (3)]

Uma das propriedades dos défices em Portugal é que ninguém sabe exactamente o seu volume, quer se trate dos banais défices orçamentais, quer dos sofisticados défices tarifários (para refrescar as ideias recorde-se aqui do que se trata).

O défice tarifário não podia ser excepção. Em Março eu pensava que era de 2,7 mil milhões, o ionline dizia que era de 3,2, o mês passado o Sol falava em 2, ontem o Negócios escreveu 1,5. Em Outubro o governo dizia no parlamento pela boca do Álvaro que se nada fosse feito seria de 8 em 2020 e em Abril segundo o Pedro seria superior a 5 mil milhões.

A única coisa que se sabe a respeito do tamanho do bicho é que não se sabe qual seja. Certo é apenas que serão milhões. Faz lembrar aquele antigo slogan do PSD, na era PPD: «hoje somos muitos, amanhã seremos milhões».

Para uma recapitulação de todos os posts sobre os temas eléctricos clique na etiqueta «défice tarifário» no rodapé deste post.

Engenheiros e técnicos? E licenciados em sociologia, artes performativas ou ciências da educação não precisam? (3)

Depois dos belgas, da Nokia e de vários outros, é a vez da rede europeia de serviços de emprego EURES reunir empresas da Dinamarca, Suécia, Noruega e Reino Unido para recrutar engenheiros em Portugal, em colaboração com o ISEL. O contrato inclui alojamento, escola para os filhos e acolhimento.

E os sociólogos, antropólogos, cineastas, artistas performativos, historiadores, etc. (ou seja, os licenciados nessas áreas o que é muito diferente dos profissionais dessas áreas) não têm direito a fazer as suas escolhas, a seguir as suas vocações? Têm sim senhor. Só não têm direito é a empregos garantidos por um Estado assistencialista à custa de quem sobrevive tendo feito as escolhas possíveis ou não tendo feito escolha nenhuma.

De resto, deixem-me proferir uma blasfémia politicamente incorrectíssima: com algumas, muito poucas, excepções de génios geneticamente pré-determinados a cumprir o seu destino, a quase totalidade das criaturas humanas está habilitada a fazer imensas coisas muito diversas, consoante as oportunidades, os acasos da vida e as necessidades de sobrevivência. Defender políticas assentes em pressupostos como, por exemplo, um jovem pindérico nasceu para ser cineasta e, por isso, para cumprir o seu destino, os contribuintes estão obrigados a sustentá-lo, têm 1 probabilidade em milhões de acertar.

É como se para garantirmos em cada século ter um Fernando Pessoa com um fígado suficientemente saudável para acabar a obra, tivéssemos que sustentar milhões de escrevinhadores que se acham uns génios incompreendidos. Escrevinhadores incompreendidos, quereis um conselho? Candidatai-vos a caixas do Pingo Doce e, enquanto esperais o prémio Nobel da Literatura ou, vá lá, para os mais realistas, o prémio do Concurso Literário de São Roque do Pico, escrevei posts num blogue, como eu, que ainda não sou caixa do Pingo Doce mas tentarei ser na próxima promoção.

11/05/2012

SERVIÇO PÚBLICO: O cinema independente não depende dos espectadores (3)

[Sequela de (1) e (2)]

Ontem em frente ao parlamento em S. Bento juntou-se uma multidão de gente que se supõe ligada ao cinema independente para exigir ao governo o saque de mais impostos para subsidiar a projecção do imaginário dos portugueses.

Exagero meu? Nem por isso. A associação dos realizadores entende, pela pena de um deles, que está em causa «a capacidade dos portugueses, através dos filmes e do seu cinema, sonharem, se confrontarem com os seus fantasmas, fruindo na sua vida uma experiência mais rica e intensa, através das suas emoções e da projecção do seu imaginário».

E quantos portugueses fruem a projecção do seu imaginário proporcionada por estes cineastas manifestantes? Em vários dos filmes saídos desses crânios, menos do que o número de manifestantes – ver este post, por exemplo. De onde se poderia concluir que se todos esses manifestantes, mais os amigos, a família e as namoradas e namorados, vissem regularmente todos os filmes portugueses as audiências médias aumentariam significativamente.

Por isso, seria muito mais adequado substituir na frase bombástica acima a palavra «portugueses» por «cineastas» e, nesse caso, tudo ficaria mais claro. Os manifestantes foram lá tratar da sua vidinha, tentar olear a máquina que esportula os portugueses para eles sonharem e se confrontarem com os seus fantasmas, ou simplesmente se masturbarem com as suas criações para as quais o povo português se borrifa.

Estou a dar o meu melhor para escapar a esta esquizofrenia paranóica… (3)

… mas não resisto a relembrar a estória da velhinha que um escuteiro possuído pelo espírito de missão forçou a atravessar a rua, tudo para ouvir «ó meu menino eu estava parada do outro lado da rua a pensar na vida mas não queria vir para este lado».

A estória ocorreu-me a propósito dos associados da CAP que «não foram contactados pelo Pingo Doce por forma a contribuirem para a campanha promovida pelo Pingo Doce no passado 1.º de Maio», transformando em excitação sem causa as excitações várias, nomeadamente da ministra socialista da Agricultura e do tele-evangelista doutor Louçã.

Actualização:
Há excitações para todos os gostos. O presidente da CNA, essencialmente uma associação satélite do PCP, pouco representativa, de pequenos agricultores que provavelmente pouco vendem para a grande distribuição, quer que «digam exatamente quanto ganharam no 1.º de maio e não tentem aplicar descontos aos produtores a pretexto destas promoções», mostrando que o objectivo da CNA não é prosseguir a prosperidade dos seus associados mas impedir a prosperidade dos «capitalistas». No final, se o deixássemos, teríamos as prateleiras do Pingo Doce com o mesmo aspecto das prateleiras dos «armazéns do povo» - vazias.

10/05/2012

DIÁRIO DE BORDO: A escolha de François

François Hollande tem duas escolhas simples:
  1. Reencarna mon ami Miterrand e desgraça a França, depois de um curto período de êxtase da esquerdalhada; a seguir desgraça a Zona Euro e depois a União Europeia tal como a conhecemos;
  2. Substitui o casal Merkozy pelo casal Merde, como a blogosfera francófona já baptizou a continuidade do conúbio franco-alemão, e põe a esquerdalhada a engolir sapos e incinerar as meninges para explicar a transmutação do ouro socialista em chumbo capitalista.
Os sinais vão mais no sentido desta 2.ª via. Está em curso uma auditoria do Tribunal de Contas e as luminárias socialistas já murmuram os desvios colossais que irão proporcionar o alibi para alijar parte das promessas eleitorais. A medida já anunciada de congelar o preço dos combustíveis – um copycat do camarada engenheiro Guterres que custou aos contribuintes portugueses 500 milhões de euros – pode muito bem ser uma lubrificação para a populaça engolir o abandono ou suavização das suas promessas mais indigestas, como a criação de 150 mil empregos subsidiados e a redução da idade da reforma, e, de caminho fintando as expectativas e trocando a darling da esquerda Martine Aubry (filha de Delors e obreira da semana de 35 horas e que disse de François o que Maomé não disse dos chouriços) pelo fiel Jean-Marc Ayrault.

Lost in translation (143) - um prejuízo de 100 milhões, queria ele dizer

Quando Guilherme Costa, o presidente da RTP, diz que vai ter este ano um prejuízo de 10 milhões por isto, por aquilo e por aqueloutro, esquece-se de mencionar que irá ter «indemnizações compensatórias», isto é as contribuições extorquidas aos sujeitos passivos para manter o megafone a funcionar, de 90 milhões de euros (menos 20 milhões do que os 109 milhões de 2011).

Mitos (72) – Felicidade Nacional Bruta (II)

De vez em quando, aparece mais uma luminária a prescrever a substituição (lunáticos encartados) ou complementação (lunáticos mitigados) dos indicadores económicos, nomeadamente do PIB, por outros critérios de «qualidade de vida» que não especificam. Imagine-se um Instituto Nacional do Bem-Estar, pejado de apparatchiks ao serviço da clique socrática de uma qualquer clique, a calcular a Felicidade Nacional Bruta.

Escrevi o parágrafo anterior num post de 31-12-2010, que se aplica com uma ligeira alteração ao que disse esta semana o deputado do PSD Luís Leite Ramos, «relator de um parecer da Comissão da Economia e Obras Públicas da Assembleia da República, que surge no seguimento de uma petição de dois alunos universitários para que o Banco de Portugal inicie estudos e debates tendo em vista a medição da Felicidade Interna Bruta em Portugal.»

Uma boa notícia indiciadora de que o povo ainda não perdeu de todo o sizo: a petição dos dois aspirantes a luminárias não teve subscritores suficientes para ser debatida no plenário.

09/05/2012

ESTÓRIA E MORAL: Esquerdismo senil (outra vez)

Estória

Nos anos 20, Lenine escreveu «Esquerdismo, doença infantil do comunismo» para combater as ideias radicais, sobretudo dos comunistas alemães inspirados por Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Wilhelm Pieckum, entretanto assassinados.

O Dr. Mário Soares na sua juventude terá sido comunista ou, na versão oficial, membro do MUD, uma das organizações frentistas que o PCP criou no pós-guerra. Na sua maturidade combateu o Partido Comunista e as suas tendências golpistas durante o PREC. Na sua velhice, com quase 90 anos, tem-se aproximado das teses do esquerdismo como mostrou, mais uma vez, na entrevista publicada ontem pelo ionline onde anuncia novos amanhãs que cantam com a eleição de François Hollande e defende que o PS deve descomprometer-se com o MoU que assinou com a troika.

Nada mau para quem tem no currículo como primeiro-ministro a assinatura de dois acordos com o FMI em 1977 e 1983 e, quando acabou o dinheiro, terá dito que teríamos de meter o socialismo na gaveta - ele nega tê-lo dito, mas a verdade é, dizendo-o ou não, lá o colocou.


Moral

À luz da vivência do Dr. Soares, Lenine, se ainda por cá andasse, teria escrito um outro opúsculo «Esquerdismo, doença senil do comunismo».

É mais uma demonstração, como já escrevi, da sabedoria não decorrer necessariamente da idade. A única coisa que decorre necessariamente da idade são as artroses.

De boas intenções está o inferno cheio (10) - Lições das eleições gregas e suas consequências

Esgotada a tentativa da Nova Democracia, o partido mais votado com 19% dos votos, formar maioria com os partidos comprometidos com as medidas negociadas com a troika, o Syriza, uma espécie de BE grego, está a negociar uma coligação com os partidos anti-austeridade.

Admitamos o sucesso das negociações e a constituição de um governo anti-austeridade, correspondendo assim à vontade popular, seja lá o que isso for. E a seguir? Há três hipóteses mais prováveis:
  1. O governo constituído pela esquerdalhada mete o socialismo na gaveta, que é como quem diz adopta as medidas com que a Grécia está comprometida e se supõem indispensáveis para continuar a viver com o dinheiro dos seus benfeitores;
  2. O governo cumpre o prometido e os credores fazem a sua parte e fecham a torneira e a Grécia entra em incumprimento, é forçada a sair do euro, continua a não ter acesso aos mercados de dívida soberana e enfrenta uma crise financeira e social de consequências potencialmente catastróficas;
  3. Haverá uns possíveis expedientes dilatórios como concluir que serão necessárias novas eleições para o povo tomar juízo, mas no final ou haverá um governo que pelo menos finja cumprir os compromissos ou volta-se às duas opções anteriores.
Lições: a democracia sai cara; sem dinheiro e sem crédito não há democracia nem soberania. Consequências: há definitivamente um certo número de inevitabilidades e entre elas a economia, por muito que isso possa ser «uma típica ideia marxista».

É mau? É. Mas não tão mau quanto as alternativas românticas e voluntaristas que costumam acabar como a história já nos mostrou que costumam.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (12)

08/05/2012

ARTIGO DEFUNTO: As causas do jornalismo de causas…

… a juntar às de ontem.

Causas da BBC (observadas por Rui Carmo)
  • A vitória com 51,5% dos votos do mayor de Londres Boris Johnson sobre o Red Ken foi por uma «tight margin»
  • A vitória com 51,7% dos votos de François Hollande sobre Nicolas Sarkozy foi «a clear victory»

Causas do Diário de Notícias (observadas por Rodrigo Moita de Deus)
  • Um título bombástico «Coligação de Merkel perde eleições regionais» em contraponto com a notícia: «os conservadores da CDU conseguem 30,5% (menos um ponto que em 2009). Mantém-se contudo à frente dos outros partidos.»

CASE STUDY: Elefantes brancos em Espanha (8)

“Caixa Mágica”, a joia da coroa da candidatura olímpica de Madrid
Um projecto do arquitecto francês Dominique Perrault que era para custar 120 milhões de euros e acabou em quase 300 milhões, por várias razões incluindo não se ter tido em conta que o rio Manzanares passava ao lado. Ver mais informações aqui.

[Da colectânea apócrifa «ESPAÑA PAIS DE MILLONARIOS» dos resultados (principalmente, mas não só) do socialismo ibérico em Espanha]

Estou a dar o meu melhor para escapar a esta esquizofrenia paranóica… (2)

… que está a atacar inúmeros grunhos e até cognocenti lusitanos, a propósito da promoção do Pingo Doce.

O meu melhor, mais uma vez, não é grande coisa, porque não resisti a citar o incontornável doutor Louçã que pretende acabar com «esta ditadura da grande distribuição», por meio da revolução proletária liderada pela vanguarda LCI que implantará uma democracia operária com o camarada Anacleto à cabeça das massas.

O grande líder quando jovem

07/05/2012

ARTIGO DEFUNTO: As causas do jornalismo de causas


Jornal Público, um paradigma de independência

Um exemplar exercício de jornalismo de causas, do jornalismo em que «não há factos. Os factos correspondem à visão do mediador, do repórter» na definição iluminada do jornalista e escritor Armando Baptista-Bastos.

Muito bem observado por Helena Matos.

Vivemos num estado policial? (3)

Não se sabe exactamente quantos polícias existem em Portugal, o que não tem nada de excepcional porque também se discute quantos são os desempregados, a despesa ou a dívida pública. O que se sabe é que são muitos, tal como os desempregados, a despesa ou a dívida pública. Tantos que fazem de Portugal um dos estados mais policiados do mundo.

Tal facto não impediu Rui Pereira, um dos homens do avental, ministro da Administração Interna de anunciar em 2008 que iriam ser contratados mais dois mil polícias a adicionar aos 46 mil ou 49 mil - as opiniões dividem-se. O que também não impediu o actual MAI de anunciar menos de 4 anos depois o recrutamento de mais 1.100 polícias e GNR.

E tudo isto não impede, segundo o Expresso, o novo comandante da PSP de ter produzido um documento com o pomposo nome de Grandes Opções Estratégicas 2013-2016 onde anuncia a contratação de mais 500 polícias por ano e pré-reformar 300.

É caso para concluir que a relação entre o número de polícias e a segurança obedece a uma função zingarilho: quanto mais polícias menos segurança.

Outros casos de polícia: (1) e (2)

Mitos (71) - Uma ONG é uma organização que não depende de governos

Segundo a vulgata do marxismo cultural, uma ONG (ou NGO na sigla em inglês) é uma organização não governamental, logo independente de Estados e de governos. Independente, segundo a mesma vulgata, não quer dizer que não depende. Isso depende de várias coisas e sobretudo da ONG em questão.

Se estiver em causa a internacional dos homossexuais, bissexuais e outros adeptos de práticas sexualmente desviantes, a circunstância de a Comissão Europeia e o governo holandês financiarem com o dinheiro dos impostos dos cidadãos comunitários, no primeiro caso, e dos contribuintes holandeses, no segundo, três quartos da grana torrada pela ILGA para promover essas práticas e a sua aceitação social, não afecta nada o seu carácter não governamental e a sua independência.

E porquê é a ILGA independente?, perguntareis. Porque a CE e o governo holandeses não estão a gastar o dinheiro deles mas dos sujeitos passivos na esmagadora maioria heterossexuais e a ILGA faz o que lhe apetece com esse dinheiro pela causa das minorias.

E, supúnhamos, se tratasse de uma ONG promotora da heterossexualidade? Poderia beneficiar do mesmo tratamento privilegiado? É claro que não, porque uma tal ONG teria um carácter discriminatório das minorias sexuais. Talvez um dia, se e quando os heterossexuais forem uma minoria, uma sua NGO possa aspirar a ser financiada com os impostos dos homossexuais, bissexuais et alia.

[Ver aqui, via perspectivas]