«Há duas visões da América. Em 2020, uma dessas visões é representada por Trump e outra por Biden. Dir-me-ão: Trump é um “filho da mãe”. Até pode ser, mas é o “filho da mãe” dos que preferem um Estado pequeno e uma economia livre, tal como Biden – acusado e suspeito dos mesmos pecados que Trump – é o “filho da mãe” dos que preferem um Estado maior e uma economia dirigida. Não devia ser assim? É assim.»
Concordo frequentemente com Rui Ramos, mas não desta vez. Ou, para ser exacto, desta vez discordo absolutamente. Não há só duas visões da América e, ainda que Trump fosse «o "filho da mãe” dos que preferem um Estado pequeno e uma economia livre», ninguém pode concluir que prefira um Estado pequeno e uma economia livre, sendo igualmente certo que também não se pode concluir que prefira um Estado maior e uma economia dirigida. Trump já mostrou que pode preferir e defender qualquer coisa e o seu contrário. O que prefere ou defende tem exclusivamente a ver com o que em cada momento imagina aumenta as suas chances de manter o poder. Ele já mostrou que pode preferir um Estado de qualquer tamanho em que ele ocupe a presidência. O seu programa é ele próprio, e é por isso que o seu narcisismo patológico é tão perigoso.
Se do ponto de vista da realpolitik pudesse ter feito sentido o apoio de Roosevelt a um Somoza alinhado com a versão New Deal da doutrina Monroe, não faz sentido apoiar uma criatura errática cujo programa é ele próprio e que é uma ameaça para uma democracia americana em crise.
E não, ameaça não é retórica. A resposta de Trump no final do debate com Biden sobre a aceitação dos resultados das eleições era algo que só era habitual ouvir de Mugabe ou outros déspotas africanos. Desde o princípio de 2017 as sondagens do Voter Study Group mostram que a percentagem de americanos que pensam ser aceitável o uso da violência pelo seu partido para conseguir os objectivos vem aumentando consistentemente de 8% para mais de 30% (fonte: newletter Checks and Balance da Economist).