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07/01/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (169)

Outras avarias da geringonça e do país.

Na semana que passou tivemos mais um português no topo do mundo. O nosso Ronaldo que joga na equipa treinada pelo Costa foi escolhido ministro das Finanças do ano pela revista The Banker no mesmo dia que se soube ter a dívida pública atingido um novo máximo.

Concordo que o prémio é merecido se foi pelo reconhecimento de que o cumprimento do défice se fez à custa de: (1) paralisia do Estado, de que esta semana tivemos mais exemplos com o colapso do Hospital Militar ou os 8 anos para comprar material circulante para a CP em substituição do material decrépito que actualmente rasteja nas linhas; (2) aumento da carga fiscal resultante do aumento de 5,4% da receita fiscal até Novembro nomeadamente proveniente dos impostos indirectos (quase metade do acréscimo).

Prémio ainda merecido se foi pelo reconhecimento de que a dívida pública voltou aumentar, apesar do aumento da receita fiscal e das cativações. E ainda mais merecido se foi pelo reconhecimento das capacidades manipulativas que o premiado evidenciou quando, por exemplo, manda dizer que o novo recorde da dívida se ficou a dever ao pagamento antecipado de 4,5 mil milhões do empréstimo do FMI quando as necessidades líquidas de financiamento em 2019 estão estimadas em 8,6 mil milhões.

A esquerdalhada em geral (e uma boa parte da direita, reconheça-se), quando não gosta da mensagem gostaria de matar o mensageiro ou, não podendo, pelo menos calá-lo sob ameaça de morte. Hoje, além de mais estúpido, isso é mais difícil, pelo que em alternativa se tenta uma de várias estratégias: intimidar, comprar, desacreditar o mensageiro ou, em desespero, afogar a mensagem desagradável num mar de boas notícias (uma estratégia recorrente de Costa quando falham as outras). Quando o mensageiro é a OCDE e a mensagem é um relatório sobre a economia portuguesa, que inclui um capítulo novo sobre corrupção, a coisa é mais difícil e exige uma combinação criativa de várias estratégias.

É isso que o agitprop do governo está já fazer pela mão do ministro Santos Silva, quiçá usando o know-how dos seus tempos de trotskista da LCI do camarada Louçã. Preventivamente (o relatório ainda não é público), o ministro vai aviando o seu recado através do Expresso, semanário de reverência que faz as vezes de Acção Socialista, que lhe dedica uma página inteira com fotos do ministro e, num exercício de manipulação subliminar, uma foto do Álvaro (Santos Pereira) que, tendo militado no governo «neoliberal», é suspeito ideal para ser responsável do novo capítulo sobre corrupção coisa que, como é sabido, não existe neste Reino de Pacheco.

Em matéria de greves temos mais do mesmo. No caso dos estivadores, temos mais do mesmo em grande escala. O sindicato entregou um pré-aviso de greve de 6 meses a contar do próximo dia 16 em oito portos, incluindo todos os que movimentam mais carga. Ah, já me esquecia, também houve uma greve nas lojas do Pingo Doce de Lisboa mas, além dos sindicatos, ninguém deu por nada.

A bolha da compra de automóveis expandiu-se o ano passado a um ritmo inferior (2,6%) e, não obstante, o crédito automóvel aumentou 790 milhões para 6,1 mil milhões somando mais um recorde desta década, presumivelmente porque as compras começaram a ficar a cargo dos menos abonados. Curiosamente, a confiança dos consumidores voltou a descer em Dezembro para mínimos de quase dois anos o que talvez indicie que se começa a acender o desconfiómetro popular em relação à perenidade do maná costista sustentado por aumento de impostos e atrofia dos serviços públicos.

Em dissonância com o discurso triunfalista do governo, está como já referi a falta de fé dos investidores que estão a desaparecer de Lisboa, das OPV adiadas e dos aumentos de capital falhados. Um dos sintomas deste fenómeno é o esvaziamento do PSI20, o índice da bolsa da valores de Lisboa, que com a saída de 6 empresas deveria mudar o nome para PSI18.

O fim desta festa socialista que, por não ter data marcada, não deixa se ser tão certo como o anterior, não precisaria de ajudas externas, as quais, contudo, dão imenso jeito para sacudir como de costume a água do capote dos governos em exercício. Entre os factores externos devemos incluir uma crise de contornos ainda difíceis de antecipar da economia chinesa que tem uma alavancagem considerável e vulnerabilidades várias. Há sinais, como a produtividade total dos factores em declínio desde 2007, e as guerras comerciais em curso (que estão a apavorar a nomenclatura chinesa) podem acelerar a chegada da crise prenunciada pela contracção no final do ano da actividade industrial. Se acontecer, é mais uma evidência da completa falta de visão da política externa da geringonça de aproximação a uma potência despótica, aproximação lubrificada com baba presidencial.

1 comentário:

Miguel Santos disse...

Se o Centeno é o Ronaldo então os portugueses devem ser a Kathryn Mayorga...