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02/04/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (129)

Outras avarias da geringonça.

Os deputados da geringonça, menos os comunistas que nestas coisas das causas fracturantes do politicamente correcto se resguardam e empurram para a frente os camaradas verdes por fora, estão prestes a dar um grande salto civilizacional: reconhecer que qualquer gaiato(a) com 16 anos pode escolher para o cartão de cidadão o sexo género que entender (em breve poderá ser uma das variedades de entre o número que já vai nos dez de LGBTQQIAAP) e com 18 anos poderá exigir aos contribuintes que lhe paguem uma operação para mudar o sexo género.

O «diálogo», preconizado pelo Bourdieu de província que gosta de malhar na direita, para reagir ao assassinato com uma arma biológica proibida a mandado do putinismo, assassinato que teve como resposta da maioria dos países da UE com as excepções do costume a expulsão de espiões russos travestidos de diplomatas, é mais um exemplo do carinho com que o PS e os seus governos costumam tratar a Rússia de Putin, a somar às visitas de Sócrates com dormida no Kremlin e jogging na praça Vermelha.

Há quem atribua o «diálogo» com Putin à vontade de apaziguar os comunistas ainda hoje encalhados nos tempos soviéticos, vendo Putin como uma reencarnação de Andropov. Se for esse o desígnio, não está a ter sucesso porque o camarada Jerónimo já fez saber que teríamos um «problema» se o próximo orçamento «acentuar os traços da política de direita». Sabendo-se que um problema para Jerónimo é como o Natal para Ary dos Santos, é quando ele quiser, isso não é um bom prenúncio, como de resto se percebe pelas greves de 3 dias dos funcionários do SEF e dos supermercados no domingo de Páscoa, para só falar na semana passada.

Entretanto, está em vias de se consumar por ordem do governo a participação das Misericórdias no capital do Montepio Geral, avaliado para esse efeito para esse efeito acima do BPI (com uma capitalização bolsista de 1,6 mil milhões, apesar de capitais próprios de 2,6 mil milhões), com base num estudo não divulgado...

Aliás, o governo é mestre do ocultismo da informação. Como escreveu e exemplificou Alexandre Homem Cristo (no Observador, o lugar geométrico da direita inorgânica, como o classificou Costa), «o governo tem ocultado dados, falseado indicadores e sabotado a comparabilidade de informação. Em benefício próprio e prejuízo da qualidade da democracia, assim diminuída na capacidade de escrutínio

À míngua de medidas efectivas (por exemplo o concurso dos helis voltou a falhar e só só estão contratados menos de metade dos meio aéreos) para evitar a repetição do desastre dos incêndios do ano passado o governo dedica-se intensamente a acções de marketing com Costa a fazer de roçador durante meia dúzia de minutos para as televisões.

Recorde-se: 2015 foi o último ano em que a coligação neoliberal se ocupou a destruir o Estado Sucial; 2016 e 2017 foram os dois primeiros anos em que a gerigonça começou a reconstruir o Estado Sucial. Segundo dados divulgados pelo INE, em relação a 2015 (o último ano de destruição do Estado Sucial) o investimento público em 2016 e 2017 caiu  32% e 16%, respectivamente. E não, não se trata das verbas orçamentadas que essas, sujeitas ao agitprop socialista, aumentaram em 2016 e 2017. Trata-se da execução orçamental da administração que foi de 73% e 67% em 2016 e 2017, respectivamente, graças ao milagre chamado cativações do Ronaldo das Finanças. Mesmo o investimento de 2017 não é sequer suficiente repor o stock de capital público do país. Ouviram-se gritos de indignação? Viram-se manifs das forças progressistas? Alguém rasgou as vestes?

Pode o governo falhar em muitas das realizações que o seu programa prometia. Em contrapartida, temos de creditar-lhe uma enorme realização que não havia prometido: aumentou a carga fiscal em 2017 para 34,7% do PIB, o rácio mais elevado desde 1995. É obra! Não admira, pois, que na execução orçamental nos dois primeiros meses deste ano tenha conseguido uma melhoria de 231 milhões face a 2017, não porque a despesa tenha diminuído (aumentou 2,8%, claramente acima do crescimento previsto do PIB) mas porque a receita aumentou 4,7%!

O que também continua a aumentar são as dívidas das administrações públicas que até Fevereiro aumentaram 30% para 1,3 mil milhões, sobretudo devido aos pagamentos em atraso dos hospitais que aumentaram 352 milhões. Isto enquanto não chega a estrutura de missão que segundo o Ronaldo das Finanças irá pôr ordem na caserna do Adalberto.

Ronaldo das Finanças que durante a semana passada fez o combate da sua vida para evitar que a recapitalização da Caixa transformasse o défice mais baixo da democracia num défice a roçar os 3%, o máximo do Tratado de Lisboa, fazendo de conta que se esquecia do resgate do Banif que empurrou para as contas do governo PSD-CDS num fim-de-semana no final de 2015. Os argumentos que invocou não valiam um caracol e não fizeram esquecer a encenação a que submeteu o orçamento de 2017.

Quanto ao crescimento previsto do PIB, o BdeP mantém a previsão de 2,3% para 2018, 40 pontos base abaixo de 2017 e 10 pontos base abaixo da previsão da UE28 para 2018 (2,4%). Se na conjuntura actual europeia e mundial 2,3% é um crescimento modesto. ainda assim esse crescimento está acima do potencial da economia o que, sendo este um conceito escorregadio, poderia não significar muito não fosse o caso de o stock de capital estar a diminuir há anos e a produtividade se manter muito abaixo da média europeia, pelo que o aumento do PIB se está a fazer à custa da redução do desemprego pela criação de emprego pouco qualificado. Enquanto a festa estiver animada ninguém quer saber disso, e quando a festa acabar estará toda a gente a indignar-se, tomam-se as medidas urgentes e ninguém saber do futuro.

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