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06/09/2014

ACREDITE SE QUISER: A fabulosa estória de um verbo-de-encher que entrava mudo e saía calado

A estória passa-se no coração do que costumo chamar, inspirado no complexo militar-industrial de Eisenhower, o complexo político-empresarial socialista, que administra o capitalismo de compadres, como lhe chamou recentemente Sarsfield Cabral. Esse complexo «socialista» não é apenas do socialismo do PS; é-o igualmente do socialismo do PSD e do CDS, este último por vezes o partido mais socialista, por força da demagogia e oportunismo de Paulo Portas que espreita todas as oportunidades de engraxar a psique colectivista do eleitorado.

É uma estória iluminante que em si mesma diz mais sobre o complexo político-empresarial socialista e o capitalismo de compadres do que uma tese de mestrado.

A personagem central da estória é o advogado Nuno Godinho de Matos, fundador do Partido Socialista, uma vez portador de uma mala com dinheiro dos socialistas europeus para Mário Soares, apoiante de António Costa, vice-presidente da Ordem dos Advogados «cooptado» por Marinho e Pinto, colaborador há décadas de Daniel Proença de Carvalho. Em 1995, Godinho de Matos foi convidado para administrador não executivo do BES porque, segundo as suas palavras, «havia quem defendesse a vantagem de incluir no conselho de administração alguém ligado à resistência ao antigo regime, de esquerda, e que não fosse profissional da atividade política» - um exemplo da estratégia do Ricardo Salgado de colocar ovos em todos os cestos que interessavam, estratégia que fez dele o DDT.

Godinho de Matos, depois de um jantar com Ricardo Salgado, a quem explicou que «sabia tanto de bancos como de calceteiro», aceitou o convite. Desde então lá participou em 4 ou 5 reuniões «pró-forma» por ano, nas quais os administradores não executivos eram «verdadeiros verbos de encher, um acessório na toilete de uma senhora», e «não havia perguntas não porque não pudesse haver, mas porque jamais alguém as fez». «Em seis anos nunca abri a boca, entrava mudo e saía calado», segundo as suas palavras na entrevista ao i. Por essa maçada, Godinho de Matos recebia 2.400 por reunião – contudo, segundo documentos depositados na CMVM, teria recebido 42 mil euros em 2013.

Quando tudo ruiu, Godinho de Matos não hesita em branquear a sua passagem de quase duas décadas pelo BES e apontar o dedo ao Banco de Portugal, CMVM e às «empresas de auditoria, que nunca se aperceberam do que quer que fosse». Distraidamente deixa cair uma afirmação que é um libelo contra si próprio e todos os que podiam e deviam ter visto: «nem o argumento de que foi na segunda quinzena de julho que se constituiu a dívida de 1.500 milhões de euros, que é real, cola, porque existe tudo o que está para trás».

2 comentários:

Alexandre Burmester disse...

Desculpe o preciosismo, mas a expressão criada por Eisenhower foi "complexo militar-industrial".

Impertinente disse...

Obrigado. Alexandre Burmester tem toda a razão.
Foi um quid pro quo, porque como aqui (http://impertinencias.blogspot.pt/2009/02/o-complexo-politico-empresarial.html) escrevemos «no seu discurso de despedida como presidente dos EU, Ike Eisenhower usou a expressão complexo militar-industrial para designar a aliança entre o Pentágono e os sectores industriais ligados à defesa»