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22/11/2010

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor

Os nossos políticos esfalfaram-se a sublinhar as diferenças entre a situação portuguesa e a grega. Esfalfam-se agora ainda mais a fazer o mesmo com a Irlanda. Alguns exemplos:
  • Cavaco - «Há muito tempo que eu afirmei que o problema da Irlanda era muitíssimo mais grave que o português»;
  • Sócrates - «Quem acompanha esses mercados sabe que hoje subiram os juros da Irlanda, que bateram novo recorde – e nós já descolámos da Irlanda nesse domínio»;
  • Teixeira dos Santos - «Portugal é diferente da Irlanda e que traçou um caminho de consolidação e de políticas de reformas».
Não posso estar mais de acordo com estas luminárias quanto à existência de profundas diferenças. Só estarei em desacordo quanto à putativa vantagem portuguesa. Vejamos algumas das diferenças que os sábios domésticos ignoram ou fazem por ignorar:
  • A primeira grande diferença é o PIB, praticamente igual nos dois países para uma população inferior a metade da portuguesa, donde resulta um PIB per capital duplo do português – os irlandeses têm muito por onde apertar o cinto até chegar à cinturinha de vespa portuguesa;
  • No caso português temos décadas a viver acima das posses com um défice do comércio externo ao redor de 10% do PIB; no caso irlandês só nos últimos anos o défice do comércio externo aumentou para 1/3 ou menos do português;
  • A dívida pública portuguesa era no final do ano passado superior à da Irlanda (77% do PIB contra 65%); no final deste ano a dívida irlandesa não será muito superior à portuguesa, mesmo depois dum défice ultrapassando 30% em 2010, resultante da injecção de capital no sistema bancário; ainda assim a Irlanda dispõe de uma almofada de 20 mil milhões de reservas suficiente até meados do próximo ano;
  • A Irlanda tem uma margem enorme para aumentar os impostos sobre lucros, actualmente 12,5%;
  • O investimento directo estrangeiro em 2010 na Irlanda é o maior dos últimos 7 anos; o IDE em Portugal não para de diminuir;
  • As políticas laborais e as regras de arrendamento são muito mais flexíveis na Irlanda - as rendas estão a descer mais rapidamente do que os salários; apesar da taxa de desemprego ser uns 3 pontos superior à portuguesa, o aumento do desemprego desde 2007 resulta em grande parte da crise da construção civil depois de rebentar a bolha;
  • A mão-de-obra irlandesa é mais jovem e está muito melhor preparada do que a portuguesa; uma parte importante dos imigrantes está a regressar aos seus países de origem aliviando a pressão sobre o subsídio de desemprego;
  • No que respeita ao sistema público de segurança social, o nosso fundo de estabilização (FESS) atinge a modesta cifra de 9,5 mil milhões para uma população de 10,6 milhões, correspondente a um valor per capita de 900 euros, que compara com uma cifra bem mais robusta de 24,1 mil milhões do National Pensions Reserve Fund para uma população de 4,6 milhões, correspondente a um valor per capita de 5.200 euros, ou seja 5,8 vezes o valor per capita português (ver este post).
O grande problema irlandês, que não tem expressão comparável em Portugal, é o sistema bancário descapitalizado depois de registar as imparidades resultantes da exposição ao crédito subprime americano e do incumprimento massivo do crédito à habitação doméstico. É um problema grave? É sim senhor, mas na casa das máquinas os motores continuam a girar. Em menos de 5 anos a economia irlandesa estará em velocidade de cruzeiro e a economia portuguesa terá mais ou menos os problemas que tem hoje – mais, se o povo continuar a tentar pendurar-se no estado socialista falido e as elites portuguesas continuarem a vegetar na mediocridade ou menos, no caso contrário.

[Artigos recentes que abordam este tema: Threadbare e Saving the euro, na Economist, After Ireland, spotlight on Portugal, Spain no Marketwatch]

17/02/2010

CASE STUDY: PIIGS, iguais mas diferentes ou diferentes mas iguais?

O governo, o PS e o PR, em vez de se excitarem com a patriótica indignação pela odiosa coligação entre os mercados, os especuladores e as agências de rating, deveriam reflectir sobre alguns factos desagradáveis. E deveriam fazê-lo por várias razões, a menos importante das quais não será certamente a mensagem subliminar que estão a transmitir aos agentes económicos domésticos, capitaneados por sucessivos governos, transferindo a responsabilidade pela libertinagem financeira para um conveniente inimigo externo.

O primeiro facto desagradável é que, não obstante as diferenças, os PIIGS (o segundo «I» é o da Irlanda, só para afastar o chauvinismo associado aos PIGS) têm de comum pelo menos um de três sérios problemas que concorrem para o risco de falência: défice orçamental excessivo, dívida pública excessiva e défice das contas externas.


O segundo facto desagradável, que fica patente nos gráficos acima, é que nem todos têm o mesmo número desses problemas, nem a mesma gravidade. Aparecem com todos eles a Grécia e Portugal. Com dois deles a Espanha (défices orçamental e das contas externas). Com apenas um a Itália (endividamento) e a Irlanda (défice orçamental).

O terceiro facto desagradável é a extensão e profundidade das medidas com que cada um dos governos se comprometeu. E aqui o único que se salva é a Irlanda que se comprometeu com o corte efectivo de 10% dos salários dos funcionários públicos. Todos os outros anunciaram propósitos e nenhuma medida significativa para eficazmente inverter a situação.


Não admira por isso que a odiosa coligação avalie diferentemente os PIIGS através dos spreads. Se há alguma coisa que a coligação talvez não esteja a avaliar suficientemente é o risco de Portugal comparativamente com a Irlanda. Voltamos a falar depois da apresentação do PEC e, para o acerto final das contas, falamos novamente em 2013, altura em que, aposto singelo contra dobrado, ficaremos a olhar a Irlanda com um binóculo.

[Gráficos: A very European crisis, Economist Feb. 4th]

06/02/2016

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (8)

Outros episódios da mesma série.

Por alturas de Novembro de 2010 publiquei o primeiro post desta série onde comecei por citar três luminárias agora retiradas ou em vias de se retiraram. Vou citá-las de novo para ficar patente porquê nós estamos onde estamos, tratados com a medicina que estas e outras luminárias que as seguiram aplicaram, e a Irlanda está onde está:
  • Cavaco - «Há muito tempo que eu afirmei que o problema da Irlanda era muitíssimo mais grave que o português»;
  • Sócrates - «Quem acompanha esses mercados sabe que hoje subiram os juros da Irlanda, que bateram novo recorde – e nós já descolámos da Irlanda nesse domínio»;
  • Teixeira dos Santos - «Portugal é diferente da Irlanda e que traçou um caminho de consolidação e de políticas de reformas».
Cinco anos e três meses mais tarde, façamos um ponto de situação comparativa do tigre celta e do tareco lusitano. Pelo lado do tareco andamos embrulhados com a novela do orçamento da geringonça e com os multiplicadores de Costa-Centeno. Pelo lado do tigre as coisas têm o aspecto que os diagramas seguintes mostram:

Fonte:Trading Economics (Clicar para ampliar)


É claro que por detrás destes resultados houve alguma sorte no passado - eles são irlandeses e não foram governados pelo PSD-CDS – e muito mais sorte para o futuro – eles continuam a ser irlandeses e não têm o par Costa- Centeno e, principalmente, não têm uma gerigonça, so far.

18/07/2016

O tigre celta e o tareco lusitano (7) - Os felinos antes e depois da crise

[Sequela de (1), por sua vez sequela de O rugido do tigre vs o miado do gato, de (2), de (3), de (4), de (5) e de (6)]

Para começar e melhor entender o que vem a seguir, republico o quadro comparativo entre o tigre e o tareco com os dados de 1995 e 2011 pouco depois do início da crise.


E acrescento outro quadro com dados actualizados de vários anos posteriores ao início da crise que podem ser considerados marcos.


Note-se que a taxa de crescimento do PIB da Irlanda indicada para 2015 é antes da revisão recente que a elevou para 26,3%, por razões excepcionais que estão explicadas (por exemplo aqui).

Os indicadores falam tão alto que não julgo necessário acrescentar prosa. O que é que a Irlanda tem que Portugal não tem? Várias coisas. E o que tem Portugal que a Irlanda não tem? Várias coisas. Por exemplo, uma selecção de futebol que ganhou o Euro 2016, está em 6.º lugar no ranking mundial da FIFA e é 3.ª no ranking europeu, contra o 31.º lugar da Irlanda.

E o que é que tem o futebol de diferente do resto das actividades em Portugal? Várias coisas, entre as quais: uma regulação leve, concorrência nacional e internacional entre operadores e, sobretudo, um mercado de trabalho aberto, competitivo e internacional - deve ser a única actividade em Portugal em que as famílias, os partidos e as maçonarias não arranjam lugares na profissão do chuto para os seus filhos, camaradas e irmãos, respectivamente.

11/06/2014

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (7)

[Uma inesperada sequela deste post de há quase quatro anos onde glosava as patetices/mentiras descaradas (escolher conforme o gosto) de Cavaco Silva, Sócrates e Teixeira dos Santos.]

A agência de rating Standart & Poor’s reviu a semana passada a notação da Irlanda BBB+ para A- com outlook positivo, baseado na melhoria das previsões de crescimento e de um forte desempenho das exportações. A notação de Portugal mantêm-se em BB+ quatro níveis abaixo da Irlanda e não foi revista.

Uns dias antes do upgrade da Irlanda, o TC português chumbou com base nos princípios do costume várias medidas de redução da despesa.

Uns dias depois do upgrade, o Económico fez uma pergunta ao embaixador irlandês que respondeu: «podemos confirmar que nenhuma medida tomada pelo Governo da Irlanda na implementação do programa de ajustamento da União Europeia, Banco Central Europeu e FMI foi chumbada como sendo inconstitucionais».

Segundo o Económico, «parte importante da ausência de desafios legais teve a ver com os acordos amplos conseguidos entre o Governo e os parceiros sociais (o Croke Park Agreement, anterior à troika, que vigorou entre 2010 e 2014). Em troca de cortes até 10% nos salários públicos o Governo comprometeu-se a não despedir, nem a cortar mais os salários».

03/04/2011

O rugido do tigre vs o miado do gato

No passado sábado o Expresso publicou mais um número da série Portugal vs outro país. Depois da Bélgica, da República Checa e do Chile, foi a vez da Irlanda. A Irlanda com menos de metade da população tem um PIB quase igual ao português, uma carga fiscal das empresas metade da portuguesa, está 17 lugares acima de Portugal no ranking da competitividade, tem um excedente de 15% do PIB na balança comercial, contra um défice português de 8%, tem uma desigualdade menor do que a de Portugal, sem esquecer que em 20 anos partiu de um PIB per capita quase igual ao português para ter actualmente o dobro. O seu sistema bancário está de rastos enquanto o nosso lá vai rastejando muito à custa do negócio de emprestar ao Estado a taxas de 4 a 6% e pedir emprestado ao BCE a 1%.

Face a este versus o que concluem os pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam do Expresso? «O tigre já não ruge» e nada dizem sobre os miados do tareco lusitano. E o que pensa disso o grande pensador do regime Freitas do Amaral? «A Irlanda, hoje, não é exemplo para ninguém». Para ninguém? Para Portugal ainda pode ser um exemplo?

13/07/2015

Mitos (206) – A oposição à «ajuda» da Zona Euro à Grécia vem de Portugal, Irlanda e Espanha (2) (Actualizado)

Já aqui desmistifiquei este mito, o qual, como todas as mentiras, para alcançar profundidade tem de trazer à mistura alguma coisa de verdade, disse e bem o poeta Aleixo. E aqui a mentira com alguma coisa de verdade são as razões de sobra que Portugal, Irlanda e Espanha têm contra a «discriminação positiva» (tive de conter um vómito para escrever esta expressão) de que a Grécia tem beneficiado com um haircut de mais de 100 mil milhões de euros e taxas de juros inferiores às dos outros PIGS.

Razões que, contudo, o trio se tem abstido de vocalizar. Mas não são apenas aqueles três que têm razões contra a «discriminação positiva». Todos os países mais pobres do que a Grécia têm razões para apontar o dedo às chantagens do governo Syriza-Anel, tais como Bulgária, Chipre, Croácia, Eslováquia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa e Roménia.

O governo grego deveria ler o artigo do Politico «Berlin isn’t the only roadblock for Greece»: «The prospect of providing more funding for Greece and deferring to its demand for a reduction of its outstanding debt — a crushing 180 percent of GDP — is an especially sore point in eurozone countries that have gone through deep recessions of their own and struggled back to economic health, often by taking the same austerity medicine so fiercely resisted by the Greeks.»

E, sobretudo, deveria o governo grego adoptar o conselho: «To get a deal, Athens must make its case not to Paris and Berlin, but also to Riga, Tallinn, Dublin and other capitals».

Actualização:

Eslovénia, Estónia, Irlanda e Portugal, «vacilantes» segundo o Guardian (um jornal com inclinação socialista).


As posições dos países da Eurozona segundo o Royal Bank of Scotland (apud Insurgente).


26/11/2010

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (2)

Pelas razões que tentei expor no post anterior, o tele-evangelista Louçã está, infelizmente, completamente equivocado no seu «já se vê para onde vamos, vamos a caminho da desgraça irlandesa». O equívoco é tão evidente que confrontado com o trilema de Žižek sou forçado a considerar o professor de economia Louçã desonesto ou burro, isto é desonesto se inteligente e burro se honesto.

Ao elenco das diferenças entre Portugal e Irlanda, a cujo propósito remeto para este artigo de Miguel Frasquilho (espero que os Espíritos seus patrões não lhe puxem as orelhas por escrever heresias),  ainda acrescento as seguintes:
  • À dívida pública portuguesa é preciso adicionar pelo menos 30 mil milhões de dívidas das empresas públicas e 50 mil milhões de compromissos com as PPP, tudo por junto 50% do PIB;
  • O salário mínimo irlandês será reduzido de 12%, e ainda assim ficará a valer 2,7 vezes o salário mínimo português;
  • Em vez de engenharias orçamentais para reduzir o défice comprometendo a sustentabilidade da segurança social (transferência do fundo de pensões da PT), o governo irlandês apresenta ao parlamento medidas que envolvem cortes efectivos e significativos da despesa (despedimento de 25 mil funcionários públicos e 3 mil milhões de benefícios sociais a menos); e last but not least
  • «Portugal is the victim of an orchestrated calumny intended to divert attention from a bankrupt Britain, or America. The rating agencies are deemed agents of Anglo-Saxon hegemony.»
Em desespero de causa, para melhor percebermos a diferença entre a Irlanda e Portugal, ajudará recordar a profundidade da crise financeira de 1997 na Coreia do Sul, a sua rápida recuperação nos anos seguintes e o vigor actual da sua economia. Ao fazê-lo, cedendo à facilidade em benefício dos distraídos, poderíamos caricaturar a comparação e fazer equivaler a Irlanda de 2010 à Coreia do Sul de 1997, o Portugal de 2010 à Coreia do Norte de 1997, ou qualquer outro ano, e José Sócrates ao querido líder Kim Jong-Il.

Moral da estória das diferenças: a desgraça irlandesa faria a nossa felicidade.

15/11/2013

O tigre celta e o tareco lusitano (3)

Sequela de (1), por sua vez sequela de O rugido do tigre vs o miado do gato, e de (2)

«Gastámos muito tempo a ganhar a liberdade para gerir os nossos próprios assuntos. E não faz muito sentido ter liberdade política, se não se tem liberdade económica e financeira. Isto restaura a liberdade económica e financeira», disse o ministro das Finanças irlandês Michael Noonan antes de informar o Eurogrupo que no próximo mês, quando terminar o programa de resgate da troika, a Irlanda passará a financiar-se nos mercados sem qualquer apoio.

Acrescentou que, apesar de não ter ficado feliz por a troika aterrar em Dublin, «ajudaram muito, e foram pessoas muito simpáticas. Creio que quando a história for escrita eles serão vistos como tendo ajudado muito.»

Entretanto, o tareco lusitano continua a discutir se pede outro resgate, se não paga a dívida, se pede um programa cautelar, ainda que não saiba bem o que isso seja.

É oportuno recordar, agora que a Irlanda está a sair do resgate, as palavras de há dois anos do grande pensador do regime Freitas do Amaral, actualmente atrelado ao Dr. Soares na defesa do manual de direitos adquiridos: «A Irlanda, hoje, não é exemplo para ninguém».

12/12/2009

SERVIÇO PÚBLICO: os irlandeses deviam aprender connosco

A Irlanda, apontada pelos nossos prosélitos do Estado Social como um bom exemplo das desgraças com que os deuses do intervencionismo castigam os pecados do liberalismo, tomou um valente trambolhão e terá perdido quase 10% do PIB este ano, enquanto o virtuoso Portugal perderá provavelmente menos de 3%. É o merecido castigo da Irlanda que há 20 anos tinha um PIB per capita igual ao de Portugal e imediatamente antes do desabar da crise financeira já tinha o dobro. Agora, justamente punida por não ter usado a receita portuguesa para o desenvolvimento e só ter uns 200 km de auto-estradas, a Irlanda já não tem o dobro de PIB per capita português - terá prá aí uns 190 e tantos por cento. Bem feito.

Não satisfeitos com as asneiras que fizeram, em vez de seguirem a receita portuguesa do investimento público virtuoso em auto-estradas, aeroportos e TGV, os descendentes dos comedores de batata resolveram pôr em prática um plano radical de corte da despesa pública, com completo desprezo pelos direitos adquiridos, a começar pelos salários dos funcionários públicos que serão reduzidos de 5% a 10%, a continuar com os ministros que terão uma redução de 15% e a acabar com o primeiro-ministro que terá um corte de 20%. Acrescentam às asneiras não aumentar os impostos, salvo um novo imposto sobre os combustíveis que vai tornar mais caro passear numas poucas centenas de km de auto-estrada que possuem.

Não há nada a fazer com eles.

30/12/2009

SERVIÇO PÚBLICO: os irlandeses deviam aprender connosco (3)

A respeito da falta de atenção que a Irlanda dedica às políticas de investimento público em elefantes brancos do engenheiro Sócrates, aqui e aqui já referida, no artigo «A Irlanda, outra vez», Miguel Frasquilho faz uma retrospectiva do processo que levou este país da posição que partilhava com Portugal nos últimos lugares da União Europeia nos anos 80 até ao segundo nível de vida mais elevado. Faz também uma referência às seguintes medidas que o governo vai pôr em prática:
«… o Governo irlandês pretende implementar um plano draconiano de cortes na despesa, que inclui a descida dos salários na Administração Pública, a redução de benefícios sociais (Segurança Social, subsídio de desemprego, abono de família, sistema de saúde), o aumento da idade de reforma para os funcionários públicos de 65 para 66 anos, e a diminuição do investimento público. Ao todo, uma queda prevista da despesa pública superior a EUR 4 mil milhões em 2010 face ao valor estimado para 2009 (cerca de EUR 77 mil milhões, 46.9% do PIB)… a que se seguirá nova queda, de cerca de EUR 2 mil milhões em 2011. É particularmente impressivo o corte de 10% que, em média, sofrerão os cerca de 400 mil funcionários públicos irlandeses em 2010… E como o exemplo vem de cima, o primeiro-ministro verá o seu salário reduzido em 20% (!) e os ministros em 15%... Do lado da receita, merece destaque a introdução de uma taxa ambiental (de carbono) sobre os combustíveis, que deverá render cerca de EUR 500 milhões… mas, ao mesmo tempo, a Irlanda ainda arranjou espaço para descer a taxa normal do IVA, de 21.5% para 21% (uma pequena ajuda à economia doméstica). E mantém como ponto de honra não subir a taxa de IRC, que continuará a ser de 12.5% (muito atractiva para investidores).»
Dentro de 2 ou 3 anos, quando os portugueses estivem a tentar perceber como foram levados pelas patranhas do senhor engenheiro, na melhor hipótese, ou, na pior e mais provável, quando os portugueses ainda estiverem a remoê-las, já os descendentes dos comedores de batatas descolaram outra vez.

30/12/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (4)

Outros portugueses no topo do mundo.
  • «Oito restaurantes portugueses na lista dos melhores do Mundo» (TVI24)
  • «Oito restaurantes portugueses na lista dos melhores do mundo» (Observador)
  • «Oito restaurantes portugueses entre os melhores do Mundo» (DN)
  • «Oito restaurantes portugueses que figuram nesta classificação» (Económico)
  • «Restaurante da Casa da Calçada e The Yeatman juntam-se aos seis espaços portugueses que já integravam o ranking dos mil melhores restaurantes do mundo» (Público)
La Liste, uma iniciativa de Laurent Fabius, um antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, apresenta uma colecção de mil restaurantes de 165 países que em média têm 6 restaurantes na lista. O facto de se encontrarem na lista oito restaurantes portugueses está a ser muito celebrado pela imprensa.

Um pouco ao acaso, seleccionei os seguintes países da lista e indico o número de restaurantes e a respectiva população: Espanha (68; 46 milhões), Suíça (39; 8 milhões), Bélgica (24; 11 milhões), Holanda (22; 17 milhões), Áustria (19; 9 milhões), Suécia (14; 10 milhões), Israel (11; 8 milhões), Irlanda (9; 5 milhões), Marrocos (12; 33 milhões), Nova Zelândia (9; 5 milhões), Eslovénia (5; 2 milhões),  Barém (4; 1,5 milhão); Reunião (4; 0,8 milhões), Mónaco (4, 0,03 milhões).

Nessa lista encontramos países com população comparável à portuguesa (Suíça, Bélgica, Áustria, Suécia, Israel, Irlanda e Nova Zelândia), todos com mais restaurantes na lista. Encontramos os nossos vizinhos com o dobro da "densidade" de restaurantes, encontramos países microscópios com 4 restaurantes e encontramos países que a maioria dos portugueses imagina que nem sabem comer como Suécia, Irlanda, Nova Zelândia, todos com mais restaurantes na lista.

Por isso, pergunto: o que tem de extraordinário um país europeu, com 10 milhões de habitantes convencidos que têm a melhor comida do mundo, ter oito restaurantes na lista? Tem três coisas extraordinárias. A primeira é só ter oito restaurantes na lista. A segunda é a imprensa desse país não achar extraordinário serem só oito. A terceira é que os portugueses em geral serem portadores de um tal complexo de inferioridade que precisam que lhes soprem constantemente o ego murcho.

14/04/2008

SERVIÇO PÚBLICO: As coisas não estão tão mal que não possam ainda piorar

Também convém lembrar que enquanto o PIB per capita em unidades de poder de compra (u.p.c.) em 2006 (últimos dados disponíveis do Eurostat) era em Portugal de 75% da média europeia, o mais baixo da zona euro e em queda nos últimos anos, a Espanha e, já agora, a Grécia (que durante anos disputou com Portugal a lanterna vermelha) tinham um PIB per capita em u.p.c. praticamente igual ao da média.

Não queria falar da Irlanda que há 20 anos estava ao nível de Portugal, não tinha uma única auto-estrada (Portugal arrisca-se a ser o campeão das auto-estradas no final do ciclo socrático do betão), e agora tem uma centena de kms de auto-estradas e um PIB per capita em u.p.c. que é 1,5 da média europeia, ou seja o dobro do português. Já que já falei da Irlanda, sempre acrescento que as coisas não melhoram quando, em vez do PIB, se toma por base da comparação o Produto Nacional Bruto (PNB), que é o produto criado por nacionais, residentes ou não residentes, apesar de quem defende que uma parte significativa da rendimentos gerados na Irlanda são repatriados. Foi o que há tempos Miguel Frasquilho demonstrou em dois artigos publicados no Jornal de Negócios: «A realidade do PNB escondida pelo PIB» (I) e (II).

[Clique para ampliar]

18/02/2023

ARTIGO DEFUNTO: Com parte da verdade nos tentam enganar

A prosa enganadora

Apenas um exemplo entre as dezenas que o jornalismo amigo plantou nos periódicos do Portugal dos Pequeninos:
«Depois de alcançar um dos crescimentos mais fortes da União Europeia em 2022 - apenas atrás da Irlanda -, a economia portuguesa vai perder pedalada este ano, abrandando para 1%, ficando a meio da tabela, mas ainda acima da média.»

Raquel Moleiro, Jornalista, newsletter Expresso Curto
Os factos
  • A comparação com a Irlanda é simplesmente ridícula, como se vê nos gráficos seguintes.

  • Em 2020, Portugal foi o sexto país cuja economia mais encolheu (-8,3%), bem abaixo da média UE (-5,7%). 
  • Em 2021 o crescimento foi 5,5%, apenas dez pontos-base acima do crescimento médio (5,4%), pelo que entre 2019 e 2021 Portugal caiu 2,5% em relação à UE. 
  • Em 2022, Portugal com 6,7%, acima da média de 3,5% da UE, teve de facto o segundo crescimento depois da Irlanda, apenas porque devido à invasão da Ucrânia todos os países do Leste que habitualmente crescem mais tiveram as suas economias fortemente afectadas pela guerra. 
  • Em 2023, a CE prevê que Portugal com 1,0% tenha o décimo primeiro crescimento, 20 pontos-base acima da UE.
  • Em 2024, a CE prevê que com 1,8% Portugal tenha o décimo crescimento mais baixo ultrapassado por todos os países do Leste.

28/03/2012

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A longo prazo estamos todos mortos? Pois, podemos estar até a médio prazo.

Entre 2010 e 2025 o PIB de Portugal crescerá a uma miserável taxa média de 1%, metade do que se verificará nos casos da Irlanda, Espanha ou mesmo da Grécia, repetindo--se a triste história dos últimos 15 anos.

Grande parte da nossa elite sente um tolo prazer ao citar com frequência e aprovação a desprezível frase de Keynes: "a longo prazo estaremos todos mortos". Porém, quer do ponto de vista do diagnóstico, quer no âmbito da formulação de medidas de correcção eficazes, a perspectiva do longo prazo não pode deixar de prevalecer na abordagem da crise portuguesa.

As expectativas de longo prazo determinam agora as decisões nos mercados internacionais e explicam em grande parte as actuais dificuldades dos nossos poderes públicos em fazer baixar no mercado os juros de dívida soberana.

A actual crise veio realçar, com estrondo e sofrimento, a força de importantes mudanças na estrutura económica que reforçaram a influência do longo prazo nas decisões corrente de curto prazo: o aumento da esperança de vida, a redução do perímetro da família relevante, aumento do peso do Estado e do sistema público de protecção social, a crescente interligação entre a banca e os poderes públicos, o aumento do peso do sector financeiro no PIB e a importância dos movimentos internacionais de capitais.

As melhores projecções de longo prazo para a economia portuguesa são motivo de grande preocupação.

O elemento mais marcante das perspectivas económicas portuguesas de longo prazo é o decrescimento absoluto e relativo da população portuguesa. A fertilidade de 1,31 em 2010 descerá em 2015 para 1,30, ao contrário da Espanha que passará de 1,50 para 1,59 ou da Grécia de 1,54 para 1,61.

Entre 2010 e 2025 o PIB de Portugal crescerá a uma miserável taxa média de 1%, metade do que se verificará nos casos da Irlanda, Espanha ou mesmo da Grécia, repetindo-se a triste história dos últimos 15 anos. As projecções para 2050 não oferecem cenário diferente.

A população portuguesa entrou numa trajectória demográfica decadente que nos pode levar a ter no fim do século menos população do que a Irlanda, quando há 30 anos esta era 1/3 da nossa e hoje ainda é menos de metade.

Antes de tudo, o factor demográfico condiciona as perspectivas de crescimento e torna ilusórias a esperança de convergência económica com a Europa. A decadência demográfica não está desligada da ausência de dinamismo económico dos últimos 15 anos que levou a uma quebra da esperança das famílias e da natalidade.

Há uma hipótese que não pode deixar de ser colocada com enfâse. As opções de política social – nomeadamente o desprezo pelas medidas de protecção social visando directamente a família, a criança e a habitação – deverão ter contribuído fortemente para a retracção demográfica portuguesa. O sistema de protecção social português está orientado para o desincentivo à poupança e ao reforço dos laços sociais nas famílias. Na verdade, os montantes visando a protecção da família e da criança assumem montantes absolutos e relativos muito baixos, no caso da habitação um valor quase evanescente (0,003% do PIB).

A dependência cada vez mais forte ente o curto e o longo prazo é incontornável e os nossos credores sabem-no e olham cada vez mais para aí.

O longo prazo – contra o qual tantos se benzem - existe e condiciona o presente.

Clicar para ampliar

«A vingança do longo prazo», Avelino de Jesus no Negócios Online

09/09/2014

O tigre celta e o tareco lusitano (5) – De como o professor João Ferreira do Amaral transforma o segundo no primeiro à custa de injecções

[Este post é uma sequência ilógica da série «O tigre celta e o tareco lusitano»]

«Aliás, não tenho isto estudado é apenas um ‘feeling', mas Portugal até poderia ser um caso sério de crescimento económico na União Europeia se tivesse esta ajuda cambial. Podia ser um verdadeiro tigre da Europa como foi a Irlanda, que aliás desvalorizou muito a sua moeda antes de entrar na moeda única e antes do tal milagre económico irlandês.» Foi o que disse o professor João Ferreira do Amaral entrevistado pelo Económico.

Numa questão desta magnitude, confessar que não estudou e só tem um «feeling» é ao mesmo tempo de uma grande honestidade e de uma grande irresponsabilidade por parte de um membro da economia mediática, que tem a seu favor ter sido dos pouquíssimos a ter apontado os riscos de uma economia como a portuguesa adoptar a disciplina monetária e fiscal imposta pela Zona Euro.

O certo é que nem é preciso muito estudo para concluir ser necessária uma dose considerável de fé para acreditar no milagre que a «ajuda cambial» faria a Portugal, a partir de uma hipotética saída do Euro, milagre que não fez durante mais de 2 décadas em que o melhor resultado foi 75% do PIB per capita ppc da Irlanda e com o euro pelo meio ainda desceu para 60%. E já nem falo do que se está agora a passar com a retoma do crescimento e o yield a 2 anos da Irlanda inferior a zero. Para arrumar o assunto reproduzo o quadro deste post do ano passado.


Ó senhor professor, perdoe-me a franqueza, mas para fazer de um tareco um tigre não chega abandonar o tareco à sua atávica indisciplina monetária e fiscal.

16/11/2011

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Irresistível

Nós, aqui no (Im)pertinências, temos um particular gosto em desfazer ideias feitas. Quaisquer ideias feitas e, em particular, ideias feitas na fábrica de ideias feitas da esquerdalhada. Por isso, espero a indulgência de O Insurgente pela apropriação integral deste post que «I wish I had written (there is no higher praise)» – para usar a boutade egotista de Krugman a propósito de um paper de Paul De Grauwe.

«Mito: A origem da dívida pública está no salvamento dos depósitos do BPN, nas ajudas aos restantes bancos e em gastos com a Defesa Nacional como a compra dos submarinos.
Realidade: Os gastos com a defesa constituem menos de 2% do total do orçamento para 2012. Mesmo assumindo que todos os custos incorridos com o BPN e a compra dos submarinos foram financiados por dívida, o custo dos submarinos corresponde a 0.5% do total de dívida pública e do salvamento dos depósitos do BPN de cerca de 3% do total da dívida. A maioria esmagadora dos gastos do estado, e consequentemente as fontes da dívida pública, são com Segurança Social, Educação e Saúde. Esta é a realidade em Portugal e na Grécia. Apenas no caso da Irlanda se pode dizer que foi o salvamento aos bancos locais que despoletou a crise.


Mito: A austeridade é uma forma de defender os bancos, punindo a população em geral
Realidade: Os bancos de países como a Grécia e Portugal estão já absolutamente descapitalizados. Como resultado desse processo, os principais bancos portugueses valem neste momento um décimo do que valiam há 2 anos atrás, ou seja, os accionistas desses bancos perderam 90% das suas poupanças. Foram eles quem até hoje mais perdeu com a crise da dívida soberana. O dinheiro que hoje vai para os bancos, embora não seja esse o objectivo assumido, é basicamente para garantir o dinheiro dos depositantes. Esse dinheiro é aplicado maioritariamente em dívida pública, e se essa dívida não for paga, os depositantes correm o risco de perderem o seu dinheiro. Qualquer default do estado irá também fazer com que o estado não seja capaz de obter empréstimos por muitos anos. Se a austeridade exigida para atingir défices de 5% é penosa, mais penosa será a austeridade necessária para ter défice zero.


Mito: Os bancos orquestaram a crise para poderem emprestar dinheiro a juros altos enquanto obtêm financiamento do BCE a 1%
Realidade: Os empréstimos do BCE aos bancos são por um dia, renováveis e mediante colateral. Os empréstimos dos bancos ao estado são feitos por prazos prolongados (1, 2, 5 e 10 anos) e sem colateral, pelo que o risco é muito superior. Como prova desse risco, os bancos que emprestaram dinheiro à Grécia perderam metade do montante emprestado.

Mito: A crise da dívida só se resolve se os estados lançarem políticas expansionistas que façam crescer a economia
Realidade: Foram as políticas expansionistas e os défices constantes que trouxeram países como a Grécia e Portugal à actual situação. Se políticas Keynesianas de expansão do investimento e défice das contas públicas funcionassem, nem a Grécia, nem Portugal estariam na actual situação. Ambos os países apresentarem défices públicos de forma permanente nos últimos 10 anos e nem por isso cresceram mais que os seus pares que mantiveram contas equilibradas. Investimentos públicos como o Euro2004 em Portugal e os Jogos Olímpicos na Grécia apenas deram um empurrão temporário à economia, de imediato invertido nos anos seguintes. Pelo contrário, a Irlanda que lançou um plano de austeridade mais cedo e mais agressivo que o Português, já está hoje novamente a crescer e a equilibrar as suas contas. A única forma de relançar a economia é voltar a ter contas equilibradas para que se possam baixar impostos e incentivar o investimento privado.

Mito: Roosevelt resolveu a depressão de 1929 com políticas expansionistas, impondo grandes défices nas contas públicas, e é essa a estratégia que os países europeus devem seguir
Realidade: Muitos académicos contestam que as políticas levadas a cabo por Roosevelt tenham de facto resolvido a Grande Depressão. Alguns estudos apontam para que apenas a tenha prolongado. Mas mesmo assumindo que tal seja verdade, convém notar que o maior défice público incorrido por Roosevelt durante o New Deal foi de 5.5% em 1936. Por comparação, em 2010 Portugal teve um défice de 10.1% e a Grécia de 15.8%. É errado chamar expansão a um défice de 5.5% mas depois reclamar de austeridade quando são impostos défices superiores na Grécia e em Portugal.


Mito: Os mercados são uma entidade bem definida, dominado por poucos agentes com um plano maquiavélico para destruir a Democracia e tomar conta do Mundo
Realidade: Os “mercados” são constítuidos por todos os aforradores e seus representantes que escolhem a melhor forma de aplicar as suas poupanças. A taxa de juro das dívidas soberanas sobe se esses aforradores duvidarem da capacidade de pagamento desses países e por isso se recusem a emprestar-lhes dinheiro. A recusa de muitos investidores em emprestar dinheiro à Grécia que nos últimos dois anos fez aumentar a taxa de juro exigida, acabou por revelar-se certeira, uma vez que a Grécia acabou por acordar não pagar metade dessa dívida.


Mito: Os mercados têm uma intervenção malévola na democracia, sendo as recentes situações na Grécia e Itália um bom exemplo disso
Realidade: O processo democrático levou a uma situação de insustentabilidade financeira para alguns países. Terá que ser o mesmo processo democrático a resolver essa situação. A mudança de líderes na Grécia e na Itália, que foram aprovadas pelos parlamentos eleitos democraticamente, visa atingir esse objectivo. Dizer que os mercados são inimigos da democracia porque os investidores não emprestam dinheiro a líderes que não confiam é o mesmo que dizer que a Física é inimiga da democracia porque não permite que seja revogada a lei da gravidade.


Mito: As agências de rating são culpadas pela crise da dívida soberana por terem baixado os ratings de dívida soberana dos países e dessa forma aumentado os juros da dívida
Realidade: Se alguma culpa pode ser atribuida às agências de rating foi não terem feito downgrade da dívida soberana de países como Portugal e a Grécia mais cedo. Quando os downgrades foram feitos a países como Portugal e a Grécia, já os aforradores e os seus representantes se recusavam a emprestar dinheiro a esses países. Em segundo lugar, nada impede os investidores de continuar a comprar dívida soberana depois de um downgrade se acharem que realmente o país tem capacidade de pagar. Um bom exemplo disso são os EUA que depois de um downgrade de uma agência de rating conseguiram obter empréstimos a uma taxa de juro ainda mais baixa que antes do downgrade.»

23/02/2015

SERVIÇO PÚBLICO: A Irlanda não é Portugal e Portugal não é a Grécia

Evolução dos yields nos últimos 12 meses das OT a 10 anos da Irlanda, Portugal e Grécia (Fonte: Bloomberg)

16/06/2013

ARTIGO DEFUNTO: Um jornalista bom, no género mau

O director do Expresso Ricardo Costa é em minha opinião um dos melhores jornalistas de causas, no sentido de aviar as suas causas com inteligência e subtileza suficientes para parecer que está a fazer um jornalismo profissional. Contudo e inevitavelmente, com alguma frequência, acomoda os factos às causas com alguma falta de jeito.

18/02/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Alguns factos e opiniões desalinhadas sobre o resgate da Grécia


«A realidade tem sempre o problema de estragar algumas supostas boas ideias revolucionárias. Uma delas é a pequena utopia de que um eleitorado de 10 milhões de habitantes de um país que tem a evasão fiscal e a pequena corrupção bem impregnada no seu dia-a-dia iria mudar o rumo político da União Europeia. Outra, que é a versão da mesma moeda, é a fantasia de que um país que já vai no segundo programa de resgate financeiro sem cumprir acordos básicos poderia convencer os seus credores a perdoarem boa parte da sua dívida. A Grécia, que já teve direito a privilégios que Portugal e a Irlanda não tiveram, virou-se para a extrema-esquerda para pressionar a Europa mas teve um choque frontal com a dura realidade: não há almoços grátis.

Ontem o Eurogrupo mostrou aos gregos que o seu voto não tem mais valor do que os votos dos restantes países europeus. Um país não vale mais do que 18 – é uma aritmética simples que escapa ao raciocínio dos revolucionários amigos do Syriza. Muito menos quando a Grécia suspendeu uma avaliação da troika e quer cometer a pequena loucura de recusar a próxima tranche quando fica sem dinheiro daqui a 15 dias.»

Luís Rosa no Jornal i

«Com os seus mercados tradicionais a crescer e os salários fortemente reduzidos, as exportações gregas não crescem.

Em preços constantes de 2010, em 2008 as exportações da Grécia eram de 58,9 biliões de euros e as portuguesas 54,7 biliões de euros. Em 2014 as posições estão invertidas: as gregas são 55,8 biliões de euros e as portuguesas 65,5 biliões de euros. Por todo o lado (veja-se a tabela anexa) as exportações estão, após o tombo pós-crise, em franca recuperação. A Grécia é das poucas excepções.

De facto, as reformas estruturais desenhadas no papel pela Troika não foram implementadas. Continuam as dificuldades burocráticas nas exportações. O controlo do Estado e das corporações parasitárias sobre a economia continua forte, em particular as restrições no mercado de produtos que se estendem à exportação. Apesar da elevada despesa pública, não conseguiram construir um Estado social decente. Por exemplo, ainda andam às voltas para implementar o elementar rendimento mínimo.

O problema grego não está na governança das instituições europeias, mas na grega.

As facilidades obtidas pelo governo grego, em tão elevado montante e durante tanto tempo, justificariam outros resultados, tanto no plano económico como no social.»

Avelino de Jesus, professor do ISEG, no Jornal de Negócios

«Uma diferença fundamental reside nos fundamentos económicos. Ao longo dos últimos dois anos, outros países periféricos da Zona Euro têm provado a sua capacidade de ajustamento, ao reduzirem os seus défices orçamentais, aumentarem as exportações e registarem excedentes em conta corrente, negando, assim, a necessidade de financiamento. Na verdade, a Grécia é o único país que tem constantemente arrastado os pés sobre as reformas e registado um péssimo desempenho ao nível das exportações.

Na verdade, as exigências do governo grego baseiam-se num mal-entendido. Para começar, o Syriza e outros argumentam que a dívida pública da Grécia, de 170% do PIB, é insustentável e deve ser cortado. Dado que a dívida oficial do país constitui a maior parte da sua dívida pública global, o governo quer vê-la reduzida.

Contudo, os credores oficiais da Grécia concederam-lhe períodos de carência bastante longos e taxas de juros bastante baixas, pelo que o encargo é suportável. A Grécia gasta menos com o serviço da dívida do que a Itália ou a Irlanda, sendo que ambos os países têm rácios (brutos) da dívida em relação ao PIB muito mais baixos. Com os pagamentos da dívida externa da Grécia a representar apenas 1,5% do PIB, o serviço da dívida não é o problema do país.

O custo relativamente baixo do serviço da dívida também anula as justificações do Syriza para apelar ao fim da austeridade. O último programa de resgate da "troika" (Fundo Monetário Internacional, BCE e Comissão Europeia), iniciado em 2010, prevê um excedente primário (que exclui o pagamento de juros) de 4% do PIB este ano. Isso seria um pouco mais do que o necessário para cobrir os pagamentos de juros, o que permitiria à Grécia começar finalmente a reduzir a sua dívida.»

Daniel Gros do Centro de Estudos Políticos Europeus, no Jornal de Negócios