Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

13/12/2019

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (91) – Is he hopeless? Definitely

Backward, comrades!
Mais do que uma claríssima vitória de BoJo e dos Tories (o melhor resultado desde Thatcher), estas eleições foram uma estrondosa derrota de Jeremy Corbyn (o pior resultado dos Trabalhistas desde 1935). Um Corbyn sobre o qual já aqui escrevemos que, visando enterrar o New Labour de Blair, iria enterrar o Old Labour, que defendia as minas de carvão para todos e carruagens só para mulheres, que era ambíguo em relação ao terrorismonão era credível, era apoiado por grupúsculos esquerdistasinspirava-se no socialismo bolivariano, era "nacional socialista" (esta era uma piada) e um esquerdista senil.

Derrota estrondosa, apesar de Corbyn ter prometido no seu Manifesto que o governo Trabalhista proporcionaria aos britânicos o céu na terra: Revolução Industrial Verde, salário mínimo de 10 libras por hora, Serviço Nacional de Educação, aumento do financiamento do SNS incluindo dentista e medicamentos gratuitos, banda larga grátis, etc. Um longo etc. que incluía a nacionalização de uma boa parte da economia.

Economist

Podemos confirmar que era tudo isso que escrevemos e ainda acrescentar que Corbyn é um demagogo, felizmente mal sucedido porque o eleitorado britânico foi suficientemente maduro para não lhe dar crédito. Em particular, uma parte da "working-class", um bastião tradicional dos trabalhistas, abandonou Corbyn e votou nos conservadores, como se pode ver no diagrama acima. Foi provavelmente o preço da ambiguidade de Corbyn em relação ao Brexit.

O "capitalismo" de Estado não é capitalismo, é comunismo de "mercado"

«Quando a NBA recuou em Outubro para apaziguar Pequim após uma chuva de protestos em Hong Kong, a liga de basquetebol foi criticada por se submeter a um regime autoritário. Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets, num tweet (posteriormente apagado) escreveu: "Lute pela liberdade, fique com Hong Kong". Isso levou a China a suspender as transmissões da NBA na pré-temporada, a retirar patrocinadores dos jogos no país e a romper os laços com os Rockets.

Diante da perspectiva de um tweet que desfaz décadas de trabalho para promover o crescimento no mercado externo mais importante da NBA, a liga capitulou. Mas a decisão da associação de basquetebol de seguir a linha do Partido Comunista Chinês (PCC) está longe de ser a excepção. Longe da humilhação pública da NBA, a China está a recorrer a um mecanismo pouco usado anteriormente para controlar silenciosamente as relações com marcas e empresas estrangeiras que operam na China, afirmam especialistas. E cada vez mais empresas internacionais estão silenciosamente a atender às exigências do PCC.

O mecanismo usado é um comité do partido que opera em empresas e instituições privadas e estatais, cujos membros são escolhidos tanto pelo partido quanto pelas empresas em questão. Oficialmente, esses comités existem para permitir que as empresas se mantenham melhor informadas sobre as mudanças legais e regulamentares e actualizadas com o clima político na China. No entanto, eles são cortinas para esconder a influência cada vez maior que o partido exerce sobre as empresas que operam no país, afirmam especialistas.

Até há 18 meses atrás, esses comités do partido eram em grande parte simbólicos, mas até o final do ano passado, em 106.000 empresas estrangeiras tinham sido criados comités do PCC, totalizando 70% das empresas que operam na China, segundo o Departamento de Organização do Comité Central. Isso representa um aumento de 125% em relação a 2011, quando o número era de 47.000. No geral, dos 2,7 milhões de empresas privadas da China no exterior e no exterior, 68% criaram um comité partidário, um aumento de 30% nos últimos cinco anos. Do Walmart à Walt Disney, vários gigantes americanos têm comités do partido na China.

"O PCC sempre demonstrou poder administrativo para reprimir ou punir empresas que não seguem a sua linha", diz Xin Sun, professor de negócios chineses e asiáticos do King's College. Mas esse poder tornou-se tornou cada vez mais proeminente sob o presidente Xi Jinping, diz ele. "E as empresas estão prestando mais atenção para não se envolverem em acções consideradas inaceitáveis ​​pelo partido".

Não há dúvida de que empresas, nacionais e estrangeiras, continuarão colidindo com as sensibilidades políticas da China. À medida que os laços entre o partido e as empresas se aproximam em sectores da segunda maior economia do mundo e a confiança das autoridades da China aumenta, seguir a linha do PCC será mais importante para empresas estrangeiras. E com o mercado consumidor chinês é vital para as indústrias globais - de bens de luxo à aviação - sair da linha pode ter consequências cada vez mais graves. 

Em alguns casos, esses resultados serão tornados espectacularmente públicos, como acontece com Morey e a NBA. Na maioria dos casos, os comités do partido garantirão que você nem venha a saber.»

Excerto de HOW CHINA MANIPULATES FOREIGN FIRMS na Ozi

É esta China dominada pelo PCC que o governo socialista considera um parceiro privilegiado com quem quer aprofundar relações.

12/12/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (24) - Meninas que os portugueses acolhem calorosamente

Outros portugueses no topo do mundo.

Salvo erro, foi esta a segunda vez que a Time colocou os portugueses no topo do mundo, ou seja na sua capa. Não, não é que a activista climática menina Greta Thunberg tenha adoptado a nacionalidade portuguesa. O que justifica a referência é a foto da capa da Time tirada na zona de Lisboa num cenário que é como que uma antecipação alegórica da submersão da costa portuguesa pela subida do nível do mar proveniente das mudanças climáticas causadas, segundo a menina Greta e as outras meninas, pelos «sistemas de opressão coloniais, racistas e patriarcais».

E qual foi a outra vez que a Time colocou os portugueses no topo do mundo? A outra vez foi a propósito de Bragança, ou, mais exactamente, a propósito das meninas brasileiras que praticavam boas acções nessa bela cidade. Nessa altura, a Time celebrou as meninas brasileiras na sua edição europeia de Outubro de 2003 num delicioso artigo com o título «When The Meninas Came To Town» que o (Im)pertinências acolheu com gosto num post baptizado de «As meninas do alterne são a alegria dum patriota».

E o que tem uma coisa a ver com a outra? Tem tudo a ver. A Time, as meninas estrangeiras, as boas acções, o acolhimento caloroso por portugueses em terras de Portugal e, principalmente, as impertinências.

A notícia de que a desigualdade está a aumentar muito é um pouco exagerada

A semana passada o outro contribuinte citou no post «E se a desigualdade resultar mais da diferença nos rendimentos do "trabalho" do que da diferença entre "ricos" e "pobres"» o artigo «Capital, Trabalho e Desigualdade» de Luís Cabral publicado no dia 30 do mês passado, que questionava o mantra da desigualdade crescente.

Por coincidência, a Economist dedicou o número da semana 30-11 a 6-12 ao tema «Inequality illusions» e incluiu nesse número o artigo «Inequality could be lower than you think», cuja versão abreviada pode ser lida aqui. Baseado e citando dados de vários estudos recentes, o artigo punha seriamente em dúvida esse mantra, e concluía:

«O facto de reivindicações duvidosas serem feitas sobre a desigualdade não reduz a urgência de combater a injustiça económica. Mas exige garantir que as suposições nas quais as políticas se baseiam sejam precisas. Aqueles, como o Partido Trabalhista da Grã-Bretanha, que são a favor da redistribuição radical do rendimento e da riqueza, devem ter certeza de que a desigualdade é tão alta quanto eles pensam - especialmente quando suas políticas trazem custos indirectos, como dissuasão de riscos e investimentos. Segundo uma estimativa, o imposto sobre a riqueza de Warren deixaria a economia americana 2% menor depois de uma década.

Até que esses debates sejam resolvidos, seria melhor para os formuladores de políticas pisarem um terreno mais sólido. Os mercados imobiliários do mundo rico estão a privar jovens trabalhadores de dinheiro e oportunidades; é necessária mais construção nos locais que oferecem empregos atractivos. A economia americana precisa de uma revolução na aplicação da lei antitrust para revigorar a concorrência. E, independentemente das tendências da desigualdade, muitos trabalhadores de alto rendimento, incluindo médicos, advogados e banqueiros, são protegidos da concorrência por regulamentação e licenciamento desnecessários, além de restrições sem sentido à imigração altamente qualificada, que devem ser afrouxadas.

Essa agenda exigiria que os governos combatessem os NIMBYS (Not In My Back Yard) e os lóbis corporativos. Mas reduziria a desigualdade e impulsionaria o crescimento. E os seus benefícios não dependem de um conjunto de crenças sobre rendimento e riqueza que podem vir a mostrar-se erradas»

Os problemas são vários: (1) do lado da oferta de opiniões muitos dos profissionais praticam a ciência de causas; (2) do lado da procura é muito mais fácil ter crenças do que torrar a mioleira a analisar os factos e a estudar os assuntos, e (3) a humana tendência para desprezar os factos que não confirmam as crenças.

11/12/2019

SERVIÇO PÚBLICO: "O falhanço do sistema constitucional americano não é um falhanço do sistema constitucional americano, é um falhanço das “sociedades humanas”

«Mesmo que acontecimentos e possíveis revelações posteriores levem os republicanos do Senado a votar para condenar Trump, o mero facto de que as provas já conhecidas não terem sido suficientes para que não restasse qualquer dúvida de que o condenariam, mostra que a república americana ainda “depende do acidente e da força”.

Se o resultado de um processo de “impeachment” e o seu julgamento no Senado depende não dos factos, mas da disponibilidade dos membros de um partido para serem cúmplices dos crimes que esses factos revelam, absolvendo o presidente que os ordenou e cometeu, isso significa que “o bom governo” está permanentemente refém das circunstâncias do dia (“o acidente”) e do peso eleitoral (“a força”) dos que estão no poder, em vez de repousar na “reflexão e escolha”.

Os leitores mais imbuídos de um espírito antiamericano talvez se tenham entusiasmado ao ler as linhas anteriores. Não deviam. Porque o falhanço do sistema constitucional americano não é um falhanço do sistema constitucional americano, é um falhanço das “sociedades humanas”, da natureza humana, e os países que (ainda) não sofreram o destino que os EUA estão a sofrer apenas tiveram mais sorte com os tais “acidentes” e equilíbrio de “força” a que foram sujeitos, e não arranjos constitucionais melhores.

E, diga-se de passagem, Portugal não tem razões para se incluir nesse lote de sortudos. Afinal foi aqui que alguém como José Sócrates foi protegido por todos ou quase todos, da maioria socialista ao sistema judicial, quando já era mais do que evidente o carácter corrupto da sua acção em casos como o da “licenciatura”, do bloqueio da CGD à OPA da Sonae à PT, ou da tentativa de tomada de controlo da TVI

Excerto de Acidente e força, Bruno Alves no Jornal Económico

Felizmente que ainda existem comentadores com erudição, clarividência e independência. Infelizmente são poucos e, receio, não são muitos os que os lêem e apreciam.

CASE STUDY: Trumpologia (54) - Têm ambos razão

Mais trumpologia.

«Sem surpresa, o advogado do Partido Democrata acusou Donald Trump de ter um “esquema” para obter “lucros políticos e pessoais” através dos seus contactos com o Presidente da Ucrânia, Volydymyr Zelensky. Já o advogado do Partido Republicano, mantendo uma linha já previamente defendida, referiu que este processo é o resultado da “obsessão” dos democratas em tirar Donald Trump da Casa Branca.» (Observador)

10/12/2019

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (32) - Se houvesse divergência política terminariam a reunião já no próximo século

Outras manifestações de paranóia/esquizofrenia

O problema está naquela manchinha vermelha
«Crise do Livre acabou ao fim de 22 horas de reunião e da audição de 11 personalidades (durante 19 horas e meia).

Afinal não há divergência política entre Joacine Katar Moreira e a direção do Livre». (...) 

Contas feitas e no final de 27 páginas de parecer,  (...)»

Mitos (299) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXII)

Outros posts desta série

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Um exemplo de lucidez e independência raro entre os militantes de causas ambientais (e, para ser honesto, igualmente raro entre os militantes do negacionismo) é o de Bjorn Lomborg, Director do Copenhagen Consensus Center. A demonstrar isso mesmo, escreveu há duas semanas no Project Syndicate um artigo desmistificando o alarmismo à volta da inundação resultante do degelo em várias partes do mundo. Aqui vai um excerto e a sugestão de ler o resto.

«As últimas notícias alarmantes sobre as mudanças climáticas são que enormes extensões de terra densamente habitada estarão submersas em 2050, com as suas cidades "apagadas". Esses relatórios - que apareceram no The New York Times e em muitos outros meios de comunicação - baseiam-se em bom trabalho de pesquisa de cientistas da Climate Central, mas eles entenderam mal a história.

Isso faz parte de um padrão prejudicial. A mudança climática é um problema criado pelo homem que precisamos resolver, mas muitas das notícias sobre seus supostos efeitos assustam-nos sem razão e enganam-nos sobre como agir.

O artigo, publicado no mês passado na Nature Communications, mostra que as estimativas anteriores do impacto do aumento do nível do mar estavam erradas, porque se baseavam em medições do nível do solo que às vezes incluíam erroneamente as alturas das árvores ou das casas. Por outras palavras, a vulnerabilidade ao aumento do nível do mar foi subestimada. Isso é importante.

Mas a mídia usou isso para criar uma visão distópica de 2050. O Times publicou um mapa aterrador mostrando que o sul do Vietname “quase desaparecerá” porque estará “debaixo d'água na maré alta”. O Times disse aos leitores: “Mais de 20 milhões de pessoas no Vietname, quase um quarto da população, vivem em terras que serão inundadas. ”E alertou para efeitos semelhantes em todo o mundo.

Esta notícia tornou-se viral. Bill McKibben, fundador da organização ambiental 350.org, twittou que "As mudanças climáticas estão encolhendo [o] planeta, da maneira mais assustadora possível". O cientista climático Peter Kalmus disse que já se preocupou em "ser rotulado como 'alarmista'", mas notícias como essa o fizeram adoptar o termo.

O que a mídia deixou de mencionar é que a situação no sul do Vietnã hoje é quase idêntica  à situação projectada em 2050


09/12/2019

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (9)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Ronaldo das Finanças, de bestial a besta...

Esta operação de mudança do género bom para o género mau a que está a ser submetido Centeno é muito esclarecedora sobre duas características deste PS: a instrumentalização do pessoal político fora do círculo de confiança de Costa e a correia de transmissão montada nos jornais.

«Centeno volta a falhar prazo para tornar as contas públicas mais transparentes» e «Tribunal de Contas acusa ministério de Centeno de falta de liderança na reforma das Finanças Públicas» são dois títulos impossíveis de ler até recentemente, ambos respeitando o mesmo facto conhecido há quatro anos: os chutos para a frente da reforma da contabilidade pública por um Ronaldo das Finanças a quem não interessa nada a transparência das contas. «Centeno do Eurogrupo censura esboço orçamental de Centeno», é outro título impossível, sobretudo de um dos Diários do Governo.

... mas ainda tem amigos...

... nalguns jornais que celebram com grande euforia o recuo de 252,3 para 251,4 mil milhões (0,36%) da dívida pública em Outubro. Recuo que é um avanço de 50 mil milhões desde o início do programa de resgate.

... e também no Expresso que lhe dedica duas páginas e meia ilustradas com três fotos 30x14cm num artigo com chamada na primeira página que é todo um desígnio «Centeno com porta aberta para no mandato no Eurogrupo». Porta aberta, porém, com um quid: «tem de continuar nas Finanças».

Sabendo-se que Centeno não é parvo e, uma vez falhada a sua candidatura ao FMI, sendo conhecida a sua vontade de presidir ao BdP (onde tem umas contas a acertar), é improvável que queira continuar nas Finanças, agora que estão praticamente esgotados os truques, está no horizonte a maldita realidade a caminho de fazer a cobrança e o governo do Dr. Costa precisa desesperadamente de derramar dinheiro em cima dos problemas. De onde talvez se deva concluir que com amigos destes o Dr. Centeno não precisa de inimigos.

08/12/2019

Eu também sou estúpido

«Aliás as pessoas estúpidas são tão estúpidas que não percebem como os mesmos políticos que falharam rotundamente quando, nos incêndios de 2017, o país viveu uma situação de emergência se propõem agora resolver nada mais nada menos que a emergência climática do planeta. Valha a verdade, e contra nós portugueses falo, se nos fiarmos no percurso do engenheiro Guterres, temos de admitir que é mais fácil ser bem sucedido a mandar no planeta que neste seu modesto rectângulo! É evidente que as idiossincrasias nacionais levam a que as nossas pessoas estúpidas sejam ainda mais estúpidas que as demais. Por exemplo, perante a magnitude do conceito da justiça climática qualquer estúpido português dirá que aquilo que ele queria mesmo era uma justiça que funcionasse em prazos e moldes humanamente razoáveis. Isto para não falar da desordem mental que alguns estúpidos experimentam quando constatam que o mesmo país, Portugal, que segue com entusiasmo militante as sessões do inquérito ao presidente dos EUA aceitou em silêncio que o presidente da república e o primeiro-ministro de Portugal não fossem interrogados a propósito do desaparecimento/achamento das armas de Tancos porque isso perturbaria o desempenho das suas altas funções.»

«As pessoas estúpidas», Helena Matos no Observador

Madama Butterfly, uma celebração do imperialismo americano, opressor, racista e patriarcal, exaltação da submissão e negação da emancipação do género oprimido

Transmissão do Met de Nova Iorque no Auditório do Mr Five per Cent 
Enquanto via no Met dos Tesos a Butterfly, com um Pinkerton frouxo e uma Cio-Cio-San respeitável numa produção vistosa do falecido Minghela, interroguei-me como seria vista esta ópera por um esquerdalho radical, praticante da religião anti-capitalista da identidade de género e das lutas climáticas. Tive uma epifania e escrevi o resultado no título.

07/12/2019

Países árabes no caminho de serem Estados seculares?

Arabs are losing faith in religious parties and leaders

«"NÃO À RELIGIÃO ou seita", gritam os manifestantes no Iraque. "Não ao Islão, não ao cristianismo, revolta pela nação", ecoam os do Líbano. Em todo o mundo árabe, as pessoas estão a voltar-se contra os partidos políticos religiosos e os clérigos que os ajudaram a chegar ao poder. Muitos parecem estar a abandonar o Islão também.

Essas tendências são reflectidas em novos dados do Arab Barometer, uma organização de sondagens nos países árabes. Em toda a região, a proporção de pessoas que expressam muita confiança nos partidos políticos, a maioria com tom religioso, caiu em mais de um terço desde 2011, para 15%. (A parcela de iraquianos que afirmam não confiar nos partidos aumentou de 51% para 78%.) O declínio na confiança dos partidos islâmicos é igualmente dramático, passando de 35% em 2013, quando a pergunta foi amplamente feita, para 20% em 2018.»

06/12/2019

Mudam-se os tempos, mudam-se os nomes

«Passados quatro anos, as políticas de austeridade foram renomeadas políticas de cativações, o crescimento económico não apareceu, os desequilíbrios reais das políticas públicas acentuaram-se e o primeiro-ministro, António Costa, procura nas instituições europeias balanço de Banco Central onde colocar a dívida pública, as imparidades dos bancos e verbas orçamentais em que possa encontrar estímulos ao crescimento. Os teólogos sabem sempre o que fazer quando a realidade denuncia a ilusão dos dogmas: mudam os nomes às coisas e continuam inocentes dos pecados cometidos.»

 A ilusão do dogmático, Joaquim Aguiar no Jornal de Negócios

A batota eleitoral desculpa-se quando é por uma "boa causa"

No artigo da Economist citado no post «Uma visão independente e objectiva do jornalismo profissional sobre a génese do caos boliviano» fez-se referência a um relatório preliminar da Organização dos Estados Americanos que auditou as eleições. O relatório final agora conhecido concluiu ter havido uma "clara manipulação” dos resultados eleitorais para dar a vitória a Morales logo na primeira volta.

Ainda a tinta do relatório final não tinha secado já o Guardian, um jornal inglês que pratica o jornalismo de causas (ainda que com mais competência do que a média do jornalismo de causas doméstico), num expediente típico da esquerdalhada, publicava um abaixo assinado a «exigir que a OEA  retratasse as suas declarações enganosas sobre a eleição, que contribuíram para o conflito político».

As primeiras linhas enunciam logo ao que vem o panfleto: «O governo Trump apoiou aberta e fortemente o golpe militar de 10 de Novembro que derrubou o governo do presidente Evo Morales». Quod est demonstrandum.

Os primeiros signatários desse panfleto são Ha-Joon Chang, James Galbraith, Thea Lee e Mark Weisbrot, conhecidos praticantes radicais da ciência de causas e apoiantes de Lula, Chávez-Morales e tutti quanti. São os novos idiotas úteis do marxismo pós-moderno na versão socialismo tropical. Não há nada de novo sob o sol.

05/12/2019

Os idiotas úteis e a agenda escondida da luta contra as mudanças climáticas (2)

Já tinha escrito e publicado o post anterior quando li no Blasfémias a agenda, desta vez exibida, da luta contra as mudanças climáticas da Climáximo, uma subsidiária do berloquismo gerida também pela família Louçã - o genro do tele-evangelista. Reza assim:
«Ou derrubamos o capitalismo e mais uma vez nos lançamos na luta das revoluções internacionalistas, ou o terror capitalista autoritário será combinado com um clima implacável para afundar numa escassez desconhecida e numa decomposição social sem precedentes
É uma espécie de vulgata do trotskismo da IV Internacional reciclada para aplicação nas lutas ambientais.

Os idiotas úteis e a agenda escondida da luta contra as mudanças climáticas

Num artigo panfletário «Porque insistimos na greve», publicado no Project Syndicate, as três "activistas climáticas" Greta Thunberg, Luisa Neubauer e Angela Valenzuela, revelam sem dar por isso o leitmotiv que as inspira ou, talvez, que inspira os seus inspiradores:
«Afinal, a crise climática não diz apenas respeito ao ambiente. É uma crise de direitos humanos, de justiça, e de vontade política. Foi criada e alimentada por sistemas de opressão coloniais, racistas e patriarcais. Precisamos de desmantelá-los a todos. Os nossos líderes políticos não podem mais fugir às suas responsabilidades.»
Pergunta-se, e várias pessoas se perguntaram, afinal o que têm as mudanças climáticas a ver com os direitos humanos e com a sistemas de opressão coloniais, racistas e patriarcais?

Tem imenso aos olhos das várias encarnações da esquerdalhada, órfãos dos marxismos, leninismos, trotskismos, maoismos, etc. que hoje se abrigam sob estas bandeiras pós-modernas da identidade de género, das lutas anti-racistas contra um racismo inexistente ou ultra-minoritário, e, neste caso em particular, das lutas contra as mudanças climáticas.

O que está em causa é sempre o mesmo, a luta contra dois inimigos que historicamente convivem entre si. O capitalismo como sistema social e económico e a democracia liberal como sistema político. Sistemas incompatíveis com o Estado distópico que a esquerdalhada precisaria de criar e ocupar para trocar as desigualdades existentes, consequência inevitável da liberdade, por outras desigualdades e, acessoriamente, controlar eficazmente a produção e consumo de energia e asfixiar o capitalismo e o resto.

É claro que tudo isto passa ao lado da menina Greta (das outras meninas não tenho a certeza) que, como muitos outros jovens e imensos adultos, são o que os comunistas soviéticos chamavam nos anos 20 e 30 do século passado aos jornalistas e intelectuais, ingénuos uns e outros nem por isso, que faziam o agiprop comunista no mundo ocidental: idiotas úteis.

04/12/2019

Dúvidas (282) - E se a desigualdade resultar mais da diferença nos rendimentos do "trabalho" do que da diferença entre "ricos" e "pobres"

O texto seguinte de Luís Cabral, um economista e professor na Universidade de NY que escreve regularmente no Expresso ao arrepio do pensamento socialista dominante no semanário, questiona o núcleo das premissas da vulgata da desigualdade de inspiração marxista tardia que nos últimos anos está a servir de sustentação "científica" para o retorno do Estado intervencionista.

«Não é novidade para ninguém que o nível de desigualdade em muitas economias desenvolvidas é elevado e tem subido em anos recentes. Por exemplo, nos Estados Unidos, o top 1 por cento dos mais ricos recebia cerca de 10 por cento do rendimento nacional nos anos 70. Hoje, esse valor duplicou para cerca de 20 por cento. Em Portugal, apesar de tudo temos um valor inferior, cerca de 8 por cento. No Chile, cerca de 23 por cento. No Brasil, 28 por cento! (Neste contexto, o que admira não são os protestos em Santiago, o que realmente admira é a falta de mais protestos em São Paulo e no Rio.)

Qual é a raiz destas desigualdades? Como é evidente, há mais do que uma causa, e a importância relativa de cada causa varia de país para país e de ano para ano. No que segue, refiro-me principalmente ao caso dos Estados Unidos, por dois motivos. Primeiro, existem mais dados e mais estudos sobre a economia americana. Segundo, para os presentes efeitos o que se tem passado nos Estados Unidos é mais relevante para Portugal do que o que se tem passado no Brasil ou no Chile. 

Há alguns anos, no livro "Capital no Século XXI", o economista francês Thomas Piketty propôs uma teoria para a concentração no top 1 por cento: Os donos do capital veem a sua riqueza (e o seu rendimento) crescer à taxa de juro. Os trabalhadores, pelo contrário, só ganham mais quando a economia cresce. Ora, a taxa de juro tem sido superior à taxa de crescimento da economia, e para os mais ricos os rendimentos do capital são mais importantes do que os rendimentos do trabalho. Logo, na corrida entre capital e trabalho ganha o capital, e na corrida entre ricos e pobres ganham os ricos.

Esta teoria e a sua aplicação têm muitos problemas, dos quais destaco os seguintes: Primeiro, nos últimos anos a taxa de juro tem sido inferior à taxa de crescimento da economia e isso não impediu que os índices de desigualdade tenham aumentado.

«Não subestimem a força dos miúdos zangados», diz a Greta. Nem o oportunismo do Melga camarário

03/12/2019

DIÁRIO DE BORDO: Um merecido prémio do ano e de carreira para S. Ex.ª o ministro do Ambiente


Querida Greta, obrigada pelo teu ativismo

«Bem-vinda a Portugal, o primeiro país do mundo a assumir a meta de atingir a neutralidade carbónica em 2050.» (Expresso)
«O ministro do Ambiente escreveu uma carta à ativista, a dois dias da chegada a Lisboa. Matos Fernandes destaca os avanços feitos em Portugal, mas admite que ainda há muito trabalho pela frente, ou não fosse Portugal “um dos países europeus que mais sofre com as consequências das alterações climáticas”»

Aqui ao lado, a querida Greta, activista ambiental, posando para a posteridade a bordo do iate onde se fez transportar para poupar dióxido de carbono.

A democracia do senhor das Produções Fictícias é uma democracia fictícia

«Esta secretaria de Estado é uma afirmação política, um sinal distintivo deste Governo, que valoriza todos os media livres, independentes e democráticos, entre eles, o serviço público de televisão – o papel central da RTP – e a Agência Lusa como elementos fundamentais para a cultura, sim. Mas, sobretudo como elementos estruturantes da democracia», declarou na conferência Financiamento dos Media promovida pelo Sindicato dos Jornalistas, com o chapéu de secretário de Estado do Audiovisual, do Cinema e dos Media, o Sr. Nuno Artur Silva, ex-administrador da RTP e proprietário de facto da empresa Produções Fictícias fornecedora de conteúdos para a RTP.

E o que dizer desta treta sobre a RTP – e a Agência Lusa como elementos estruturantes da democracia? Por exemplo o que escreveu António Barreto no Público, citado no seu blogue Jacarandá:

«Como nunca antes, o Governo “marca as agendas”, selecciona as notícias e os estudos, escolhe os órgãos de imprensa que fazem jeitos, paga publicidade institucional, não responde a quem procura e investiga, alimenta a maior parte das agências de comunicação que, sem o governo, pouco teriam para fazer. Os noticiários das televisões parecem feitos nos gabinetes dos ministros.

Os órgãos de informação vivem tempos difíceis, dramáticos mesmo. Não só a Internet, os telemóveis e as redes sociais os ameaçam, como a sua dependência é cada vez maior. Uns por vontade e doutrina: alguns jornalistas de esquerda silenciam quase tudo o que não convém aos seus amigos, condenam o que lhes cheira a direita ou a incomodidade. Os de direita, poucos actualmente, não se comportam de maneira muito diferente, só que argumentam quanto podem com as liberdades, dado que o governo fica à esquerda. A verdade, todavia, é que existe uma espécie de ambiente geral, de clima cultural ou de moda e espírito sempre disponíveis para agradar à esquerda, calar os defeitos, inventar conveniências e fabricar verdades, mas sobretudo condicionar e definir as agendas. Os mesmos lapsos, os mesmos erros, os mesmos defeitos, as mesmas medidas políticas, as mesmas iniciativas, as mesmas mentiras, as mesmas aldrabices e os mesmos roubos cometidos pelas direitas e pelas esquerdas têm tratamentos absolutamente diferentes. Condescendência, desculpa ou silêncio para a esquerda, crítica, intransigência e investigação para a direita. Esquecimento para a esquerda, memória para a direita. Nos tempos dos governos de Cavaco Silva não era muito diferente, só que os jornalistas se comportavam então com um pouco mais de liberdade e havia menos agências de comunicação. Os governos de Sócrates eram parecidos, só que mais brutos. Os de Costa refinam.»