«An ordinary politician tells swing voters what they want to hear; Bush invited them to vote for him because he refused to. Ordinary politicians need to be liked; Bush finds the hostility of his critics reassuring. Challengers run as outsiders, promising change; it's an extraordinary politician who tries this while holding the title Leader of the Free World. Ordinary Presidents have made mistakes and then sought to redeem themselves by admitting them; when Bush was told by some fellow Republicans that his fate depended on confessing his errors, he blew them off.» [Time's person of the year 2004]
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
22/12/2004
PUBLIC SERVICE: Time's person of the year 2004
CASE STUDY: Reflexões aleatórias sobre o contrabando orçamental - (1) Eu não estou alarmado
«How can a nation survive when a majority of its citizens, now dependent on government services, no longer have the incentive to restrain the growth of government?»perguntou-se o congressista Jim DeMint. [*]
«A democracy cannot exist as a permanent form of government. It can only exist until the voters discover that they can vote themselves money from the public treasury. From that moment on, the majority always votes for the candidates promising the most money from the public treasury, with the result that a democracy always collapses over loose fiscal policy followed by a dictatorship.»tinha respondido 200 anos antes o Professor Alexander Tyler. [*]
[*] citados por Patrick J. Buchanan - «The Engines of Government's Growth»
«Temos a solução, o país não precisa de se alarmar»disse o primeiro-ministro na conferência de imprensa de ontem à tarde a propósito da não aceitação pelo Eurostat da operação de cosmética para chutar para a frente o défice do orçamento da vaca marsupial pública.
Eu não estou alarmado. Se tem solução não chega a ser problema e se não tem solução já não é problema.
21/12/2004
BLOGARIDADES: Não é para me gabar, mas
Bloguenautas encartados, que sabem da coisa, analisam alguns factos bastantemente escalpelizados pelo Impertinências.
«As Notícias que Nunca Saem na Primeira Página» do Jaquinzinhos.
Onde se relata um escandaloso exemplo da manipulação esquerdista dos média: a célebre foto que correu mundo da criança supostamente assassinada por balas israelitas. Afinal as balas eram palestinas, como o próprio fotografo já admitiu.
«Nação, País ou Estado?» do blasfemo LR.
Onde se avança uma teoria para explicar o obsessivo colectivismo nacional, a doentia devoção pelo estado. Segundo o blasfemo, a coisa remonta às origens, mas o melhor mesmo é ler a blasfémia. Agora se percebe a impertinente premonição ao medir a frouxidão em urracas, «em homenagem à mãe do Fundador, que se chamava Teresa, mas tinha uma irmã chamada Urraca.»
«the foul, ridiculous and ever-so bleedin' pompous so-called upper classes of Portugal» da Vitriolica azeitonense.
Onde se mostra um exemplo do facto amplamente escalpelizado pelo Impertinências: as nossas socio-elites seriam ridículas se não fossem absolutamente tóxicas.
«Tosca e Marengo» da Joana do Semiramis.
Não sendo a Tosca um facto bastantemente escalpelizado pelo Impertinências, é um facto que é bastantemente escutado com deleite. No post se demonstra que não sendo o conhecimento da envolvente histórica indispensável para a degustação da Tosca, o saber da Joana sofistica a degustação. E lucevan le stelle.
«As Notícias que Nunca Saem na Primeira Página» do Jaquinzinhos.
Onde se relata um escandaloso exemplo da manipulação esquerdista dos média: a célebre foto que correu mundo da criança supostamente assassinada por balas israelitas. Afinal as balas eram palestinas, como o próprio fotografo já admitiu.
«Nação, País ou Estado?» do blasfemo LR.
Onde se avança uma teoria para explicar o obsessivo colectivismo nacional, a doentia devoção pelo estado. Segundo o blasfemo, a coisa remonta às origens, mas o melhor mesmo é ler a blasfémia. Agora se percebe a impertinente premonição ao medir a frouxidão em urracas, «em homenagem à mãe do Fundador, que se chamava Teresa, mas tinha uma irmã chamada Urraca.»
«the foul, ridiculous and ever-so bleedin' pompous so-called upper classes of Portugal» da Vitriolica azeitonense.
Onde se mostra um exemplo do facto amplamente escalpelizado pelo Impertinências: as nossas socio-elites seriam ridículas se não fossem absolutamente tóxicas.
[socio-elite com elitrorragia]
«Tosca e Marengo» da Joana do Semiramis.
Não sendo a Tosca um facto bastantemente escalpelizado pelo Impertinências, é um facto que é bastantemente escutado com deleite. No post se demonstra que não sendo o conhecimento da envolvente histórica indispensável para a degustação da Tosca, o saber da Joana sofistica a degustação. E lucevan le stelle.
19/12/2004
SERVIÇO PÚBLICO: Está na altura do coming out?
Andam no ar insinuações nos jornais, nos blogues e sussura-se nos mentideros. Garantiram-me até que o homem foi visto na sua quinta de Golegã de mão dada com o seu namorado, um conhecido artista de teatro, novela e cinema. Não sei se é verdade, se é mentira, mas olhando para certos meneios e tiques quase imperceptíveis, para as estórias que se contam sobre o seus alegados poderes de sedução do mulherio (uma táctica de diversão usada frequentemente para esconder outras inclinações), o instinto diz-me que pode bem ser.
Pelas suas posições públicas, percebe-se que defende a não discriminação dos homossexuais, aceita certamente a união de facto entre eles e talvez até o casamento e a adopção por homossexuais. Se acredita que não há nada de censurável na relação homossexual, não precisaria de frequentar as ridículas paradas dos maricas, mas porque se esconde? Um módico de transparência ficaria bem num político, homem público que se arrisca a chefiar um governo. Não é preciso mostrar-nos a sua vida privada, mas não a deve esconder de nós - podemos pensar que tem mais coisas a esconder.
Pelas suas posições públicas, percebe-se que defende a não discriminação dos homossexuais, aceita certamente a união de facto entre eles e talvez até o casamento e a adopção por homossexuais. Se acredita que não há nada de censurável na relação homossexual, não precisaria de frequentar as ridículas paradas dos maricas, mas porque se esconde? Um módico de transparência ficaria bem num político, homem público que se arrisca a chefiar um governo. Não é preciso mostrar-nos a sua vida privada, mas não a deve esconder de nós - podemos pensar que tem mais coisas a esconder.
18/12/2004
CASE STUDY: O mercado local de trabalho é um sítio ventoso.
Nessa manhã, o técnico autorizado da Míele (provavelmente a melhor máquina de lavar louça do mundo) tinha substituído a serpentina carcomida por 12 anos de lavagens. Olhei para a factura do técnico, um profissional liberal. Na linha da mão de obra estava uma duração e um preço correspondente a uma tarifa horária de 33 euros (sem IVA). À tarde paguei uma factura da revisão do concessionário da Ford com uma tarifa horária de 30,50 euros. Possivelmente os técnicos (antigamente chamados mecânicos, electricistas, etc.) ganharão pelo menos metade disso.
Os meus filhos e muitos outros jovens cheios de graduações e pós-graduações em ciências e artes etéreas não ganham nem metade do técnico liberal da Míele e talvez menos do que os técnicos da Ford. E, contudo, por cada novo técnico, mecânico ou electricista que surge no mercado de trabalho aparecem dezenas de jovens licenciados em humanidades, ciências sociais, artes, letras, histórias, e muitas outras disciplinas onde não existe procura para um único posto de trabalho fora da vaca marsupial pública.
Seriam as leis da oferta e da procura válidas no mercado de trabalho do reino de Pacheco?
A resposta assaltou-me à sorrelfa, enquanto sacudia na varanda as migalhas do jantar da toalha para o canteiro das hortênsias. Era suposto que as leis da gravidade convencessem as migalhas a aterrar em cima das verduras. Em vez disso, uma rabanada de vento fê-las cair em cima dos meus pés.
Os meus filhos e muitos outros jovens cheios de graduações e pós-graduações em ciências e artes etéreas não ganham nem metade do técnico liberal da Míele e talvez menos do que os técnicos da Ford. E, contudo, por cada novo técnico, mecânico ou electricista que surge no mercado de trabalho aparecem dezenas de jovens licenciados em humanidades, ciências sociais, artes, letras, histórias, e muitas outras disciplinas onde não existe procura para um único posto de trabalho fora da vaca marsupial pública.
Seriam as leis da oferta e da procura válidas no mercado de trabalho do reino de Pacheco?
A resposta assaltou-me à sorrelfa, enquanto sacudia na varanda as migalhas do jantar da toalha para o canteiro das hortênsias. Era suposto que as leis da gravidade convencessem as migalhas a aterrar em cima das verduras. Em vez disso, uma rabanada de vento fê-las cair em cima dos meus pés.
17/12/2004
SERVIÇO PÚBLICO: A pressão dissolvente do BE.
«Nas vésperas de novas eleições legislativas, o Partido Socialista Revolucionário (PSR) - que em 1999, juntamente com a UDP e a Política XXI, deu origem ao Bloco de Esquerda (BE) - formalizou ontem (13) a sua anunciada transformação em associação política no seu XIV Congresso.» [DN]
Preocupados com a «pressão dissolvente que é inegável», os rapazes do PSR lembram que o BE «só pode triunfar como um partido para dirigir a luta socialista» e ser «portador de um programa socialista baseado no combate ao imperialismo, numa cultura anti-capitalista e na rejeição da via burocrática que os países de Leste ou a China seguiram».
Ainda bem que nos avisam. Espero que o engenheiro Sócrates não se esqueça dos rapazes do radical chic para o ajudar desbravar as Novas Fronteiras.
Preocupados com a «pressão dissolvente que é inegável», os rapazes do PSR lembram que o BE «só pode triunfar como um partido para dirigir a luta socialista» e ser «portador de um programa socialista baseado no combate ao imperialismo, numa cultura anti-capitalista e na rejeição da via burocrática que os países de Leste ou a China seguiram».
Ainda bem que nos avisam. Espero que o engenheiro Sócrates não se esqueça dos rapazes do radical chic para o ajudar desbravar as Novas Fronteiras.
16/12/2004
BLOGARIDADES e SERVIÇO PÚBLICO: O bendizente.
A família e os amigos criticam-me por ser um maldizente, dizem. Pelo menos um deles já me chamou de jeremias. Se posso aceitar, com algum esforço, o maldizente, quem me adjectivar de jeremíaco tenho que transferi-lo para a categoria de inimigo. Quando riposto, apontando exemplos de bem dizer de uma coisa, logo me respondem que, se por excepção o faço, é para ter o pretexto de correr a falar mal de outra.
Quando se aproxima o Natal, aumentam a pressão para dizer bem - "ao menos uma vez na vida", aconselham. [Tomo consciência, neste preciso momento, que existindo a palavra maldizente, não existe o seu antónimo natural bendizente. Alguma razão haverá.]
Tal como a morte política do doutor Lopes, a minha suposta maledicência é grandemente exagerada, como podereis constatar.
Vem isto a propósito do lúcido post (cá está, cá está o bendizente) «mourinhar» do maradona (com minúscula) que, a pretexto desse imigrado genial e mal-amado (cá está, cá está, outra vez, o bendizente) , põe o dedo na ferida do culto nacional da mediocridade.
Vem isto a propósito do esclarecido post (cá está, cá está, uma vez mais, o bendizente) «Para entender a relação entre educação e desenvolvimento» do blasfemo João Miranda, que desmonta em duas penadas a argumentação dos idiotas que defendem que o investimento na educação formal vai resolver os problemas do atraso tecnológico, do crescimento, da produtividade, da iniciativa empresarial, etc. antes do fim duma qualquer próxima legislatura.
Vem isto a propósito do corajoso discurso (cá está, cá está, ainda outra vez, o bendizente) do secretário de Estado adjunto do MAI que disse do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil o que Maomé não disse dos chouriços:
Quando se aproxima o Natal, aumentam a pressão para dizer bem - "ao menos uma vez na vida", aconselham. [Tomo consciência, neste preciso momento, que existindo a palavra maldizente, não existe o seu antónimo natural bendizente. Alguma razão haverá.]
Tal como a morte política do doutor Lopes, a minha suposta maledicência é grandemente exagerada, como podereis constatar.
Vem isto a propósito do lúcido post (cá está, cá está o bendizente) «mourinhar» do maradona (com minúscula) que, a pretexto desse imigrado genial e mal-amado (cá está, cá está, outra vez, o bendizente) , põe o dedo na ferida do culto nacional da mediocridade.
Vem isto a propósito do esclarecido post (cá está, cá está, uma vez mais, o bendizente) «Para entender a relação entre educação e desenvolvimento» do blasfemo João Miranda, que desmonta em duas penadas a argumentação dos idiotas que defendem que o investimento na educação formal vai resolver os problemas do atraso tecnológico, do crescimento, da produtividade, da iniciativa empresarial, etc. antes do fim duma qualquer próxima legislatura.
Vem isto a propósito do corajoso discurso (cá está, cá está, ainda outra vez, o bendizente) do secretário de Estado adjunto do MAI que disse do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil o que Maomé não disse dos chouriços:
«com o devido respeito por todos os que andam aqui há muito anos e que sabem muito mais do que eu sobre isto tudo, sinceramente vos digo, como cidadão e como português, envergonho-me do sistema que temos».Eu, se me permitem, direi mesmo mais: também me envergonho e não tenho nada a ver com esses parasitas crapulosos, há décadas pendurados no dito sistema que, como se sabe, não é mais do que uma teta da pletórica vaca marsupial pública.
15/12/2004
DIÁRIO DE BORDO: Ele não acredita na eternidade.
Confesso a minha ambivalência em relação ao homem. Como resulta evidente de alguns posts (por exemplo este, este, este ou este) não gosto do doutor Mário Soares - o político de esquerda de pendor anti-liberal, desconfiado da iniciativa privada, oportunista, sem escrúpulos. Não gosto, mas devo-lhe três. Ter sido a pain in the ass do salazarismo bafiento. Ter sido o agente local do imperialismo americano no combate ao imperialismo soviético. A última, ter engavetado o socialismo quando primeiro-ministro. Infelizmente, nos últimos anos, o doutor Soares comprometeu este passado estimável com o esquerdismo senil.
[ler aqui a entrevista integral]
[ler aqui a entrevista integral]
14/12/2004
ARTIGO DEFUNTO: O jornalismo sísmico.
O sismo de ontem foi tratado no telejornal da RTP, e possivelmente nos outros canais, com uma intervenção de 30 segundos da técnica do Instituto de Meteorologia, tempo mais do suficiente para dizer tudo o que era importante. Durante os 10 minutos seguintes foi transmitido um programa de «apanhados» com cidadãos de inúmeras cidades, vilas e aldeias dizendo inanidades sobre as sensações vibratórias que a experiência sísmica lhes proporcionou. Não adiantou nada para o nosso conhecimento do fenómeno mas foi bastante esclarecedor do grau de iliteracia com que as nossas escolas apetrecham os que por lá passam.
AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Distraidamente mortífero.
Secção Frases Assassinas
Por este pensamento distraidamente mortífero, o presidente Kutchma merece 3 chateaubriands, mais pelo distraidamente do que pelo mortífero.
«As revoluções são imaginadas por sonhadores, mas, como em 1917, são executadas por fanáticos e exploradas por patifes»Terá dito (segundo o Expresso) Leonid Kutchma, presidente cessante da Ucrânia e padrinho de Viktor Ianukovitch, o candidato preferido por Putin et pour cause. O afilhado parece ter roubado as eleições ao outro candidato Viktor Iuchtchenko, que está com péssimo aspecto devido à dose cavalar de dioxinas (cortesia do KGB reciclado pelo camarada Putin) que lhe foi ministrada, dizem, pelos adeptos do outro Viktor .
Por este pensamento distraidamente mortífero, o presidente Kutchma merece 3 chateaubriands, mais pelo distraidamente do que pelo mortífero.
13/12/2004
CASE STUDY: Despedido pelas razões erradas? O epílogo ou talvez não.
No primeiro capítulo falei do quid pro quo escondido na estranha convergência de opiniões. No segundo capítulo nomeei e comentei algumas das barracadas e tiros nos pés do doutor Lopes e dos seus ministros.
Neste terceiro e último (ou talvez não) capítulo, procuro compreender as razões dessa estranha e ruidosa convergência. Recordo, à cautela, que o Impertinências sempre teve em pouca conta o doutor Lopes, como de resto a maioria dos primeiros-ministros que desfilarem pelo ror de governos que nasceram e morreram desde que percebi que tais coisas existiam. Nesta fase da minha vida, o desfile já conta com mais de duas dezenas de protagonistas, incluindo o doutor Salazar e o professor Marcelo (não ESSE, mas o padrinho dele). Em matéria de PRs, apesar de mais económicos (só me lembro de 8 desde o venerando marechal Carmona até ao sereno doutor Sampaio), os portugueses não ficaram melhor servidos. É neste altura que se costuma dizer que os portugueses (ou os espanhóis, ou os croatas, etc.) têm os governos que merecem e, no caso dos portugueses, é também costume citar aquele general romano que escreveu ao imperador a avisá-lo que os locais não se governavam nem se deixavam governar - uma das poucas tradições que ainda é o que era.
Voltando à vaca fria, porquê uma imensa maioria de luminárias de diversas espécies e de cidadãos estão de acordo com o PR que, no meio de apelos à calma, à tolerância e à serenidade e de juras de coerência, considera que os «sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e da instituições» criam uma «insustentável situação»?
Dou de barato que é visível que esses sucessivos incidentes e etc. foram igualmente sucessivos, e quase sempre mais graves e de maiores consequências, durante o consolado do engenheiro Guterres. De barato, dou eu e mais umas poucas almas - e aqui é que está o busílis. Imensas outras almas ainda hoje estão para perceber o que extinguiu tamanha felicidade. Desde os Estados Gerais o engenheiro Guterres dispôs duma enorme expectativa positiva. Pela imagem e pela palavra, o homem induziu nas mentes a chegada da abundância, o desapertar do cinto e a saída para o recreio no fim duma aula longa e chata do gajo que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava. À pala desta expectativa, os portugueses viveram com grande alegria até ao fim da festa de fim de ano lectivo com passagens administrativas que foi a Expo 98. Depois disso, a porca começou a torcer o rabo. Mas o homem, pela sua verve e pela sua compostura, conseguia manter os fazedores de opinião felizes e embevecidos com a brilhante inteligência do senhor engenheiro que parecia estar sempre de acordo com a treta deles, fazendo-os sentir-se igualmente brilhantes. Como felizes ficavam os empresários (com excepção do engenheiro Belmiro que não papava daquelas tretas) com a grande visão do senhor engenheiro que, inevitavelmente, também concordava com eles. A felicidade geral acabou no pântano e, como se sabe, a fuga do senhor engenheiro deixou-nos órfãos deprimidos e sem auto-estima.
Não me dou ao trabalho de relembrar os sucessivos incidentes que também assombraram a governação do doutor José Barroso - outro fugitivo.
O que tinha de diferente o doutor Lopes que esteve 3 semanas para ser nomeado, torrando no lume brando do doutor Sampaio, que falou com metade de Portugal para o nomear e, supõe-se, apenas com a doutora Maria José para o dissolver? Falta de estatuto e compostura. Meio caminho andado, neste país, para a falta de credibilidade que o minou desde o primeiro dia - com excepção dos seus fiéis e dumas centenas de crentes por desespero, ninguém apostava um cêntimo no homem. E antipatia - com excepção da mãe, das namoradas, passadas, presentes e futuras, o homem suscita más vibrações a imensa gente. Por diferentes razões.
Vejamos sumariamente as possíveis razões dos diversos segmentos do mercado político.
Primeiro os consumidores:
O povo e os políticos de esquerda não gostam do doutor Lopes porque imaginam que ele é populista e neo-liberal (onde é que já se ouviu maior besteira?). Digamos que é um ódio visceral, que por isso não carece de explicação. Por boas ou más razões, o doutor Lopes perde aqui, sem apelo nem agravo, 45% do eleitorado.
A terceira idade não respeita o doutor Lopes, e sabe-se como para a terceira idade o respeitinho é muito bonito. Quer tenham sido admiradores do doutor Salazar, do general Spínola, do doutor Cunhal, do doutor Soares, do general Eanes, é preciso reconhecer que a compostura e o sentido das conveniências é coisa que, abundando naqueles, falta definitivamente ao doutor Lopes. Isso retira-lhe mais uns 10% do eleitorado (já descontado o povo de esquerda).
A tribo LBGT, em particular a letra «G», suspeita da atracção que o doutor Lopes é acusado de despertar entre o mulherio. Nem a proximidade política a putativos praticantes dessas modalidades, limpa o seu cadastro. Calculo que o doutor Lopes perde aqui a confiança de mais 2% ou 3% do eleitorado (já descontada a tribo de esquerda)..
Os empresários, que não pesam como eleitores, mas sopram nas orelhas do doutor Sampaio, também não apreciam o estilo fogoso do doutor Lopes, ainda para mais quando o governo toma umas tímidas medidas, como a limitação do sigilo bancário e a redução dos benefícios fiscais da banca.
Não vou perder mais tempo com os consumidores, porque só até aqui já temos garantidos os 55 por cento dos inquiridos que na sondagem da Universidade Católica consideraram a actuação do governo "má" ou "muito má".
Depois os canais de distribuição do produto:
Mais do que as confusões entre piano e violino, o que os artistas dos palcos, dos écrans e da escrita nunca perdoarão ao doutor Lopes, a quem também eles não reconhecem estatuto, foi ter estado sentado em cima da caixa das esmolas durante a sua estadia na secretaria de estado da cultura do governo do doutor Cavaco. Recorde-se, já agora, que ao doutor Cavaco essas almas também não reconheciam estatuto (este confundiu os Thomas, o Mann e o More), mas toleraram-no durante algum tempo porque lhes parecia o único capaz de evitar a quebra da caixa das esmolas. Vem a propósito citar o doutor Eduardo Prado Coelho cujo espírito pragmático o fez incensar o doutor Cavaco, antes de se dedicar, com o mesmo zelo, ao engenheiro Guterres.
Os ódios de estimação do resto da intelligentzia mergulham as suas raízes na mesma terra dos artistas - falta de estatuto. O homem não tem Cóltura (com maiúscula). Aqui, como em quase todos os países atravessados pela tropa de Napoleão, quem não tem Cóltura (com maiúscula) não merece estar lá. En passant, isso explica parte do ódio endémico a George Bush.
Dos jornalistas, aparte casos do foro clínico, como o doutor Delgado, a classe não gosta do homem, nem bem, nem mal passado. Desde logo porque uns 80% (a lei de Paretto também se deve aplicar aqui) se inscreve numa das modalidades da esquerdalhada. Muitos dos restantes consideram-se intelectuais e, mutatis mutandis, também não reconhecem estatuto ao doutor Lopes, que entre outros vícios tem o mau costume de tentar falar ao povo por cima deles. A estória da criação da central de comunicação, medida estúpida em si mesma, invocou os demónios da classe jornalística e matou os últimos vestígios de respeitinho pelo homem.
Mesmo entre o pessoal político da sua coutada, o doutor Lopes concita os ódios de quase todo o baronato pêessedeista, que está em operações de reagrupamento das tropas fiéis e aliciamento de novos recrutas, esperando prudentemente um trauliteiro que os conduza ao assalto final ao púlpito do doutor Lopes.
É por estas, e por outras, que o doutor Lopes ainda antes botar a assinatura no enésimo volume dos livrinhos de tomada de posse estava já irremediavelmente condenado a um triste fim, fizesse o que fizesse. E assim se explica uma exoneração singular na história da 3ª república. Singular porque se trata dum governo cujo passivo não era assim tão grande como o pintaram e cujo activo não era tão insignificante como o quizeram fazer. Singular ainda pelo processo de cernelha adoptado pelo PR que, ao invés de exonerar o governo, dissolve a AR. Depois do processo ínvio seguido pelo PR que decide primeiro, consulta depois e faz este discurso, o que ainda se percebe melhor é a demissão do governo, manifestando pouca disposição para ficar a fazer de sitting duck da oposição.
Continua?
Neste terceiro e último (ou talvez não) capítulo, procuro compreender as razões dessa estranha e ruidosa convergência. Recordo, à cautela, que o Impertinências sempre teve em pouca conta o doutor Lopes, como de resto a maioria dos primeiros-ministros que desfilarem pelo ror de governos que nasceram e morreram desde que percebi que tais coisas existiam. Nesta fase da minha vida, o desfile já conta com mais de duas dezenas de protagonistas, incluindo o doutor Salazar e o professor Marcelo (não ESSE, mas o padrinho dele). Em matéria de PRs, apesar de mais económicos (só me lembro de 8 desde o venerando marechal Carmona até ao sereno doutor Sampaio), os portugueses não ficaram melhor servidos. É neste altura que se costuma dizer que os portugueses (ou os espanhóis, ou os croatas, etc.) têm os governos que merecem e, no caso dos portugueses, é também costume citar aquele general romano que escreveu ao imperador a avisá-lo que os locais não se governavam nem se deixavam governar - uma das poucas tradições que ainda é o que era.
Voltando à vaca fria, porquê uma imensa maioria de luminárias de diversas espécies e de cidadãos estão de acordo com o PR que, no meio de apelos à calma, à tolerância e à serenidade e de juras de coerência, considera que os «sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e da instituições» criam uma «insustentável situação»?
Dou de barato que é visível que esses sucessivos incidentes e etc. foram igualmente sucessivos, e quase sempre mais graves e de maiores consequências, durante o consolado do engenheiro Guterres. De barato, dou eu e mais umas poucas almas - e aqui é que está o busílis. Imensas outras almas ainda hoje estão para perceber o que extinguiu tamanha felicidade. Desde os Estados Gerais o engenheiro Guterres dispôs duma enorme expectativa positiva. Pela imagem e pela palavra, o homem induziu nas mentes a chegada da abundância, o desapertar do cinto e a saída para o recreio no fim duma aula longa e chata do gajo que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava. À pala desta expectativa, os portugueses viveram com grande alegria até ao fim da festa de fim de ano lectivo com passagens administrativas que foi a Expo 98. Depois disso, a porca começou a torcer o rabo. Mas o homem, pela sua verve e pela sua compostura, conseguia manter os fazedores de opinião felizes e embevecidos com a brilhante inteligência do senhor engenheiro que parecia estar sempre de acordo com a treta deles, fazendo-os sentir-se igualmente brilhantes. Como felizes ficavam os empresários (com excepção do engenheiro Belmiro que não papava daquelas tretas) com a grande visão do senhor engenheiro que, inevitavelmente, também concordava com eles. A felicidade geral acabou no pântano e, como se sabe, a fuga do senhor engenheiro deixou-nos órfãos deprimidos e sem auto-estima.
Não me dou ao trabalho de relembrar os sucessivos incidentes que também assombraram a governação do doutor José Barroso - outro fugitivo.
O que tinha de diferente o doutor Lopes que esteve 3 semanas para ser nomeado, torrando no lume brando do doutor Sampaio, que falou com metade de Portugal para o nomear e, supõe-se, apenas com a doutora Maria José para o dissolver? Falta de estatuto e compostura. Meio caminho andado, neste país, para a falta de credibilidade que o minou desde o primeiro dia - com excepção dos seus fiéis e dumas centenas de crentes por desespero, ninguém apostava um cêntimo no homem. E antipatia - com excepção da mãe, das namoradas, passadas, presentes e futuras, o homem suscita más vibrações a imensa gente. Por diferentes razões.
Vejamos sumariamente as possíveis razões dos diversos segmentos do mercado político.
Primeiro os consumidores:
O povo e os políticos de esquerda não gostam do doutor Lopes porque imaginam que ele é populista e neo-liberal (onde é que já se ouviu maior besteira?). Digamos que é um ódio visceral, que por isso não carece de explicação. Por boas ou más razões, o doutor Lopes perde aqui, sem apelo nem agravo, 45% do eleitorado.
A terceira idade não respeita o doutor Lopes, e sabe-se como para a terceira idade o respeitinho é muito bonito. Quer tenham sido admiradores do doutor Salazar, do general Spínola, do doutor Cunhal, do doutor Soares, do general Eanes, é preciso reconhecer que a compostura e o sentido das conveniências é coisa que, abundando naqueles, falta definitivamente ao doutor Lopes. Isso retira-lhe mais uns 10% do eleitorado (já descontado o povo de esquerda).
A tribo LBGT, em particular a letra «G», suspeita da atracção que o doutor Lopes é acusado de despertar entre o mulherio. Nem a proximidade política a putativos praticantes dessas modalidades, limpa o seu cadastro. Calculo que o doutor Lopes perde aqui a confiança de mais 2% ou 3% do eleitorado (já descontada a tribo de esquerda)..
Os empresários, que não pesam como eleitores, mas sopram nas orelhas do doutor Sampaio, também não apreciam o estilo fogoso do doutor Lopes, ainda para mais quando o governo toma umas tímidas medidas, como a limitação do sigilo bancário e a redução dos benefícios fiscais da banca.
Não vou perder mais tempo com os consumidores, porque só até aqui já temos garantidos os 55 por cento dos inquiridos que na sondagem da Universidade Católica consideraram a actuação do governo "má" ou "muito má".
Depois os canais de distribuição do produto:
Mais do que as confusões entre piano e violino, o que os artistas dos palcos, dos écrans e da escrita nunca perdoarão ao doutor Lopes, a quem também eles não reconhecem estatuto, foi ter estado sentado em cima da caixa das esmolas durante a sua estadia na secretaria de estado da cultura do governo do doutor Cavaco. Recorde-se, já agora, que ao doutor Cavaco essas almas também não reconheciam estatuto (este confundiu os Thomas, o Mann e o More), mas toleraram-no durante algum tempo porque lhes parecia o único capaz de evitar a quebra da caixa das esmolas. Vem a propósito citar o doutor Eduardo Prado Coelho cujo espírito pragmático o fez incensar o doutor Cavaco, antes de se dedicar, com o mesmo zelo, ao engenheiro Guterres.
Os ódios de estimação do resto da intelligentzia mergulham as suas raízes na mesma terra dos artistas - falta de estatuto. O homem não tem Cóltura (com maiúscula). Aqui, como em quase todos os países atravessados pela tropa de Napoleão, quem não tem Cóltura (com maiúscula) não merece estar lá. En passant, isso explica parte do ódio endémico a George Bush.
Dos jornalistas, aparte casos do foro clínico, como o doutor Delgado, a classe não gosta do homem, nem bem, nem mal passado. Desde logo porque uns 80% (a lei de Paretto também se deve aplicar aqui) se inscreve numa das modalidades da esquerdalhada. Muitos dos restantes consideram-se intelectuais e, mutatis mutandis, também não reconhecem estatuto ao doutor Lopes, que entre outros vícios tem o mau costume de tentar falar ao povo por cima deles. A estória da criação da central de comunicação, medida estúpida em si mesma, invocou os demónios da classe jornalística e matou os últimos vestígios de respeitinho pelo homem.
Mesmo entre o pessoal político da sua coutada, o doutor Lopes concita os ódios de quase todo o baronato pêessedeista, que está em operações de reagrupamento das tropas fiéis e aliciamento de novos recrutas, esperando prudentemente um trauliteiro que os conduza ao assalto final ao púlpito do doutor Lopes.
É por estas, e por outras, que o doutor Lopes ainda antes botar a assinatura no enésimo volume dos livrinhos de tomada de posse estava já irremediavelmente condenado a um triste fim, fizesse o que fizesse. E assim se explica uma exoneração singular na história da 3ª república. Singular porque se trata dum governo cujo passivo não era assim tão grande como o pintaram e cujo activo não era tão insignificante como o quizeram fazer. Singular ainda pelo processo de cernelha adoptado pelo PR que, ao invés de exonerar o governo, dissolve a AR. Depois do processo ínvio seguido pelo PR que decide primeiro, consulta depois e faz este discurso, o que ainda se percebe melhor é a demissão do governo, manifestando pouca disposição para ficar a fazer de sitting duck da oposição.
Continua?
12/12/2004
11/12/2004
TRIVIALIDADES: O movimento dos reformados.
Eu sei, eu sei. Deveria estar a concluir o terceiro episódio do folhetim «Despedido pelas razões erradas?». Ou a comentar a demissão do governo demitido e a maior trapalhada que o doutor Sampaio conseguiu criar até hoje. Mas não me apetece.
Em vez disso, apetece-me comentar umas imagens que passaram há um par de horas num qualquer canal dum qualquer comício numa qualquer sala (um clube recreativo na cintura industrial de Lisboa?, como se dizia 30 anos atrás), com o camarada Jerónimo de Sousa (o «de» não é bocadinho suspeito para um camarada operário?), a exortar à luta dos trabalhadores, perorando para uma escassa centena de velhinhos reformados à mistura com uma meia dúzia dos netos deles, assistido por uma claque de majorettes funcionários do partido.
Em vez disso, apetece-me comentar umas imagens que passaram há um par de horas num qualquer canal dum qualquer comício numa qualquer sala (um clube recreativo na cintura industrial de Lisboa?, como se dizia 30 anos atrás), com o camarada Jerónimo de Sousa (o «de» não é bocadinho suspeito para um camarada operário?), a exortar à luta dos trabalhadores, perorando para uma escassa centena de velhinhos reformados à mistura com uma meia dúzia dos netos deles, assistido por uma claque de majorettes funcionários do partido.
SERVIÇO PÚBLICO: Há pior do que a imprensa regional portuguesa subsidiada? (finalmente a resposta)
A este pergunta provocadora o Impertinência respondeu prudentemente talvez.
Graças ao impagável Economist, estamos agora em condições de dar a resposta definitiva: pior que a imprensa regional portuguesa subsidiada só a imprensa regional francesa pesadamente subsidiada.
Alguns jornais regionais franceses são subsidiados pelo governo até 15% das vendas. Os correios franceses cobram portes insignificantes para entregar aquelas mistelas impressas. Os jornalistas (todos) desfrutam de generosos benefícios fiscais. É claro que este maná não é exclusivo da imprensa regional, mas isso são contas de outro rosário - o artigo do Economist aborda igualmente a crise que atravessam os principais jornais franceses, as pilhas de dinheiro que torram para levar as causas justas et la grandeur de la France até às refractárias meninges dos leitores.
Graças ao impagável Economist, estamos agora em condições de dar a resposta definitiva: pior que a imprensa regional portuguesa subsidiada só a imprensa regional francesa pesadamente subsidiada.
Alguns jornais regionais franceses são subsidiados pelo governo até 15% das vendas. Os correios franceses cobram portes insignificantes para entregar aquelas mistelas impressas. Os jornalistas (todos) desfrutam de generosos benefícios fiscais. É claro que este maná não é exclusivo da imprensa regional, mas isso são contas de outro rosário - o artigo do Economist aborda igualmente a crise que atravessam os principais jornais franceses, as pilhas de dinheiro que torram para levar as causas justas et la grandeur de la France até às refractárias meninges dos leitores.
10/12/2004
TRIVIALIDADES: As profecias do professor Rosas.
Os mercados contrariam as profecias da pitonisa do radical chic, o camarada professor Fernando Rosas. Segundo este especialista em pitról, o preço do barril devia estar a caminho dos USD 8O [ver aqui as previsões do camarada citadas pelo Anacleto].
[A «cabala involuntária» dos mercados]
09/12/2004
08/12/2004
CASE STUDY: Despedido pelas razões erradas? (2)
No primeiro capítulo falei do quid pro quo sorrateiramente escondido na convergência de criaturas tão díspares como os analistas, os comentadores, as luminárias, com destaque para a categoria especial das luminárias que vivem da cóltura. Todos estas criaturas somadas (quero dizer subtraídas) dão a intelligentzia cá do burgo, num original concerto a uma voz. Além da intelligentzia, também os cidadãos mostraram uma grande convergência de opinião sobre o governo do doutor Lopes.
No primeiro capítulo referi também a magra obra dos primeiros 4 meses de governo de que não se vê grande diferença dos antecedentes.
Neste segundo capítulo o Impertinências nomeia e comenta sumariamente algumas das barracadas e tiros nos pés que o doutor Lopes e os seus ministros prodigalizaram.
(Cenas dos próximos capítulos: como explicar que tão magra obra e tão inócuas argoladas tivessem alimentado tanto ruído e tivessem tão drásticas consequências?)
No primeiro capítulo referi também a magra obra dos primeiros 4 meses de governo de que não se vê grande diferença dos antecedentes.
Neste segundo capítulo o Impertinências nomeia e comenta sumariamente algumas das barracadas e tiros nos pés que o doutor Lopes e os seus ministros prodigalizaram.
- A «deslocalização» do governo foi a primeira ejaculação precoce do doutor Lopes. O resultado final foi, apesar de tudo, bastante mitigado, se descontarmos os engarrafamentos a que se poupa o staff das secretarias «deslocalizadas» e os custos de representação mais moderados na província. O que é isto comparado com 6 anos de guterrismo que deram um aumento líquido de 70.000 utentes da vaca marsupial pública?
- A bronca da tomada de posse, foi um exercício fútil e ridículo cujos efeitos se limitaram a reduzir a credibilidade do doutor Lopes, se isso foi possível. Pela sua originalidade, fez lembrar algumas tomadas de posse durante o PREC, as quais, note-se, nunca conduziram a nenhuma dissolução da AR.
- O tiro no pé do barco do aborto foi mais no pé do doutor Portas do que no pé do doutor Lopes. Exercício tão ridículo como o anterior, teve contudo um custo mais elevado - umas toneladas de combustível gastos desnecessariamente pelas fragatas a rondarem um barco carregado de sapatões com má cama.
- O encerramento anunciado da refinaria de Matosinhos, que não chegou a ser, reconduz-se à categoria de ejaculação precoce a que o doutor Lopes é bastante atreito. Não deu em nada, porque os seus ministros encarregaram-se de o desmentir.
- A bronca do inquérito sobre o acidente na refinaria de Matosinhos, não é nada comparada, por exemplo, com as guerras entre os professores Sousa Franco (falecido) e Augusto Mateus ao tempo do 1º consolado do engenheiro Guterres.
- A barracada da colocação de professores deve-se em substância ao governo do doutor José Barroso. Foi um caso típico de má gestão da imagem e de ingenuidade da tia ministra face à trapaça do aparelho administrativo escondendo a dimensão do desastre.
- A confusão da alteração das taxas moderadoras do SNS é em tudo semelhante ao do encerramento da refinaria: ejaculação precoce do doutor Lopes, rapidamente anulada pelo ministro.
- O circo mediático do contraditório ao professor Marcelo já foi suficientemente escalpelizado pelo Impertinências aqui, aqui e aqui. Não dou mais para este peditório, que pode muito bem ter sido uma «cabala involuntária» acidental (género: ainda bem que me ajudas), montada em cima da oportunidade oferecido pela azelhice asinina do ministro dos Assuntos Parlamentares que não seguiu sábios exemplos, como o do doutor Soares que, segundo se sabe, preparava no conselho de ministros o alinhamento do telejornal. Em vez de fazer uns telefonemas, comprar umas consciências em saldo, cobrar uns favores e prometer outros, o asno zurrou para os média. Terá sido o maior balázio que o governo enfiou nas próprias patas.
- O episódio montado pelos média à volta da sesta do doutor Lopes antes da sessão da AR é antológico e devia ser estudado em todos os cursos dessa coisa que alguns chamam ciências da comunicação social. Em vez do doutor Lopes subir nas sondagens, por práticas recomendáveis, foi vilipendiado. Sem razão. A haver razão, deveriam ter sido ostracizados in illo tempore os doutores Soares (sestas durante cerimónias públicas) e Sousa Franco (sestas que se prolongavam até ao meio dia - não há memória de nenhum reunião do CM em que tivesse entrado antes das 3 da tarde).
(Cenas dos próximos capítulos: como explicar que tão magra obra e tão inócuas argoladas tivessem alimentado tanto ruído e tivessem tão drásticas consequências?)
07/12/2004
CASE STUDY: Despedido pelas razões erradas? (1)
Nunca se tinha visto tanto português de acordo. O actuação do governo foi "má" ou "muito má" para 55 por cento dos inquiridos na sondagem da Universidade Católica e "medíocre" ou "má" para 79,7%, na sondagem do IPOM. Concordam com a dissolução da AR 74,2% e 59% dos inquiridos, segundo as sondagens do IPOM e da Eurosondagem, respectivamente. Com este score, ao fim de 4 míseros meses, o governo do doutor Lopes vai entrar para o Guiness. Será provavelmente o pior governo do mundo. Por uma vez na vida, o PCP e o BE falaram em coro de «alívio», pelos vistos em uníssono com o sentir do povo esmagado por 120 dias de santanismo. O período de graça, que sustentou o guterrismo durante 2 anos, não durou no santanismo um só dia.
Por trás de tanta fartura de concordância espreita um quid pro quo. Donde veio esta insólita convergência de analistas, de comentadores, de luminárias e de cidadãos que já engoliram todos os sapos que havia para engolir nos últimos 30 anos (por falta de tempo, não vou recuar até ao fássismo)?
Comecemos pelo que fez o governo do doutor Santana Lopes em 4 meses de vida. O balanço é magro, pouca coisa, mas alguma, foi feita:
(Cenas dos próximos capítulos: as barracadas e os tiros nos pés)
ESCLARECIMENTO:
Uma percentagem significativa dos posts do Impertinências tem referências críticas ao doutor Santana Lopes, desde há mais de um ano, ainda nem ele sonhava vir a ser primeiro-ministro - tinha então ambições mais modestas, como ser o próximo PR. Então porquê este súbito desvelo impertinente pelo homem? O homem é ele e a circunstância, teria dito Ortega y Gasset se não estivesse a olhar para o umbigo. Ocupei-me do homem. Agora é a vez da circunstância.
Por trás de tanta fartura de concordância espreita um quid pro quo. Donde veio esta insólita convergência de analistas, de comentadores, de luminárias e de cidadãos que já engoliram todos os sapos que havia para engolir nos últimos 30 anos (por falta de tempo, não vou recuar até ao fássismo)?
Comecemos pelo que fez o governo do doutor Santana Lopes em 4 meses de vida. O balanço é magro, pouca coisa, mas alguma, foi feita:
- Aprovou a lei das rendas, que vinha a ser empurrada com a barriga pelo menos deste o tempo do saudoso engenheiro Guterres.
- Alterou o regime das SCUTS, uma dádiva do governo do saudoso engenheiro Guterres (30 anos das concessões de 900 km custariam, e custarão com o doutor Sócrates, 8% do PIB)
- Alterou timidamente o sigilo bancário (o suficiente para invocar demónios sem rosto)
- Limitou os absurdos privilégios dos bancos no IRC (idem, com rosto)
- Limitou os absurdos privilégios no IRS dos direitos de autor
- Aboliu os benefícios fiscais do PPR/E e das CPH (chateando a sua base eleitoral) para compensar a redução de IRS nos escalões mais baixos (para felicidade da base eleitoral da esquerda)
- Preparou um orçamento que ainda ninguém explicou em que é pior do que os antecessores, e parece ser tão bom aos olhos do PR que os sound bites (ainda não desmentidos) que escorrem para os jornais dão indicações de que o PR desejava a aprovação que teve lugar esta tarde.
(Cenas dos próximos capítulos: as barracadas e os tiros nos pés)
ESCLARECIMENTO:
Uma percentagem significativa dos posts do Impertinências tem referências críticas ao doutor Santana Lopes, desde há mais de um ano, ainda nem ele sonhava vir a ser primeiro-ministro - tinha então ambições mais modestas, como ser o próximo PR. Então porquê este súbito desvelo impertinente pelo homem? O homem é ele e a circunstância, teria dito Ortega y Gasset se não estivesse a olhar para o umbigo. Ocupei-me do homem. Agora é a vez da circunstância.
06/12/2004
CASE STUDY: Capitalismo selvagem versus capitalismo social.
Na pátria do capitalismo selvagem, o procurador geral de NY Eliot Spitzer e a Securities and Exchange Commission fazem ajoelhar uma das famílias mais poderosas no mundo financeiro do imperialismo globalizante - os Greenberg. Chefiada pelo patriarca "Hank", a família controla a AIG (a seguradora que até então tinha a maior capitalização bolsista em todo o mundo), e o management da Marsh (o maior corretor mundial de seguros). O fundamento são práticas de negócio consideradas irregulares na pátria do capitalismo selvagem. Na pátria do capitalismo social são triviais, umas, e outras também o seriam, se os mercados financeiros tivessem aqui a sofisticação que têm lá.
Um capitalista nacional que tinha interesses na pátria do capitalismo selvagem, onde fechou recentemente os seus negócios de gado e gás, comportando-se sempre respeitosa e obedientemente , vem à sua terra natal - pátria do capitalismo social - perde a voz de falsete e fala grosso para um semanário de Paço d'Arcos. Aponta os dois problemas que, segundo ele, o presidente da Autoridade da Concorrência professor Abel Mateus sofre: «incontinência verbal e uma necessidade extraordinária de aparecer todos os dias nos jornais». Isto a propósito das acções que a Autoridade da Concorrência tem em curso para tentar limitar o monopólio do operador incumbente de telecomunicações (PT), de que o senhor Monteiro de Barros é accionista. O título da entrevista nesse semanário - bastião do capitalismo social - tem o educativo título «Patrick manda calar Mateus».
Um capitalista nacional que tinha interesses na pátria do capitalismo selvagem, onde fechou recentemente os seus negócios de gado e gás, comportando-se sempre respeitosa e obedientemente , vem à sua terra natal - pátria do capitalismo social - perde a voz de falsete e fala grosso para um semanário de Paço d'Arcos. Aponta os dois problemas que, segundo ele, o presidente da Autoridade da Concorrência professor Abel Mateus sofre: «incontinência verbal e uma necessidade extraordinária de aparecer todos os dias nos jornais». Isto a propósito das acções que a Autoridade da Concorrência tem em curso para tentar limitar o monopólio do operador incumbente de telecomunicações (PT), de que o senhor Monteiro de Barros é accionista. O título da entrevista nesse semanário - bastião do capitalismo social - tem o educativo título «Patrick manda calar Mateus».
[O corajoso capitalista social e a autoridade incontinente]
ARTIGO DEFUNTO: Os correspondentes de guerra do semanário de Paço d'Arcos.
«Sampaio impediu Santana Lopes de visitar esta semana o banco turco do Millenium bcp»Tentei perceber no artigo defunto do correspondente do Expresso em Ancara se o PR tinha disputado com o PM o direito a ficar numa foto com o gerente da agência de Izmir do BankEuropa. Não consegui.
«O secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan está perante uma campanha cada vez mais intensa para o obrigar à demissão (...). Os ataques a Annan são encabeçados por colunistas de rádio e jornais americanos neo-conservadores e políticos republicanos de extrema-direita (...) para "punir" Annan por declarar "ilegal" a invasão do Iraque (...)».Se Tony Jenkins, o correspondente do Expresso em NY, fosse o correspondente nas Antas, este artigo defunto poderia ser a respeito do senhor Pinto da Costa, que, como se sabe, está também a ser injustamente acusado. Em relação a Kofi Annan, o Impertinências já se fez eco em devido tempo (aqui).
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