Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

08/12/2004

CASE STUDY: Despedido pelas razões erradas? (2)

No primeiro capítulo falei do quid pro quo sorrateiramente escondido na convergência de criaturas tão díspares como os analistas, os comentadores, as luminárias, com destaque para a categoria especial das luminárias que vivem da cóltura. Todos estas criaturas somadas (quero dizer subtraídas) dão a intelligentzia cá do burgo, num original concerto a uma voz. Além da intelligentzia, também os cidadãos mostraram uma grande convergência de opinião sobre o governo do doutor Lopes.
No primeiro capítulo referi também a magra obra dos primeiros 4 meses de governo de que não se vê grande diferença dos antecedentes.

Neste segundo capítulo o Impertinências nomeia e comenta sumariamente algumas das barracadas e tiros nos pés que o doutor Lopes e os seus ministros prodigalizaram.

  • A «deslocalização» do governo foi a primeira ejaculação precoce do doutor Lopes. O resultado final foi, apesar de tudo, bastante mitigado, se descontarmos os engarrafamentos a que se poupa o staff das secretarias «deslocalizadas» e os custos de representação mais moderados na província. O que é isto comparado com 6 anos de guterrismo que deram um aumento líquido de 70.000 utentes da vaca marsupial pública?
  • A bronca da tomada de posse, foi um exercício fútil e ridículo cujos efeitos se limitaram a reduzir a credibilidade do doutor Lopes, se isso foi possível. Pela sua originalidade, fez lembrar algumas tomadas de posse durante o PREC, as quais, note-se, nunca conduziram a nenhuma dissolução da AR.
  • O tiro no pé do barco do aborto foi mais no pé do doutor Portas do que no pé do doutor Lopes. Exercício tão ridículo como o anterior, teve contudo um custo mais elevado - umas toneladas de combustível gastos desnecessariamente pelas fragatas a rondarem um barco carregado de sapatões com má cama.
  • O encerramento anunciado da refinaria de Matosinhos, que não chegou a ser, reconduz-se à categoria de ejaculação precoce a que o doutor Lopes é bastante atreito. Não deu em nada, porque os seus ministros encarregaram-se de o desmentir.
  • A bronca do inquérito sobre o acidente na refinaria de Matosinhos, não é nada comparada, por exemplo, com as guerras entre os professores Sousa Franco (falecido) e Augusto Mateus ao tempo do 1º consolado do engenheiro Guterres.
  • A barracada da colocação de professores deve-se em substância ao governo do doutor José Barroso. Foi um caso típico de má gestão da imagem e de ingenuidade da tia ministra face à trapaça do aparelho administrativo escondendo a dimensão do desastre.
  • A confusão da alteração das taxas moderadoras do SNS é em tudo semelhante ao do encerramento da refinaria: ejaculação precoce do doutor Lopes, rapidamente anulada pelo ministro.
  • O circo mediático do contraditório ao professor Marcelo já foi suficientemente escalpelizado pelo Impertinências aqui, aqui e aqui. Não dou mais para este peditório, que pode muito bem ter sido uma «cabala involuntária» acidental (género: ainda bem que me ajudas), montada em cima da oportunidade oferecido pela azelhice asinina do ministro dos Assuntos Parlamentares que não seguiu sábios exemplos, como o do doutor Soares que, segundo se sabe, preparava no conselho de ministros o alinhamento do telejornal. Em vez de fazer uns telefonemas, comprar umas consciências em saldo, cobrar uns favores e prometer outros, o asno zurrou para os média. Terá sido o maior balázio que o governo enfiou nas próprias patas.
  • O episódio montado pelos média à volta da sesta do doutor Lopes antes da sessão da AR é antológico e devia ser estudado em todos os cursos dessa coisa que alguns chamam ciências da comunicação social. Em vez do doutor Lopes subir nas sondagens, por práticas recomendáveis, foi vilipendiado. Sem razão. A haver razão, deveriam ter sido ostracizados in illo tempore os doutores Soares (sestas durante cerimónias públicas) e Sousa Franco (sestas que se prolongavam até ao meio dia - não há memória de nenhum reunião do CM em que tivesse entrado antes das 3 da tarde).
Terá havido vários outros episódios semelhantes. Não vale a pena puxar pela memória, porque não acrescentam nada aos relatados. A que se resumem estes episódios? A nada. Nenhum prejuízo assinalável, salvo para a abalada reputação do doutor Lopes. Apenas sound bites e o som e a fúria das oposições, com especial destaque para os barões do PSD, gostosamente ampliado pela caixa de ressonância dos média. Barracadas, tiros nos pé e uma profunda incompetência para lidar com os média por parte de quem tanto deles dependia.
(Cenas dos próximos capítulos: como explicar que tão magra obra e tão inócuas argoladas tivessem alimentado tanto ruído e tivessem tão drásticas consequências?)

Sem comentários: