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16/11/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (59) - Em tempo de vírus (XXXVI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Temos estes princípios. Se não gostarem temos outros

Assinar um pacto para montar um geringonça com um partido comunista que nunca renegou o Gulag nem reconheceu os muitos milhões de vítimas causados pelo regime soviético e os seus satélites e com uma colecção de grupúsculos de inspiração trotskista, maoista e bombista, uns e outros apoiantes de regimes autocráticos como o cubano e o venezuelano, é uma demonstração do pragmatismo do Dr. Costa. Outra demonstração, neste caso de internacional-pragmatismo, é a negociação que o mesmo Dr. Costa fez com o autocrata húngaro Viktor Orban para efeitos do peditório a Bruxelas

Outra coisa completamente diferente é o PSD fazer um acordo parlamentar com o Chega nos Açores que mostra a rendição ao fascismo do Dr. Rio, o ex-putativo vice do Dr. Costa.

Boa Nova

«Não vão faltar vacinas para a gripe», anunciou a Dr.ª Temido, depois de trautear A Internacional.

O choque da realidade com a Boa Nova

Vinte e cinco dias depois do anúncio da Dr.ª Temido, a Dr.ª Graça Freitas veio dizer ser «óbvio (que) algumas pessoas vão ficar sem vacinas» (fonte).

Os anúncios dos aumentos do investimento público são um dos clássicos da governação do Dr. Costa. O truque é um achado: anuncia-se primeiro o aumento do investimento orçamentado comparado com a estimativa do realizado do ano; como o realizado de facto é muito inferior ao orçamentado, no ano seguinte volta a anunciar-se o aumento do investimento orçamentado por comparação com a estimativa do realizado do ano. Infalivelmente, todos os anos são anunciados aumentos, apesar a queda ou estagnação do investimento. Depois de cinco anos a coisa deveria ser evidente, mas pouca gente a vê. Do lado dos socialistas o silêncio absoluto só agora foi quebrado por um dissidente do costismo. Francisco Assis, nomeado recentemente presidente do Conselho Económico e Social, reconheceu no parlamento que o investimento público «estimado para 2020 é metade do realizado em 2010».

Não sei o que seria do Dr. Costa sem S. Ex.ª

Com o queixume do costume, S. Ex.ª promulgou as alterações da lei orgânica do BdP, que «ficaram aquém das expectativas», permitindo o livre trânsito do governo para a administração, trânsito inaugurado pelo Dr. Centeno.

«Estamos preparados»

Qual é o racional de parar o país e concentrar grande parte da capacidade de resposta do SNS (sem recorrer até há dias aos hospitais privados) numa morbilidade que é a 9.ª causa de morte, e representa menos de 1/3 do excesso de mortalidade em relação à média?

WORLDLIFEEXPECTANTY

E não, não é verdade que seja a pandemia a arrasar o SNS. O SNS já estava arrasado antes pela redução de 40 para 35 horas, por 5 anos de cativações e desinvestimento e pela incompetência na gestão dos recursos. Alguns indicadores 2,4 camas por mil habitantes e 4,2 camas em UCI por 100 mil habitantes ou 1/5 da Alemanha; média de 9 dias dos internamentos; taxa de infecções adquiridas no hospital superior a 10% (fonte). A concentração na pandemia teve como resultado os seguintes números de actos médicos por fazer: 5 milhões de consultas nos Centros de Saúde, 1 milhão de consultas hospitalares, 17 milhões de exames de diagnóstico e terapêutica e 100 mil cirurgias (Carta aberta à ministra).

«Queda monumental»

O índice de produção industrial do INE caiu 8 pp em Setembro relativamente a Agosto. O volume de negócio dos serviços, que tinha caído 30,1% no 2.º trimestre, recuperou no 3.º trimestre e caiu 14% até Setembro face ao ano passado.

No 3.º trimestre as exportações e as importações de bens caíram em relação a 2019 respectivamente 3,3% e 13,8% o que permitiu uma redução de 643 milhões do défice da balança comercial de bens em Setembro. As exportações de bens e serviços (incluindo o turismo) no final do 3.º trimestre estavam 15% abaixo do nível antes da pandemia.

Quanto ao emprego, Portugal teve a quarta maior queda homóloga da UE no 2.º trimestre.

O PIB do 3.º trimestre cresceu 13.3% em relação ao do 2.º trimestre que tinha caído 16,3%, a quarta maior queda na UE. No final do 3.º trimestre, a economia tinha caído 5,7% em relação ao ano passado, também a quarta maior queda. O semanário de reverência faz um título que é uma prova da excelência do jornalismo amigo: «Economia portuguesa tem a quarta maior recuperação na Europa no terceiro trimestre». É uma espécie de auto-estrada mexicana, cuja estória está aqui contada.

Face à destruição do tecido empresarial, em particular as PME, em parte resultante das medidas do governo de resposta à pandemia, não admira que agência Moody's considere que Portugal está entre os três países (os outros dois são a Grécia e a Itália) que mais serão afectados. Também o prognóstico da Economist Intelligence Unit é de recessão acentuada com as finanças públicas a deteriorarem-se rapidamente.

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