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29/06/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (39) - Em tempo de vírus (XVI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Correndo bem, é nossa realização. Correndo mal é problema deles

«O líder socialista, “visivelmente aborrecido”, pôs-se de pé e quis “deixar claro” que, se algo falhar, a culpa não será sua» e , dito isto, deu de frosques deixando S. Ex.ª a falar sozinho. Foi assim, segundo a Visão, que o Dr. Costa lavou antecipadamente as mãos se a coisa correr mal.

Ele deixou claro que não aceitou o lugar de primeiro-ministro para a choldra mal agradecida lhe pedir responsabilidades das mortes de Pedrógão Grande, das vergonhas de Tancos, das consequências dos ajuntamentos do 1.º de Maio ou dos espectáculos no Campo Pequeno ou das finais da UEFA ou da Festa do Avante. Por exemplo, a choldra que acagaçada se refugiou em casa deve agradecer-lhe a mitigação dos efeitos da pandemia e não responsabilizá-lo pelos efeitos devastadores na economia das medidas que tomou de parceria com o Dr. Rebelo de Sousa. Quereis outros exemplos? Culpai a pandemia da queda das exportações e do turismo e agradecei ao Dr. Costa o que ele exportou e os turistas que mandou vir.

A família Costa está já a trabalhar para o futuro

O presidente socialista da junta de freguesia de Campo de Ourique renuncia ao cargo e passa a pasta ao vogal Pedro Miguel Tadeu Costa que tem sido sido responsável pelo relacionamento com a câmara municipal de Lisboa de que é presidente o putativo sucessor na liderança do PS do seu pai, o Dr. Costa.

No Estado Sucial não há conflito de interesse. Há interesses em conflito

A semana passada o Dr. Costa informou o parlamento que o Dr. Leão, ex-secretário de Estado do Dr. Centeno e seu sucessor na pasta das Finanºas, tinha proposto ao seu governo a nomeação do Dr. Centeno para governador do Banco de Portugal, onde será fiscalizado por um conselho de auditoria por ele nomeado e onde terá nas mãos os casos do Banif e do Novo Banco, as mesmas mãos onde já estavam como ministro das Finanças.

Por uma daquelas felizes coincidências que os deuses reservam aos seus favoritos, o BCE a quem compete dar um parecer sobre o projecto de lei que altera as regras de nomeação e que se aprovado impediria o Dr. Centeno de ser agora nomeado, pediu mais quatro semanas. Em consequência, o parlamento não aprovará a lei antes na nomeação e permitindo ao Dr. Centeno ser governador do Banco de Portugal e ter finalmente um merecido descanso como gerente de uma sucursal do BCE com um salário superior em 100 mil euros ao salário do presidente da Reserva Federal americana.

A arte de transformar más em boas notícias

O desemprego crescente é uma das consequências inevitáveis dos excessos de confinamento. Apesar dos critérios amigos do INE que não conta com o desemprego de mais de uma centena de milhar de trabalhadores classificados como inactivos ou em lay-off total, a ministra do Trabalho reconheceu que «desde o final de Fevereiro, temos mais 93 mil desempregados» mas apressou-se a dar a boa notícia que «a curva da evolução do desemprego, neste momento, é descendente». Esperai dois ou três meses para ver onde nos deixa a curva descendente da Dr. Mendes Godinho.

«Estamos preparados»

O número diário de infectados tem vindo a aumentar consistentemente desde meados de Maio, principalmente na região de Lisboa onde, por coincidência, os poderes fácticos organizaram ou deixar organizar vários eventos potencialmente de risco. Nada de muito extraordinário, visto que o excesso de confinamento diminuiu drasticamente os contactos e o número total de infectados por milhão ainda não é muito elevado, é apenas o 14.º na Europa.

Foi o suficiente para as más consciências começarem a furtar as nádegas à seringa das responsabilidades e atribuir ao aumento dos infectados aos testes e/ou à imprudência dos jovens com as suas festas. Foi preciso um grande descaramento, porque quanto aos testes os técnicos afastaram liminarmente essa razão (e daí o aborrecimento do Dr. Costa e o «puxão de orelhas» à Dr.ª Temido) e o que dizer quanto à imprudência dos jovens apontada por um dos imprudentes velhos?

O orçamento opaco

Qual o evento com maior impacto no aumento das despesas e redução das receitas do OE 2020? Acertaram se responderam a pandemia. Qual o custo total orçamentado das medidas de combate à pandemia e de apoio à economia? Ninguém sabe. Sabe-se apenas que as medidas identificadas no OE explicam apenas menos de metade do défice.

Mas o governo não fica por aqui e quer assegurar a opacidade no futuro. Deve ter sido por isso que o adiou a adopção e propôs alterações à Lei de Enquadramento Orçamental (LEO) que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental considera desvirtuar a lei de 2015 e vê como uma intromissão «ao modo como outro órgão de soberania (o parlamento) se organiza internamente para participar no processo legislativo».

«Pagar a dívida é ideia de criança»

Com o orçamento rectificativo que o newspeak orwelliano do governo baptizou de orçamento suplementar, as necessidades de financiamento do governo duplicam de 14 para 29,3 mil milhões de euros.

Quanto ao endividamento total da economia, graças ao aumento de 11,3 mil milhões da divida pública e de 3,3 mil milhões do sector privado, bateu em Abril um novo recorde atingindo 736,7 mil milhões de euros ou seja mais de quatro vezes o PIB de 2020 se este tiver um quebra de 15% (deve ter mais). Cada vez tem mais razão o Eng. Sócrates ao dizer que «pagar a dívida é ideia de criança».

«Queda monumental»

E cada vez mais razão temos dar ao Dr. Rebelo de Sousa com sua involuntária previsão da «queda monumental». Segundo IEFP, nos últimos doze meses o desemprego aumentou 103 mil para 409 mil. É claro que este número não bate certo com a taxa de desemprego oficial do INE que não conta mais de uma centena de milhar de trabalhadores classificados como inactivos.

Por força da queda abissal do turismo, o excedente da balança de serviços diminui 1.371 milhões até Abril, contribuindo assim para as contas externas terem registado o maior défice desde 2012 (-864 milhões), aprofundando uma tendência que já vinha do ano passado, como se vê no gráfico seguinte.

Eco
E desta vez a economia portuguesa, que teve nos últimos 5 anos as velas enfunadas, vai deixar de poder contar com os ventos favoráveis da conjuntura internacional. O FMI reviu em baixa todas suas previsões: EUA -8,0%, China +1,0%, e Zona euro -10,2% . Moral da estória: as previsões do governo inscritas no OE 2020 (-6,9%) são cada vez mais do domínio da fantasia, e serão por isso crescentes as necessidades de ilusionismo do governo, afigurando-se em breve uma missão impossível até para um super-dotado como o Dr. Costa.

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