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17/06/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (192)

Outras avarias da geringonça e do país.

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos

Que um deputado da bancada socialista tenha assinado um artigo de opinião no Observador com o título «Como evitar um 4.º resgate?», prescrevendo políticas com esse propósito, várias das quais não hesitaríamos em apoiar, nós aqui nesta espécie de aldeia da Gália onde se refugiam duas almas de pendor liberal, quer dizer qualquer coisa? Certamente, mas não muito, porque Paulo Trigo Pereira, o deputado em causa, é professor de economia (não que isso signifique muito, lembremo-nos do professor Louçã), é independente (não que isso signifique muito, lembremo-nos das resmas de "independentes"), abandonou a bancada socialista e passou a deputado não inscrito (isso já quer dizer alguma coisa). Quer dizer principalmente, creio, que o resultado provável da página virada do Dr. Costa começa a ser evidente até para os seus prosélitos arrependidos.

A página a seguir à austeridade

Diz quem viu que o desfile militar do 10 de Junho em Portalegre pareceu ter sido feito com as sobras do material da I Guerra Mundial onde os soldados portugueses, mal preparados e pior equipados, foram dizimados aos milhares pelos boches. Percebe-se que um governo que anda a fazer o papel de mãezinha dos cidadãos, dizendo-lhe o que devem comer e beber, com quem e como devem ter sexo, ao mesmo tempo que os assalta na rua para lhes extorquir uns cobres, não se preocupe em cumprir as funções essenciais do Estado.

Se o Estado Sucial socialista não cumpre as funções essenciais, porque cargas de água haveria de cumprir as outras? Se o SNS não tem capacidade para operar todos os doentes que precisam, isso seria menos preocupante do que não ter os meios para defender o País, porque sempre esses doentes poderiam ser operados nos "privados", como gostam de dizer aquelas almas que reduzem ao País à vaca marsupial pública. Poderiam e são operados, só não são pagos a tempo e horas,

O mesmo se pode dizer dos transportes públicos que, sendo públicos, poderiam ser prestados por empresas privadas, mas, sendo empresas públicas, caem na esfera da página virada e, se já estavam de pantanas, agora que a procura aumentou com a redução do preço dos passes, estão caóticos.

Boa nova / Cuidando da freguesia eleitoral

Esta semana a boa nova é toda dedicada à sua freguesia onde Costa põe todas as fichas e manda anunciar através da imprensa amiga que o programa para as legislativas vai acabar com a regra de só contratar um por cada dois funcionários públicos que saem. Isto mostra o talento extraordinário de Costa para confundir os atoleimados que ainda não perceberam que o governo de Costa nunca cumpriu essa regra porque desde posou em S. Bento já contratou 31 mil novos utentes da vaca e, segundo as contas do semanário de reverência, ainda vai ter que contratar mais 45 mil, tudo isto à pala da reversão para as 35 horas que não iria custar nada.

Na mesma linha, a ministra da Modernização Administrativa, filha do ministro das Corporações, perdão do Trabalho, anunciou uma nova grande medida de modernização administrativa de um impacto avassalador: os funcionários públicos vão poder faltar para acompanhar um filho menor de 12 anos no primeiro dia do ano lectivo.

Mas tudo isto são trocos face ao grande anúncio que, esse sim, pode dar a maioria a Costa: aumentar salários na função pública. Enquanto que aqui em Lisboa, Costa anunciou esses aumentos, o Ronaldo das Finanças no Luxemburgo, na sua encarnação de líder do Eurogrupo, presidiu à aprovação pelo Conselho de Governadores do Mecanismo Europeu de Estabilidade do relatório anual de 2018 que «adverte no seu relatório anual que Portugal deve prosseguir políticas orçamentais prudentes à luz da sua elevada dívida pública, aconselhando particular prudência com promoções e aumentos salariais na função pública

As mentiras do costume

Segundo o Expresso, que nestas coisas nunca se engana, o exemplo de Centeno e das suas cativações estende-se também ao domínio da informação das estatísticas rodoviárias que o MAI - son ami Eduardo Cabrita, um membro proeminente da família socialista com imensa experiência a esconder informação - anda a reter dentro da gaveta para nos poupar às más notícias do aumento da sinistralidade.

Soube-se agora que a Agência para a Modernização Administrativa que trata do Simplex - aquele dispositivo que multiplica as bichas para o Cartão de Cidadão - andou a contar estórias sobre o uso de uma aplicação para substituir um documento de identificação, no que foi desmentida pela polícia, imagine-se.

As dívidas não são para se pagar, foi isto que ele aprendeu

No final do ano passado foi amplamente propagado que o rácio do crédito malparado tinha descido para metade em três anos. Faltou dizer que, apesar disso, ainda representa 9,4% que é o dobro do rácio médio da zona euro.

Quanto à dívida pública continuamos a assistir ao fascínio pela dívida barata e à celebração das baixas taxas de juro que no último leilão desceram uma vez mais. Descida que não impedirá que subam como aconteceu depois da adesão ao Euro em que desceram vários pontos percentuais para a partir de 2008 subirem três vezes o que tinham descido.

O crescimento é "poucochinho"

O indicador avançado da economia portuguesa de Abril da OCDE está em queda há dez meses consecutivos antecipando a continuação da desaceleração. No mesmo sentido, o Boletim Económico deste mês do BdP antecipa um saldo negativo da balança de bens e serviços já este ano e revê em baixa a previsão do crescimento do PIB em 2020. Assim, percebe-se melhor o título do artigo de  Paulo Trigo Pereira.

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