É raro o dia em que não tenha razões para me felicitar por não ter votado no candidato Marcelo Rebelo de Sousa (engoliria o sapo na segunda volta, como os comunistas a quem Cunhal mandou votar em Soares). Esta semana não foi excepção. Dos vários episódios, vou citar apenas dois.
O primeiro é típico da verborreia marcelista e da sua imanente incapacidade de ter uma «pose de Estado», para usar uma expressão ridícula, e de conter a sua obsessão de se mostra conhecedor e influente. Qual o propósito de comentar uma suposta «gravação mas que lhe tinham dito que era violenta e horrorosa», que circula «a nível de Estados» e «ninguém em Portugal teve acesso ao vídeo ou o viu» sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, gravação de que lhe falou «um político importante»? Depois de quase dois anos ainda não percebeu a diferença entre ser comentador topa-a-tudo e fazer de presidente da República?
O segundo episódio ilustra a dificuldade de Marcelo distinguir a relevância das coisas dando ao trivial as honras de assuntos de Estado e aos assuntos de Estado a importância das trivialidades. Foi isso que fez a propósito da incapacidade de uma parte dos mídia responderem aos novos desafios da emergência do digital e das redes sociais, incapacidade a que chamam crise da comunicação social, com a mesma lógica com que os carroceiros do início do século passado chamariam crise dos transportes à emergência do automóvel.
Sua Excelência a esse propósito declarou que existe uma «situação de emergência da comunicação social em Portugal (que) de, ano para ano, vai sendo cada vez mais grave (e está) a criar problemas já democráticos, problemas de regime», interrogando-se «até que ponto o Estado não tem a obrigação de intervir?» Só faltou recomendar ao governo socialista de Costa que pagasse com o dinheiro dos contribuintes os jornais que estes não compram. Sugestão que Costa aceitaria de bom grado e teria a virtualidade de converter a totalidade dos mídia, e não apenas uma parte importante, em caixa de ressonância do governo.
Há uma diferença entre o transporte por carroças e o jornalismo? Na verdade as carroças não são indispensáveis à democracia mas a democracia não vive sem jornalismo livre e independente. É também por isso que a nossa é uma democracia asmática porque o jornalismo que temos dificilmente se pode classificar como livre e independente e padece frequentemente dos mesmos males que os jornalistas de causas apontam às redes sociais.