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06/08/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (147)

Outras avarias da geringonça.

Se esta crónica vos parecer mais desvairada do que o costume, lembrai-vos que que a temperatura ambiente nestes dias de canícula excede largamente o máximo tolerável pelo homem branco heterossexual - sim, eu sei; é uma expressão condenável pelo código PC, mas não posso falar pelas outras minorias; nem pelas mulheres, claro.

Descansai, porém, o meu desvario não chegará para continuar a espiolhar a roupa interior do berloquismo que com o caso do «especulador imobiliário» Robles expôs agora ao grande público o que os mais atentos há muito tinha percebido, a saber: o Berloque é um partido como os outros, apenas os seus dirigentes são bastante mais hipócritas.

Se não fosse já ter feito um aniversário o desvario do ministro da Defesa e do seu CEME sobre o caso do material de Tancos com paradeiro desconhecido / furtado / roubado / desaparecido / perdido / recuperado / ainda não recuperado, poder-se-ia também atribuir à canícula os desenvolvimentos recentes.

A canícula poderia também explicar os desvarios da Protecção Civil que envia as mensagens para nos alertar dos perigos depois de estes já terem passado e, em caso de emergência, aconselha-nos a telefonar para uma firma de para-brisas. Ou o facto de estar o governo a tratar directamente dos horários da CP, excepto da linha de Cascais que em 7 anos tem menos 137 comboios por dia. Bem como o lapso do ministro do Planeamento que twitou uma obra de 58 km na linha do Douro que afinal só tem 16 (é o efeito do multiplicador keynesiano). Estranhamente, apesar dos cuidados do governo, o Alfa pendular foi suspenso por «debilidade do ar condicionado».

O desfecho do SIRESP, a quem o governo deu mais dinheiro e acabou com uma participação menor, também dificilmente se pode atribuir à canícula, visto que é um filho dilecto de Costa nascido em 2006 quando era ministro da Administração Interna. Costa que está metido até ao pescoço neste tema, como se pode confirmar neste e naquele requisitórios do ano passado que teriam acabado com a carreira de qualquer político menos dotado na arte das fintas de corpo.

Indiferente à canícula é o desvelo sindical que continua a marcar greves, como a dos Registos e Notariado que teve lugar a semana passada, a da Caixa no dia 24 de Agosto, a do pessoal não policial do SEF às horas extraordinárias por tempo indeterminado e a dos Ferroviários para 3 de Outubro contra a falta de investimento. Admitindo a minha ignorância em matéria de greves, não conheço outros países onde haja greve às horas extraordinárias ou contra a falta de investimento. Repare-se também que os utentes da vaca marsupial pública são um sexto da população activa mas são deles quase todas as greves.

Por falar na vaca marsupial pública, a semana passada quase todos os jornais celebraram o facto da percentagem de funcionários públicos em Portugal ser das mais baixas da UE, Pois será, contudo a percentagem em Portugal é praticamente igual à média (15% contra 16%), aumentou entre 2000 e 2016 e os seus salários dos funcionários representavam 24% do PIB em 2017 contra uma média europeia era de 21,7% (fonte Pordata), ou seja os funcionários portugueses são melhor remunerados em termos relativos.

Apesar das medidas de austeridade socialista (exemplo: falta de meios que levou os directores dos serviços de ginecologia e obstetrícia do hospital Amadora-Sintra a ameaçarem demitir-se), as despesas não descem e o défice é garantido apenas pelo aumento das receitas de impostos induzidas pelo crescimento.

Crescimento cuja provável desaceleração poderá comprometer a continuidade da consolidação e colocar a meta orçamental em risco já este ano (ler aqui este artigo de Pedro Arroja). Um dos sinais é a redução para 0,3% do crescimento no 2.º trimestre da Zona Euro que tem estado a puxar pelas nossas exportações. A confiança dos consumidores diminuiu em Junho e Julho, mas por enquanto o consumo não esmorece, sobretudo o dos popós dos quais foram vendidos 180 mil até Julho, mais 6% do que no mesmo período do ano passado.

Os dignitários e a imprensa do regime saudaram com entusiasmo a queda da dívida pública, celebração equivalente, como Henrique Monteiro notou na sua coluna do Expresso, à de uma criatura que às 11 da manhã regista o facto de estar de dieta desde o pequeno-almoço. Mas talvez a imagem mais adequada seja a de uma celebração de uma dieta que nem sequer começou.

Fonte: Jornal Eco

Ora veja-se a trajectória da dívida líquida de depósitos sempre a aumentar. Ao usar a almofada de liquidez que continua a tendência de redução, o Ronaldo das Finanças deu um pontapé de bicicleta para a bancada dos sócios que em termos de consolidação orçamental num período de vacas gordas é equivalente a um chuto para a frente ou, melhor, para as botas do adversário.

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