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17/06/2011

SERVIÇO PÚBLICO: A política energética do socratismo é um perfeito disparate

Se o A Causa foi modificada fosse um blogue normal, bastaria fazer um link para este post e escrever que é o libelo melhor fundamentado (e pior escrito) que se publicou este ano contra a política energética do socratismo e recomendar a sua leitura. Acontece que o dito tem o péssimo costumo de apagar periodicamente os posts e tanto mais depressa quanto maior o interesse desses posts. Por isso, sou compelido a transcrever uma parte substancial da prosa incluindo erros.

«Existe um pressuposto de que os combustíveis fósseis se vão esgotar no futuro próximo. Como é óbvio, nem o carvão, nem o petróleo, nem o gás natural alguma vez vão acabar. O que vai acontecer e como o Tiago Julião Neves aliás concorda, é que, gradualmente, quer por progressiva escassez destes e consequente subida do seu preço de mobilização energética, quer por o avanço tecnológico tornar mais barata a produção a partir de fontes reno-sustentáveis, os agentes económicos vão encaminhar-se naturalmente para os modos de produção reno-sustentáveis. É uma questão de tempo, e a lógica da batata é muita clara: não é necessário o esforço ou a visão de ninguém para que voluntariamente as pessoas mudem para aquilo que custa menos a produzir e a comprar.

O mais provável é passarmos por um período prolongado em que as fontes fósseis de energia e as fontes reno-sustentáveis, por factores tão diversos como pormenores tecnológicos, geograficos, culturais, políticos ou de mero acaso, ganhem alternadamente o centro do ring, mas é certo que as energias reno-sustentáveis um dia farão o KO aos combustiveis fósseis. É pois a altura certa para deixar bem claro o que nem sempre é compreendido nesta questão (e, mais uma vez, acho que este não é o caso do Tiago); ninguém, em parte alguma, é contra as energias renováveis e sustentáveis; é-se, tão somente, contra uma política que, num país como o Portugal, utilize a subsidiação estatal para a sua mais rápida adopção como fonte de energia.

A espaços, a ciência económica é como a ciência geofísica da previsão sísmica: compreende e conhece que as merdas vão acontecer, só não sabe dizer quando. Acresce que, neste caso, também não se sabe exactamente como. Daí que nos questionemos: porquê tentar adivinhar? O engenheiro José Sócrates e defensores como o Tiago Julião Neves, misteriosamente, afirmam não só que sabem quando vai acontecer (proximamente, muito proximamente), como como vai acontecer. E vai daí, hipotecam uma parte dos recursos deste abastado país numa raspadinha de contornos ecológicos erotizada com tecnologia de ponta e inovação.

Tudo isto não deixa de ser espantoso. Quem lê a mais básica, sucinta e genial publicação de tecnologia e ciência que por aí anda (o suplemento do The Economist "Technology Quartely") questiona-se como é que um engenheiro da extinta Universidade Independente consegue, quando confrontado com o furação katrina de inovações que neste momento estão a emergir dos laboratórios da América, da Europa, da China e do Japão, condenar o seu país a um futuro que, por enquanto, ninguém sabe que caminhos vai tomar. Países como a Alemanha, ainda antes de salvar o Euro e a União Europeia, podem dar-se a esse luxo; mas e nós: fará sentido provocar um tamanho efluxo de euros quando ainda nem toda a população temos ligada a uma rede de esgotos?

Porque ao se comprar e subsidiar, por exemplo, uma torre eólica ou um painel solar com as tecnologias ineficientes de hoje, o que se está efectivamente a fazer é a impôr a um país pobre uma tecnologia mais cara do que as alternativas disponíveis, tecnologia essa que será ultrapassada no futuro próximo por outras que, então sim, transformarão o vento e o sol em energias rentáveis, tudo isto ao preço de ficarmos a pagar durante anos e anos em dominó os juros de termos pedido financiamento para uma tecnologia que entretanto ficou obsoleta. É bonito, não é? Mas, pergunto de outra maneira: porque não esperar?

Por esta altura o Tiago Julião Neves insiste no que me parece ser um argumento desmedidamente falacioso, para não dizer pior: a de que esta política tem a seu lado vantagens como "a geração de emprego, criação de riqueza, redução de importações, fomento de exportações, redução de emissões, apoio à inovação e desenvolvimento tecnológico". Mas esta merda faz algum sentido, caralhos ma'fodam? Não se poderá diagnosticar estas mesmas vantagens sempre que se injecta artificialmente (quero dizer: suprindo o seu deficit em relação ao respectivo mercado natural) dinheiro na criação de uma industria, qualquer que ela seja, desde a produção de patinhos de plástico amarelos até à produção de dildos de plástico vermelhos?

Não percebo como é que não se compreende uma coisa, que é simples como as ventas de mediocre do António José Seguro: quando, centralizadamente, se subsidia a produção de um bem, está-se a retirar informação e diversidade ao sistema, e assim a limitar a sua capacidade de adaptação às circunstâncias que por definição são irreconhecíveis antecipadamente ao homem, e a substitui-la pelas possibilidades de um único cérebro (que, relembro, no caso é o do Eng. José Sócrates).

E dá-se o caso que a incerteza que hoje existe em relação ao futuro energético da humanidade tem origem não apenas no caminho que as tecnologias de produção energética vão tomar, como também nas tecnologias de poupança e eficiência. Ora, quando os argumentos principais para a aposta nas reno-sustentáveis é a inovação tecnológica, diminuição da dependência exterior e os beneficios ambientais, o mais lógico seria esbanjar dinheiro em tecnologias de poupança energética, e não de produção.

O raciocínio é infantil de tão lógico: perante a incerteza, poupança há-de ser sempre contabilizada como poupança, qualquer que seja o futuro tecnológico que se considere; pelo contrário, se, por vississitudes que nem o engenheiro José Sócrates consegue antecipar (é possível, é possivel que ele não veja todo o futuro), o carvão ficar mais 50 anos ao preço da chuva, o vento for desbaratado por um avanço na transformação do fotões em energia témica, ou vice versa, ou o nuclear tiver uma solução para os seus problemas, ou...., ou....., ou...., os investimentos que tiverem sido canalizdos para os cavalos perdedores terá sido, rigorosamente, dinheiro deitado ao lixo.

Podemos dar-nos a este luxo alemão? Não podemos (que eu estive ali a fazer as contas e não podemos). Deveríamos gastar o dinheiro que decidamos ter para aventuras de "inovação" em arquitectos e engenheiros que saibam aplicar e desenvolver tecnologias que reduzam o consumo energético dos edificios (a este propósito, o Tiago Julião Neves que dê uma olhada às escolas sujeitas às sevícias - bem, aqui estou a exagerar - da Parque Escolar, uma das bandeiras deste governo; é de vómitos, de vómitos), em métodos e sistemas de produção industrial e agrícola que reduzam as facturas de combustivel, electricidade e fertilizantes, em um ordenamento do território que racionalize os fluxos de pessoas e matérias primas, etc, etc, etc

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