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A apresentar mensagens correspondentes à consulta Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
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27/10/2024

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (13) - Muitas residências secundárias e muitos alojamentos vagos

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12)

Um dia destes tropecei neste quadro e resolvi fazer umas contas simples. 

Economist

Com 10.640 mil residentes (Pordata, 2023)  e 5.971 mil alojamentos familiares clássicos (INE, 2021), o número de habitações por 1.000 habitantes atinge em Portugal a bonita cifra de 561 o que nos coloca no 3.º ou 4.º lugar dos países melhor dotados de alojamentos nos 15 países da OCDE listados no quadro e claramente acima da média. Como explicar a enorme falta de habitações quando em termos relativos estamos tão bem colocados? 

Desde logo porque dos 5.971 mil alojamentos apenas 4.143 mil (69,4%) eram de residência habitual e 723 mil (12,1%) estavam vagos (INE, 2021).

O parque habitacional: análise e evolução 2011-2021 (INE, 2024)

Embora, como o gráfico mostra e como seria de esperar, as maiores percentagens de alojamentos de residência habitual se concentrem nas regiões mais urbanizadas e, em consequência, as maiores percentagens de alojamentos de residência secundária se situem nas regiões menos urbanizadas do interior e no Algarve, as percentagens de alojamentos vagos variam num intervalo relativamente estreito e as regiões mais urbanizadas como Grande Lisboa (11,1%) e Área Metropolitana do Porto (10,0% ) apresentam taxas de alojamentos vagos próximas da média geral (12,1%). 

Apesar de comparativamente com outros países não termos poucas habitações, a sua falta relativa é agravada porque nas regiões de maior carência de habitação mais de um em cada dez alojamentos não estão ocupados e no total do país quase um em cada cinco alojamentos são residências secundárias, uma proporção praticamente dupla da média da UE.

05/07/2024

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (12) - A medida da inacessibilidade das rendas em Lisboa

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10) e (11)

Não é novidade nenhuma que as rendas em Lisboa não são acessíveis, ainda assim é interessante medir essa inacessibilidade em termos comparativos com outras cidades europeias. O diagrama e o quadro seguintes contém os dados de um índice de acessibilidade da habitação criado pela Economist que mede a capacidade de um solteiro arrendar sozinho uma habitação, baseada na comparação entre o salário líquido de impostos médio e o salário que seria necessário para que a renda média de um T1 não ultrapasse 30% desse salário.
Em termos absolutos, o diferencial em Lisboa entre o salário para tornar a renda acessível e o salário médio efectivo é o quarto mais elevado depois de Londres, Dublin, Berlim,


Em termos relativos, Lisboa tem a terceira mais elevada inacessibilidade de entre as 35 cidades europeias consideradas. Pelo menos em termos de inacessibilidade das rendas estamos no topo da Óropa.

25/06/2024

Sequelas da Nau Catrineta do Dr. Costa (13)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa» e do «Semanário de Bordo da Nau Catrineta». Outras Sequelas da Nau Catrineta do Dr. Costa.

Take Another Plan. «É ela ou nós»

Concluiu o Dr. Costa, escutado depois de ter garantido que «o governo não consente uma merda destas», referindo-se ao escândalo com Mme Ourmières-Widener, ex-CEO da TAP. Ao divulgar as escutas, o MP prestou um serviço ao País que teve a confirmação das verdadeiras razões do despedimento, e também a Mme que acrescenta mais um argumento à sua tese de que o seu despedimento foi político e melhorando assim as suas probabilidades de receber uma bela indemnização.

Para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei

Agora que foi reformado o Dr. Pinto da Costa, o quase eterno capo do FêCêPê e líder da luta dos tripeiros do Norte contra os marroquinos que ocupam a capital («O FC Porto, infelizmente, é um dos poucos baluartes do Norte que resiste ao centralismo»), foi violado o segredo de justiça e soube-se que ministro do Ambiente do Dr. Costa e o pai do ministro revelaram uma negociação da data das buscas em 2021 no âmbito do caso "Saco Azul".

O Estado sucial criado pelo PS e o PS-D é um “monstro

Uns anos depois de o ter ajudado a criar, o Dr. Cavaco Silva descobriu um "monstro" que tomou proporções tais que a UTAO se confessou incapaz de estimar o custo total da “recuperação” das duas centenas de carreiras da administração pública,

«Em defesa do SNS, sempre» / «O SNS é um tesouro»

Há sete anos o governo do Dr. Costa assinou um protocolo com o Dr. Basílio Horta, presidente da câmara de Sintra, um entre vários antigos cristãos-democratas convertidos às delícias do socialismo, para a construção do hospital de Sintra co-financiado pela câmara e o ministério das Finanças. O ano passado o ministro do SNS Dr. Pizarro anunciou a contratação de 600 profissionais. Sete anos depois o Dr. Basílio anunciou a inauguração do hospital com as obras por terminar, sem equipamento e sem os profissionais. (fonte)

Doze urgências de obstetrícia e pediatria estiveram encerradas no último domingo. No hay problema, os portugueses têm cada vez menos filhos e a classe média opta cada vez mais pelas cesarianas que podem ser programadas de acordo com as escalas.

A defesa do SNS pelos governos socialistas do Dr. Costa deixou uma bela herança de 450 mil doentes à espera da primeira consulta.

Há falta de habitação porque há falta de construção

mais liberdade

A tese oficial da esquerdalhada para justificar o aumento do preço das casas e dos arrendamentos foi a especulação dos senhorios, o alojamento local e a compra de habitação pelos estrangeiros (ver a esse respeito a série de posts Os equívocos do Programa "Mais Habitação). O diagrama acima explica melhor a causa principal do que toda a treta ideológica à volta deste tema.

Para a CP ser lucrativa só é preciso aumentar os subsídios

O Dr. Pedro Nuno, ministro das Infraestruturas de então e líder do PS de hoje, celebrou os lucros da CP de 9,2 milhões em 2022 autoelogiando-se pelo “conseguimento” à custa de 2,3 mil milhões de subsídios de exploração e deixando a dúvida se é simplesmente mentiroso ou apenas incompetente. Como em 2023 os subsídios de exploração não foram suficientes os “lucros” de 2023 baixaram para 3,6 milhões.

O PS tem um governo par(a)lamentar

Em coligações eventuais com o Chega, o PS faz possível por torpedear a governação (e talvez não precisasse). A lista de iniciativas socialistas não pára de aumentar: IVA da eletricidade, deduções de rendas no IRS.

07/02/2024

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (11)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9) e (10)

Em boa verdade, o Programa "Mais Habitação" não criou do nada os equívocos à volta da "crise da habitação", apenas acrescentou mais uns quantos aos que existiam e aos que depois se lhes vieram a adicionar. Um dos mais mais recentes teve origem no Idealista, um site que se atribui a missão de «dar transparência ao setor imobiliário (e) disponibilizar dados do setor imobiliário de forma estruturada

Segundo o Idealista, a oferta de casas para arrendar teve um aumento do 4.º trimestre de 2022 para o 4º trimestre de 2023 de 55% a nível nacional com aumentos superiores nalgumas das principais cidades como Viseu, 115%, Porto 113%, Braga 85%, Lisboa 63%. A explicação, segundo o Idealista é o programa «Mais Habitação, programa que entrou em vigor em outubro do ano passado e já estará a produzir efeitos, ajuda a justificar os dados, em paralelo com outros factores» como «as restrições no Alojamento Local, o fim do regime de Residentes Não Habituais (RNH), penalizações das casas devolutas e a redução de impostos sobre as rendas».

Vejamos os vários factores apontados:

Mais Habitação - como pode um «programa que entrou em vigor em outubro do ano passado» ter tido um efeito desta magnitude (aumento de 55% da oferta)?

Restrições no Alojamento Local - como se «por cada alojamento local cancelado em 2023, foram registados mais de dois»?

Fim do regime de Residentes Não Habituais  - como se o próprio Idealista concluiu em Outubro «Fim do regime dos residentes não habituais preocupa imobiliário»?

Penalizações das casas devolutas - Como se, por exemplo em Lisboa, o presidente da câmara diz ser «totalmente irrealista pensar que a Câmara de Lisboa tem a capacidade de analisar as listas de ausência de consumos ou consumos baixos»?

Redução de impostos sobre as rendas - é uma anedota que não vale a pena comentar.

A explicação cheira a pensamento milagroso, parece ter sido inventada por um porta-voz do governo para justificar as medidas tomadas e passa ao lado do mais óbvio. E o mais óbvio é que o aumento fortíssimo das taxas de juros reduziu a compra de habitação (em 2023 o número dos novos créditos à habitação foi inferior em 12%, segundo BdP), ao tornar menos atractiva a compra comparativamente com o arrendamento. De facto, com as taxas de juro vigentes entre 2010 e 2022, em média, a amortização mensal era inferior à renda de uma habitação equivalente e isso, de resto, é uma das razões para a distorção do mercado de habitação. Por outro lado, a redução da procura para compra está a fazer baixar os preços (ver aqui e ali) e a tornar o arrendamento mais atractivo para os proprietários o que justifica o aumento da oferta.

23/11/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (10) - A "habitação social" a cargo dos senhorios

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8) e (9)

No post anterior escrevi que em Portugal quem tem promovido compulsivamente a "habitação social" são os senhorios a quem são impostos congelamentos de rendas.

Isso é visível quando se sabe que «a renda média dos contratos celebrados entre 2017 e 2021, que representam a maioria do mercado português, era de 440 euros. Já nos contratos celebrados até 1990 a renda média era de 137 euros». (fonte) Admitindo que a tipologia das habitações dos contratos antigos e a dos novos não seja muito diferente, estes números significam que os senhorios estão em média a subsidiar a "habitação social" à razão de cerca de 300 euros mensais por contrato.

Por coincidência, o IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana) publicou há dias o Relatório sobre o Arrendamento Habitacional em Portugal onde estimou o custo anual de compensar os senhorios pelo diferencial de rendas em 653 milhões. 

A este contributo dos senhorios para a "habitação social" em substituição do Estado sucial nos arrendamentos antigos, devemos acrescentar no caso dos novos arrendamentos as limitações compulsivas da actualização a 2% em 2023 que se aplicam a cerca de 900 mil contratos, o que significa uma ajuda compulsiva dos senhorios superior a 200 milhões por ano que se manterão para o futuro. Grosso modo, estamos a falar de quase mil milhões de euros que os senhorios desembolsam pela "habitação social".

18/11/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (9) - "Trancas à porta"

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8)

Há vários meses que venho publicando posts mal amanhados tentando fazer alguma luz sobre este tema contaminado por ideias feitas e agitprop, principalmente socialista e berloquista. Se esta edição da Aletheia já tivesse sido publicada há mais tempo ter-me-ia poupado tempo.

Em benefício de quem não tenha lido este trabalho de uma equipa do IL liderada por Carlos Guimarães Pinto, faço um curto resumo das principais conclusões acrescentando alguns comentários.

Esse resumo é sobretudo centrado no diagnóstico, que foi a óptica dos oito posts anteriores e não nas soluções, porque para administrar uma medicação é preciso primeiro saber qual é a doença.

  • O aumento dos preços da habitação verificou-se em toda a UE, mas menos nos países do Sul, com excepção de Portugal;
  • Em Portugal os preços têm aumentado especialmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e no Algarve;
  • O impacto da procura dos não residentes que representa cerca de 6% (metade da Espanha) e a dos vistos gold é ainda menor (cerca de 3%) não pode explicar o magnitude do aumento, além de que essa procura concentra-se no segmento alto;
  • O alojamento local só tem alguma expressão no Algarve e nas cidade de Lisboa e Porto e em muitos casos resultou da recuperação de casas degradadas. Comentário pessoal: suspeito que o clamor à volta do alojamento local resulta principalmente de afectar zonas residenciais preferidas pela militância esquerdista;
  • As taxas de juros historicamente mais baixas de sempre com a preferência esmagadora pela opção de taxas variáveis tornaram as mensalidades do crédito à habitação mais baixas do que a renda de aluguer de uma habitação equivalente potenciando assim um aumento da compra de habitação em detrimento do arrendamento;
  • Essa procura crescente não foi acompanhada pelo aumento das novas construções. Pelo contrário, na última década foram construídas menos 700 mil casas do que a média das 3 décadas anteriores;
  • Indisponibilidade artificial de terrenos aptos para a construção e processos de licenciamento burocráticos são obstáculos que contribuem para limitar as novas construções. Comentário pessoal: a descapitalização da economia portuguesa é sem dúvida outro obstáculo;   
  • Os imóveis vagos não contribuíram para o aumento dos preços porque quando estes aumentaram o seu número diminui e a maioria dos imóveis vagos estão no interior onde existe um excedente de casas e não estão nas zonas urbanas onde a procura mais aumentou;
  • Em suma, «Portugal tem casas onde não há empregos e concentra empregos onde não há casas»;
  • A habitação social promovida pelo Estado tem um peso mais reduzido em Portugal, mas pode não resolver o problema dos preços, como mostram os exemplos dos Países Baixos e da Áustria; 
  • Em Portugal quem tem promovido compulsivamente a "habitação social" são os senhorios a quem são impostos congelamentos de rendas;
  • A construção de habitação pelo Estado não resolverá o problema quando se sabe que para suprir as 700 mil casas construídas a menos na última década o PRR tem como objectivo a construção de 32 mil. 

06/10/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (8) - Os problemas da habitação são iguais em todo o lado mas há uns mais iguais do que outros (II)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

As situações particulares dos países são diferentes, ou mesmo muito diferentes, e por isso meter todos no mesmo saco da "crise da habitação" leva a soluções que não resolvem coisa nenhuma.

Ontem o Financial Times (FT) publicou o artigo Where are European mortgage holders most exposed to higher rates? comparando vários parâmetros de cinco países da Zona Euro (Alemanha, Espanha, França, Itália e Países Baixos) com os do Reino Unido. Apesar das mesmas taxas Euribor, as taxas médias das hipotecas na Zona Euro variam entre 1,55% em França e 3,44% em Espanha (Reino Unido 3,06%).

Os sistemas de taxas situam-se entre dois extremos, por um lado países com uma maioria de hipotecas a taxa fixa por uma ou mais décadas (Alemanha e França), que por isso têm taxas médias mais baixas, e por outro países em que predominam taxas variáveis (Países Baixos) e no meio a Espanha, com cerca de metade das hipotecas a taxas fixas e uma taxa média de juro mais elevada.

Em Portugal as taxas variáveis representam 92,6% da carteira de hipotecas embora com tendência para diminuir em benefício das taxas fixas, que em 2022 representaram 6,9% das novas hipotecas, e das taxas mistas (com um período inicial a taxa fixa seguido de taxa variável), que no mesmo ano representaram 12,3% das novas hipotecas.

A taxa média TAEG (que inclui outros encargos além dos juros) no ano passado aumentou de 2,7% para 3,7% e em Março deste ano registou um aumento homólogo de 3 pp, atingindo 5,4%, 1,7 pp acima da média da Zona Euro. Estas taxas médias não são comparáveis com as referidas pelo FT, mas podemos compará-las com a média das Taxas Acordadas Anualizadas que nas novas hipotecas em Portugal em Março atingiu 3,6%, 0,3 pp acima da média da Zona Euro e mais 2,8 pp face à registada no final de 2021.

O índice de preços da habitação do INE passou de 100 em 2015 para 204,74 no 2.º trimestre de 2023. O aumento de cerca de 105 pp corresponde a um aumento anual médio de 9%, muito acima da inflação média nesse período.

Housing price statistics - house price index (Eurostat)

Como se vê no gráfico acima, em termos comparativos com os países da UE o aumento dos preços das habitações em Portugal desde 2010 foi o oitavo mais elevado e muito acima das médias da UE e da Zona Euro.

Em conclusão, as taxas dos créditos à habitação em Portugal estão em forte crescimento e são mais altas do que a média europeia, em parte devido à opção predominante por taxas variáveis, o que permitiu beneficiar das taxas de referência do BCE baixas e das injecções de dinheiro do alívio quantitativo nos anos 2012 até 2021, mas teve como consequência um aumento mais acentuado desde 2022. O crédito barato e abundante nesses anos potenciou uma procura interna cada vez menos satisfeita com uma oferta de novas habitações em queda (ver o segundo post desta série) o que explica o fortíssimo aumento dos preços da habitação, com o contributo no que respeita às habitações topo de gama da procura externa resultante, entre outros factores, dos incentivos proporcionados pelos chamados vistos Gold.

[Fontes, além das citadas, para os dados portugueses: INE (Índice de preços da habitação - 2º trimestre de 2023) e Banco de Portugal (Relatório de acompanhamento dos mercados de crédito, 2022 e Relatório de estabilidade financeira, Maio de 2023)]

22/09/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (7) - Os problemas da habitação são iguais em todo o lado mas há uns mais iguais do que outros

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Em vários dos posts anteriores tentei mostrar que as situações particulares dos países e das cidades são diferentes e meter todos no mesmo saco da "crise da habitação" não ajuda nada a perceber o problema de cada uma delas e, portanto, só dá para encontrar soluções do tipo one fits all que no final não servem para nenhuma.

Em 1970 existiam cerca de 2,7 milhões de "alojamentos familiares clássicos" para uma população residente de 8,6 milhões. Trinta e um ano depois os números eram cerca de 6 milhões e 10,3 milhões, respectivamente, e o número de alojamentos por 100 pessoas passou de 31,4 para 58,3.
O diagrama anterior mostra a evolução do mesmo indicador entre 1980 e 2022 em diversos países desenvolvidos, valores que, se em 1980 não eram muito divergentes dos portugueses, nos anos mais recentes estes últimos ultrapassam largamente os de todos os outros países e até os da Alemanha. Sem prejuízo de ser normal existirem diferenças regionais mais ou menos importantes, pelos padrões internacionais não haveria uma razão óbvia para Portugal ter uma profunda crise de habitação, como é a versão geralmente percepcionada.

Será preciso, portanto, procurar as razões particulares que contra toda a evidência podem explicar a essa percepção.

(Continua)

26/08/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (6) - Lisboa e Berlim, cidades gémeas

 Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)

Retomo o post anterior e o gráfico do FT que mostra claramente ter sido a evolução das rendas muito diferente nas cinco cidades europeias citadas. Enquanto em Londres e Paris as rendas desceram ou pouco aumentaram face aos níveis do período 2014-2018, Lisboa, Berlim e Madrid tiveram aumentos e no caso de Berlim e de Lisboa aumentos brutais.

Isso mesmo fica ainda mais patente no gráfico seguinte com dados da Savills referentes aos preços das rendas prime nos últimos 12 meses.

Expresso

Haverá outras razões particulares a cada uma das cidades, como a redução drástica do número de casas construídas em Lisboa nas últimas décadas e o aumento da procura estrangeira prime, mas não será por acaso que em relação a Lisboa o governo vem anunciando há mais de um ano medidas administrativas, que culminaram com o "Mais Habitação" e Berlim tem uma tradição fortemente intervencionista no mercado de arrendamento. Para não recuar mais, em 2019 Berlim congelou as rendas e no ano seguinte os arrendamentos subiram 36% e a oferta caiu 25%. Quando falham as intervenções administrativas os seus inspiradores concluem habitualmente que a intervenção foi insuficiente e em Setembro de 2021 foi realizado um referendo em que foi aprovada por 59%-41% a expropriação dos chamados "megaproprietários", os proprietários com mais de 3.000 arrendamentos que representavam um total de 240 mil habitações (fonte, fonte). Um parêntesis para especular que se fosse submetido a referendo a habitação gratuita muito provavelmente seria aprovada, o que é apenas um exemplo do disparate político que é submeter a referendo um tema como este. Duvidando dos resultados das medidas aprovadas no referendo que convocaram, as autoridades de Berlim vêm adiando a sua aplicação. 

Isto não significa que das medidas intervencionistas resulte necessariamente o aumento das rendas, mas apenas que essas medidas não resolvem o problema, agravam-no ou transferem-no para outro problema, como aumentar impostos para subsidiar os arrendamentos e geram ineficiências ao deixarem por conta de apparatchiks o que os mercados resolvem muito melhor.

24/08/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (5) - Unintended consequence "... preemptively raise rents"

Continuação de (1), (2), (3) e (4)
Como é costume nas medidas socialistas, há uma ou várias unintended consequences. Uma delas no Mais Habitação é tão notória que o Financial Times, que raramente se preocupa com o mercado de arrendamento português, distingue-nos no gráfico cima e refere que «Lisbon recorded one of the fastest increases in rents in the six months to June, data from Savills shows, partly because impending rent control policies led some landlords to preemptively raise rents. »


É claro que tudo ficou ainda agravado porque as taxas de juro do crédito à habitação, que eram das mais baixas na UE (incluindo na Zona Euro), são agora das mais altas o que tornou mais difícil a compra de habitação em alternativa ao arrendamento. 

06/05/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

A semana passada recordei aos distraídos que a opção pela compra de habitação própria depende desde logo da facilidade de acesso ao crédito e das taxas de juro e que nos últimos 10 anos e até recentemente as taxas de juro resultantes das políticas monetárias do BCE foram artificialmente baixas o que tornou mais atractiva a opção compra. Nem de propósito, o +Liberdade publicou nos dias imediatos o seguinte diagrama, que é tão claro que dispensa explicações.


De onde, com toda a probabilidade, a procura de habitações para comprar vai reduzir-se, eventualmente poderão até baixar os preços, excepto os dos apartamentos da gama alta dirigidos a um segmento que pode suportar mais facilmente aumentos substanciais das mensalidades. A verdade é que os preços da habitação contêm o factor localização e por isso os aumentos nuns locais coexistem com reduções noutros locais, como no caso dos 50 concelhos cujos preços baixaram o ano passado enquanto a média subiu 14,4%.

Enquanto isso, o pensamento mágico do governo e da comentadoria oficial continua a imaginar que existe um direito a ter uma casa no sítio que se gosta, por exemplo no Bairro Alto. Um exemplo ao acaso: esta peça do Expresso cujo leitmotiv é «Cada vez mais ter dinheiro para comprar ou arrendar casa na zona litoral do país e, particularmente, em Lisboa e Porto é um luxo e um direito de poucos»

Na cabecinha desta gente não entra a ideia de que, inevitavelmente, as áreas mais centrais das cidades com melhores infraestruturas e geralmente mais próximas das grandes zonas de serviço onde se concentra o emprego das zonas urbanas atraem mais gente o que também inevitavelmente se traduz em preços mais elevados, porque os espaços para construir não se fabricam. Foi assim, é assim e assim será, aqui como em todo o mundo. E qualquer política realista e exequível de habitação social tem de ter isso em conta.

(Continua

29/04/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (3)

Continuação de (1) e (2)

O que chamamos "falta de habitação" é a diferença entre a procura e a oferta em certos locais, sobretudo as grandes zonas urbanas, e para certas modalidades de habitação: habitação própria, arrendamento ou ambas. Olhando pelo lado da procura, a opção pela modalidade habitação própria depende desde logo a facilidade de acesso ao crédito e das taxas de juro. Ora nos últimos 10 anos e até recentemente as taxas de juro resultantes das políticas monetárias do BCE foram artificialmente baixas o que tornou mais atractiva a opção compra.

Com o aumento das taxas de juros, ou melhor com o ajustamento aos níveis historicamente normais, a opção compra poderá tornar-se menos atractiva pelo lado da procura e para muitas pessoas que a escolheram por razões de custo com créditos hipotecários a taxa variável (quase todas), o aumento das amortizações mensais pode levá-las a questionar a sua opção. 

É o que parece estar a passar-se. Segundo a plataforma imovendo citada pelo Negócios, «a percentagem de novas casas colocadas à venda há menos de um mês aumentou cerca de 150% nas duas primeiras semanas de abril, comparativamente a janeiro passado».

Imaginemos que o "Mais Habitação", em vez de ser, como é, sobretudo uma campanha de agitprop inventada pelo Dr. Costa, era um plano sério para construir novas habitações para venda. Quando anos mais tarde essas habitações entrassem no mercado é provável que as preferências nessa altura já não fossem a compra mas o arrendamento. É mais um exemplo de como os grandes planos centralizadores para os problemas da habitação mais facilmente criam novos problemas do que resolvem os antigos.

(Continua)

16/03/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (2)

Continuação de (1). 

Algumas questões que deveriam ser respondidas antes de apresentar um plano para resolver os problemas da habitação:

  • Segundo o censo de 2021 há 723 mil alojamentos vagos, mas apenas 109 mil careciam de reparações profundos. Por que estavam vagos os restantes cerca de 614 mil?
  • O Estado construiu em Lisboa entre 1974 até 1980 em média 1.055 casas por ano; nas décadas seguintes a média anual foi sucessivamente 982, 1.151, 991 e 17 (fonte). Nos 32 anos, entre 1990 e a actualidade, com excepção de menos de 8 anos, os presidentes foram socialistas. Durante a segunda década deste século em que foram construídas no total 170 casas, os dois presidentes foram o actual primeiro-ministro e o seu putativo sucessor ministro das Finanças. Por que só agora estas duas criaturas sentiram o apelo da paixão pela habitação?
  • E, já agora, a nível nacional, olhando para o diagrama seguinte, porque esse apelo não se fez sentir durante a vigência do actual governo em que a construção de novas habitação caiu abruptamente para 12 mil? 

mais liberdade
  • Por que não considera o governo do Dr. Costa incentivar a construção de novas casas reduzindo a carga fiscal média que é actualmente de 40% (fonte) do preço final da casa?

(Continua)

10/03/2023

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem querer saber qual é a doença (1)

Introdução

Se os preços das casinhas e as rendas para as alugar sobem mais depressa do que a inflação, é porque a procura é superior à oferta. Não necessariamente com a mesma intensidade em todo o lado: os preços das casas e das rendas das zonas “nobres” das grandes cidades sobem mais depressa porque há quem tenha dinheiro para pagar, a começar pelos cidadãos estrangeiros atraídos por impostos mais baixos do que os dos nacionais. Não é por acaso que apesar dos estrangeiros serem cerca de 7% dos residentes representam o dobro da percentagem dos novos créditos à habitação. Também não é por acaso – é pelas políticas de arrendamento dos governos socialistas - que se constrói muito pouco para habitação.

Acresce a tudo isto que a religião oficial dos direitos inseriu nas meninges de muitos portugueses que existe um direito a ter uma habitação no sítio do gosto de cada um. Por exemplo, um jovem progressista adepto da identidade de género deveria dispor de uma habitação no Bairro Alto.

(Continua)