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25/09/2018

CASE STUDY: A indignação artística acerca da alegada censura de pilas e cus vista à luz da teoria do caos

A teoria do caos

A teoria do caos tenta descrever os sistema caóticos. Um sistema caótico, segundo Gollub & Solomon, é definido como um sistema sensível às condições iniciais. Isto é, qualquer incerteza, por menor que seja, no estado inicial de um sistema conduzirá rapidamente a erros cada vez maiores na previsão do seu comportamento futuro. O seu comportamento só pode ser previsto se as condições iniciais foram conhecidas com grau infinito de precisão, o que é impossível.

Entre os exemplos mais óbvios de sistemas caóticos podemos apontar a meteorologia (não por acaso, chove 9 em cada 10 vezes que saímos sem chapéu de chuva), e as sociedades humanas (não carece de explicação).

Como a teoria do caos só é inteligível por mentes superiores, os cientistas do caos inventaram uma vulgata para a tornar acessível a nós, os seres humanos comuns. De acordo com essa vulgata, os sistemas caóticos são caracterizados por pequenas causas poderem dar lugar a grandes efeitos, sendo o exemplo mais comum o do bater de asas duma borboleta em Pequim poder desencadear uma furacão nas Caraíbas, através duma sequência causal e de interacções complexas no sistema atmosférico.

O estado inicial do sistema

Era uma vez um rapaz nova-iorquino com um certo talento gráfico, uma mente perversa e uma mãe castradora que quis fazer dele um padre. Ainda bem que a mãe não teve sucesso porque provavelmente seria mais uma preocupação para o papa Francisco.

A evolução do sistema

O rapaz foi crescendo confirmando o seu talento para fotografia e o seu gosto pela perversão materializada em práticas bissexuais e numa obsessão pela transgressão dos padrões morais da época. Como seria de esperar, Robert Mapplethorpe, assim se chamava o rapaz, projectou a sua obsessão pela transgressão na sua obra fotográfica que polvilhou abundantemente de pilas e cus. Também sem surpresa, contraiu SIDA e morreu precocemente com 42 anos, juntando-se à colecção de heróis e role models da comunidade gay, gradualmente alargada à comunicada queer, ela própria instrumentalizada pela corrente do marxismo cultural conhecida como politicamente correcto.

O comportamento futuro

Ninguém sabe se, não fosse a temática e a morte sacrificial, a obra de Mapplethorpe despertaria no movimento queer e, por indução, no politicamente correcto, a veneração de que desfruta. Seja como for, no estado actual do sistema, a veneração é real.

O furacão das Caraíbas

Não é uma furacão, é apenas uma manifestação verbosa, sob a forma clássica de carta aberta, de resmas de artistas e outros profissionais da indignação contra uma imaginada censura da obra de Mapplethorpe pelo facto das pilas erectas e os cus estarem expostos numa sala separada da Fundação de Serralves acessível apenas a maiores de 18 anos.

A borboleta

Afinal, neste caso, qual é a borboleta? Se me pedirem para apontar uma, aponto a mãe castradora. Não fora ela e o rapaz não teria tido necessidade de gastar a sua curta vida a épater le bourgeois e logo, entre outras coisas, em vez de pilas e cus nas fotos do rapaz haveria naturezas mortas, por exemplo.

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