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12/06/2010

Nunca se sabe se um português numa escada vai a subir ou a descer

«Viemos (todos de África). E nós temos uma diversidade menor, nós e os galegos, do que qualquer outra pessoa na Europa. Somos iguais aos galegos. Mais longe de Adis Abeba. Éramos muito poucos. Se vinham seis pessoas, elas tinham características diferentes umas das outras, mas das seis só uma ou duas chegam ao ponto seguinte. Há uma espécie de efeito de gargalo.

Um geneticista dirá que é péssimo
(termo-nos cruzado pouco).

Conhece um ditado galego que diz que quando se vê um galego numa escada nunca se sabe se vai a subir ou a descer? É uma descrição de um português. A geografia, a periferia. E o clima, que nunca nos matou. Na Noruega, o clima mata, eles tinha de se associar. O frio matou durante milhares e milhares de anos. Frio, dieta paupérrima, sem sol.

Esses
(os nórdicos) são os que sobreviveram. Nós, baixinhos e gordinhos, e as senhoras vestidas de preto, com a anca muito larga, com muitos filhos, aguentávamos sem dificuldades. E não precisávamos juntar-nos. Não seleccionámos. Fomos para fora e trouxemos alguns genes femininos. ...ameríndias, mestiças, negras... E os galegos também, da América Latina. Isto da selecção é terrível.
(O sítio onde cruzámos mais foi o Brasil). Claro. Aqui ninguém vinha. E culturalmente ainda pior, porque nunca tivemos de competir. O Brasil é uma mistura extraordinária, mas ficaram lá, os cruzamentos ficaram lá. Somos uma sociedade de alto contexto, com regras não explícitas que são mortais para qualquer pessoa que venha para cá.

Termos um contexto único e não nos apercebemos disso. Veja-se esse exemplo prosaico que é a nossa incapacidade de colocar sinalética. Nós ou sabemos ou topamos. E nunca conseguimos transmitir ao tipo que vem de fora uma instrução prática. Como sociedade. E isto tem a ver com a nossa falta de respeito por uma hierarquia de mérito. Temos uma hierarquia tribal.

(O nosso clima) é ideal. Não morríamos de noite de frio, havia animais e pesca, estávamos afastados da Espanha pelas montanhas... Porque é que somos tão pouco altruístas? Porque não precisávamos. Se você tem um frango e quer sobreviver, por que raio é que me há-de dar o frango? O altruísmo existe como defesa das doenças ou do inimigo. Você precisa de alimentar os seus para sobreviver e se defender. Altruísmo paroquial. Nós não temos altruísmo paroquial, somos de um individualismo feroz. Não tivemos hordas de invasores, nisso o Cláudio Torres tem razão. Os muçulmanos eram meia dúzia de gatos-pingados.

A religião foi funesta. Em vez do altruísmo, estimulou o individualismo, ao dar a cada um de nós uma relação privilegiada com Deus. Zerámos, como dizem os brasileiros. Zerar é meter um carro velho com o conta-quilómetros a zero, como se fosse novo. Zerar. Os protestantes, a viver em climas frios, com guerras permanentes, tinham de ser muito diferentes. A genética veio dar-nos uma percepção do passado mais do que dizer-nos para onde vamos.
»

[Extractos da entrevista de Clara Ferreira Alves a Manuel Sobrinho Simões, director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, na Única do Expresso de 29 de Maio]

Apesar de perceber que o tema é o mais possível politicamente incorrecto, o que poderá explicar muita coisa, é ainda assim para mim um mistério a aparente inexistência de estudos científicos sérios sobre a génese da alma portuguesa, para dizer a coisa uma forma poética, génese aqui aflorada por Sobrinho Simões com uma boa dose de humor.

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