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03/06/2010

Lost in translation (50) – Marrakesh Express, 432 anos de depois de Alcácer-Quibir (معركة القصر الكبير)

«Tive ocasião de assinalar ao senhor primeiro ministro marroquino, [Abbas El Fassi] que o setor empresarial português tem muito interesse em acompanhar o projeto de Alta Velocidade aqui em Marrocos, que está já a desenvolver-se na fase de concurso. E tenho a certeza de que a experiência portuguesa se pode somar à experiência marroquina para que esses projetos venham a ter sucesso», disse José Sócrates na conferência de imprensa em Marraquexe.

Comecei por pensar: a criatura estava sob influência das ervas de Marraquexe e teve uma alucinação confundindo o Marrakesh Express com o TGV marroquino. Só podia ser. Afinal qual é a experiência do sector empresarial português no TGV? Fala há quinze anos da coisa e é tudo quanto tem para oferecer. O meu segundo pensamento foi mais elaborado e fez-me ver o génio da criatura. Vejamos o contexto: os marroquinos precisam tanto do TGV como de sarna para se coçar; Marrocos tem ainda menos dinheiro para torrar no TGV do que Portugal; com maiores distâncias (Tanger-Agadir são 3 vezes Lisboa-Porto) e menores densidades (metade da portuguesa) os défices de exploração seriam ainda maiores; daqui resulta que o melhor a fazer ao TGV marroquino é deixar os lunáticos aborígenes falar nisso, gastar apenas algum dinheiro em projectos e adiar, adiar, adiar, sempre. Quem melhor qualificado do que o «sector empresarial português», petit nom do complexo político-empresarial socialista, liderado por José Sócrates? Ninguém.

Would you know we're riding
on the Marrakesh Express
Would you know we're riding
on the Marrakesh Express
All on board that train
I've been saving all my money just to take you there
I smell the garden in your hair

[Marrakesh Express; Crosby, Stills, Nash & Young]

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