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15/04/2005

CASE STUDY: onde fica o paraíso dos capitalistas?

Nos EU? Talvez não. Passemos em revista as sevícias a que se tem sido submetidos nos últimos tempos os capitalistas naquele suposto paraíso.

aqui tratei, muito por alto, deste tema a propósito da tia Martha Stewart e de Frank Quattrone. Mais recentemente, há inúmeros exemplos que envolvem peixe mais graúdo. Passo a relatar alguns deles.

A família Greenberg está toda ensarilhada. Desde o pai, Maurice "Hank" (CEO e um dos maiores accionistas da AIG, a seguradora com maior capitalização bolsista em todo o mundo), até ao filho mais novo Evan (CEO da seguradora ACE), sem esquecer o mais velho, o primeiro a cair, Jeffrey (CEO da Marsh, o maior corretor mundial de seguros). A própria cara-metade de "Hank" e mãe dos rapazes não está livre de sarilhos.

Warren Buffet (CEO e grande accionista da Berkshire, a maior holding de investimentos mundial) também foi apanhado por ricochete no patriarca Greenberg.

Phillip Purcell (CEO do Morgan Stanley, um enorme banco de investimento) tem a cabeça a prémio.

Franklin Raines (CEO) e J. Timothy Howard (CFO) da Fannie Mae, uma instituição financeira especializada em crédito imobiliário, foram forçados a demitir-se.

Bernard Ebbers (ex-CEO), Scott Sullivan (ex-CFO) e vários outros dirigentes da WorldCom) foram julgados e serão condenados a longas penas de prisão.

Ben Glisan (tesoureiro), Andrew Fastow (CFO), são apenas dois entre os executivos condenados, que se seguiram a Kenneth Lay, Chairman e CEO da Enron.

A queda da Enron arrastou as de Daniel Bayly, James Brown, Robert Furst e William Fuhs, executivos dos corretores Merrill Lynch.

É certo que todos se portaram mal e estavam a pedi-las, mas temos que conceder que, para um paraíso dos capitalistas, a mão foi pesada.

E nós por cá?

Em matéria de prisões, podemos colocar no activo da luta anti-capitalista as dezenas de detenções que o Copcon efectuou durante o PREC. Quase todos os empresários domésticos mais bem sucedidos, Mellos, Espíritos e tutti quanti, foram malhar com os ossos em Caxias.

Aparte este mal-entendido, isto é, aparte o facto de terem sido presos os que não deviam e terem ficado em liberdade os milhares de crápulas que sugavam a mão-de-obra mal paga, fugiam ao fisco, etc., podemos levar este incidente à conta dos excessos que todas as revoluções sempre arrastam.

Depois disso, que me lembre, o único capitalista preso foi o pobre doutor João Cebola, por uma trapalhada qualquer ligada ao IVA. Trapalhada menos grave do que a praticada por milhares de crápulas que, por esse país fora, se exercitam todos os dias nas modalidades de factura falsa e falta de factura.

Nos tempos mais recentes, também já aqui citei os casos de Miguel Sousa Cintra e Carlos Magalhães Pinto que, por operações de inside trading foram condenados a pagar uma pequena fracção das mais-valias que realizaram com a sua batota.

No país em que os desportos mais populares são a evasão fiscal, o incumprimento das leis e a mais desavergonhada bandalheira contabilística, já teríamos metade da nossa classe empresarial atrás das grades pelos critérios ianques.

Em conclusão, vá lá a gente perceber o que querem os nossos empresários quando se queixam da falta de clima adequado aos seus negócios.

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