Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

29/04/2005

CASE STUDY: o homo sinister é o homo neanderthalensis contemporâneo

Tenho um amigo que, desde que me lembro, jura que a esquerda é troglodítica. Por uma questão de princípio, costumava temperar aquela certeza apologética dele com um «nem toda» ou «nem sempre».

Não mais o farei. Agora está demonstrado. Jason Shogren da universidade do Wyoming vai publicar no Journal of Economic Behaviour and Organization um paper citado aqui com o resultado das suas investigações.

A principal conclusão dessas investigações é que o comércio e a divisão do trabalho foram os factores críticos de sucesso que proporcionaram vantagens competitivas ao Homo sapiens sobre os outros hominídeos concorrentes, nomeadamente sobre o Homo neanderthalensis. O Homo sapiens adoptou a divisão de trabalho: os bons caçadores caçam, os maus caçadores fazem as tangas, as lanças, os machados e outros artefactos necessários na época. E deu o passo seguinte com o comércio: os caçadores e os artesãos trocavam de seguida os respectivos produtos. Onde é que já ouvimos esta estória?

O insucesso do cavernícola encontrado em Neanderthal não se deve à sua estupidez, como durante muito tempo se pensou - está provado que até era capaz de falar, como de resto o Homo sinister contemporâneo. O Homo neanderthalensis não só não era estúpido, como teve imenso sucesso durante 200.000 anos, até à chegada do Homo sapiens vindo de África, através da Ásia Central, e disputando-lhe parte do mesmo habitat na Europa central. Porém, o cavernícola só resistiu à concorrência 10.000 anos. Foi estrondosamente derrotado por Adam Smith, avant la lettre.

Mas porque razão o Homo sinister, uma subespécie do extinto cavernícola hirsuto, nas suas variedades Homo sinister sinister, Homo Sexualis e Homo Paedicator, sobreviveu até aos nossos dias, apesar de também abominar o comércio e o mercado? É uma boa pergunta a que o doutor Shogren ainda não respondeu, mas que eu vou tentar com a ajuda do meu amigo AB, antropólogo amador.

A resposta é simples: disfarçando-se e adoptando a estratégia oportunista do roubo criativo. Disfarçando-se de quê? De Homo sapiens, claro. Mas como? Cortando o cabelo e a barba e tirando a bóina. Que outra coisa poderia ser? Roubo? Qual roubo? Cópia duma das armas do inimigo - a divisão do trabalho que proporcionou ao Homo sinister uma especialização em oratória, de que vivem ainda hoje quase todos os espécimes sobreviventes.


espécime contemporâneo do Homo sinister exercitando o verbo

Sem comentários: