Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

07/02/2011

Está provado. Um terço dos portugueses são incorrigíveis

Segundo o barómetro de Fevereiro da Aximagem em resposta à pergunta «em quem tem mais confiança para primeiro-ministro» 34,3% dos portugueses respondem José Sócrates

DIÁRIO DE BORDO: La donna è un animale curioso

- Como te deixaste ir na conversa dele? Parece um fauno albino... sem graça.
- É poeta.
- Escreve uns poemas que ninguém lê. E daí?
- Foi por causa da Carlota.
- Da Carlota? A Carlota apresentou-vos? Meteu-te o homem na cama?
- Não e não. Nem a Carlota nos apresentou nem me meteu o homem na cama, para usar essa tua expressão tão crua.
- ?
- Foi curiosidade. Quis perceber o que ela viu nele e eu não estava a ver.
- E descobriste?
- Não. Fiquei na mesma. E por isso perguntei à Carlota o que ela tinha visto nele e eu não.
- E a Carlota?
- Diz que também não viu nada. Só quis perceber o que a Inês tinha visto nele e ela não estava a ver.


[Diálogo imaginário que até poderia ter acontecido]

06/02/2011

DIÁRIO DE BORDO: Nabada

Experimentei a receita pela mão certeira da patroa. E não é que até gostei. Eu que detesto nabos.

Mitos (36) – entornar dinheiro nas energias renováveis diminui a importação de petróleo

Esqueçamos, por agora, que enquanto se investia fortemente nas energias renováveis, as importações de electricidade aumentavam 10 vezes nos últimos 8 anos. Esqueçamos também que a compensação pela queda de produção de 30% das centrais a carvão e gás nos custou nos 9 primeiros meses do ano passado 305 milhões de euros.

Apesar de tudo isso, segundo José Sócrates e Carlos Zorrinho, o ano passado as supostas poupanças nas importações de petróleo resultantes das energias renováveis são uma espécie de número imaginário variando entre 100 e 800 milhões (ver este post impertinente). Já este ano, pela boca de Dulce Pássaro, ministra do Ambiente, as novas 10 albufeiras permitirão diminuir as importações de petróleo em 3,3 milhões de barris por ano, qualquer coisa como 240 milhões de euros a somar àquelas poupanças (quais?).

Evidentemente, ninguém acredita nas tretas de Sócrates e Zorrinho, já não falando que as tretas variam numa proporção de 1 para 8. Quanto às tretas da senhora Pássaro, podemos até esquecê-las porque quando as putativas centrais das putativas barragens estiverem a produzir uma putativa electricidade já teremos declarado falência.

Mas afinal quando é a poupança nas importações de petróleo resultante das energias renováveis. Resposta: zero. Como Mira Amaral lembrou a semana passada no Expresso, actualmente as centrais termoeléctricas utilizam carvão e gás e não petróleo.

05/02/2011

DIÁRIO DE BORDO: O fim de Alfred Kahn

Com grande atraso, aqui se regista a morte de Alfred Kahn, de cujo nome o (Im)pertinências se apropriou para baptizar o princípio de Kahn. Ver aqui um obituário do economista e regulador que desregulou o transporte aéreo americano e com isso mudou o mundo.

Mitos (35) – a crise financeira nos EU foi causada pela (falta de) regulação

A pesquisa «regulation causes OR caused financial-crisis» entre 01-09-2007 e 31-01-2011 deu mais de 65 milhões de resultados.


Recordando: desde há décadas 5 reguladores federais para a banca, um para acções e obrigações, outro para derivados e outro para a Fannie Mae e o Freddie Mac e um regulador por cada um dos 50 estados; em 2002 depois da fraude na Enron o Congresso americano aprovou o Sarbanes-Oxley Act, com pesadas regras de auditoria e controlo interno (ver este post impertinente). Durante o mandato de Barack Obama os efectivos das autoridades de regulação aumentaram 16% para 276 mil. Só no ano passado foram produzidas 80.000 páginas de novos regulamentos.

SERVIÇO PÚBLICO: Onde a bruma conceptual e o oportunismo doutrinário dão pasto à demagogia em todos os azimutes (2)

[Continuação de (1)]

Se, com base numa estimativa aparentemente bem sustentada nos números disponíveis, se chega a um custo médio anual por aluno do ensino básico e secundário de 4 mil euro, como se deve qualificar o montante exactamente igual resultante de um preço de 80 mil euros por ano lectivo e turma de 20 alunos que o governo se propõe pagar a escolas privadas para proporcionarem a esses alunos o ensino básico ou secundário?

Eu diria, depende. Se essas escolas privadas não têm na sua vizinhança (*) escolas públicas, esse montante é comu um preço administrativamente fixado pelo governo que tem a obrigação legal de prestar o serviço e, não tendo os meios, recorre ao outsourcing e contrata esse serviço com o outsourcer escola privada. No caso de existirem na vizinhança escolas públicas, esse montante pode ser considerado como representando o valor de uma espécie de cheque-ensino geograficamente limitado a algumas zonas, permitindo aos pais escolherem nessas zonas entre escolas públicas e privadas sem um custo adicional.

Em conclusão, como a qualidade média do ensino privada se tem revelado superior à do ensino público, o passo seguinte deveria ser a generalização do cheque-ensino a todas as escolas, públicas ou privadas, de todas as regiões. E outras coisas, claro, mas por agora ficamos por aqui.

(*) Admitamos ser possível definir uma «vizinhança», dependente da distância e da disponibilidade de transporte, dentro da qual a escolha entre duas escolas é indiferente do ponto de vista do custo, tempo e desconforto da deslocação.

04/02/2011

De boas intenções está o inferno cheio (3)

Desde 2002, ano em que criado, o Global Fund to Fight AIDS, Tuberculosis and Malaria, apoiado pelo líder dos U2 Bono e várias outras celebridades, incluindo Carla Bruni, Kofi Annan, Bill Gates e muito do power set de Davos, reuniu a impressionante soma de 21,7 mil milhões de dólares, quase 10% do PIB português. Entre os maiores doadores encontram-se fundação Gates (150 milhões por ano) e os governos americano, francês, alemão e sueco.

Dos 21,7 mil milhões foram torrados até agora 10 mil milhões. Torrados não é uma figura de estilo, de acordo com a auditoria em curso, que estima em 2/3 desse total o montante consumido pela corrupção. Corrupção desde a venda de medicamentos no mercado negro, despesas não documentadas e/ou não autorizadas, documentos e facturas falsificadas. Quem não vai em cantigas, mesmo dos U2, são os alemães que ao saberem do escândalo deixaram de dar para este peditório e suspenderam os prometidos 270 millhões.

BREIQUINGUE NIUZ: as notícias sobre a morte de 50 deputados são prematuras

Pode ter sido um balão-sonda lançado por Lacão por encomenda, como pode ter sido um arremedo de iniciativa do próprio. Certo é o aparelho socialista pela voz do líder parlamentar e pela voz do dono se ter apressado a desmentir a redução do número de deputados. Só não o fariam se fosse seu o interesse do país ou se fossem parvos o suficiente para desbaratar umas duas ou três dezenas de tenças para fiéis apparatchiks, sempre úteis como guarda pretoriana.

Pode o benefício da dúvida evoluir para o prejuízo da certeza? (2)

Pode e está a evoluir. Quanto mais os jornais escarafuncham, mais a história da permuta se configura como uma trapalhada. Esta história e a das acções da SLN com uma mais-valia de 140% em 2 anos quase qualificam Cavaco Silva como um especulador de sucesso.

E não me venham argumentar que está tudo dentro da legalidade. Talvez esteja – não estou agora tão certo disso. E a integridade limita-se ao cumprimento da lei?

E não me venham argumentar que os eleitores legitimarem não sei o quê. Legitimaram a escolha mas não branquearam nem absolveram os comportamentos. A não ser que se considerem também branqueadas as inúmeras trapalhadas de José Sócrates, pelo facto de ter ganho duas eleições legislativas.

E não me venham dizer que estas «campanhas» se voltam contra quem as apoia ou promove. Pode ser que voltem, mas então devemos reconhecer ser o eleitorado composto maioritariamente por pantomineiros.

E não me venham dizer que estas «campanhas» servem os interesses do PS. Talvez sirvam. E, nesse caso, se a «campanha» se volta contra quem a apoia ou promove qual é o interesse do PS em a apoiar ou promover?

03/02/2011

ESTADO DE SÍTIO: E os banqueiros do regime o que têm a dizer sobre isto?

Abel Pinheiro, responsável pelas finanças do CDS, interveio confessadamente no despacho de Nobre Guedes, outro elemento do CDS e à data ministro do Ambiente, autorizando o abate dos sobreiros na Herdade da Vargem Fresca onde o grupo Espírito Santo pretendia desenvolver, e desenvolveu, um projecto turístico.

Abel Pinheiro disse agora em tribunal, seis anos depois dos acontecimentos (como o tempo passa depressa para os tribunais portugueses), considerar a sua intervenção apenas «exercício de funções políticas» baptizando-a de «cunha». Se há suspeita de corrupção, quem é aqui o corruptor? O que têm a dizer sobre isso os banqueiros do regime?

Lost in translation (90) - desamparem-me a loja que estou aqui para tratar do meu doutoramento, queria ele dizer

«Estão a dar-me uma importância que eu não tenho», disse Carlos Feijó, ministro de Estado e chefe da Casa Civil de José Eduardo dos Santos, tentando ver-se livre das carraças sedentas do dinheiro angolano para comprar mais acções da Galp, agora que a Petrobras roeu a corda, depois de notícias plantadas a anunciar o acordo iminente.

Tudo isto depois de juramentos que «o governo português jamais permitirá que a Galp Energia seja controlada por interesse estrangeiros», juramentos tornados obsoleto pela absoluta falta de grana que assola o governo, as empresas e os portugueses em geral e em particular.

Lost in translation (89) - L’état c’est lui, admite o Supremo

Noronha do Nascimento, o presidente do STJ, «considera que as conversas e mensagens trocadas entre o primeiro-ministro José Sócrates e Armando Vara, que foram interceptadas no âmbito do processo "Face Oculta" e nas quais se discutia a compra da TVI por parte da PT, são "exclusiva e estritamente pessoais … típicas duma convivência interpessoal numa sociedade democrática”». E considera muito bem. São tão pessoais quanto as que eu poderia ter com a minha Maria para discutir a compra dum plasma na FNAC.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: As notícias sobre o surto inovativo são um pouco exageradas (2)

Por muito que o governo e o jornalismo de causas se emplumem com os progressos na inovação, o (Im)pertinências não se deixa comover. Quem também não se deixa ir na conversa são os gestores inquiridos pela AESE, num trabalho realizado em colaboração com a Accenture, que deixaram bem claro que a competitividade das empresas portuguesas piorou em 2010. Por muito progresso que tenha havido (só houve algum) na inovação, só 14% consideram que a competitividade melhorou. Enfim, quem sabe se a inovação medida pela eurocracia afinal não melhora a competitividade – não me admiraria que tantos novos doutores se atrapalhem uns aos outros.

02/02/2011

A maldição da tabuada (6) – já foram encontrados 400 mil

A coisa não é nova e até já aqui foi tratada no (Im)pertinências, a propósito da diferença de 1 milhão entre os 8,6 milhões, número estimado pelo INE de maiores de 18 anos, e os 9,6 milhões de recenseados.

Um ano e meio depois, realizadas as eleições presidenciais, o ministério da Justiça contou 9,65 milhões inscritos e o Tribunal Constitucional apurou 9,04 milhões. José Sócrates teria dito, se lhe perguntassem: «é mais um exemplo do progresso do país; o meu governo conseguiu reduzir o défice de 1 milhão em 2009 para menos de 700 mil». E Rui Pereira teria acrescentado: «senhor primeiro-ministro, se me permite a correcção, o défice actual é, mais exactamente, 612.922».

Curtas e grossas (8)

«Como último obstáculo à invasão do FMI, Sócrates aposta no nacionalismo económico e no predomínio da soberania nacional (tentando vender empresas e dívida pública a pataco, digo eu) como principais argumentos políticos. O PS representa hoje um novo situacionismo neo-salazarista onde não falta o político providencial Sócrates e o mago das finanças.»

Carlos Marques de Almeida, Situação e oposição, Situação e oposição, Diário Económico

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: As notícias sobre o surto inovativo são um pouco exageradas

Gostava de partilhar a excitação dos jornais com os resultados do Innovation Union Scoreboard 2010, mas acho um pouco exagerado. A começar nos resultados práticos da inovação, medidos pelas patentes registadas, que tem sido medíocre, para ser benigno, como está amplamente documentado neste post republicado aqui.

Quando consultamos o relatório da ProInno-Europe, verifica-se ser Portugal creditado com o crescimento mais rápido do índice de inovação, mas continuando a fazer parte do grupo «inovadores moderados» na companhia da Grécia e Malta, mas também da Itália, República Checa e Espanha. Para se perceber em que áreas tiveram lugar os progressos mais importantes, é indispensável ver o comportamento dos 24 indicadores que compõem o índice.

Os 3 indicadores com maior progressão foram: despesas de empresas em I&D (27%); patentes PCT (Patent Cooperation Treaty) em mudanças sociais (mitigação das mudanças climáticas e saúde) (26%); «Community designs» (24%). Quanto ao primeiro indicador, estamos conversados quando olhamos para os maiores investidores e as estatísticas de causas que se podem facilmente construir. Quanto ao segundo e ao terceiro são vulneráveis a delírios e fantasias.

Quando o ponto de partida é muito baixo, é precisa relativizar os progressos e por isso deve-se olhar para a situação actual que mostra estarmos numa situação muito inferior à média EU27 naqueles dois primeiros indicadores. Onde já estamos acima é nos «Community designs», seja lá o que isso for. E quanto aos indicadores que têm alguma objectividade, entre os que estamos posicionados acima da média salientam-se os novos doutoramentos (214% da média EU27) e as «International scientific co-publications» (182%). Se este último indicador é de facto significativo por passar o crivo de escrutínios credíveis, já a pletora de doutoramentos, muito deles em áreas esotéricas e sem qualquer relevância para a inovação, levanta muitas dúvidas.

Em conclusão, a prudência aconselha algumas reservas e a não embandeirar em arco quanto à posição (15.ª) no ranking do índice de inovação nos EU27, bastante influenciado pela abundância de doutores. Com segurança, podemos dizer que estamos a gastar cada vez mais dinheiro classificado como I&D e temos cada vez mais doutores. Será isto inovador?

01/02/2011

Tirocinando para futuro primeiro-ministro

Segundo o exemplo do primeiro-ministro em exercício que está a tentar vender o país para pagar as dívidas, o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, coadjuvado pelo vereador/promotor Manuel Salgado, está a tentar vender «pequenos terrenos» em Benfica e Entrecampos ao Qatar presumivelmente com o mesmo propósito. Estranhamente, o Qatar parece estar interessado na zona ribeirinha. Dado o aparente desencontro entre a oferta e a procura será que foi dito aos «altos responsáveis» que aquelas zonas da cidade estão no leito de cheia do Tejo? Pois, talvez tenham razão. Olhem, ide-vos qatar.

CASE STUDY: Um minotauro espera a PT no labirinto da Oi (2)

Como se já fosse pouco o labirinto da estrutura accionista da Oi, saber que a PT pagou o dobro do preço pelas acções dos accionistas privados em relação às do BNDES e dos fundos de pensões públicos confirma a opacidade deste processo de negociata entre os aparelhos político-empresariais português e brasileiro. Tudo considerado, se Zeinal Bava e a sua equipa de gestão conseguirem transformar um paquiderme infestado de parasitas (só Aspons serão milhares) numa empresa competitiva e lucrativa tirando partido de sinergias com a PT, tiro-lhe o meu chapéu.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Roçando a estupidez congénita primordial

Secção Padre Anchieta

Segundo o camarada Vasco Cardoso, da comissão política do PCP, as declarações de Passos Coelho «vêm na linha de quem pensa que enquanto existir uma empresa pública capaz de encher os bolsos de algum grupo económico, então é uma boa altura de usar os elementos mais primários para justificar a sua privatização».

Se defender que as empresas públicas cronicamente deficitárias devem ser encerradas ou privatizadas é «usar os elementos mais primários para justificar a sua privatização», o que será defender que essas empresas cronicamente deficitárias irão encher «encher os bolsos de algum grupo económico»?

Cinco chateaubriands pela confusão de ideias, roçando a estupidez congénita primordial, e cinco bourbons pelo sua natureza irremediável.