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04/11/2012

DIÁRIO DE BORDO: Mãos desajeitadas mexendo numa bomba-relógio (2)

[Sequela de (1)]

Era inevitável.

Por um lado, como escrevia o jovem Henrique Raposo, na sua alegre inconsciência, «somos os explorados: com a nossa precariedade, a segurança laboral dos mais velhos, alimentamos um sistema de segurança social que, daqui a 30 anos, não vai ter dinheiro para as nossas reformas e … ainda temos que criar os nossos filhos.»

Por outro, a «geração de Maio de 68, essa brigada angelical que, de manhã grita, “ai, ai, o FMI” para depois andar, à noite, no El Corte Inglés a gastar o seu dinheirinho garantido pelo tal FMI», como também escreveu Raposo, começa a aprender que, depois de pagar durante décadas as pensões dos seus pais e avós e dar cama, mesa e roupa lavada aos seus filhos até idades avançadas, o mítico Estado Social iniciou uma redução das pensões e nada garante que o processo algum dia termine. Pior que isso, já hoje os filhos (por enquanto apenas os seus porta-vozes), confrontados com o facto de terem eles próprios tardiamente de pagar a sua cama, mesa e roupa lavada, se queixam de ser «explorados». Em breve queixar-se-ão os netos.



Pois bem, a «geração de Maio de 68» parece ter concluído que, se todos interesses corporativos se organizam, seja sob a forma de sindicatos, associações ou lojas de maçonarias, seria uma boa ideia criarem eles próprios uma corporação para tentarem evitar ser depenados à pala da viabilização do Estado Social. E depenados retroactivamente porque pagaram no passado para receber pensões no futuro que a liberalidade e imprevidência do Estado Social não lhes garantem.

Foi o que fizeram criando a APRe! – Associação de Pensionistas e Reformados. Que nome! Irra! Já têm uma petição «Em Defesa dos Direitos dos Aposentados, Pensionistas e Reformados» com um belo naco de poesia:
«Os aposentados, pensionistas e reformados, num acto de confiança, celebraram com o Estado um contrato contributivo em que uma das partes se comprometeu a esse desconto e a outra parte (o Estado), na sua qualidade de mero gestor de um património de que não é proprietário, se obrigou a devolvê-lo sob a forma de pensão
A «geração de Maio de 68», como a baptizou Raposo, começou com décadas de atraso a perceber que afinal nada estava garantido e que o Estado Social não é uma parte de boa-fé com quem se possa fazer contratos. «Gestor de um património de que não é proprietário»? Tende piedade. Onde está esse património? Esse património foi delapidado no meio de grande alegria e inconsciência e o que sobra está no Fundo de Estabilidade Financeira da Segurança Social e dará para pagar hoje menos de um ano de pensões, em breve alguns meses e mais cedo ou mais tarde ou mais zero.

A «geração de Maio de 68» já percebeu que nada estava garantido mas ainda não percebeu que não podia ser de outra maneira, porque o Estado Social não passa de um dispositivo disputado pelas corporações e pelos indivíduos para extrair riqueza de uns para outros e que subsiste enquanto a maioria tiver a expectativa que poderá retirar alguma vantagem.

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