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02/08/2009

ESTADO DE SÍTIO: a entropia da política energética do governo ou, se isto é o melhor, como será o pior?

Apesar da credibilidade do governo já ter visto melhores dias, na área das energias renováveis onde a versão oficial é o grande líder, acolitado pelo ministro Pinho, ter colocado Portugal no top mundial, mesmo os sectores mais desafectos aos interesses no poder mostram um estranho silêncio conformado face ao anúncio das pseudo-realizações do governo.

Um pouco a contra-pêlo da reverência respeitosa que o Expresso costumava mostrar, (*) no suplemento de Economia de ontem foi publicado um interessante e relativamente objectivo artigo sobre este tema. Como se suspeitava, a realidade é substancialmente diferente do discurso governamental. A começar pela aldrabice estatística em que o governo tem sido mestre: a proporção de energia eléctrica proveniente de fontes renováveis é 27,8% e não 43,3% como se quer fazer acreditar manipulando o peso da energia hídrica.

A continuar na central fotovoltaica da Amareleja - um enorme investimento numa tecnologia totalmente importada e ultrapassada, com um peso irrelevante na produção de electricidade fortemente subsidiada (a energia desta fonte é paga a mais do triplo do preço da energia eólica).

A energia hídrica é, apesar de tudo, o sector onde o governo tem sido sofrível, com 8 das 10 barragens do plano adjudicadas. Mesmo neste sector comme si, comme ça, não avançaram as mini-hídricas, uma produção descentralizada, com tecnologia barata e reduzido impacto ambiental. A explicação pode ser o relativo pouco interesse dos grandes empreiteiros por este tipo de obras.

A manipulação mediática atinge proporções homéricas na apropriação das inaugurações das centrais eólicas. Dos 2.200 MW de capacidade inaugurados pelo grande líder, que se enfeita com os louros que pertencem a outros, apenas menos de 3% (60 MW) correspondem a projectos deste governo. Os restantes 97% foram lançados por governos anteriores.

A biomassa é um flop quase completo. Das 15 centrais anunciadas só duas estão adjudicadas e uma em construção. Flop completo é o projecto Pelamis de energia das ondas cujo equipamento depois de 3 meses de funcionamento jaz no porto de Leixões. Outro flop é a microgeração em que a aprovação de candidaturas anda mais devagar do que os tribunais (o que não é fácil).

Em conclusão, quando se ignora a estridência mediática, se está atento à manipulação dos dados e dos factos as realizações do governo em energias renováveis revelam uma considerável entropia.

(*) Costumava, mas as coisas estão a mudar. Um dos exemplos mais notórios é a coluna «Cem por cento» de Nicolau Santos que desde as europeias mostra um distanciamento crescente das laudes com que ainda recentemente nos brindava. No seu artigo de ontem, zurziu com grande indignação as medidas de política fiscal do programa do PS – espera-se que não seja apenas porque obviamente lhe estão a entrar no bolso.

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