Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

31/03/2005

TRIVIALIDADES: lugares comuns

A última vez que fiz um inventário completo dos candidatos ao lugar de presidente da República foi em 15-12-2003, no post «Senhor livra-me deles». Listei então os seguintes presuntivos candidatos:

  • Cavaco Silva,
  • Guterres
  • Santana Lopes
  • Soares (pai)
  • Soares (filho)
  • Marcelo Rebelo de Sousa
  • Freitas do Amaral
  • Carlos Monjardino
  • Vieira de Almeida
  • José Miguel Júdice

a que acrescentei a doutora Maria Barroso ou qualquer outro membro da família Soares, nascido ou nascituro.

Poucos meses depois, a listagem ficou desactualizada com o surgimento da transformista Valéria (ou Vitória?).

Mais tarde surgiu publicamente o incontornável doutor António Vitorio e, em círculos especializados, falou-se também a boca chiusa da doutora Maria de Belém Roseira e dos doutores Ferro Rodrigues e Jaime Gama. Nesta altura já se contavam 16 candidatos, afora os que ainda estavam na clandestinidade, como o candidato perpétuo do MRPP doutor Garcia Pereira.

Tanta abundância levou-me a debruçar no post «O ersatz do líder da oposição» sobre as possíveis causas da atracção irresistível que os portugueses parecem sentir pelo lugar de PR. Num momento de fraqueza sucumbi às teses anacletas e formulei, também eu, uma «teoria conspirativa: é mais barato e mais agradável ser presidente da República do que líder da oposição, que implica suportar a travessia do deserto do poder, aguentar uma cambada de potenciais traidores escondendo as navalhas da traição nas calças da pouca vergonha e suportar uma infinita corja de medíocres ansiando por uma sinecura, tudo isto apenas mitigado pelo séquito de seguidores incondicionais, que vai minguando, na medida em que mingua a esperança do governo de serviço cair.
Mais importante do que perceber o porquê daquelas almas se sentirem atraídas pela presidência, quais borboletas pelo candeeiro, é perceber as causas da popularidade da coisa. Porquê a populaça venera tal comportamento, que outras populaças doutras paragens achariam irresponsável e oportunista?
Deve haver algo nas profundezas da alma lusitana que o explica. Algo que leva os portugueses a criarem mecanismos sociais e políticos para entropicar a sua vida. O Impertinente acredita que a coisa remonta à ocupação da Lusitânia pelo império, se não antes - não é verdade que um governador romano escreveu ao imperador, lamentando-se, resignado, que os povos indígenas não ser governavam nem se deixavam governar?
»

Venho hoje, de corda ao pescoço, admitir a falha da minha teoria conspirativa, devidamente demonstrada pela enésima candidatura agora protagonizada pelo poeta Manuel Alegre, que obviamente não será candidato para liderar a oposição ao engenheiro Sócrates.

Ou será?

30/03/2005

SERVICE PUBLIC: un faux pas de M. Chirac?

«De acordo com o semanário L"Express, "o gabinete de Jean-Pierre Rafarin encarregou-se de solicitar aos responsáveis de France Telévisions para renunciarem ao projecto" de transmitir uma entrevista com o presidente da Comissão Europeia, na sequência da "cólera" do Presidente Jacques Chirac, que teria sido motivada pelo convite dirigido a Barroso que considerou "inoportuno" no meio da campanha para o referendo sobre a Constituição Europeia». [Público]
Se o doutor Barroso é um perigoso liberal para M. Chirac, o que será M. Chirac para um liberal perigoso?

BLOGARIDADES: Será o liberalismo um estado de espírito? (2)

Depois dum vibrante começo (ver ponto de situação no dia 15-03 aqui), a secção liberal da bloguilha ainda deu mais alguns sinais de vida nos dias imediatos.

No dia 19, o blasfemo RAF escreve «Sobre a constituição de um Partido Liberal», concluindo «o que interessa é trabalhar o liberalismo dentro dos partidos de poder».

O insurgente AAA recomenda a leitura daquele post blasfemo, acrescentando que «não devemos confundir alguns escassos milhares de leitores de blogs e algumas dezenas de bloggers com o país real, para quem o liberalismo continua a ser um papão.» Bem lembrado.

No mesmo dia, o blasfemo Gabriel Silva atira a toalha ao chão e confessa «que nunca terei estofo para ser um infiltrado em organizações defensoras de visões da sociedade que pessoalmente sinto o dever de contrariar».

No dia seguinte, o blasfemo RAF reincide argumentando «ser bem mais viável e efectivo disseminar o liberalismo na comunicação social, nas universidades, e nos partidos de poder, não limitando o raio de acção ao espaço político que seria concedido a um partido de matriz liberal.»

Ainda nesse dia (20) a discussão extinguiu-se com os speakers do Speakers Corner Liberal Social que defenderam que a questão do partido liberal seria sobretudo de oportunidade e de conjuntura política mais do que de princípio.

Talvez ajude contribuir com umas quantas trivialidades para ajudar a trazer o debate de volta à terra.

É claro que o liberalismo, seja lá o que isso for, que pelos vistos é uma coisa para cada liberal, mas que dou de barato que todos concordam o que seja, é uma ideologia, um corpo de ideias contendo uma visão que se pretende coerente sobre a organização política, social e económica.

É claro que a promoção do liberalismo, seja lá o que isso for, não precisa dos partidos, basta-lhe a blogosfera, ou os think tanks, ou a miríade disponível de formas de associação que permitem debater e difundir ideias.

Onde os partidos começam a fazer falta é para passar das ideias à sua aplicação, coisa que até hoje só se conseguiu fazer com partidos, sendo difícil de imaginar como será possível de outro modo.

E se faz falta um partido para disputar o poder e aplicar essas ideias liberais, só há duas maneiras de lá chegar. Ou faz-se um novo quimicamente puro, ou contamina-se um já existente transformando-o num partido (mais) liberal. Parece ter sido o que se passou pela mão de Tony Blair com o partido Trabalhista (ver a propósito a review de The Economist da biografia de Jo Grimond - «Liberal Lion: Jo Grimond, A Political Life»)

Chegados a este ponto, e recordando as sábias palavras do iliberal Von Bismarck, visto que a política é a arte do possível, é altura da pergunta fatal: um partido de pendor liberal será viável aqui e agora?

Dependendo do grau de inclinação liberal, pessoalmente tenho imensas dúvidas, como já por aqui escrevi inúmeras vezes. Para citar uma só dessas inúmeras: «Serão (seriam) precisas gerações para corroer este amor extremado ao estado e esta desconfiança da livre iniciativa e do mercado enterrada nas entranhas de cada português. É por isso que os liberais, esses linces da serra da Malcata da política, terão que continuar a escolher o mal menor até ao fim dos tempos.»

O colectivismo que enforma a cultura portuguesa é refractário ao liberalismo. Isso explica o «partido do estado» de que falou Medina Carreira e explica até a trivial tragédia do falhanço do auto-governo dos condomínios a que se referiu o insurgente João (ver aqui).

(Continua. Talvez)

29/03/2005

TRIVIALIDADES: a Constituição europeia e o requeijão serra da Estrela

Ainda estou para perceber de que estão à espera os incondicionais da aprovação da Constituição europeia para apresentar o argumento definitivo para calar de vez os cépticos: o Requeijão Serra da Estrela foi um dos dez foodstuffs a ganhar o estatuto de Designação Protegida de Origem.

28/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: demasiadas coincidências (ACTUALIZADO)

«Haverá pluralidade de partidos e vários candidatos» (nas eleições legislativas e presidenciais) disse a vários jornalistas Bashar al-Assad o ditador de serviço na Síria, sucessor do ditador seu pai Hafez al-Assad.

Depois do ditador de serviço na Líbia ter desistido do terrorismo, depois de 8 milhões de eleitores votarem nas primeiras eleições decentes alguma vez realizadas no Iraque, depois de Osni Mubarak, o ditador de serviço no Egipto, ter anunciado também eleições «livres», depois da organização nacionalista-terrorista OLP se ter disposto a eleger um novo líder e a negociar com Israel, depois do governo libanês pró-sírio se ter demitido e convocado eleições, depois da Síria ter anunciado a retirada do seu exército de ocupação do Líbano, depois de tudo isto, Bashar al-Assad descobre também o seu amor tardio pela democracia.

A que se devem os ventos de mudança? Às diligências diplomáticas do eixo Paris-Berlim? Aos auspícios da ONU? Por muito brutal e inconveniente que seja a verdade, para quase todos os que pensam por uma cartilha, é difícil esconder que esses ventos se devem à intervenção da coligação americana no Iraque e à atitude firme de Bush para defender os interesses americanos que, uma vez mais, e por enquanto, coincidem com os interesses da democracia e dos mercados livres, isto é do mundo livre.

Convém lembrar, a propósito, que a falta de aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU da intervenção no Iraque, que tanto incomodou alguns governos europeus, não lhes trouxe grandes problemas de consciência quando pediram aos EU para apagar o fogo nas suas traseiras que lavrava no Kosovo.

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (5)

Depois de (1), (2), (3) e (4), continuando a especular.

Porque procuram mulheres portuguesas abortar em Espanha que tem uma lei do aborto copiada da lei portuguesa? Porque não sentem os espanhóis necessidade de alterar a lei do aborto que copiaram da portuguesa?

Porque nunca é mencionado que os fetos abortados têm um progenitor? Qual o papel reservado ao progenitor na decisão de abortar? Se o progenitor não tem responsabilidades nem desempenha nenhum papel nessa decisão, porquê terá que assumir responsabilidades e ter um papel como pai quando nasce uma criança?

Num país com um défice de nascimentos (saldo demográfico de 0,04pm em 2003), porque não se persuadem as mulheres com gravidezes indesejadas a darem os seus filhos nascituros para adopção? Porquê existem milhares de casais na fila de espera da adopção? O que levará muitos casais a desistirem, procurando com sucesso a adopção internacional?

27/03/2005

CASE STUDY: programa de governo - mais do mesmo? (1)

Respondendo ao pendor estatizante do governo, os empresários portugueses, através das suas associações, marcam lugar já na fila dos investimentos públicos dando palpites sobre as suas preferências.

À parte o engenheiro Belmiro que não tem interesses no lóbi do betão e das obras públicas, nem papas na língua, e por isso foi dizendo que mais valia ter fábricas do que o TGV, a generalidade dos empresários apronta-se para o bodo.

Investimentos preferidos pelos empresários: TGV (a prioridade das prioridades), energias renováveis (eólica e mais barragens), mais estradas, mais hospitais.

Qual o interesse estratégico do TGV? Do lado do investimento, a infra-estrutura fixa, a cargo do lóbi do betão, manterá ocupada durante uns poucos anos os imigrantes brasileiros e do leste. O investimento em material rolante irá, em boa parte, engrossar as importações. Do lado da oferta, o TGV não vai transportar as nossas evanescentes exportações, não vai transportar turistas que continuarão a chegar por automóvel (os espanhóis, alguns franceses, alemães e holandeses) e por avião (o resto). Servirá para quê então? Aparentemente para os nossos empresários e gestores chegarem mais depressa às reuniões no Porto, em Lisboa e em Madrid, e aos nossos excluídos do consumo sofisticado que vivem no interior poderem vir fazer compras aos centros comerciais dos grandes centros urbanos.

Qual será o contributo do TGV para melhorar a nossa produtividade e competitividade da economia portuguesa?

26/03/2005

ARTIGO DEFUNTO: o benefício da dúvida e o prejuízo da certeza

Um observador minimamente neutro (ou honesto) pode todos os dias constatar o enviesamento esquerdizante dos média. O bombo de festa em que foi transformado o doutor Lopes, à custa da sua falta de jeito e incompetência, em contraste com o «colo» que foi dado aos governos de Guterres que alimentaram a fornalha de Moloch, e em contraste com o tom reverencial com que a tribo jornalista fala do governo do engenheiro Sócrates, é disso uma demonstração.

Valem os silêncios, como a falta de referência, salvo de O Independente, a respeito do tribalismo socialista.

Valem as palavras, como no exemplo, referido por Zé Diogo Quintela em O Independente, do acolhimento dado ao facto do secretário de estado do Turismo do governo em exercício ser filho do presidente do grupo turístico madeirense Porto Bay, facto que a SIC Notícias apresentou como muito positivo (o rapaz ouviu falar de turismo desde o berço), em contraste com o ataque descabelado à falta de independência ambientalista do doutor Nobre Guedes, ministro do Ambiente do governo do doutor Lopes, pelo facto de ser advogado de empresas do sector.

A coisa é tão notória que tem implícito, quase explícito, um insulto à inteligência, demonstrativo da pouca consideração que os jornalistas nutrem pelos clientes.

25/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: tribalismo socialista

O Independente escalpeliza o processo em curso de montagem da teia familiar no governo do engenheiro Sócrates: os Cravinhos, os Campos, os Mendes, os Mateus, os Vieiras da Silva, sem falar dos namorados e dos enteados, estão já devidamente acoitados no aparelho governamental. Seguir-se-à a propagação para o aparelho estatal no seu conjunto.

Como os estudos de Hofstede amplamente demonstram (ver os posts impertinentes aqui, aqui e aqui), a sociedade portuguesa é a mais colectivista da Europa e uma das mais colectivistas do mundo. Não é por isso de estranhar que a tribo socialista, ela mesma la crème de la crème do colectivismo, transporte para o governo as relações familiares. Nisso a tribo socialista, porque o faz sob a capa moral da implantação do socialismo exigir pessoal da confiança, só se distingue das tribos PSD e CDS que o fazem por razões mais prosaicas - arranjar emprego para família.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Assassinamento de carácter?

Secção Albergue espanhol
Noutros pontos do planeta, onde as coisas seguem o seu curso normal, às pessoas cai-lhes o cabelo, os dentes, começam a sofrer da próstata, das artroses e de todo um ror de outras maleitas. Como fraca contrapartida da decadência, ganham um módico de siso e à medida que os radicais livres circulam em maior quantidade nos seus corpos, quase desaparecem das suas mentes. Nesses outros pontos do planeta, o professor Freitas do Amaral seria um alienígena. Entre nós, as coisas passam-se frequentemente de forma singular e até os nossos políticos são atacados de esquerdismo senil em idades avançadas. É o caso, também, do doutor Soares.

A mudança de opinião do professor Freitas, passando sucessivamente de delfim do professor Marcelo Caetano, a fundador do CDS, de fundador do CDS a seu inimigo declarado, de fascista aos olhos do doutor Soares e de toda a esquerdalhada, a compagnon de route do doutor Soares e dos Anacletos, por muito excessiva que seja a sua mudança para uma só vida, em si mesmo não tem nada de censurável.

O que se pode censurar - já outros o disseram e escreveram - é que tendo recentemente exprimido convicções absolutamente incompatíveis com o alinhamento internacional do seu país, o professor Freitas tenha aceite ser ministro dos Negócios Estrangeiros, posto onde se espera que aplique uma política consistente com esse alinhamento.

É certo que ele não disse que o presidente Chirac é um político corrupto que fez e fará tudo para se manter no poder, beneficiando de leis aprovadas com o propósito preciso de evitar a sua condenação. Não, ele apenas deu, segundo as palavras do doutor Marques Mendes no debate na AR, «dez razões para considerar Bush um político de extrema-direita. Em quatro delas expressa uma equiparação a Hitler, em três a Salazar, em duas a Pinochet e numa ao generalíssimo Franco» [Visão]

O professor merece 5 ignóbeis porque, mais do que ter aceite, se fez ao posto de MNE, justificando-se com o esfarrapado e ridículo argumento de que «hoje a situação é muito diferente, sobretudo depois da vinda de Bush à Europa» - um insulto à inteligência de quem o ouviu.

Leva mais 5 bourbons pelo ego, permanentemente enfatuado, que ostenta há muitos anos, no convencimento de ser portador dum génio incompreendido que nunca encontrou um cargo à sua altura. «Estão cheios de inveja deste governo que tem pessoas, como EU, que os deixam esmagados» disse a luminária e escreve o Impertinências, esforçadamente, saindo com dificuldade debaixo do peso esmagador do Dinossauro Excelentíssimo.

E já que escrevo sobre o passado, escrevo também sobre o futuro, arriscando um prognóstico. Tal como no passado ele traiu o doutor Soares, aliando-se com ele para chegar ao governo e dele saindo para o fazer cair, o professor Freitas irá trair no futuro o engenheiro Sócrates, mesmo que este aceite pagar o preço de o deixar preparar um futuro radioso à medida da sua vaidade. Está na sua natureza.

Não, este post não é necessariamente um assassinamento de carácter. Para haver crime teria que haver vítima. Ou não?


Perguntar não ofende: você emprestaria o seu automóvel a este sujeito?

24/03/2005

CASE STUDY: as SCUTS da água

Porque será o consumo per capita de água em Portugal dos mais elevados da UE? perguntava-me ontem.

Dos mais elevados? O mais elevado e o quarto mais alto do mundo. 1.090 m3 por pessoa/ano, com uma eficiência de 58 por cento nas cidades e de 71 por cento na agricultura, segundo a OCDE [relatório citado aqui].

Apesar de 800 mil portugueses não terem água em casa [CM]. Se tivessem, o consumo per capita subiria para 1.185 m3 por pessoa/ano ou 2,25 litros por pessoa/minuto

Trocando medicamentos por água posso repetir o que escrevi ontem:

Surpreendente? Nem por isso. Os «utentes», isto é os «clientes» que não pagam o preço de mercado dos bens ou serviços que consomem, limitam-se a reagir aos sinais que os não-mercados lhes dão através dum preço subsidiado. Que incentivos têm os «utentes» para utilizar racionalmente a água que pagam por uma pequena fracção do seu custo?

Que fazer? Campanhas de sensibilização? Será torrar dinheiro inutilmente. Não adiantam discursos se a linguagem dos preços continuar a falar outras coisas mais alto.

Então e os pobrezinhos?


(Tema dos pobrezinhos a tratar mais tarde. Talvez.)

23/03/2005

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (4)

«A proposta dos deputados do PS prevê que as mulheres possam abortar até às 10 semanas.» [Público]

Já aqui e aqui confessei dúvidas, e uma certeza aqui, em matéria de aborto. Dúvidas sobre o Quê?, o Onde?, o Quando?, o Como? e o Porquê?.


O Quê? com 12 semanas

CASE STUDY: as SCUTS da saúde

Foi recentemente divulgado o estudo promovido pela Associação Nacional de Farmácias e pelo Núcleo de Farmacovigilância do Centro que estima em 50% o desperdício de medicamentos na região Centro. [ver, por exemplo, o Semanário Económico de 18-03].

Não havendo razões para supor que será diferente no resto do país, o desperdício nacional poderá atingir 1,5 milhões de euros por ano ou 1,1% do PIB.

Surpreendente? Nem por isso. Os «utentes», isto é os «clientes» que não pagam o preço de mercado dos bens ou serviços que consomem, limitam-se a reagir aos sinais que os não-mercados lhes dão através dum preço subsidiado. Que incentivos têm os «utentes» para utilizar racionalmente medicamentos que pagam por uma pequena fracção do seu custo?

Que fazer? Campanhas de sensibilização? Será torrar dinheiro inutilmente. Não adiantam discursos se a linguagem dos preços continuar a falar outras coisas mais alto.

Então e os pobrezinhos? O problema dos medicamentos não é diferente em substância de muitos outros bens e serviços. Da água, por exemplo.

Por falar em água, porque será que o consumo per capita em Portugal é dos mais elevados da UE?

22/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: reductio ad absurdum

Na longínqua época em que o Impertinências estudou filosofia, havia naquela turma uns quantos cábulas que não percebiam a lógica do argumento reductio ad absurdum.

Teriam percebido se lessem o post «A Carroça Volvo vai à Frente dos Bois Lusos» no qual o Jaquinzinhos reduz ao absurdo o projecto vamos torrar mais dinheiro na fornalha do nosso Moloch para alcançarmos um estado social parecido com o do «modelo nórdico de desenvolvimento».

SERVIÇO PÚBLICO: ressuscitados para julgar (2)

O filme exibido o fim de semana passado na Torre de Tombo tem um casting à altura do argumento, mas a montagem é execrável. Os seus autores perderam o timing. A condenação da «invasão e ocupação do Iraque», depois de oito milhões de iraquianos elegerem 189 iraquianos e 86 iraquianas ficou rançosa e perdeu quase tanto a validade como o companheiro Vasco e o almirante vermelho.

Seria um pouco mais oportuno se os juizes que emergiram do formol condenassem a Rússia e a China (que) têm estado a impedir que sejam aplicadas sanções ao regime (sudanês) de Omar Hassan Al-Bashir, que tomou o poder em 1989».

É só uma sugestão.

21/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: O oráculo do engenheiro Sócrates acerta 1 em 2

O engenheiro Sócrates disse esta manhã na apresentação do programa de governo muitas coisas bastante vagas e duas um pouco menos.

O primeiro-ministro anunciou «que serão investidos durante a actual legislatura mais de 20 mil milhões de euros em áreas que considera vitais para o país». Donde virão esses 13,7 milhões de euros por dia, ou mais de meio milhão por hora ou quase 10 mil euros por minuto? Ainda bem que perguntam. Esses milhões terão «"origem principal em capitais privados». [Público]

Parabéns ao oráculo do engenheiro Sócrates que leu as mentes dos donos dos capitais privados com os quais principalmente se investirá durante a legislatura.

A segunda coisa mais ou menos concreta que o engenheiro Sócrates anunciou foi reduzir as férias judiciais de dois para um mês. Um ataque demolidor ao lóbi da justiça? Nem por isso. Aqui o oráculo não leu as mentes dos funcionários judiciais cujo sindicato, meia hora depois, bateu o engenheiro Sócrates em arrojo propondo que «que os tribunais funcionem durante todo o ano»

NÓS VISTOS POR ELES: «maltrapilha, mas simpática»

Depois de «o país adora falar, mas depois vê-se pouca acção» do gestor Nadim Habib e do «escarro anatómico» do romancista Alfred Doeblin o Nós vistos por eles continua com o «maltrapilha, mas simpática» de Albert Einstein.
«Tinha o costume de escrever um diário em viagem, por isso conhecemos as impressões com que ficou de Lisboa. Einstein passou só um dia na capital, a 11 de Março de 1925, e comentou a incursão pela cidade: "Dá uma impressão maltrapilha, mas simpática. A vida parece transcorrer confortável, bonacheirona, sem pressa ou mesmo objectivo ou consciência. Por toda a parte temos consciência da cultura antiga. Graciosa. Vendedora de peixes fotografada com uma bandeja de peixe na cabeça, gesto orgulhoso, maroto."» [Público]

20/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: ressuscitados para julgar

O Tribunal Mundial do Iraque, um auto-constituído tribunal de opinião, dará amanhã o seu veredicto sobre a invasão do Iraque.

O tribunal é composto por personalidades independentes que vão desde a doutora Isabel do Carmo, ex-brigadista, ao major Tomé, a voz da classe operária na AR, passando pelos doutores Garcia Pereira, candidato perpétuo do MRPP, e Carvalho da Silva, secretário perpétuo da CGTP, acompanhados por inúmeros emplastros. A condizer com o local da realização do evento - Torre de Tombo - foram retirados do gavetão da primeira metade da década de 70, onde se encontravam conservados em formol, os camaradas general Vasco Gonçalves e almirante Rosa Coutinho que também participam no happening.

Aguarda-se com grande expectativa o veredicto sobre as penas a aplicar aos acusados: os incontornáveis George Bush e Tony Blair, e, entre outros, o ex-patrício doutor Durão Barroso, actual presidente José Barroso, e como supra-numerário o saudoso doutor Santana Lopes.

19/03/2005

CASE STUDY: prevendo a previsão

Segundo o estudo do Barclays Capital citado por The Economist, a evolução das previsões do Banco Central Europeu do crescimento do PIB nos últimos anos vai do superoptimista, 2 anos antes do ano de referência, até ao realista, no início do ano seguinte, perdendo-se pelo caminho entre 1% a 2%.

(The Economist , March 12th 2005]
Se as metodologias do BCE forem consistentes, podemos antecipar com base nas suas previsões actuais que o crescimento da economia europeia será praticamente nulo ou negativo em 2005 e nulo ou ligeiramente positivo em 2006.

Más notícias. Nos próximos tempos nem de Bruxelas virá chuva.

18/03/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o Moloch sobre rodas

«A produtividade média das empresas de transportes públicos controladas pelo Estado é cerca de 30% da verificada nas restantes empresas da economia portuguesa....
Na análise do custo operacional, desta vez em comparações com cidades europeias, Lisboa também sai a perder.
O resultado é o agravamento dos prejuízos que em 2003 atingiram 422 milhões de euros. O agravamento dos resultados líquidos negativos, reflecte sobretudo o aumento dos encargos financeiros com a dívida.
O passivo total das empresas têm crescido cerca de 14% ao ano, tendo em 2003 chegado a 10 mil milhões de euros, ou seja, 7,7% do PIB. Um diagnóstico há muito conhecido, mas para o qual ainda não houve solução.»
[Jornal de Negócios]