Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

05/03/2015

CASE STUDY: Um imenso Portugal (19)

[Outros imensos Portugais]

Com a taxa de inflação a ultrapassar os 7%, uma desvalorização do real em relação ao dólar de 6% em Fevereiro e o défice público em 6,7% do PIB, o Banco Central do Brasil está a ficar sem opções e irá provavelmente aumentar uma vez mais a taxa de juro BACEN SELIC que já está em 12,25%, depois de ter sido aumentada 3 vezes nos últimos 6 meses, aumento que não ajudará uma economia com contracção esperada de 0,5% em 2015.

Fonte: The Economist Espresso


Como foi e está a ser possível fazer ajoelhar um país com um potencial como o do Brasil? Simples, meu caro Watson. Basta entregá-lo a uma clique corrupta de socialistas tropicais.

Actualização:
A taxa Selic foi de facto aumentada meio ponto percentual para 12.75%.

04/03/2015

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (32) - Estaline reincarnado

«Show me the man,” ran an infamous Stalin-era adage, “and I will find you the crime.” Its Putin-era complement might be: “Give me the crime, and I will supply the most convenient culprit.” That seems to be the rationale of those investigating last week’s murder of Boris Nemtsov, an opposition politician, outside the Kremlin. Among the self-serving, ludicrous theories circulated by Russian functionaries are that either the beleaguered opposition itself, or its alleged sponsor, America’s CIA, killed Mr Nemtsov to embarrass Vladimir Putin. But the most promising lead, investigators apparently think, is that the assassination may be connected to the president’s latest bogeyman: Ukraine.» (The Economist Espresso)

DIÁRIO DE BORDO: Passos Coelho não pode alegar ignorância e os seus detractores também não

Sobre a saga das contribuições de Passos Coelho para a Segurança Social, começo por concordar com o próprio quando diz que «não é um cidadão perfeito». E a este respeito não vale a pena tapar o sol com uma peneira nem elaborar muito sobre a coisa: PPC não pode aproveitar-se da sua alegada ignorância da lei. Até pelo seu background como político e profissional tinha obrigação de saber que deveria contribuir e, não o fazendo, cometeu uma falta objectivamente censurável e lidou mal com assunto e piorou tudo.

Ainda assim, é muito pouco provável que o tenha feito deliberadamente, quer pela modéstia dos montantes em causa, quer pelo facto de, ainda que fosse estúpido, perceberia que, como político, seria escrutinado e dificilmente essa falha deixaria de ser desenterrada como veio a ser.

Contudo, sendo censurável, numa escala de censura de 1 a 10 essa falta corresponderia a 1 ou 2, digo eu. Em comparação, na mesma escala, a «falha» de António Costa acerca das trapalhadas de empréstimos bancários, compra de casas e contribuição autárquica, agora também desenterrada e aqui relatada pelo Observador, é uma coisa tão retorcida e elaborada que é impossível não ser deliberada. Por isso, na minha escala, valeria um 4 ou 5, ou mais, se considerar a diferente natureza do incumprimento e as declarações falsas sobre habitação própria.

Contudo, o mais notório nesta saga é a ignorância mostrada pelos numerosos comentadores, começando por Marcelo de Rebelo de Sousa (no caso dele possivelmente motivado pelo ressabiamento de ter sido implicitamente e adequadamente, acrescento, rotulado como «catavento de opiniões erráticas») cuja falha como professor de direito, ignorando que as dívidas à Segurança Social não prescrevem, me parece valer um 8 ou 9 numa escala crescente de ignorância.

Sobretudo notória é ignorância geral sobre a natureza das contribuições para a Segurança Social que praticamente todos os opinion dealers confundiram com impostos.

Ora, num regime de capitalização, as contribuições estão directamente ligadas aos benefícios e se não forem pagas têm uma repercussão automática e directa nas pensões, constituindo o seu não pagamento uma espécie de tiro no pé do contribuinte.

Mesmo num regime de distribuição, como o português, as contribuições têm como contrapartida o pagamento futuro das pensões, ou melhor a sua promessa. Ainda que não exista uma relação directa entre contribuições, tempo de descontos e pensões, estas serão tão mais elevadas quanto maiores forem as contribuições e o respectivo período. Portanto, quem não contribui está a trocar o presente pelo futuro e a prejudicar o seu benefício na reforma. É claro que prejudicando-se a si próprio também, reflexamente, prejudica a capacidade da Segurança Social financiar no futuro as pensões de todos os outros beneficiários - isso não acontecerá no presente enquanto não se esgotar o Fundo de Estabilidade Financeira da Segurança Social.

Diferentemente, nos impostos não existe qualquer relação directa com o contribuinte, que não tem mais nem menos benefícios ou direitos pelo facto de os pagar. Por isso, é bem mais grave a evasão fiscal ou a fraude que beneficia directamente o contribuinte faltoso e prejudica o colectivo dos contribuintes. A própria lei o reconhece atribuindo coimas e penas muitíssimo mais pesadas do que as da Segurança Social.

Mitos (190) – O TARP foi a socialização dos prejuízos (7)

Outros exemplos do mesmo mito.

Recorde-se, o mito em causa, muito carinhosamente alimentado pela esquerda europeia, é o TARP (Troubled Asset Relief Program) ter sido uma invenção da administração Bush para salvar a bolsa dos capitalistas da economia de casino à custa dos contribuintes americanos.

neste ponto de situação se viu por volta de Outubro do ano passado que o Tesouro americano tinha recuperado com lucro todo o dinheiro aplicado no bailout. Quase metade do lucro de 46,3 mil milhões de dólares que reverteu para os contribuintes deve-se à AIG liderada por um gajo teso chamado Robert Benmosche que morreu a semana passada de um cancro que o acompanhou quase desde a nomeação pelo governo americano para liderar o turnaround da AIG.

Durante esses anos, Benmosche conseguiu resultados espantosos que meteram nos bolsos aos contribuintes americanos 22,7 mil milhões de dólares.

Fonte 
Uma vez mais, quando comparamos com o bailout doméstico do BPN (e talvez com o do BES, que pode correr mal) temos de dar razão ao Impertinente: «a pátria do capitalismo é o inferno dos capitalistas» e acrescentar o socialismo lusitano é o paraíso dos capitalistas.

Declaração de interesse: quase há 20 anos este vosso criado ajudou ao parto de uma sucursal da AIG e teve oportunidade durante 2 anos de sentir o pulsar de um grande grupo segurador presente em quase uma centena de países.

03/03/2015

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (15)

Outros trapinhos tirados.

Tirando os trapinhos à entrada do Mobile World Congress em Barcelona. Protestando porquê? Porque sim!
Concedo que sou um porco machista, mas ser-me-à permitido implorar à Femen que refine o critério de escolha das activistas para estas demonstrações?

Dúvidas (82) – Onde pára a lista?

«Afinal a "lista Lagarde" foi ou não pedida pelas autoridades portuguesas em 2010? É sobre esta questão que os responsáveis directos da altura não se entendem e o único consenso que parece haver é que nenhum deles teve acesso à lista.

Se por um lado, o ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Sérgio Vasques, asseguram ter dado indicações à Direcção-Geral dos Impostos para pedir a lista, por outro, o então director-geral da DGCI, Azevedo Pereira, garante nunca ter recebido instruções nesse sentido.

Em causa está a lista que contém nomes de 611 clientes com ligações a Portugal e 855 milhões de euros depositados na filial suíça do banco britânico HSBC.» (Económico)

Não é extraordinário que ande meio mundo a esgravatar a falta de 2.800 Euros de contribuições para a Segurança Social de Passos Coelho durante 5 anos como profissional liberal, falta pela qual ele seria o principal prejudicado porque não lhe seriam contados esses anos para o cálculo da pensão, a qual deu origem em poucos dias a mais de uma centena de referências nos mídia, e há 5 anos que ninguém se inquieta com evasão fiscal de algumas centenas de milhões de euros?

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (12)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério», (2), (3), (4), (5), (6), (7) , (8), (9), (10) e (11).

«Porém, se olharmos com alguma frieza para o que podia António Costa ter feito para hoje a situação ser radicalmente diferente, chegamos a uma conclusão simples: é muito mais difícil ser líder do PS do que parece, porque é muito difícil ser líder de qualquer partido socialista na Europa de 2015.

O primeiro problema de Costa é saber onde situar o seu PS: no centro-esquerda, onde sempre esteve e onde obteve os seus melhores resultados eleitorais, ou mais à esquerda, para cobrir um flanco que, como se vê por essa Europa fora, mas é sobretudo evidente em Espanha e na Grécia, pode estar vulnerável?

Quem quer tenha este realismo sabe, tem de saber, que não pode fazer grandes promessas. Não se trata de não ter ainda elementos ou estudos para poder concretizar essas promessas, é pura e simplesmente não as poder fazer. Pela razão simples de que o nosso futuro, tal como o dinheiro de que vamos dispor, deixou de estar nas nossas mãos ou de depender da nossa vontade.

O dilema actual da generalidade dos partidos socialistas dos países desenvolvidos da Europa Ocidental é que, cada um à sua maneira, estão a ser vítimas do seu próprio sucesso, isto é, da concretização do modelo de sociedade que sempre defenderam: economia de mercado com Estado Social. E estão a lidar mal com os dilemas que as necessidades de reforma desse mesmo Estado Social coloca. Enquanto foi possível ir aumentando os impostos, foi possível pagar as promessas que se iam fazendo, mas isso começou a acabar ainda na década de 1970 nos países nórdicos e em Inglaterra. Mais tarde acreditou-se que o dinheiro barato poderia substituir os impostos que faltavam, e muitos começaram a endividar-se, mas tal levou depressa a descalabros como o grego e o português.

A história tem pois destas ironias: o homem que calculou todos os timings para só ocupar o palco no timing certo e ter pela frente uma autoestrada que o levaria ao poder, é o mesmo homem que não consegue controlar qualquer timing, que não consegue sequer saber o que deve pensar e defender.»

Excertos de «Os problemas de Costa não estão nos seus primeiros 100 dias. Estão nos próximos 200», José Manuel Fernandes no Observador

02/03/2015

Dúvidas (81) - Costa com «obra feita» em Lisboa. Amanhã em Portugal? (7)

Outras obras feitas de Costa.

Como parte do estágio para S. Bento, António Costa ensaia as suas tiradas demagógico-fantasiosas e diz em Santarém «… ao sr. Primeiro-ministro: sejamos práticos se quer comparar o que fez com a dívida eu comparo o que fiz com a minha dívida. Eu reduzi a dívida que herdei em 40%, enquanto o sr. primeiro ministro aumentou em 18% a dívida que herdou. Esta é a diferença entre nós e a diferença entre quem gere bem e quem gere mal.»

Nunca se saberá se teria dito o que disse se não dispusesse da boa imprensa de que dispõe ou porventura lesse regularmente o (Im)pertinências, por exemplo este post de há 3 meses onde se escreveu: o grau de endividamento da câmara de Lisboa (114,67% em 2013) é dos mais altos. O endividamento total em 2013 era de 558,8 milhões e seria 845 milhões se não fossem 286 milhões recebidos do governo em 2012 «pela compra há mais de 70 anos dos terrenos do aeroporto, 20 anos antes de Costa ter nascido, e pela «compra» dos terrenos da Expo, uns 20 anos antes de Costa ter aterrado na câmara.

Ou tivesse visto o diagrama seguinte no Portal Municipal:

Fonte


Entretanto, esquecendo o que disse na conferência da Economist, aproveitou para fazer mais promessas com incidência orçamental: «uma loja de cidadão por cada concelho» e «em todas as sedes de concelho serão realizados os julgamentos que dizem respeito às gentes desse concelho».

Certamente por falta de tempo, não esclareceu se essas promessas também são aplicáveis aos 115 concelhos com menos de 10 mil habitantes e, já agora, ao concelho do Corvo e aos seus 430 habitantes.

Dúvidas (80) – Porquê nem todas as causas são boas causas para o jornalismo de causas?

De vez em quando o jornalismo de causas descobre espantado que «temos o quinto salário mínimo mais baixo da zona euro» e surgem revoadas de títulos mais ou menos tirados a papel químico. Desta vez, para só citar alguns: Negócios, DN, Observador, A Bola, Jornal i, Económico, todos municiados pela Agência Lusa.

Porque será que esta gente se espanta e nunca descobre que Portugal tem a quinta mais baixa produtividade por hora de trabalho da Zona Euro?

Fonte: Eurostat

01/03/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Portugal-Grécia, iguais mas diferentes e diferentes mas iguais

Há mais de 11 anos que intermitentemente aqui no (Im)pertinências se recorre ao modelo 5-D de Geert Hofstede para compreender a cultura (no sentido sociológico) dos indígenas e de outros povos. Pois bem, o modelo é igualmente adequado para compreender a diferenças entre países.

Vejamos o caso Portugal-Grécia à luz das reacções à intervenção da troika, agora rebaptizada de «instituições», e mais recentemente à luz da visão dominante nos mídia e nos opinion dealers domésticos do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) conduzido pelo governo Syriza-Anel.

Enquanto por cá a “resistência” à troika foi bastante pacífica com manifestações de indignados que em poucos meses se cansaram e voltaram às suas vidinhas, na Grécia a coisa foi bastante violenta e durou bastante mais tempo.

Quando o Syriza, com pouco mais de 1/3 dos votos teve quase a maioria dos deputados e se coligou com o Anel, um partido xenófobo de extrema-direita, e iniciou o PREC grego com a tentativa de chantagem dos outros 18 países da Zona Euro, o jornalismo de causas, muitos opinion dealers e vários dirigentes políticos portugueses começaram por enfunar as velas dos amanhãs que cantariam, hoje em Atenas, amanhã em Lisboa e depois de amanhã em Berlim.

Gorada a tentativa de chantagem, o «movimento» lusitano reconverteu os cânticos tentando criar uma onda de simpatia piedosa para com as desgraças gregas, onda que, reconheça-se, está a ter muito mais sucesso do que os cânticos circunscritos a umas centenas de oficiantes.

Dito isto, vejamos no diagrama seguinte a comparação de Portugal com a Grécia no modelo de Hofstede.


Como se vê, não são muito diferentes, salvo no que respeita à masculinidade. Vejamos agora a posição de ambos no desconcerto das nações a respeito de 3 dimensões: individualismo-colectivismo, masculinidade-feminilidade e aversão ao risco, nos dois diagramas seguintes (estes diagramas são mais antigos do que o primeiro e podem apresentar pequenas diferenças de score).



E pronto. Está quase tudo explicado. Dois países muito próximos no que respeita à aversão ao risco e ao colectivismo e daí a falta de gosto comum pelo empreendedorismo, a dependência do Estado e o capitalismo de compadres – um ersatz do «verdadeiro» socialismo. Dois países colectivistas, mas bastante diferentes no que respeita à dimensão masculinidade-feminilidade: uma Grécia de machos batendo-se contra a polícia e, agora, dedurando os traidores (Portugal e Espanha) e um Portugal de fêmeas, apiedado dos desgraçadinhos, e daí as diferentes formas e intensidades da «luta contra o governo ao serviço da troika».

28/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (X) - «o eixo contra Atenas»

Outros purgatórios a caminho dos infernos.


Tardou mas não faltou. Seria a primeira vez na história que um governo “revolucionário” perante o falhanço das suas políticas e as respectivas consequências não inventaria um inimigo externo a quem culpar pelas desgraças que irão desabar sobre as suas cabeças e, pior do que tudo, sobre as cabeças de quem os elegeu ou simplesmente assistiu à sua chegada ao poder.

Na história recente quem mais vezes e melhor tem feito esse papel são os Estados Unidos, também por vezes conhecido por o Império do Mal – dependendo o inquilino da Casa Branca. Para citar exemplos nas últimas décadas de governos de regimes “revolucionários” que usaram este expediente: Cuba, Coreia do Norte, Irão, Nicarágua, Venezuela, Bolívia. Apesar de tudo, tomar os EU como um inimigo externo revela megalomania e alguma grandeza.

No caso da coligação Tsipras-Amel que desgoverna a Grécia o melhor inimigo externo que ‘o’ Alexis conseguiu inventar foi, imagine-se, os governos de Portugal e da Espanha que, segundo, a sua mente criativa formaram um «eixo contra Atenas». Leiam-se as suas palavras homéricas:
«Encontramo-nos numa situação em que um eixo de poderes, liderado pelos Governos de Espanha e Portugal, tentaram conduzir as negociações para o abismo, por motivos políticos óbvios.
O plano era – e continua a ser – o de provocar desgaste e derrubar o nosso Governo ou forçar-nos a uma rendição incondicional, antes que o nosso trabalho começasse a dar fruto e antes que o nosso exemplo afectasse outros países.»

Dúvidas (79) – Ver ou não ver?

«Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.

Com as nossas preocupações domésticas, não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia.

 Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a da Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes (a ortodoxa, a islamita, a judaica e a budista) e uma enorme variedade de seitas, que constantemente varia e se multiplica. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes. Qualquer pessoa de senso compreenderá que, segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada.

O autocrata de hoje já não é o czar Nicolau II, nem Lenine, nem Estaline, nem Khruschev, nem Brejnev. É um antigo membro da polícia secreta e, por consequência, um dissimulador, um mentiroso, um torcionário e um assassino, que dá pelo nome de Putin e que preside a uma cleptocracia, largamente caótica, a que só a violência e o seu arbítrio garantem uma vaga coesão e uma aparência de Estado. Além disso, na falta de uma legitimidade dinástica como a dos Romanov, ou ideológica como a URSS, Putin precisa, para se ir aguentando, de invocar a legitimidade imperial, principalmente depois da maior derrota que o Império sofreu desde 1613. O que não seria importante, se depois da implosão do comunismo a Rússia não permanecesse a segunda potência militar do mundo.

E se a Europa não se tivesse desarmado, como desarmou, para pagar o Estado social. A Inglaterra, por exemplo, gasta em defesa menos do que 2 por cento do PIB, no momento em que Putin (de resto, provocado pela França e pela Alemanha) embarcou numa política claramente agressiva e revanchista. A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o Império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.»

Este artigo de Vasco Pulido Valente foi publicado ontem de manhã. No mesmo dia à noite «o opositor russo Boris Nemtsov foi assassinado a tiro, em pleno centro de Moscovo… O Presidente russo, Vladimir Putin, já reagiu, considerando o assassínio "uma provocação"».

27/02/2015

CASE STUDY: O homem providencial para o Estado Previdência (10)

(Outros feitos do homem providencial)

Depois de o jornalismo de causas socialistas ter escamoteado durante quase uma semana o surto de sinceridade que atacou o ungido quando falava aos investidores chineses, agradecendo-lhe estarem a comprar as pratas desta família arruinada que é o Portugal Socialista e concedendo distraidamente que o país está numa situação «bastante diferente daquela que estava há 4 anos atrás», desabou sobre o pobre Costa um coro de protestos dos seus correligionários do PS e de quase todo o resto da esquerdalhada e outro coro de piadas por parte de luminárias afectas a governo.

Coros que, sendo difícil de acreditar, chegaram até à Reuters e suscitaram do ungido uma vasta soma de explicações incluindo um SMS enviado aos sócios do PS.

É pena. Tudo isto é muito triste. Quando um homem resolve interromper momentaneamente a gestão de prudentes silêncios entrecortados com discursos de vacuidades e ilusões, cai-lhe o mundo em cima. Não está certo. É um péssimo incentivo.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (IX) – o ministro das Finanças Gregas não tem perdão

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Como que a provar, uma vez mais, que se as coisas correm mal nada impede que possam correr pior, assim como quando se fazem asneiras não se aprende necessariamente com elas e pode-se sempre fazer outras, Yanis Varoufakis, o ministro das Finanças Gregas (não, não é um lapso), voltou a cantar a mesma canção do perdão da dívida que já não constava do lista que ele próprio assinou, irritando Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças, numa altura em que estava a tentar persuadir dos deputados do seu próprio partido a votarem o prolongamento do programa da Grécia.

Por falar em perdão da dívida, não está demonstrado que a Grécia não possa pagar a sua dívida (ver por exemplo o artigo do WSL «Greece Can Pay Its Debts in Full, but It Won’t»), o que parece indiscutível é que este governo fará tudo para não a pagar e não é muito provável que os gregos consigam vir a ter, não apenas um governo, uma sequência de governos nas próximas décadas capacitados para o fazer - ver diagrama.

Fonte: WSL
Se o governo grego está cada vez mais desacreditado nas «instituições» europeias, também as famílias e as empresas não parecem ter grandes expectativas. Em Janeiro foram levantados 12,5 mil milhões de euros dos quais mais de 70% por particulares.

Entretanto, o governo Tsipras-Anel começa a provar do seu próprio veneno nas ruas. A manifestação de ontem foi provavelmente apenas um primeiro ensaio por parte de alguns dos grupúsculos que compõem o saco de gatos do Syriza.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (21) – O mito da deflação (IV)

Outras marteladas.

Esta semana Janet Yellen, a presidente da Fed, foi duas vezes ao Congresso americano passar a mensagem que o aumento das taxas de juro, embora possível, não estaria eminente, apesar do crescimento robusto da economia nos últimos trimestres e do ritmo de criação de novos empregos. Tudo porque a inflação voltou a cair em Janeiro para 0,8% abaixo, portanto, dos sacrossantos 2%, objectivo da Fed. Porquê 2%? Porque não 1% ou 3% ou 4%?

E, olhando para o gráfico seguinte, a inflação subjacente não é hoje muito diferente do que era na véspera do desmoronar da construção criada com a receita de Alan Greenspan de reduções de taxa e de injecções de liquidez, ao mesmo tempo que alertava para a «exuberância irracional» que a Fed alimentava, nos anos que precederam a crise de 2008.

E qual é a surpresa por a inflação global estar a descer com os preços os combustíveis em queda, a produtividade a aumentar, os preços dos produtos importados da Europa a cairem pela desvalorização do euro, etc.?

Fonte: The Economist
À conta do combate ao papão da deflação, a Fed continua a soprar as bolhas nos mercados imobiliário e de capitais e a introduzir enviesamentos nas decisões com taxas de juro evanescentes que levarão a investir em projectos inviáveis a taxas de juro de mercado, seja lá o que isso for.

E, indo mais ao fundo da coisa, qual é o racional dos bancos centrais fixaram as taxas de juro, isto é a renda para o aluguer do dinheiro, e os governos (já) não fixarem (por enquanto?) a renda para aluguer das casas?

Lost in translation (228) - Liquidez? Qual liquidez? Verão? Qual Verão?

Continuação daqui.

Há duas semanas o ministro da Economia Grega, Giorgos Stathakis, garantia ao Wall Street Journal que o governo não esperava problemas de liquidez antes do Verão.

O Verão este ano deve ter chegado mais cedo porque o ministro das Finanças Yanis Varoufakis disse na rádio grega, citado pela Reuters, que «definitivamente teremos um problema em pagar agora ao FMI».

26/02/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (103) - Apagar o passado no Rato

«Muitos dirigentes do PS, incluindo António Costa, têm criticado o governo por não estar ao lado da Grécia e por seguir a Alemanha. A minha tese é muito simples: o actual executivo tem-se mantido fiel às políticas de todos os governos desde a adesão à Comunidade Europeia, incluindo os de Guterres e de Sócrates; o PS é que se está a afastar do que tem sido a política europeia de Portugal, desde 1986. A História e a política europeia não começou em 2011, com a chegada da “troika”.

(…)

E o governo de Sócrates manteve a tradição de recusar alianças com os periféricos. Entre 2010 e 2011, já estava a “troika” em terras gregas, Sócrates recusou qualquer aproximação à Grécia. Eram os dias em que o PM português fugia do PM grego nos Conselhos Europeus para não aparecerem juntos na fotografia. A “solidariedade” com a Grécia só existe quando os socialistas estão na oposição e não têm de governar. E, tal como Guterres, Sócrates também se aliou a um dos grandes europeus. Sabem com qual deles? Exactamente, com a Alemanha. E com a Alemanha de Merkel.»

O PS perdeu a memória?, João Marques de Almeida no Observador

CASE STUDY: O homem providencial para o Estado Previdência (9)

(Outros feitos do homem providencial)
«Numa união a 28 não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas.»
António Costa, líder do PS, na conferência da Economist.
Caso não saiba, estamos a falar do mesmo Costa que prometeu
  • o fim da austeridade, 
  • o crescimento da economia, 
  • o aumento do salário mínimo para 522 euros, 
  • repor os salários na função pública, 
  • devolução integral dos cortes dos salários na Função Pública, em 2016, 
  • repor as pensões, 
  • eliminar a sobretaxa do IRS, 
  • investir em investigação e desenvolvimento, 
  • incrementar factores de competitividade empresarial efectivos, 
  • reduzir o IVA na restauração e o IMI, 
  • alterar o Tratado Orçamental, 
  • entre muitas outras promessas que ficaram afogadas no bla bla costista. 
Já agora ver esta infografia da «Agenda para a década».

Entretanto, Costa também disse aos chineses no Casino da Póvoa que agradecia «à China todo o apoio que nos deu» e que Portugal está numa situação «bastante diferente daquela que estava há 4 anos atrás».

Poderá então concluir-se que Costa só fala verdade para os estrangeiros?

Aditamento:
A boa imprensa de Costa conseguiu «manter secretas durante uma semana as declarações de António Costa no Casino da Póvoa».

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (31) - Quem é quem na esquerda folclórica portuguesa

Um guia da revista Visão para saber quem é o Tempo de Avançar, o Livre, o Junto Podemos, o MAS, o Fórum Manifesto, o Manifesto 3D, os Renovadores, o MIC, o MIC Porto, enfim os grupúsculos que de união em união chegarão à desunião final.

Vá já lá agora mesmo, antes que fique desactualizado.

25/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (VIII) – a lista do Yanis não é SMART

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Afinal em que consiste a «first comprehensive list of reform measures it is envisaging, to be further specified and agreed by the end of April 2015» enviada por Yanis Varoufakis ao presidente do Eurogrupo?

Trata-se de um enunciado em 4 páginas A4 com 63 medidas cuja formulação chumba no teste SMART que qualquer estudante de gestão tem obrigação de conhecer. De facto, nenhuma dessas medidas é simultaneamente Specific, Measurable, Achievable, Realistic, Time-Bound, o que desde logo tem uma consequência: a menos que a troika as instituições as especifiquem, tornem verificáveis, atingíveis, realistas e com prazo de aplicação não vai ser possível sequer concluir se foram cumpridas.

Comentando algumas das poucas medidas que se podem considerar verificáveis:
  • Reduzir o número de ministros de 16 para 10 - gostava de ouvir o que tem a dizer sobre isso o PS e a esquerdalhada que tanto criticaram este governo a respeito da redução de ministérios;
  • Manter as privatizações que «tenham sido completadas» - é claramente um recuo do governo Syriza-Anel mas a medida seguinte («rever as privatizações que ainda não tenham sido enunciadas») permite tudo, a menos que a troika ponha ordem na caserna; 
  • «… the ambition to streamline and over time raise minimum wages in a manner that safeguards competiveness and employment prospects» (a formulação desta medida é um case study da treta semântica saída das meninges de um esquerdista) – daqui resulta outro evidente recuo no aumento do salário mínimo, mas fica a porta aberta para os maiores dislates.
Em conclusão, ou bem que a troika converte as 4 páginas de verborreia em algo exequível e verificável que contribua para a consolidação das contas públicas e obrigue aquela gente a fazer as reformas mínimas para tornar a economia grega competitiva, ou bem que a única consequência deste acordo é empurrar o problema com a barriga para a frente até que a barriga bata na parede. Nesse caso, o melhor desfecho será a saída da Grécia mais ou menos controlada da Zona Euro. O pior será o colapso da Zona Euro.

Actualização:

Afinal o enunciado das medidas, ainda que vago, pode não ter sido produzido pelo governo grego mas por um alto funcionário da CE. A ser assim, imagine-se se tivesse sido obra de Varoufakis.
Depois de o Eurogrupo e a CE terem feito o seu papel de polícia bom, et pour cause, estão agora a chegar ao local do crime os polícias maus. O BCE e o FMI avisaram hoje que para avançarem com os fundos que restam do programa de assistência são necessários «clear commitments on tough pensions, VAT, privatisation and labour reforms» (FMI) e porque «the commitments outlined by the authorities differ from existing programme commitments in a number of areas … we will have to assess whether measures are replaced with measures of equal or better quality in terms of achieving the objectives of the programme» (BCE).