Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
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10/04/2014

Mitos (162) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (XII)

Lembram-se da legião dos detractores das agências de rating rasgando as vestes de indignação? Que não senhor, não havia risco de default, que sim senhor, era uma conspiração – afinal eram quase todas americanas e o preclaro doutor Marcelo teve uma epifania e, qual catavento soprado por brisas visionárias, declarou urbi et orbi que era uma «estratégia americana contra o Euro e contra a Europa, em que as agências de 'rating' têm um papel muito importante».

Pois bem, parte dessa legião encontra-se entre os signatários do manifesto de reestruturação da dívida cuja premissa subjacente é a inevitabilidade do default se não houver uma combinação de haircut, reescalonamento das maturidades e perdão de juros. Outra parte da legião não assinou porque não teve tempo ou não lhe pediram. Um resíduo da legião se mudou de posição não foi, provavelmente, por genuinamente ter mudado de opinião mas por fenómenos meteorológicos.

Se esta gente tivesse um resquício de coerência assinaria um manifesto a pedir desculpa às agências de rating.

Mais do mesmo no (Im)pertinências: clique aqui.

26/04/2013

Mitos (108) – Os causadores da nossa desgraça foram eles

A propósito da mitologia sobre as causas da nossa desgraça, este post torna evidente que as finanças públicas estavam persistentemente descarriladas muito antes da crise financeira, como se vê no quadro abaixo extraído de O Insurgente. Nos 14 anos entre 1999 e 2012 o Estado português fez o pleno. Recorde-se também que, muito provavelmente, a maioria dos défices anteriores à intervenção da troika foi aldrabada com contabilidade criativa.


Défices antes e depois da adesão à Zona Euro a amarelo e a vermelho, respectivamente; o défice de 2012 ficou em 6,6%.
Por isso, é perfeita mitologia toda a lengalenga acerca dos sucessivos culpados da nossa desgraça: o capitalismo de casino, as agências de rating, a Alemanha, e até, por ironia, há quem acrescente à lista a troika que nos empresta dinheiro e nos evitou a falência. Por falar em agências de rating, momentaneamente obscurecidas pelos outros suspeitos do costume, ver a série de posts «as teorias da conspiração sobre as agências de rating».

10/08/2012

Mitos (80) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (XI)

A DBRS Inc., uma agência canadiana de rating, uma das 4 a quem o BCE pede o rating das obrigações que aceita como garantia dos empréstimos aos bancos, desceu a notação da Espanha e da Itália. Isto mostra que em matéria de rating não se pode confiar nem nas agências amigas.

Outros mitos sobre agências:(I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII), (IX), (X)

31/05/2012

Mitos (74) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (X)

[Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII), (VIII) e (IX)]

Segundo estas teorias, se a Fitch diz que a receita das privatizações vai ultrapassar o objectivo e reconhece como positivas as medidas estruturais que têm sido adoptadas, o que podemos concluir?

Só pode ser para nos desgraçar. Ou não?

30/05/2012

Mitos (73) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (IX)

[Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V), (VI), (VII) e (VIII)]

Segundo as teorias da conspiração em vigor no que respeita às notações das agências, deveríamos estar à beira do incumprimento da dívida pública, da saída do euro ou de qualquer outra coisa catastrófica nas finanças públicas. E porquê perguntareis?

E eu respondo. Ora, porque «a Moody's disse hoje que a execução orçamental apresentada pelo Governo na semana passada é um bom ponto de partida para a quarta avaliação da troika, classificando-a como "positiva". »

E se a Moody disse tal coisa só pode ser para continuar a desgraçar-nos. Ou não?

14/03/2012

Mitos (66) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (VIII)

[Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V), (VI) e (VII)]

O que pensarão os adeptos das teorias da conspiração ao saber que a Fitch melhorou a notação da dívida pública em 4 níveis de restricted default para B- com um outlook estável?

A explicação simples é a de que com o acordo de swap aceite pelo credores e a consequente redução do stock de dívida, do seu reescalonamento e da redução de juros a probabilidade de incumprimento terá baixado sensivelmente.

Contudo, não acredito que os adeptos se desmoralizem por tão pouco. O upgrade traz água no bico. Anda aqui mão do do grupo de Bilderberg, de Wall Street, do Tea Party ou dos sábios do Sião, pensarão. Acrescentariam a mão de um governo americano se já lá não estivesse Santo Obama.

11/12/2011

Mitos (61) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (VII)

[Continuação de (I), (II), (III), (IV), (V) e (VI)]

O Professor Doutor Marcelo, conhecido especialista financeiro, e as inúmeras outras luminárias que produzem bitaites avulsos sobre agências de rating deverão a breve trecho reformular as suas teorias da conspiração apontando o dedo acusador para as agências americanas – dedo indicador ao qual, no caso da Fitch, se deveria acrescentar o polegar para acomodar o facto de 60% da Fitch serem detidos pela Fimalac, uma holding francesa cotada na bolsa de Paris.

Às agências americanas será preciso acrescentar a agência chinesa Dagong. Depois de ter mordido a mão amiga do banqueiro do regime, a Dagong acaba de degradar a notação da dívida francesa de AA- para A+ justificando com uma lengalenga parecida com as agências americanas. Com amigos destes não precisaremos de inimigos, poderia dizer o grande especialista em dívida pública Professor Doutor Engenheiro José Sócrates, a quem devemos creditar o maior débito da história portuguesa -  o que não é dizer pouco num país com 3-intervenções-3 do FMI nos últimos 34 anos.

10/12/2011

Mitos (60) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (VI)

[Continuação de (I), (II), (III), (IV) e (V)]

O conhecido especialista financeiro Professor Doutor Marcelo iluminou-nos há uns meses com a sua infinita sabedoria servida por uma compulsiva lengalenga sobre as notações de crédito da dívida pública serem uma «estratégia americana contra o Euro e contra a Europa, em que as agências de 'rating' têm um papel muito importante».

Aparentemente as agências não sabem disso. A Standard & Poor’s melhorou recentemente de A- para A a notação do Bank of China e do China Construction Bank e desceu a notação de vários bancos americanos, a saber: Bank of America, Goldman Sachs, Citigroup, Merrill Lynch Bank of America, JPMorgan, Wells Fargo e Morgan Stanley.

13/08/2011

Mitos (51) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (V)

[Continuação de (I), (II), (III) e (IV)]

Segundo a teoria da conspiração sobre agências de rating partilhada pelo conhecido especialista financeiro Professor Doutor Marcelo e por todas aquelas luminárias apenas iluminadas sobre a existência de um pequeno problema a afligir-nos há mais de uma década pela intervenção do FMI/BCE/FEEF, as coisas passam-se assim:
  1. Ocorre uma conspiração (do grupo de Bilderberg, de Wall Street, do Tea Party, dum governo americano - de preferência republicano - ou dos sábios do Sião);
  2. Uma agência de rating emite um outlook negativo prenunciando um possível downgrade da notação;
  3. Outras agências de rating fazem o mesmo;
  4. Os mercados ficam nervosos;
  5. Os spreads dos Credit Default Swaps (CDS) começam a subir;
  6. Uma agência de rating, eventualmente seguida de outras, degrada a notação um ou mais níveis;
  7. Os mercados entram em pânico;
  8. Os spreads dos Credit Default Swaps (CDS) sobem para a estratosfera;
  9. Repete-se o ciclo infernal com mais outlooks negativos, downgrades,…
Como explicar à luz destas teorias os dois seguintes fenómenos dos últimos dias?

Fenómeno A
Durante vários meses, o presidente Obama, os senadores e os congressistas republicanos e democratas discutiram ad nauseum o aumento do limite de endividamento e as respectivas contrapartidas de aumento, segundo uns, redução, segundo outros, dos impostos e das despesas públicas. As agências emitiram vários outlooks negativos e a Standard & Poors degradou a notação de triple A (dívida sem risco) para AA+. Finalmente o governo, senado e congresso chegaram a um acordo. Poucos dias depois o governo emitiu dívida a 10 anos com yields historicamente baixos e mais baixos do que antes do downgrade.

Fenómeno B
Nos últimos dias os mercados ficaram nervosos com a dívida pública francesa e os spreads dos Credit Default Swaps (CDS) dispararam. As agências de rating não emitiram ainda nenhum outlook e a notação da dívida pública francesa continua triple A (dívida sem risco).

06/08/2011

Mitos (50) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (IV)

[Continuação de (I), (II) e (III)]

«Nós não somos a Grécia, não somos Portugal», disse Obama. Os EU podem não ser a Grécia, nem Portugal, o que não impede as agências de rating de serem o que são, segundo as mais reputadas teorias da conspiração. O facto do Professor Doutor Marcelo, um conhecido especialista nestas coisas, já ter descoberto a «estratégia americana contra o Euro e contra a Europa», levou as agências a adoptar uma táctica de disfarce para simularem a sua independência: a Standard & Poors acaba de degradar a notação para a dívida americana de longo prazo de triple A (sem risco) para AA+.

08/07/2011

Mitos (48) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (III)

[Continuação de (I) e (II)]

Rendo-me. Afinal há mesmo uma conspiração. Quem o diz é o conhecido especialista em política e finanças internacionais e em intriga nacional e internacional Professor Doutor Marcelo.
«Para mim, é evidente que isto entra numa estratégia americana contra o Euro e contra a Europa, em que as agências de 'rating' têm um papel muito importante,são americanas, puxam pelo dólar, têm posições em momentos cruciais desfavoráveis ao Euro e a economias europeias.»
Espera-se que o Professor Doutor Marcelo, em tempos o líder das bandeirinhas do Euro 2004, inicie uma campanha de jantares de desagravo (vichyssoise será obrigatória), para mostrar ao mundo que os portugueses podem estar falidos e em estado de negação mas o seu viçoso ego resplandecente de auto-estima não se deixa humilhar pelas agências de rating. Ainda vamos assistir a um poderoso levantamento nacional contra o ultimato americano de 2011. Já o fizemos com o ultimato britânico de 1890, ainda sem o Professor Doutor Marcelo mas já com a ética republicana, voltaremos a fazê-lo ainda que Cristo não desça à terra.

Mitos (47) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (II)

[Continuação de (I)]

Usando as mesmas palavras de Santos Ferreira, insinuando a habitual tese conspiratória aplicada à Moody’s, «começo a acreditar que não se deve apenas à incompetência» o que diz a nossa banca do regime a propósito do downgrade da dívida portuguesa. Designadamente, o pensamento do decano dessa banca e presidente do BES ao brindar-nos com esta pérola do pensamento financeiro em linguagem naval:
«Foi mais um tiro certeiro no 'navio Portugal' da 'frota europeia' na guerra que se está a travar entre o dólar e o euro.»
Infelizmente para a reputação de Ricardo Salgado como banqueiro, a sua tese conspiratória não encontra suporte na realidade, a menos que ele quisesse concluir que, na «guerra que se está a travar entre o dólar e o euro», as agências estão do lado do euro. De facto, dando de barato as notações serem fabricadas para atacar o euro como divisa, significando enfraquecê-lo, isto é desvalorizando-o, o resultado é o inverso. É o dólar que se tem desvalorizado face ao euro, como se pode ver neste gráfico do BCE.


Se ainda não tivesse caído por terra, esta tese conspiratória do banqueiro do regime ruiria com estrondo quando se compara a evolução dos Credit Default Swaps (CDS) das OT portuguesas, o seguro de crédito da dívida pública, com as notações da Moody’s. Reflectindo as cotações dos CDS a percepção do mercado do risco de incumprimento, o que se assiste é ser a notação da Moody’s influenciada pela percepção de risco do mercado e não o contrário. Como aqui constatou o Insurgente, «o rating da Moody’s anda meio a “reboque” do valor dos CDS transaccionados no mercado».

07/07/2011

Mitos (46) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating

Cada vez que uma agência baixa a notação de Portugal ou de uma empresa portuguesa, o alarido de protestos eleva-se e os disparates multiplicam-se.

Vou dar de barato que as agências de rating: 1) falham clamorosamente nas suas avaliações; 2) escamoteiam conflitos de interesse (por exemplo accionistas eventualmente interessados em especular com a dívida pública ou privada ou as acções que sofreram downgrade – Nuno Guerreiro, um tanto surpreendentemente, insinua-o aqui) e 3) estão ao serviço dos americanos.

Alguns factos em que estas teorias da conspiração tropeçam:
  1. Se as agências não têm credibilidade, porque razão não se protestaram as notações A da dívida pública portuguesa até 2007 sistematicamente atribuídas à dívida pública portuguesa?
  2. Já agora, se o governo acha sobreavaliado o risco da dívida pública portuguesa, porquê também não acredita que o maior grupo não financeiro e maior empregador português (Sonae) «não tem idoneidade para ser fiador de uma dívida de quatro milhões de euros»?
  3. Se as agências não investem e se as suas avaliações não são credíveis porquê os investidores aparentemente as tomam em consideração?
  4. Pela mesma razão, porquê continuar a pagar às agências para nos darem «murros no estômago», como disse hoje o primeiro-ministro?
  5. Se as agências de rating estão ao serviço de interesses americanos, agora que os EU estão endividados à China e a perder influência, porque não exige o resto do mundo em coro a sua extinção?
  6. Considerando tudo isto, porquê os países europeus “amigos”, as instituições comunitárias e os seus sistemas financeiros, todos eles vilipendiando as agências, não desconsideram a avaliação a dívida portuguesa pelas agências e, em vez disso, tomam em consideração o “verdadeiro” risco de default?
  7. Dito de outro modo, why they don’t put the money where their mouths are?
  8. Por último, como deveriam as agências considerar os efeitos sobre o risco de default da dívida portuguesa do aumento constante e encadeado:
  • das despesas públicas 
  • do défice do OE (incluindo as últimas notícias sobre mais uma derrapagem na execução orçamental no 1.º trimestre) 
  • da dívida pública e privada e, consequentemente,  
  • dos juros
tudo isto num cenário de crescimento próximo de zero durante uma década e de recessão nos últimos e nos próximos anos?