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02/07/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (142)

Outras avarias da geringonça.

Segundo Daniel Oliveira, jornalista de causas / militante / comentador / analista e recordista dos ex (ex-comunista, ex-Plataforma de Esquerda, ex-Política XXI, ex-BE, ex-Livre, ex-Tempo de Avançar), esta crónica perdeu a raison d'être. É o que resulta da sua crónica com um título que é uma tese: «A geringonça acabou e quem perde é Costa».

Não estou tão optimista quanto ele está pessimista. Afinal, o apego dos berloquistas ao poder (com os comunistas a coisa é um pouco diferente) é tal que suportam quase tudo, incluindo aquilo a que Oliveira chama a falta de lealdade, como se ela fosse abundante em qualquer dos parceiros do zingarelho.

Que a coisa está presa por cordéis lá isso está, como mostra o alinhamento do PS com a oposição no chumbo ao projecto de lei do PCP para financiar a Segurança Social com um novo imposto sobre os lucros, chumbo que deixou os comunistas à beira da apoplexia. E como mostra a continuação das greves, como a dos enfermeiros na quinta-feira ou a greve às horas extraordinárias nos hospitais anunciada nesse mesmo dia pelos sindicatos.

E como mostra o pântano das negociações com os sindicatos sobre o «descongelamento das carreiras» dos professores que conheceu agora um novo desenvolvimento com a admissão do governo pela boca da secretária de Estado (o ministro da Educação, até recentemente um factótum de Mário Nogueira, está desaparecido em combate) que poderia a idade da reforma dos professores poderia ser antecipada em troca. Ao colocar em cima da mesa uma variável de muito longo prazo com impacto num sistema de pensões já insustentável nas condições actuais para resolver uma questão salarial, o governo recorre à sua especialidade que é empurrar com a barriga para frente o presente e comprometer o futuro.

Com o prometido e não cumprido descongelamento das carreiras dos professores o governo abriu um frente por onde as restantes corporações vão entrar, a começar pelos militares cujas associações já se estão a mover. A coisa está como o creme que saindo bisnaga não se consegue voltar a metê-lo lá dentro.

As prioridades deste governo ficam patentes quando Costa não teve tempo para uma reunião com a CE para discutir a segurança e protecção das fronteiras externas da UE, sendo Portugal uma delas, e a imigração ilegal e arranja tempo para ir à Rússia ver um jogo de futebol com o Irão e para fazer companhia a Marcelo, Medina, Catarina e outros palhaços no palco do Rock in Rio a cantar «A Minha Casinha» com os Chutos e Pontapés.

Qual é o racional do governo obrigar as cantinas das escolas (concessionadas a empresas privadas) a estarem abertas todo o ano quando as creches públicas fecham às 17:30 e nas férias? Uma manobra de diversão ao caos das avaliações.

Segundo o INE, em 2017 a despesa corrente de saúde cresceu abaixo do PIB nominal o que, numa população cada vez mais envelhecida requerendo maiores cuidados de saúde, significa que os níveis de qualidade e prontidão têm de se degradar, como por exemplo com os tempos de espera das consultas. E o que faz um português que espera meses por uma consulta? Aparece nas urgências de um hospital: as falsas urgências que não justificam uma ida ao hospital representam hoje 42% das urgências.

O défice até Maio aumentou 1,6 mil milhões devido ao crescimento das despesas (2,9%) e ao decréscimo das receitas (-2,3%), o que segundo o governo não afectará o défice do ano. Talvez não, porque se necessário o Ronaldo das Finanças encomenda mais cativações.

A subida do custo de vida em Lisboa, que subiu num ano 44 lugares no ranking das cidades mais caras, é uma bolha que nos vai rebentar na cara.

O indicador de clima económico continuou a aumentar em Maio e Junho o que, infelizmente, significa que continuamos a viver na ilusão. Uma possível boa notícia é que o indicador de confiança dos consumidores diminuiu em Junho, se isso significar que ligaram o desconfiómetro.

Um indicador das duas décadas perdidas pela economia portuguesa depois da adesão ao Euro, é o PIB por habitante em idade de trabalhar que, tal como a produtividade, teve o quarto mais baixo  crescimento desde 1998. Adivinhe quem foram os outros três. Acertou: Itália, Chipre e Grécia.

«Mais passageiros nos aeroportos e menos mercadorias nos portos no primeiro trimestre» quer dizer o quê? Quer dizer que tendemos a depender mais do turismo do que das exportações. Turismo que tem sido um dos maiores responsável pela queda do desemprego com a consequência de contribuir para baixar os salários médios reais que têm estado a cair como constatou a OCDE. Mas é claro que a alternativa de manter o desemprego elevado é muito pior.

Falando de desemprego, aumentou 0,1% pela primeira vez desde há 6 anos para 7,3%, o que sendo um aumento insignificante pode ser um sinal significante.

2 comentários:

Anónimo disse...

Como já não é a primeira vez que assim é classificado — ver: 'como se perde a virgindade' — ficava-lhe bem uma outra entrada no Golossário. A dos Ex- Ex- Ex-

abraço

Unknown disse...

Venial, nome do meio deste tipo.