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25/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor catar na imprensa portuguesa o que escapou às malhas

Continuação daquidali e dacolá.

Por entre as frestas do controlo quase sem falhas dos mídia ocupados pelo jornalismo acolitado à geringonça, escapam algumas informações divergentes da versão oficial. Leia-se este artigo do Expresso Diário de 23-06, também publicado na última página do caderno principal da versão em papel, que contraria frontalmente a versão oficial sobre as origens do incêndio.

«Daniel foi ouvindo em silêncio, ao longo dos dias, as explicações para o incêndio que atingiu Pedrógão Grande. Logo no domingo, António Costa foi o primeiro a falar de trovoada seca, após duas horas de reunião no Comando Nacional de Operações de Socorro da Autoridade Nacional da Proteção Civil, mas afirmou que ainda era "prematuro tirar ilações". Depois surgiu a declaração do diretor nacional da Polícia Judiciária, perentória: "A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio", disse Almeida Rodrigues. Seguiram-se dias de confirmações e desmentidos: os populares a dizer que não houve trovoada, os bombeiros a falar de mão criminosa, o Laboratório Científico da PJ a voltar ao terreno, o IPMA a confinrar os trovões, a recuar depois para ponderação, a afirmar outra vez que houve raios no céu, ali, em Escales Fundeiros, aldeia de Pedrógão Grande com pouco mais de 40 habitantes, onde tudo começou.

Entre o diz que disse, ganhou a tese meteorológica. E então Daniel Saúde, 39 anos, resolveu falar. Porque ele estava lá, a olhar para o ponto zero da catástrofe quando ela começou. Foi ele que ligou para o 112 quando viu fumo a surgir no horizonte, num terreno a cerca de quilómetro e meio em linha reta da sua quinta, a Quinta do Vicente, que roubou o nome de batismo ao seu avô. O telemóvel regista a hora da chamada: 14h38.

Era sábado, estava um calor insuportável, nem dentro nem fora de casa se estava bem. Ele e a mãe, de fim de semana na terra - vivem na zona de Lisboa -, resolveram almoçar no pátio, onde corria uma aragem. A casa está situada no topo da localidade. Em frente fica todo um vale. O vento soprava na sua direção trazendo as conversas que se faziam lá em baixo, na aldeia. "Se houvesse trovoada tínhamos ouvido ou até visto. A geografia do sítio faz com que os trovões façam ali um estrondo incrível e o vento estava de feição", garante. "Ao fim da tarde, sim, posso garantir que houve trovoada, mas não àquela hora. Não sei o que provocou o fogo, mas ali, naquela altura, não caiu nenhum raio."

A chamada para o 112 durou pouco mais de um minuto. E depois Daniel correu encosta abaixo na direção do fumo, uma zona de mato nas cercanias de Escalos. Queria avaliar a situação, o perigo para a localidade, se era razão para ficar, regar, proteger ou partir. No caminho até lá, passaram por ele os primeiros bombeiros, um carro com meia dúzia de homens, da corporação de Pedrógão, e depois a GNR. E depois mais populares que com ele ajudaram como puderam a estancar o local da ignição. Mas as chamas, inicialmente baixinhas, depressa passaram do mato para a floresta desordenada de pinheiros, e a partir daí as mangueiras pareciam bisnagas de brincar contra o monstro que crescia e se alimentava e corda ao sabor do vento forte, dos terrenos cheios de caruma e erva seca, das temperaturas acima dos 40 graus.

Daniel esteve lá uma meia hora, o suficiente para perceber que o incêndio não ficaria por ali. Os bombeiros avisaram que o vento forte estava a levar as chamas na direção da aldeia e ele foi no mesmo sentido avisar os populares do perigo. São principalmente idosos que moram ali. Mas antes virou o telemóvel na direção do fogo e tirou-lhe a primeira fotografia: eram 15h17. A partir daí, do pátio de onde viu o fumo, assistiu impotente ao maior incêndio que Portugal teve até hoje, com o vento a levar-lhes "o som horrível do fogo". As chamas chegaram junto das primeiras casas passada apenas uma hora desde a ignição, mas apenas uma casa, desabitada, e alguns barracos sucumbiram.

A noite foi passada a regar a propriedade em permanência, já com o carro pronto caso fosse necessário partir à última da hora. As comunicações que ali chegavam entrecortadas davam conta de várias estradas interditadas mas nunca estiveram cercados. Quando a luz voltava e as notícias surgiam na televisão, a tragédia avolumava-se, com o número de mortos sempre crescente. Mas ali não morreu ninguém.

Daniel Saúde e a mãe partiram para Lisboa no domingo de manhã, quando a situação acalmou. "Hoje é sexta-feira. Passou quase uma semana desde o início do incêndio. Fiquei à espera que a Polícia Judiciária me ligasse, para me ouvir sobre como começou esta tragédia. Afinal fui eu que liguei para o 112, mas nada." O incêndio foi finalmente dado como controlado. Morreram 64 pessoas, há mais de 200 feridos, cerca de 250 desalojados e um número desconhecido de casas destruídas. "Não posso minorar a tragédia mas posso contribuir para esclarecer a sua origem. Vou ligar eu à Polícia Judiciária."»

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