Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/11/2005

ESTÓRIA E MORAL: eu, lagarto, me confesso

Estória
Lagarto congénito, confesso-me irritado quando um clube de futebol, principalmente aquele porque tenho simpatia, tenta fazer acordos com o fisco para escapar a pagar 2,7 milhões de euros. Mas não espero que o estado napoleónico-estalinista se comporte como uma pessoa de bem e, por estar habituado, já não me irritarei se a direcção do clube e a administração da SAD dos lagartos não vierem a ser presas sem caução, como deveriam, e se, como prémio de inadimplência, o fisco lhes vier a perdoar o todo ou a parte dos 2,7 milhões de euros.

Moral
Entradas de leão, saídas de carneiro.

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota? (3)

Bom, depende.

Para se perceber melhor, nada como ler o dilema das cadeiras pelo blasfemo jcd. O post «Justa causa» explica como fazer a bota bater com a perdigota.

Se o Impertinências estivesse dentro das calças do engenheiro Sócrates (vade retro satanas!) mandava os ministros e os seus ajudantes lerem 100 vezes o post do jcd, amanhã dia da Restauração, sob pena de serem defenestrados como dom Miguel de Vaz com Selos.

29/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o polvo fáctico

«Nós hoje vivemos em Portugal uma situação perversa. Nesse aspecto somos dos piores países da Europa. E isto porque quem financia a actividade partidária, a actividade dos dirigentes partidários são, normalmente, os empreiteiros. Financiam as campanhas e financiam a vida privada de muitos dirigentes partidários, que fazem desta vida política a sua profissão. Não sabem fazer mais nada. Profissionalizaram-se na política e da política depende a sua sobrevivência.

Sejamos mais claros: muitos promotores imobiliários financiam a vida política e partidária para que depois os políticos, financiados por eles, e que estão no aparelho de Estado, na Administração Central ou local, façam a gestão pública não em função do interesse da população mas em função do interesse de quem os sustenta, como bom dever de gratidão.

E muitos planos directores municipais não passam de bolsas de terreno que são elaborados em função de quem é o proprietário dos terrenos. E isto é justo? É justo que se faça o planeamento do país em função de interesses privados? É evidente, que quando estes interesses são assumidos como interesse colectivo faz-se o que se quer, e muitas das vezes na administração o que se faz, ilegitimamente, passa a legítimo, com bons gabinetes de advogados. Naturalmente que tudo é muito bem formatado, muito bem embrulhado. É assumido como público um interesse que afinal não é mais do que privado. E hoje na área do urbanismo há uma aliança perversa entre promotores imobiliários, alguns arquitectos de uma pseudo-esquerda e que por serem de uma pseudo-esquerda vêm branquear projectos imobiliários que são autênticas aberrações, e escritórios de advogados. E é esse tripé que manda hoje, como sempre mandou neste país. Alguns arquitectos que vêm tentar limpar a face do negócio e escritórios de advogados que conseguem formatar juridicamente todos estes embrulhos, isto é uma "santa aliança perversa".»
(Excertos duma entrevista esclarecedora de Paulo Morais, ex-vereador da CM Porto, a O Primeiro de Janeiro, via Grande Loja do Queijo Limiano)

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: importa-se de repetir?

Secção Insultos à inteligência
«O economista Miguel Cadilhe propôs segunda-feira a redução do Estado "a um quarto ou um terço da sua actual dimensão", através de rescisões amigáveis de contratos com funcionários públicos», escreve o Diário Económico. Apesar de conhecer os efeitos do ressaibo na mente humana, custou-me a acreditar que o doutor Cadilhe pudesse ter dito esta insensatez. Mas deve ter dito mesmo, porque o Jornal de Negócios usa as mesmas palavras.(*)

O primeiro governo do professor Cavaco Silva, a que pertenceu o doutor Cadilhe, deu um importante contributo para a pletora do estado napoleónico-estalinista e a engorda da vaca marsupial pública. Talvez para se resgatar da incontornável responsabilidade, o doutor Cadilhe vem prestar um mau serviço à causa do emagrecimento do «monstro», como lhe chamou o professor Cavaco Silva (ele próprio, recorde-se, com imensas culpas no cartório).

Reduzir o Estado "a um quarto ou um terço da sua actual dimensão", ainda que o doutor Cadilhe esteja a pensar a 10 anos, é uma proposta irresponsável porque significaria o colapso social dum país com uma cultura colectivista enraizada até às entranhas e metade da população dependente mais ou menos directamente do Estado. Um estado mínimo, como esse saído das meninges do doutor Cadilhe, que faria as delícias do Impertinências, note-se, não se encontra à face da terra. Alguém que quisesse sabotar qualquer arremedo de reforma do «monstro», açulando na populaça os pavores da mudança, não faria melhor. Nem nos piores delírios do anarco-liberalismo se congeminam propostas destas.

Por esta merece o doutor Cadilhe 3 pilatos, 5 chateaubriands (mais outra como esta e leva também uns ignóbeis).

(*) Ainda há esperança que a culpa seja dum estagiário da Lusa com problemas de audição.

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota (2)

(Fonte: NAER - Perguntas frequentes)

Perguntas infrequentes:
  • Se 42,5% dos passageiros da Portela são residentes, as projecções de tráfego têm em consideração que o crescimento deste segmento é muito inferior ao dos não residentes?
  • Se 65,4% dos 42,5% residem no NUT Lisboa e Vale do Tejo, e destes provavelmente mais de 80% residem na zona metropolitana de Lisboa, qual é o racional para fechar a Portela e construir um aeroporto que em 20 ou 30 anos terá a sua capacidade esgotada e exigirá a construção dum novo aeroporto?
  • Se «a questão que se coloca é saber se, com tal base de tráfego, se consegue disponibilizar e viabilizar uma infra-estrutura aeroportuária complementar capaz de oferecer condições de serviço e preço que convençam os transportadores em causa a preferir essa infra-estrutura ao aeroporto actual» porque não se fizeram os estudos para lhe responder?

28/11/2005

MOMENTOS HOMOFÓBICOS: o doutor Oliveira e «os devassos pinguins»

O doutor Daniel Oliveira na sua coluna «Choque e Pavor» do Expresso indigna-se com o documentário «A Marcha dos Pinguins» que, segundo ele, é um míssil subtil dirigido pelos conservadores à mente frágil do povo, inculcando-lhe valores retrógrados como a defesa do casamento monogâmico, do sexo heterossexual e de outros próprios das sociedades decadentes.

O doutor Oliveira não brinca em serviço e, munido do parecer do «bloguer» americano (americano! ouviram bem?) Andrew Sullivan, demonstra como a esperança dos conservadores é infundada. Se o pinguim de serviço não se apressa, conta-nos, quando chega a altura da queca, a pinguim espera 24 horas e procura outro parceiro - a ciência do «bloguer» não chegou para perceber que, se as meninges do povo são manipuladas pelos conservadores à custa de documentários (franceses! quelle dommage!), as hormonas da pinguim são manipuladas pela selecção natural que lhe armadilhou os genes para proteger a espécie.

Mas o argumento definitivo chega no parágrafo seguinte com o casal de pinguins gay do zoo de NY, que até adoptaram um ovo.

Aguardo, ansioso, que o doutor Oliveira nos apresente os seus próximos episódios pinguim: a pinguim que faz desmanchos, o pinguim que chuta.

27/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: road map to nowhere

«Manuel Pinho decidiu contratar uma equipa de Harvard para controlar o Plano Tecnológico.»

«Os professores de Harvard ... vão ver um País com vários exemplos extraordinários de aplicações tecnológicas (via verde, Multibanco, utilização de telemóveis, penetração do Cabo, etc.) e vão perceber que quase todos estes exemplos partiram de empresas privadas. Vão, depois, perceber que muitas destas aplicações foram feitas em parceria com Universidades públicas. Mas também vão ver que a maior parte do Estado está um pouco a leste (*) da tecnologia, que não facilita a sua utilização e que, acima de tudo, não faz o ‘road map’ para que isso passe a ser uma prioridade do País. E essa era a ideia do Plano Tecnológico.»


(*) «muitos anos depois António Guterres ainda não sabia o que era um “@”»
(Aviso a Harvard, Ricardo Costa, DE)

ARTIGO DEFUNTO: «já demos a volta», escreveu ele

Como era previsível, o jornalismo de causas veio em socorro das estatísticas de causas, nas páginas do caderno de Economia do semanário de referência. A começar pelo exaltante título «Já demos a volta», o jornalista de serviço à causa dá o melhor de si próprio para transformar o vapor dos sinais catados na síntese de conjuntura do INE em algo capaz de injectar optimismo nas nossas meninges deprimidas.

O esforço é mais notório no comércio externo. Onde a mente delirante do articausista imagina uma «inversão do ciclo», as estatísticas de comércio externo do INE mostram que o défice da balança comercial até Julho aumentou 13,7% e o défice do comércio extracomunitário aumentou 32,9% até Setembro.

Vários outros artigos alinham pelo tom entusiástico e fretista do «Já demos a volta», com um destaque especial para o «Vamos ser a horta da Europa», que nos descreve um idílico «projecto para a costa alentejana que prevê uma megaprodução em estufas de hortofrutícolas e plantas ornamentais». Se for parecido com o projecto do senhor Thierry Rousseau, cujos restos de plástico ainda devem ser visíveis na costa alentejana, o engenheiro Sócrates pode pedir a assessoria do professor Cavaco que ainda se deve lembrar de lá ter ido inaugurar a gigantesca fraude em que o seu governo embarcou.

26/11/2005

LOG BOOK: the pessimistic liberal

«He (Peter Drucker) was too sensitive to the thinness of the crust of civilization to share the classic liberal faith in the market, but too clear-sighted to embrace the growing fashion for big-government solutions. The man in grey-flannel suit held out more hope for the mankind than either the hidden hand or the gentlemen in Whitehall.»
(Trusting the teacher in grey-flannel suit)

25/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: sólido bom senso

Finalmente há uma criatura que fala de sexo na Bloguilha com um sólido bom senso. Sem Marx, sem o doutor Spock, sem Cristo, sem Reich, sem Freud, até mesmo sem Hayek. Apenas sólido bom senso.

DIÁRIO DE BORDO: teorias da conspiração

Lê-se (via o ex-jaquinzinho e actual blasfemo jcd) e não se acredita. O senhor António Varela, empresário ligado à aviação pelo «seu Citation X ... apreendido na Venezuela com cocaína a bordo» (fretado pela Air Luxor), trabalha há 10 anos com o grupo Espírito Santo, compra uma área de 650 hectares na zona do eventual aeroporto da Ota a 10 euros, que valem segundo ele agora 250 euros por m2 e talvez 500 dentro de 5 anos, acreditou «sempre que o aeroporto da Ota seria irreversível», ouviu falar duma «reunião secreta entre autarcas e empresários da zona do Oeste com Mário Lino», na qual não participou por falta de tempo e dá uma entrevista ao Correio da Manhã em que conclui filosoficamente que «o cidadão comum gosta muito de criar teorias da conspiração».

Eu que sou um cidadão comum, mas não gosto de criar teorias da conspiração, estou sem teoria nenhum à mão para explicar esta prática.

Post (scriptum)
Há exactamente 30 anos teve sucesso uma conspiração que fez abortar outra conspiração que visava transformar Portugal numa república de sovietes (no Alentejo seriam kolkhozes). Eles ainda andam por aí.

24/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: há vida para além da Ota?

«Este esclarecimento implica que se afastem fantasmas e destruam mistificações. O fantasma frequentemente evocado pelos críticos é que este elefante-branco representa uma ruina para os cofres públicos – logo mais impostos no futuro. A mistificação, ao invés, é que tudo é privado – logo, a nação valente não tem com que se preocupar.

Mas tem. Tem porque, aqui sim, há vida além do défice orçamental. Ou, para ser mais rigoroso, a morte pode estar desorçamentada.

Um dos cenários, praticamente dado como certo, é a privatização da ANA ser feita para financiar o projecto, explicando o Citigroup que assim se evita a utilização de recursos públicos. E o banco Efisa, entre as três principais conclusões, enfatiza que o novo aeroporto não implica qualquer esforço por parte do Orçamento de Estado.

Evidentemente que só pode ser brincadeira. A ANA é uma empresa 100% detida pelo Estado, é um monopólio, beneficia de uma renda natural de um mercado protegido. É, está claro, um recurso público. E se for entregue como parte do negócio é você, caro leitor, quem obviamente está a pagar.

Pode não implicar o recurso a qualquer dotação do OE, como sugere o Efisa. Ok, a viabilidade do projecto, segundo este banco, é parcialmente garantida por uma sobretaxa a cobrar aos passageiros da Portela.

É um contra-senso, uma aberração. O nosso aeroporto já é pouco competitivo e muitas companhias fogem de Lisboa para destinos com custos aeroportuários mais baixos. Pôr a Portela a financiar a Ota é uma emenda que piora o soneto.

Que adianta uma gigantesca infra-estrutura de transporte para dotar de competitividade o território, se o esforço para construi-la significa a morte das companhias que transportam e a repulsa dos turistas a transportar?

Um novo aeroporto não é um fim em si mesmo. O país já entende que ele é necessário e que até se pode viabilizar. Mas só se deixará convencer na certeza de, uma vez construído, o aeroporto tenha turismo para receber e aviação comercial para operar. Não há estudos de impacto sobre isto. Afinal, sobre a razão de a Ota existir.»


(Sérgio Figueiredo, no Jornal de Negócios de hoje)

BLOGARIDADES: ora essa!

«Imagino que nas cabecinhas mais desgovernadas se comece a cogitar o apelo para que a Igreja Católica comece a aceitar quotas, quotas de homossexuais, quotas de inimigos da Igreja, quotas de crentes de outras religiões e um lugarzinho nos arquivos do Vaticano para o Dr. Fernando Rosas.» (imaginado pelo marinheiro VLX do Mar Salgado, a propósito dos justos protestos da bicharia e dos amigos da bicharia pela Igreja não aceitar nos seminários bichas que saíram dos armários)

E porque não? Ora essa! Eu, que também tenho uma cabecinha às vezes desgovernada, pergunto-me e porque não? E, já agora, porque não o Berloque de Esquerda começar a aceitar quotas de fassistas e squinédes? Por acaso até era bom para a diversidade ver umas bandeiras com cruzes suásticas bafejadas pelos eflúvios dos charros.

SERVIÇO PÚBLICO: estatísticas de causas

Partilhei do espanto da Joana sobre a síntese de conjuntura do INE, organismo que com o «açambarcamento pelo PS das chefias» acentuou a sua vocação de contador de estórias para ajudar a embalar economistas com o remanso que só se encontra nos «humanistas».

Partilhei, até que percebi que o script que o INE escreveu tem fins terapêuticos - melhorar a auto-estima dos portugueses, com a preciosa ajuda do jornalismo de causas que se esmerará a ampliar os eflúvios do INE e transformá-los em certezas sólidas como rocha para gáudio do povo. Não estamos a falar de quaisquer estatísticas, falamos de estatísticas de causas, produzidas, como escreve a Joana, por um «Instituto Nacional de Sensações (ou de Palpitações)».

Nova entrada para o Glossário das Impertinências

Estatísticas de causas
Estatísticas produzidas por um «Instituto Nacional de Sensações (ou de Palpitações)» para alegria dos economistas de fé e animação do povo. As estatísticas de causas dão razão, com uns bons 150 anos de atraso, a Benjamim Disraeli, primeiro ministro de SM da rainha Victoria. «There are lies, there are damned lies, and there are statistics», escreveu ele premonitoriamente, mesmo sem ter tido a oportunidade de conhecer a produção do INS.

23/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: vai chamar pai a outro (2)

«One way to describe libertarianism is that we believe in the separation of family and state as strongly as the American Civil Liberties Union believes in the separation of church and state. In contrast, both the Left and the Right view government as a substitute parent. As pointed out by George Lakoff in Moral Politics, the Left wants government to be a nurturant parent and the Right wants government to be a strict parent. Libertarianism does not want the government to act as a parent.»
(de Arnold Kling, citado por John Ray, como sequela desta Breiquingue Niuz)

22/11/2005

CASE STUDY: o tamanho interessa?

A avaliar pelo interesse recente dos jornais de referência (como o Correio da Manhã) e da Bloguilha pelo tema (vários blogonautas tocaram na coisa, ainda que sem aprofundarem), e pela quantidade que o Impertinências recebe de spam a propor a ampliação do equipamento, o tamanho interessa e muito.

Até há poucas décadas, o tamanho só parecia interessar ao género masculino, que sempre teve um fixação no coiso. O género feminino, por falta de interesse ou por vergonha, não costumava manifestar-se a este respeito. Seja porque perdeu a vergonha, seja porque foi contaminado pelas obsessões masculinas (como frequentemente acontece, a tribo dominada costuma adoptar os valores da tribo dominante), seja lá pelo que for, o mulherio começou a ter voz activa na métrica do equipamento. Pelo menos é o que diz o spam que recebo, insinuando que a minha girl friend, ou sweety, ou simplesmente wife está ansiosa pela ampliação do atributo. Temos, contudo, que reconhecer que as opiniões se dividem - por exemplo a da esposa do senhor Fernando Silva (1) «não gostou muito. Quando (o) viu, disse que era um exagero».

Mas se alguém pensa que este tema faz parte das matérias triviais que nem mesmo chegam a interessar os humanistas, desengane-se. Isto não é matéria do Trivium, nem mesmo matéria do Quadrivium (apesar da métrica), isto é matéria da filosofia da história.

Só um exemplo bastará para se perceber a relevância do tamanho do equipamento. Em 1999, segundo umas versões, ou 1987, segundo outras, o pénis de Napoleão, que foi cortado no dia seguinte à sua morte pelo seu médico pessoal, foi vendido num leilão da Christie ao urologista John Lattimer que pagou por ele USD 4.000 (ou USD 3.000, de acordo com outros). Preço que, à primeira vista, até poderia ser considerado barato, face à importância histórica do proprietário do artefacto, mas que em boa verdade saiu ao doutor Lattimer por uma exorbitância de quase mil dólares por centímetro (em repouso). (2)

Apesar, da insignificância do instrumento, ou talvez por isso mesmo, podemos levantar várias questões relevantes para a França e para a Europa social.

Tivesse Bonaparte sido um bem dotado, ou pelo menos tivesse o criador sido um pouco mais generoso (3) na atribuição do pedúnculo, teria Napoleão o tempo, a oportunidade e a energia para devotar-se à glória da República e à sua própria, invadindo a Europa, espalhando código civil, liberté, etc., e deixando as sementes donde germinariam séculos mais tarde, o doutor Soares, o doutor Freitas e até, porque não?, o doutor Anacleto Louçã? Ou, pelo contrário, solicitado pelas suas inúmeras amantes (4), teria Napoleão gasto nas manobras de cama as energias que, à falta de boas razões, acabou por usar nas manobras nos campos de batalha?

Tivesse Bonaparte um membro viril à altura de Maria Josefina (que, recorde-se, procurou em inúmeros amantes talvez um ersatz para o minguado equipamento do seu famoso marido), teriam hoje os franceses as suas bagnoles calcinadas pelos magrebinos?

Tivesse Bonaparte um coiso que não o envergonhasse nas casernas, teria hoje M. le président Chirac os delírios que têm, imaginando, na solidão do seu gabinete do Eliseu, que está à frente duma superpotência? (5)

São algumas das muitas e relevantes questões que se podem levantar a propósito de algo que, pelos vistos, pouco se levantava. (6)

Notas de rodapé
(1) O senhor Fernando Silva não se chama Fernando Silva e por isso não sei se devemos dar-lhe crédito. É, de certa maneira, um problema semelhante ao dos blogonautas anónimos, que tem justamente preocupado e ocupado várias luminárias da Bloguilha. Como de resto já tinha preocupado Camilo Castelo Branco que à coisa se referiu como «angústia represada que só pode extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anónima».
(2) Segundo o doutor Lattimer a relíquia teria 4,1 cm e «poderia», segundo as suas palavras, «poderia» sublinhe-se, atingir o máximo de 6,6 cm em estado de excitação.
(3) Bastaria o criador ter bafejado Napoleão com um pouco da opulência que concedeu a
Rasputine.
(4) Desirée Clary, Pauline Fourès, Leonor Dernelle de la Plaigne, Marie Louise, só para citar algumas e mostrar um pouco de erudição.
(5) Sem querer fazer humor com coisas tristes, M. le président mais facilmente poderia imaginar, dadas as circunstâncias que preside a uma superimpotência.
(6) Não há evidência histórica sobre se, neste caso, «pouco» significaria «infrequente» ou meramente «inextenso».

21/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: a arrogância cultural do «humanismo» ignorante

A propósito dos arrotos humanistas do doutor Soares, leia-se esta prosa do economista (mais um «ignorante») Vítor Bento (no DE de 18):
«Arrogância cultural

”Eles abafam piedosamente o sorriso ao falarem de cientistas que nunca leram uma obra relevante da literatura inglesa. Descontam-nos como especialistas ignorantes. Contudo, a sua própria ignorância e a sua própria especialização são alarmantes. Por diversas vezes tenho estado presente em encontros de pessoas que, pelos padrões da cultura tradicional, são considerados muito cultos e que, com considerável prazer, têm expressado a sua incredulidade pela ignorância dos cientistas. Uma ou outra vez fui provocado e perguntei à minha companhia quantos deles conseguem descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria e foi também negativa. Todavia, eu perguntei algo que pode ser o equivalente científico de: ‘Já leu uma obra de Shakespeare?’”
Charles Snow, ”The Two Cultures”

Existe nas sociedades modernas, uma perigosa segmentação cultural, que se tem vindo a agravar com a especialização do ensino, entre a formação com origem nas chamadas ”humanidades” e com origem nas ciências. Se se entender a cultura, muito simplesmente, ”como aquilo que torna a vida digna de ser vivida”, como admite T. S. Eliot (Notas para uma Definição de Cultura), uma equilibrada articulação entre diferentes actividades e diferentes áreas do saber é essencial para o sucesso cultural, e a sua ausência pode conduzir à desintegração cultural, conducente, ela própria, à desintegração social.
Os efeitos desta segmentação são, porém, agravados por um sentimento de arrogante superioridade moral muitas vezes demonstrado por alguns ”intelectuais literários”, que se consideram a si mesmos detentores da ”verdadeira cultura”, desvalorizando como mera tecnocracia os conhecimentos obtidos pelo estudo das ciências. Este sentimento, de raízes pré-modernas, tem atravessado praticamente toda a modernidade, alimentando recorrentes controvérsias, e carrega os sinais claros de uma expressa marca social que, entre outras manifestações, sobrepõe o pensamento à acção, as artes aos ofícios e o ”intelectual” ao ”manual”.
Este mesmo sentimento re-emergiu recentemente entre nós, para desvalorizar as qualificações científicas dos economistas para o desempenho de funções de representação política, contrapondo-lhe a superioridade dos ”conhecimentos literários” (ainda que por vezes não passem da especialização em generalidades). Mas sob o véu das diferenças culturais, o que esta linha argumentativa acaba por transportar é a ideia subliminar de uma aristocrática distinção social, insinuando que a origem patrícia assegura melhor preparação para o desempenho de funções políticas do que a origem plebeia.
O que mais surpreende nesta posição é que ela provenha de sectores de esquerda, provavelmente os mais afectados pela burguesa corrosão ”pós-modernista”. Primeiro, porque a esquerda, originariamente trabalhista e programaticamente progressista, foi tradicionalmente favorável às virtudes das ciências, vistas como fonte de progresso. Segundo, porque o conhecimento técnico e científico proporciona mais oportunidades de progressão social do que a ”cultura literária”. Terceiro, porque se perguntarem aos trabalhadores se preferem ser politicamente representados por quem saiba manter uma conversação erudita nos salões sociais ou por quem compreenda os mecanismos necessários à criação e preservação de empregos e à melhoria dos níveis de vida, o que é que acham que eles vão escolher?
É que, como lembrava Alfred Marshall, no final do século XIX, ”… o carácter do homem tem sido moldado pelo seu trabalho de todos os dias e pelos recursos materiais que desse modo procura, mais do que por qualquer outra influência, com excepção dos seus ideais religiosos; e as duas grandes acções formadoras da história mundial têm sido a religiosa e a económica”. Sendo assim, saber de economia talvez seja conveniente.»

O post «Humanismos e Trivialidades» do Semiramis ajuda a compreender as raízes da arrogância «humanista» - basicamente o desprezo pelo trabalho lato sensu.

BLOGARIDADES: «Os activistas LGBT são anti-liberais»

«Os activistas LGBT são anti-liberais», defende o blasfemo João Miranda, e o Impertinências concorda.

Além disso, acho-os ridículos (todos), promíscuos (quase todos) e perversos (muitos).

DIÁRIO DE BORDO: a doutora Filomena sai do armário

Não li e provavelmente não vou ler o «Bilhete de Identidade» de Maria Filomena Mónica. Não aprecio o género confessional e também receio que a boa ideia que tenho dela não resistisse à exposição das suas partes pudendas.

[Ao ler o prenúncio da exposição dos seus parceiros em O Independente, ocorreu-me, uma vez mais, que as nossas enfezadas elites vivem em endogamia o que não é bom para os genes - e por isso são enfezadas?]

20/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: a decomposição das instituições da república prossegue acelerada

(O «gato constipado» no Expresso de 19-1)

Abel Pinheiro (5.ª coluna do CDS), Paulo Portas, Fernando Marques da Costa (5.ª coluna do doutor Sampaio), Rui Pereira (ex-director do SIS), entre outros, foram ouvidos a chafurdar nesta pocilga e a refocilar no meio dos sobreiros. Entre os grunhidos foram ouvidas referências a conversas do engenheiro Sócrates e do doutor Sampaio.

19/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: Andam com o gajo ao colo (2)

Já aqui dei guarida aos protestos do doutor Soares sobre a alegada preferência dos mídia na pré-campanha pelo doutor Cavaco, com manifesto prejuízo da exposição mediática do majestático ego do próprio doutor Mário, segundo ele mesmo.

Como acontece frequentemente com os protestos, estes protestos não parecem ter sustentação nos factos - donde talvez se pudesse concluir que o doutor Soares daria um excelente praticante do jornalismo de causas, pelo menos em causa própria.

Aproveitando a boleia do insurgente BrainstormZ, aqui fica o registo dos factos segundo a Marktest.

18/11/2005

ARTIGO DEFUNTO: filáucias do jornalismo de causas expostas pela pitonisa Joana

Mais duas demonstrações de jornalismo de causas para quem se «não há factos - os factos correspondem à visão do mediador, do repórter», ainda menos há previsões de factos futuros. Desta vez foram expostas pela pitonisa Joana do Semiramis, a propósito da irremediável confusão entre projectar desejos e fazer um previsão falível mas honesta, na circunstância relativamente às consequências da eleição da esquerdista Andrea Nahles sobre o futuro da coligação alemã e à popularidade de Sarkozy - o único governante que teve uma atitude firme face aos motins.

A Joana bem podia ter evitado a filáucia de escolher um título pesporrente como «Filáucias».

Post scriptum:
Títulos pesporrentes são os que usam termos que aparecem menos de 300 vezes nas pesquisas Google e obrigam o Impertinências a ir ao dicionário.
Filáucia
[Do gr. philautia.]
s.f. Amor-próprio; egoísmo; presunção, vaidade.
(Dicionário de Cândido de Figueiredo)

16/11/2005

ESTÓRIAS E MORAL: fábula da rã e do tacho

Estórias

O BdeP revê a previsão de crescimento em 2005 para 0,3% e o ministro das Finanças desvaloriza a previsão, comentando em Londres que não a quer «sobrevalorizar». (DE)

A taxa de desemprego atingiu a 7,7% no 3.º trimestre, o valor mais elevado desde 1998 (INE, citado pelo DE).

O ministro das Obras Públicas informa-nos que «foi decidido dar prioridades às linhas que são auto-sustentadas na sua exploração», deixando-nos na ignorância acerca de como fará o milagre. Milagre que toda a Europa que tem TGV aguarda ansiosamente para por fim ao défice que aflige praticamente todas as linhas. (DE)

Enquanto isso, o ministro da Saúde reconhece que existem funcionários redundantes (1.000 em 6.000 só no Hospital de Santa Maria), mas garante-lhes que «não têm razão para estar preocupados». Quem não é funcionário do ministério deverá ficar preocupado com a falta de preocupação do ministro. (DE)

Estas quatro notícias podem ler-se todas elas na edição online do Diário Económico de hoje. Ontem tivemos outras e amanhã teremos ainda outras vagamente preocupantes. Nada de novo, business as usual. Nada que impressione os portugueses embalados pelo suave ronronar dos ministros do governo do engenheiro Sócrates - aqui a tradição continua a ser o que era, porque pouco os distingue dos ministros anteriores dos consolados dos doutores Durão Barroso e Santana Lopes, salvo uma maior preocupação pela pose de Estado.


Moral (sob a forma duma conhecida fábula que ilustra o problema da mudança na gestão)

Era uma vez uma rã que saltitava alegremente na beira dum lago, despreocupada e alheia aos perigos do mundo. Perigos que na circunstância consistiam num tacho acabadinho de pôr ao lume pelos operários que trabalhavam na obra ali mesmo ao lado. No tacho esperavam cozer umas batatas para acompanhar as febras de porco que aguardavam, impacientes, pela companhia. Tacho dentro do qual a nossa rã finalizou o seu último e acrobático salto.

Em pleno inverno, um frio de rachar, aquela água morna era o paraíso para uma pobre rã de sangue frio. E assim foi ficando, cada vez mais confortável. Até ao ponto em que o calor a fez suar (nesta estória as rãs suam). Mas era tudo tão devagarinho que a nossa amiga se foi deixando estar. Quando se deu conta das borbulhas escaldantes que subiam do fundo do tacho, só teve tempo de dizer com os seus botões «estou feita» e encomendar a alma ao criador.

15/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: dizer que um não serve, não faz do outro um candidato conveniente

Andava há uns dias a ruminar um post sobre as ilusões acerca do doutor Cavaco Silva, que alguns liberais de diferentes inclinações, escrevendo em diferentes mídia, parecem alimentar para se consolarem da falta de um candidato genuinamente liberal - vá lá, deixemos cair o liberal, ao menos genuinamente adverso ao colectivismo, com alguns pergaminhos demonstrados na contenção da vaca marsupial pública, e na limitação do seu tratador, o nefasto estado napoleónico-estalinista.

Como tal criatura manifestamente não se descobre entre os candidatos, essas esperançosas e sofridas almas inventaram um. Não vou gastar o meu latim a demolir as suas infundadas esperanças porque o Causa Liberal já o fez aqui, melhor do que eu poderia fazê-lo. Só acrescento que tudo indica que as convicções profundas do doutor Cavaco foram, são e serão as dum adepto do estado social, por muito que o seu sentido pragmático o faça declarar que temos que viver com a globalização. Temos, porque não há outro remédio. O doutor Cavaco é um keynesiano stricto sensu que vê no estado um instrumento privilegiado da política económica. Ele percebe que temos que viver com os mercados, porque não há outro remédio. Ele não vê um estado mínimo a regular as «imperfeições» do mercado. Ele vê o mercado a limitar os «excessos» do «monstro», usando as suas palavras.

Há ainda uma outra ilusão numa outra banda do espectro político. É no centro-direita não liberal que imagina o doutor Cavaco como o seu factótum que irá usar os mesmos expedientes do doutor Sampaio para dissolver o parlamento e para dar lugar a uma nova maioria, uma AD reconstruída, que aprovaria uma revisão constitucional, crisálida a partir da qual a lagarta do regime actual se transformaria na borboleta dum salvífico regime presidencial. Creio que estão profundamente enganados. E é nessa minha convicção, aliás, que reside o essencial das razões para não termos outro remédio senão pôr a cruzinha no nome do doutor Cavaco. Citando o falecido doutor Cunhal, vamos ter que engolir o sapo e é tudo. Não se faça disso uma expiação, mas não se faça também uma comemoração.

14/11/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: SuperMário é um blogue de cromos

Secção Padre Anchieta
«Quando Soares ontem disse, no contexto de uma questão sobre a universidade de Coimbra, que era o «anti-Salazar», melhor teria sido dizer (ou era isso que estava nas entrelinhas) que era o «anti-Cavaco». Por um lado, porque esta construção da personagem de Cavaco - o anti-politicismo, o messianismo, a desconfiança perante os mecanismos essencialmente liberais de debate (no parlamento, no espaço público, etc.) - é na essência uma herança da memória de Salazar (cuja marca na nossa memória política não é propriamente pequena). Mas, por outro lado, Soares é, na circunstância presente, o anti-Cavaco no sentido em que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente.»
O parágrafo anterior faz parte de post levemente delirante do Ivan do SuperMário (blogue não oficial de apoio à candidatura de Mário Soares à reforma compulsiva).

Será preciso recordar que Salazar foi saudado pela esmagadora maioria dos que viveram a baderna republicana, entre 1910 e 1926, como um cirurgião que limpou a gangrena que corroía o tecido social e um contabilista que sabia fazer contas e pôs ordem no peditório das migalhas do orçamento? Que o fez impondo uma ditadura meio bafienta, não foi visto como um problema, pelo menos até ao fim da guerra, em 1945. Parecia mais um mal menor e necessário, comparado com o clima político-social que se vivia nessa altura na Europa continental, de Vilar Formoso até Vladivostoque. A oposição ao Botas limitava-se ao PC e a uma folclórica sucessão de conspirações falhadas em que a oposição republicana (a que, recorde-se, pertencia o doutor Soares) se embrulhava regularmente. O povo, esse, tratava da vidinha e via o Botas como um seguro contra devaneios, loucuras e assaltos à mesa do orçamento. O regime fassista mostrava contenção onde outros mostravam holocaustos e gulagues. E a coisa foi assim até ao início da guerra colonial. A partir daí e até à queda da cadeira e posterior passamento, o doutor Salazar foi de facto pouco apreciado pelas gerações que chegaram à idade da razão entre 1961 e 1968 e perceberam que iriam talvez morrer pela pátria do doutor Salazar, ainda que em quantidades relativamente moderadas face às que a baderna republicana tinha incompetentemente sacrificado na 1ª guerra - só na batalha de La Lys morreu o equivalente a mais de metade das baixas mortais na guerra colonial que durou 13 anos (7.000 e 12.000 respectivamente).

Para todos os que chegaram a idade da razão depois de 1974, o doutor Salazar, o Botas, é um cromo dinossáurico de que alguns dos cromos seus pais se queixavam nos intervalos de se queixarem do custo de vida que não lhes permitia comprar o ansiado plasma. Tudo por junto, deve haver uns 5% dos eleitores que se podem inflamar com as boutades do doutor Soares e mais 0,1% que se sentirão transportados pelos delírios do Ivan. Mesmo esta insignificância, no lugar do Ivan, eu não a consideraria como garantida, porque até a minha prima Violinda percebe que se há alguém «que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente» só pode ser o doutor Soares, que se vencesse as eleições seria o presidente de todos os situacionistas, 32 anos depois do almirante Tomás.

Por tudo isto, e ainda por outras imensas coisas que escreveria se tivesse pachorra e tempo, daqui manifesto a minha solidariedade com o doutor Soares, desejando-lhe uma tão longa vida quanto a que o meu pai já atingiu, junto com 5 bourbons para premiar a sua pertinácia nas receitas do costume. Para o Ivan reservo, também, votos duma tão longa vida quanto a minha (pelo menos) e dedico-lhe 5 sinceros chateaubriands.

Post (scriptum) de alembrança:
A secção Padre Anchieta está assim descrita no Glossário das Impertinências:

O padre José Anchieta, linguista e evangelizador de índios do Brasil, fez imensas coisas, inclusive este poema, que não interessa nada para o caso, mas que cai bem citar no blogue:
Vi-me agora num espelho
e comecei de dizer:
Corcós, toma bom conselho
Porque cedo hás de morrer.
Mas, com justamente ver
o beiço um pouco vermelho
Disse: fraco estás e velho
Mas pode ser que Deus quer
Que vivas, para conselho
O importante para esta secção é a lenda. Corria o ano de 1554, num certo dia, numa breve parada, após longa, acelerada e extenuante caminhada para Reritiba à frente dos Tupis que lhe carregavam as trouxas, o Padre Anchieta deu-se conta que os índios, sentados sobre as suas tralhas se recusavam a recomeçar. Perguntando-lhes o porquê, explicaram-se os Tupis, com grande soma de pachorra, que na rapidez da caminhada a alma lhes tinha ficado para trás e tinham precisão de esperar por ela.

13/11/2005

ESTÓRIAS E MORAIS: da justiça entrevada ao jornalismo emocional

Estória - o Supremo decide o ressarcimento no Além
Ao fim de 13 anos de laboriosas andanças para cima e para baixo nas diversas instâncias, o STJ condenou a Shell, que já não opera há anos em Portugal, a pagar uma indemnização de meio milhão de euros ao revendedor de Caldas das Taipas entretanto falecido - vítima de falta de pachorra?

Moral
A justiça pode não ser cega, mas é coxa.


Estória - «afectos reprimidos»
Numa escola de Gaia uma estória que envolve duas garotas, talvez lésbicas (ou «fufas» segundo as suas próprias palavras), derramou-se durante a semana pelos mídia infectados pelo pensamento politicamente correcto (PC) e relançou na ordem do dia a grande questão do século: para que servem as escolas? Esta questão fundacional, civilizacional e fracturante já ficou pendente no século passado desde que as equipas do PC aterraram no ministério da educação. Para não me alongar na lista cito apenas duas das mais ilustres luminárias: o engenheiro de almas Roberto Carneiro e a doutora em felicidades Ana Benavente.
«Afectos reprimidos» chamou-lhes a jornalista de causas do Expresso, doutora Susana Branco.

Moral
«Abunda a malícia, onde falta polícia» (ditado popular).


Estória - tudo o que pode cair, um dia cai
Os afectos reprimidos não foram a única estória que apaixonou os nossos jornalistas durante a semana. Também excitou a sua mente imaginativa a morte de 5 operários portugueses que preferiram ser explorados em Espanha numa auto-estrada em construção, a trabalhar em Portugal. Os jornalistas mais criativos viram aqui a mão negra da globalização (ou mundialização, como eles preferem dizer), os menos delirantes só conseguiram culpar a ganância do empreiteiro pela «falta de condições de segurança». Falta essa que, por uma coincidência misteriosa, não afectou 4 outros operários portugueses que usavam «cintos de segurança obrigatórios».

(No país onde caiem pontes construídas e em construção, ainda ninguém se lembrou de culpar a ganância dos empresários gauleses do bâtiment pela morte dos incontáveis portugueses que em Agosto tombavam (e tombam ainda, mas menos), aos magotes, nas estradas espanholas já construídas, a bordo de bagnoles que demandavam a pátria?)

Moral
«As pessoas passam a vida a confundir com notícias aquilo que lêem nos jornais» (A. J. Liebling).

12/11/2005

BLOGARIDADES: um voto contra o abdicacionismo

«Mas, entretanto, no Metro de Londres e a 7 de Julho, a Al Khaeda matou politicamente Mário Soares. O que então disse e depois repetiu, demonstram que Mário Soares se infantilizou para esconder a respeitabilidade que lhe devemos pelos seus oitenta anos de idade. Mário Soares já não tem a idade para ser esquerdista, um esquerdista irresponsável do género bloquista, porque lhe falta - lei da vida - a margem do tempo para ganhar experiência, maturidade e bom senso que, mais tarde, equilibre os desequilíbrios das “verduras”. ...

O que Mário Soares disse, e repetiu, sobre o terrorismo, é plenamente aceitável como opinião individual ou mesmo na qualidade de opinion maker. É espantoso e irresponsável mas é legítimo como opinião. Mas Soares colocou-se além das margens do sistema de defesa das democracias e, por isso, irrecuperável para desempenhar um papel institucional e, muito menos, voltar ao cargo de Supremo Magistrado da Nação.

O drama do terrorismo, pela sua eficácia e poder corruptor, obrigou a colocar-nos acima (se preferirem, ao lado) da divisão esquerda/direita. Porque, com a morte da civilização, também as ideologias e separações de visão social, iriam na enxurrada. Cedendo à Al Khaeda de que adiantaria ser-se de esquerda? Nada, penso eu. Neste sentido, vejo Soares como um candidato inútil para a esquerda. Por assim pensar, nunca terá o meu voto (agora, nem com a mão a tapar-lhe o retrato). Um voto apenas, mas um voto. Que será contra Mário Soares e o abdicacionismo que ele representaria, se se candidatasse
(Encontrado aqui, no Água Lisa (3), um blogue surpreendente)

11/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: sejamos equitativos

Se «lesões cutâneas superficiais na fronte e no pé direito» alegadamente causadas num jovem, que alegadamente incendiava carros, pela alegada intervenção de 2 polícias merecem a suspensão dos seus alegados autores e de mais 6 seus colegas alegados espectadores, poderemos dizer que a alegada destruição de propriedades privadas e públicas merece o quê? E a alegada co-autoria num alegado homicídio de um sexagenário perpetrado por alegados participantes nessa alegada destruição a propriedades privadas e públicas merece a guilhotina?

SERVIÇO PÚBLICO: todos fizeram o que lhes competia

Ontem, na votação do princípio da convergência de alguns regimes especiais de aposentação com o regime geral da Segurança Social, a esquerda nas suas diversas encadernações votou contra. Fez o que lhe competia. O PSD e o CDS-PP abstiveram-se, isto é votaram na esperança que a memória dos eleitores do partido do Estado (750.000 funcionários públicos, outros tantos cônjuges ou namorada(o)s, 3 milhões de reformados, etc.) lhes traga a benção dos seus votos quando chegar a altura.

Hoje, na votação na generalidade do orçamento, a esquerda nas suas diversas encadernações votou contra. Fez o que lhe competia. O PSD e o CDS-PP também. Votaram contra, isto é votaram a favor da confirmação da política despesista que o governo em que estiveram coligados foi incapaz de inverter.

SERVIÇO PÚBLICO: já não se trata de não fazer as coisas certas, trata-se de fazer as coisas erradas

O Público anunciava ao princípio da manhã de ontem que «o Millennium bcp propôs ao Governo a passagem da totalidade dos trabalhadores do banco para o regime geral da Segurança Social o que, a concretizar-se, implicará a transferência para a Segurança Social do fundo de pensões dos seus empregados, avaliado em quatro mil milhões de euros, o equivalente a 2,9 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2005».

No fim da manhã acrescentava que «o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, e o representante da comissão de trabalhadores do BCP, Bastos Torres, disseram hoje que desconhecem qualquer proposta do Millennium bcp para a transferência do fundo de pensões do banco privado para o regime geral da Segurança Social

À tarde citava a administração do BCP que «afirma que não apresentou nenhuma "proposta formal" para a passagem da totalidade dos seus trabalhadores para o regime geral da Segurança Social e a consequente transferência do fundo de pensões

Para perceber o que pode estar a passar-se não é preciso enveredar por teorias conspiratórias. Basta ligar o desconfiómetro e analisar os factos.

1.º facto - este chuto para a frente (já se verá porquê) da transferência de responsabilidades e dos correspondentes fundos para a Segurança Social já foi dado muitas vezes no passado recente, com destaque especial para o caso da CGD (ver o inventário pelo insurgente João);

2.º facto - esta eventual transferência dos fundos de pensões é altamente conveniente, agora e sobretudo no futuro, para o Millenium bcp que, tendo recorrido maciçamente à antecipação de reformas do pessoal dos bancos que comprou, ficou com o volume gigantesco de responsabilidades por pensões no regime de «benefícios definidos»;

3.º facto - isso obrigou e obrigará no futuro a dotar o fundo para compensar menos-valias durante as fases de bear market (veja-se o que se passou com os fundos de pensões ingleses que têm insuficiências de biliões de libras);

4.º facto - esta eventual transferência dos fundos de pensões do Millenium bcp é altamente conveniente para o governo actual, porque lhe permite minimizar o défice durante algum tempo;

5.º facto - essa transferência é altamente inconveniente para a sustentabilidade da Segurança Social pois faz entrar imediatamente 15 mil reformados com pensões muito superiores à média e aumenta as responsabilidades futuras pelas pensões de 12.400 activos que transitariam para o regime geral;

6.º facto - como a Segurança Social vive num sistema de pay as you go, os 4 mil milhões de euros irão financiar a despesa corrente com pensões, subsídios de desemprego, doença and so on e, talvez (um grande talvez), uma pequena parte fosse afectada ao fundo de estabilização da segurança social.

Em conclusão, numa operação destas todos ganham, excepto vocês, que são novos, os meus filhos e os meus netos. Na pior hipótese, eu por mim tanto me faz. Na melhor hipótese, pode ser que o estado napoleónico-estalinista me alivie a punção fiscal durante um ou dois anos.

Post scriptum: já não menciono o facto desta eventual transferência ser exactamente o contrário do que se está a fazer um pouco por todo o lado, e até na Europa Social, e, a bem dizer, até cá no burgo, com as tímidas reformas que visavam reforçar o 2.º e o 3.º pilar e não aumentar a insustentabilidade do 1.º pilar.

10/11/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: o político El Pibe visto um detractor

«O célebre Maradona tem-se apresentado ultimamente como defensor dos povos oprimidos. Ainda recentemente, quando o doido do Hugo Chávez disse que «se criássemos um clube dos países devedores seriamos mais fortes» (ou seja vamos lá ver se nos organizamos para não pagar as nossas dívidas) o não-menos-doido Maradona auto-proclamou-se paladino dos países devedores na cimeira de Mar del Plata.

Será porque ele próprio deve ao fisco italiano Eur 31.782.429 por não ter pago impostos entre 1985 e 1990?

Será porque se junta aos contestatários da globalização quando é ele próprio o produto mais acabado dessa mesma globalização?

Será porque só recebia cerca de US$ 10.000.000 por ano de patrocínio para representar essa vil marca que explora os pobres de todo o mundo vendendo-lhes Coca Cola?

Será ainda porque, quando magoado por outro jogador durante um jogo de futebol, pretendia que esse jogador lhe entregasse todo o salário até ao fim da recuperação?

Até o New York Times o apelidou de «a perfect latin american idiot» apoiando-se no título do livro «»Guia ao perfeito idiota sul-americano» escrito pelo filho de Mário Vargas Llosa e outros jornalistas!

Devia ter sabido retirar-se da cena mundial a tempo.

Lembra-me outra personalidade cá da praça que se recusa a aceitar que seu tempo foi outro.»

(AB, um amigo e um detractor compulsivo)

El Pibe é um exemplo de como um génio também pode ser um idiota. A outra personalidade é um exemplo de como ter muito passado não garante um grande presente e muito menos um grande futuro.

09/11/2005

BREIGUINQUE NIUZ: vai chamar pai a outro

«O Estado está a substituir mais de cinco mil pais na prestação de alimentos aos filhos menores. Segundo os últimos dados do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS), a que o DN teve acesso, desde Janeiro e até 31 de Outubro os processos do Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores (FGADM) custaram ao Estado 6,1 milhões de euros - ultrapassando já os 5,3 milhões gastos em 2004.» (DN)

08/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: não vou escrever sobre essas coisas

Não vou escrever sobre a iniquidade do multiculturalismo.

Não vou escrever sobre o silêncio de 9 dias de M. Chirac, que os mídia domésticos acharam mais curtos do que os 2 de Mr. Bush.

Não vou escrever sobre a pátria por excelência do modelo social europeu consumida e aterrorizada pelos motins mais violentos nas últimas décadas na Europa social.

Não vou escrever sobre o povo que Sarah Afonso, falando com a nora que lhe escreveu as memórias, contrapunha ao nosso, dizendo (cito de memória a ideia geral) que nós somos encantadores como pessoas e execráveis como povo, e os franceses são execráveis como pessoas e encantadores como povo.

Não vou comentar o que Sarah Afonso disse à nora, apesar de ter muito que se lhe diga.

Nem mesmo vou escrever sobre o enviesamento irremediável dos mídia, infiltrados pelo esquerdismo até à medula.

Não. Nada disso.

Vou apenas concluir, a propósito dos motins em França, que a maior manifestação de racismo vista em muito anos é da responsabilidade das diversas esquerdas e das suas câmaras de eco nos mídia. Tudo o que é escrito ou dito pela esquerda tem uma premissa: os magrebinos são inimputáveis. São um povo inferior, os magrebinos.

07/11/2005

SERVICE PUBLIQUE: Les uns et les autres

Uma das fotos seguintes é de Clichy-sous-Bois, um exemplo da segregação dos excluídos muçulmanos magrebinos, condenados a incendiar as cidades dos ricos. Outra é do bidonville de Champigny, um exemplo das condições d'accueil que o estado social francês deu nos anos 60 aos brancos cristãos portugueses, a quem foi concedido o privilégio de construir as cidades dos ricos que agora os excluídos muçulmanos magrebinos incendeiam. Adivinhe qual é qual.












(Fotos confiscadas daqui e daqui, ao Grande Loja, um blogue talvez neoliberal)

06/11/2005

CASE STUDY: a ciência de causas

aqui se tratou do jornalismo de causas, que, nas palavras Baptista-Bastos, é o jornalismo em que «não há factos. Os factos correspondem à visão do mediador, do repórter».

Existe o jornalismo de causas e existe a ciência de causas, em que também «não há factos». O seu mais conhecido pioneiro foi o cientista de causas Lysenko, também já aqui citado. Se Lysenko ainda fosse vivo ficaria orgulhoso dos seguidores e provavelmente surpreendido pela sua visão da ciência lhe ter sobrevivido e ser hoje bastante popular entre os climatologistas politicamente correctos.

Conferência de Lysenko sob o olhar atento de José Estaline

Vem isto a propósito dos vaga-lumes da ciência do politicamente correcto que brilharam na noite da nossa ignorância com a sua ciência das causas dos furacões. Entre os muitos sound bites debitados, um deles parecia um pouco mais aderente ao estado actual do conhecimento do sistema climático. Segundo esses vaga-lumes, verificar-se-ia nas últimas décadas um aumento do número dos furacões e isso seria causado pelo da temperatura superficial do mar, o que parecia condizer com os factos.

Talvez sim, ou talvez não. A equipa do doutor Webster (ver aqui o artigo publicado em 16-09 na Science, ou aqui uma interessante e acessível referência), trabalhando os dados das temperaturas medidas por satélite de 6 bacias oceânicas desde 1970 não encontrou nenhuma relação entre o aumento da temperatura superficial, verificado em todas as bacias salvo no Pacífico Sudoeste, e o número ou intensidade dos furacões, que só aumentou no Atlântico Norte. Não parece, portanto, possível sustentar cientificamente uma relação de causa-efeito, tanto mais que o segundo maior aumento do número e intensidade dos furacões se verificou na bacia Pacífico Sudoeste onde não se registou aumento da temperatura do mar.

05/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o padrinho Mário em Belém alimentou com patacas o polvo socialista no mar da china

Quem tem a memória curta e já esqueceu o que foi a trafulhice soarista de 10 anos apadrinhada em Macau, poderá refrescá-la em O Independente que continua a saga da semana passada. Desta vez com a ajuda do connaisseur Mateus. Lá estão as Emaudios, os Maxwell, os Melancias e os outros faxistas, os Costas, os Coelhos, os Vitorinos et allia.

04/11/2005

BLOGARIDADES: mais baixas em combate (anti-capitalista)

Por falar no Homem a dias, desaparecido em combate, tomei conhecimento que mais um blogue da esquerdalhada, baptizado de Blogue de Esquerda, anunciou simbolicamente o seu fim no dia de Todos-os-Santos e do aniversário do terremoto de 1755. É um fim anunciado, mas postcipado para o final do mês, para se aquietarem os abalos, as réplicas, a agitação do maremoto e todos os outros epifenómenos.

Mais por falta de tempo do que outra coisa, só o frequentava por via de links dos blogues que visito regularmente. Por ocasião da morte, alguns destes blogues escreveram umas palavras simpáticas, talvez sinceras, ou talvez com mais boa vontade do que sinceridade - «coitado, era boa pessoa», como se diz quando bate a bota um sujeito não temos em grande conta. Por mim, mesmo se quisesse ser simpático, e não quero, não teria matéria para grandes dissertações. Limito-me a comentar o post de despedida que tem o sugestivo título «GRAU NÃO SEI QUANTOS NA ESCALA DE RICHTER».

Um título assim, a propósito do anúncio de fecho do blogue, é na melhor hipótese é um bocado piroso e na pior um caso de megalomania. E é seguramente um bom exemplo do que distingue as meninges dum esquerdista da mente das outras criaturas. Lá está o incontornável «projecto». Lá estão as inevitáveis preocupações obsessivas pelos «equívocos ou interpretações distorcidas». Lá está a diferença dilacerante entre o «projecto» e o blogue «real». Lá está o apelo, muito sampaiano, à calma: «sem dramas, porque nada disto é trágico ou irreparável». Ó filhos sossegai. É só um blogue a menos. Nada de grave. A luta continua.

O Impertinências, apesar de não ser dos que «sistematicamente (os) vituperaram» (mais por falta de tempo e de paciência, do que por temperança, só os vitupero no encerramento), fica sensibilizado pelo «agradecimento por (ter) participado» «de forma cruel ― (naquele) projecto de comunicação in progress».

Por causa do «in progress», do «adeus eufórico» e do «não funeral» fica-me a angústia de saber se sim, se não, se os rapazes vão ressuscitar e reencarnar em mais um «projecto».

03/11/2005

BLOGARIDADES: desaparecido em combate

Deve haver qualquer coisa de errado com os meus links, na lista aqui à direita. Os blogues que lá moram têm uma mortalidade devastadora. É como se fossem atingidos pelo vírus dos frangos, avant la lettre, porque a maioria deles desapareceu ainda antes do H*+?#$.

Foi agora a vez do Homem a dias, que anuncia cripticamente o seu passamento. Começou por ser a dias, depois a semanas, por último a meses, mas para mim nunca deixou de ser um blogue de todos dias.

Obrigado e votos que reencarne sem demora.

02/11/2005

CASE STUDY: o estado robin dos bosques, versão anacleta

Encavalitados num naipe de autoridades que vão desde o economista de causas Eugénio Rosa até Raymond Barre (que foi citado só para compor o ramalhete), passando por Fisher e Rolph, os bloquistas deram à luz o projecto de lei pomposamente baptizado «Imposto de Solidariedade sobre as Grandes Fortunas».

Não vou discutir a bondade teórica dos impostos sobre a riqueza contra os impostos sobre os rendimentos. Uns e outros são meios que estado napoleónico-estalinista usa para extorquir dinheiro aos cidadãos com os mais diversos pretextos. A escolha de uns ou de outros releva mais de considerações de eficiência fiscal, do que de equidade ou mesmo de eficiência económica. Mas um imposto sobre as grandes (ou as médias ou as pequenas) fortunas é, em si mesmo, uma iniquidade assente na discriminação dos «ricos» - é o estado robin dos bosques, versão anacleta.

E quem são os «ricos»? Segundo os bloquistas, serão aqueles «cuja fortuna seja superior a 2500 salários mínimos nacionais», isto é 963.750 euros. A «fortuna» versão anacleta abrange os valores mobiliários e imobiliários, meios de transporte e todos os bens e valores que não sejam expressamente excluídos. O projecto considera explicitamente como fazendo parte da «fortuna»:
  • os planos poupança-reforma (quaisquer outra aplicações em fundos de pensões privados ficarão abrangidas pelos «valores mobiliários»)
  • os «créditos de toda a natureza» (o que em tese poderia incluir os direitos às pensões futuras).
Por um lapso, talvez freudiano, os bloquistas isentam «os valores das pensões de reforma» - quando o que está em causa é o stock de riqueza, escrevem que não incluem nele um fluxo de rendimento. É uma contradição de princípio, que uma mente esquerdista, congenitamente conspiratória, poderia explicar pelo facto de qualquer bloquista funcionário público, reformado aos 60 anos, com um vencimento de 10 vezes o valor do salário mínimo (374,70 euros), com uma esperança de vida de 20 anos, terá uma pensão cujo valor actual a preços constantes seria considerado «grande fortuna».

Releia-se, a propósito, este meu post, escrito por ocasião duma fornada de 1.000 novos «aposentados e reformados», utentes das tetas da vaca marsupial pública.

01/11/2005

CASE STUDY: o exílio interior do esquerdismo (2)

Neste post do Causa Liberal questionam-se os fundamentos da legitimidade do processo de acusação de Lewis "Scooter" Libby e Karl Rove por alegada divulgação a jornalistas do nome dum agente da CIA. A novela é bastante confusa e complexa (uma das jornalistas envolvidas esteve vários meses presa por se recusar a divulgar as fontes, mas parece estar a contar uma estória pouca verosímil). Não tenho nem tempo para a perceber a estória, quanto mais contá-la (uma versão pode ser lida aqui).

O meu propósito é bem mais simples: perscrutar a mente dos esquerdistas. Numa outra encarnação devo ter sido psiquiatra e ficou-me este gosto por perseguir a anormalidade nas meninges dessas criaturas. Por falar disso, quem o faz notavelmente é o Jon Ray no seu Dissecting Leftism.

aqui exemplifiquei o síndroma do exílio interior da esquerdalhada. O objecto da minha actual perscrutação desse exílio são as criaturas que produzem o blogue Daily Kos a cujos excitados leitores The Economist se referiu nos seguintes termos:
«Readers of the Daily Kos, a left-wing blog, are so excited about the fact that Patrick Fitzgerald is about to wrap up his two-year inquiry into the Bush administration's alleged outing of a CIA agent, Valerie Plame, that they are swapping tips on how to keep calm. Give up the coffee; resist the urge to check the Drudge report every minute; and when what they call "Fitzmas" finally comes, enjoy the moment, take a deep breath, and witness a great wrong being righted.»
Um dos autores do Daily Kos cita aquela passagem de The Economist e confirma aqui a excitação: «I'll get a little thrill of pleasure to see Karl Rove in handcuffs, resigned, and disgraced.» Mais um exemplo do que é o ódio o combustível que alimenta a mente da esquerdalhada.