A propósito de um dos muitos dislates do presidente Marcelo questionando-se sobre «a obrigação do Estado intervir na situação de emergência da comunicação social», escrevi que a incapacidade de uma parte dos mídia responderem aos novos desafios da emergência do digital e das redes sociais, incapacidade a que chamam crise da comunicação social, tem a mesma lógica dos carroceiros do início do século passado chamarem crise dos transportes à emergência do automóvel.
Luís Cabral, professor da universidade de Nova Iorque, que escreve regularmente uma da meia dúzia de peças a que se poderia limitar a edição pletórica de quase 200 páginas do Expresso, tirou-me mais uma vez as palavras da boca:
«Há alguns meses, António Costa dizia que “um dos maiores problemas do país é a péssima qualidade da nossa informação”. Uma perspectiva diferente: o facto de o primeiro-ministro não gostar dos jornalistas é provavelmente sinal de que estão fazendo um bom trabalho.
Por outras palavras, tal como as grandes editoras de música confundiram o fim do mundo com o fim do seu mundo, é possível que Marcelo esteja confundindo a crise do jornalismo com a crise dos jornais. (...)
O que me preocupa mais é o modus operandi do regime em que os governos tentam (e por vezes conseguem) ameaçar e influenciar as redacções. O que me preocupa mais é o fluxo de promissores jornalistas que se ‘vendem’ aos salários mais altos no Governo. O que me preocupa mais, enfim, é a promiscuidade entre políticos e comentadores políticos, uma ‘roda giratória’ que abafa por completo os famosos lóbis americanos.
É neste contexto que devemos analisar a pergunta do Presidente: “A grande interrogação que eu tenho formulado a mim mesmo é a seguinte: até que ponto o Estado não tem a obrigação de intervir?” Pelo que escrevi nos parágrafos anteriores, penso que a resposta é clara: a obrigação do Estado é justamente não intervir. Neste aspecto, o que se pede ao Governo não é que faça mais, é que faça menos.
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
09/12/2018
DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (68) - A baba literal ainda vai. A outra é indesculpável
Outras preces
«Não há outra maneira de dizer isto: junto do presidente chinês, o prof. Marcelo babou-se. Não falo da baba literal, que proporcionou um pitoresco momento televisivo e, no fundo, não significa nada. O problema é a baba figurada, ou a subserviência com que o principal representante do estado português recebe um ditador, aliás adequada à própria subserviência do país ao dinheiro da ditadura em questão. Da anexação provisória do Ritz e do trânsito lisboeta à tomada definitiva da EDP, do BCP e etc., é natural notar-se quem manda e quem obedece. Mas o prof. Marcelo escusava de tornar a diferença de estatuto tão evidente. Uma coisa é a diplomacia, outra são os sorrisos escancarados, e os salamaleques tão prolongados que arriscam hérnias discais. Prolongados e recorrentes. Agora foi a China. Antes, fora Angola. E, antes ainda, a peregrinação a Cuba para a bênção de São Fidel, que diplomacia nenhuma justifica. Pelo meio, ficaram os “avisos” contra Bolsonaro e as graçolas a Trump. Assim de repente, fica a ideia de que o prof. Marcelo só antipatiza com estadistas eleitos. Nisso compreendo-o: alguns são de facto embaraçosos.»
Alberto Gonçalves no Observador
«Não há outra maneira de dizer isto: junto do presidente chinês, o prof. Marcelo babou-se. Não falo da baba literal, que proporcionou um pitoresco momento televisivo e, no fundo, não significa nada. O problema é a baba figurada, ou a subserviência com que o principal representante do estado português recebe um ditador, aliás adequada à própria subserviência do país ao dinheiro da ditadura em questão. Da anexação provisória do Ritz e do trânsito lisboeta à tomada definitiva da EDP, do BCP e etc., é natural notar-se quem manda e quem obedece. Mas o prof. Marcelo escusava de tornar a diferença de estatuto tão evidente. Uma coisa é a diplomacia, outra são os sorrisos escancarados, e os salamaleques tão prolongados que arriscam hérnias discais. Prolongados e recorrentes. Agora foi a China. Antes, fora Angola. E, antes ainda, a peregrinação a Cuba para a bênção de São Fidel, que diplomacia nenhuma justifica. Pelo meio, ficaram os “avisos” contra Bolsonaro e as graçolas a Trump. Assim de repente, fica a ideia de que o prof. Marcelo só antipatiza com estadistas eleitos. Nisso compreendo-o: alguns são de facto embaraçosos.»
Alberto Gonçalves no Observador
08/12/2018
O newspeak da PETA
Segundo o seu programa (versão de 1986, três anos antes da queda do muro de Berlim e do colapso da União Soviética), «o objetivo final do PCUS é construir o comunismo em nosso país (...) O comunismo é um sistema social sem classes, com uma forma de propriedade pública dos meios de produção e com plena igualdade social de todos os membros da sociedade. Sob o comunismo, o desenvolvimento integral das pessoas será acompanhado pelo crescimento das forças produtivas com base no progresso contínuo em ciência e tecnologia, todas as fontes da riqueza social fluirão abundantemente, e o grande princípio "De cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com suas necessidades "será implementada. O comunismo é uma sociedade altamente organizada de trabalhadores livres e socialmente conscientes, uma sociedade em que se estabelecerá o autogoverno público, uma sociedade em que o trabalho pelo bem da sociedade se tornará o principal requisito vital de todos, uma necessidade claramente reconhecida.»
Tudo boas intenções que qualquer criatura ou pelo menos muitas criaturas de bem adoptariam sem problemas. Hoje, passados 30 anos do colapso da União Soviética e depois de 20 milhões de mortos só à conta de Estaline, todos podemos saber o que se passou durante sete décadas entre 1917 e 1989 e como terminou.
George Orwell no seu romance distópico 1984, publicado em 1949 e inspirado na União Soviética onde a manipulação da língua foi levada bastante longe, incluiu o seguinte diálogo a propósito da construção do newspeak, a nova língua que estava a ser criada na Oceania:
«Como está o dicionário?" disse Winston, levantando a voz para superar o barulho. "Lentamente", disse Syme. 'Eu estou nos adjectivos. É fascinante.' (...)
"A décima primeira edição é a edição definitiva", disse ele. 'Estamos a colocar a língua na sua forma final - a forma que terá quando ninguém falar mais nada. Quando terminarmos, pessoas como você terão que aprender tudo de novo. Você pensa, ouso dizer, que nosso principal trabalho é inventar novas palavras. Mas não é nada disso! Estamos destruindo palavras - dezenas delas, centenas delas, todos os dias. Estamos cortando a língua até o osso. A décima primeira edição não conterá uma única palavra que se torne obsoleta antes do ano de 2050. ' »
Segundo a sua auto-proclamada missão, a PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), «concentra a sua atenção nas quatro áreas em que os maiores números de animais sofrem mais intensamente por períodos mais longos: em laboratórios, na indústria alimentícia, no comércio de vestuário e na indústria do entretenimento.» Com esse propósito, «a PETA trabalha com educação pública, investigações de crueldade, pesquisa, resgate de animais, legislação, eventos especiais, envolvimento de celebridades e campanhas de protesto.»
Tudo boas intenções que qualquer criatura de bem adoptaria sem problemas. Para melhor atingir os seus propósitos, a PETA ainda não está a criar uma nova língua mas já está a criar a sua Anti-Speciesist Language». Por exemplo, em vez de «matar dois coelhos com uma só cajadada» a PETA pretende que se diga «alimentar dois coelhos com uma só cenoura» - ver outros exemplos aqui.
Não estou a sugerir que a PETA nos pretende internar num Gulag, estou a inferir que todas as doutrinas totalitárias de pensamento único pretendem educar o povo ignaro usando a linguagem para manipular o pensamento.
Tudo boas intenções que qualquer criatura ou pelo menos muitas criaturas de bem adoptariam sem problemas. Hoje, passados 30 anos do colapso da União Soviética e depois de 20 milhões de mortos só à conta de Estaline, todos podemos saber o que se passou durante sete décadas entre 1917 e 1989 e como terminou.
George Orwell no seu romance distópico 1984, publicado em 1949 e inspirado na União Soviética onde a manipulação da língua foi levada bastante longe, incluiu o seguinte diálogo a propósito da construção do newspeak, a nova língua que estava a ser criada na Oceania:
«Como está o dicionário?" disse Winston, levantando a voz para superar o barulho. "Lentamente", disse Syme. 'Eu estou nos adjectivos. É fascinante.' (...)
"A décima primeira edição é a edição definitiva", disse ele. 'Estamos a colocar a língua na sua forma final - a forma que terá quando ninguém falar mais nada. Quando terminarmos, pessoas como você terão que aprender tudo de novo. Você pensa, ouso dizer, que nosso principal trabalho é inventar novas palavras. Mas não é nada disso! Estamos destruindo palavras - dezenas delas, centenas delas, todos os dias. Estamos cortando a língua até o osso. A décima primeira edição não conterá uma única palavra que se torne obsoleta antes do ano de 2050. ' »
Segundo a sua auto-proclamada missão, a PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), «concentra a sua atenção nas quatro áreas em que os maiores números de animais sofrem mais intensamente por períodos mais longos: em laboratórios, na indústria alimentícia, no comércio de vestuário e na indústria do entretenimento.» Com esse propósito, «a PETA trabalha com educação pública, investigações de crueldade, pesquisa, resgate de animais, legislação, eventos especiais, envolvimento de celebridades e campanhas de protesto.»
Tudo boas intenções que qualquer criatura de bem adoptaria sem problemas. Para melhor atingir os seus propósitos, a PETA ainda não está a criar uma nova língua mas já está a criar a sua Anti-Speciesist Language». Por exemplo, em vez de «matar dois coelhos com uma só cajadada» a PETA pretende que se diga «alimentar dois coelhos com uma só cenoura» - ver outros exemplos aqui.
Não estou a sugerir que a PETA nos pretende internar num Gulag, estou a inferir que todas as doutrinas totalitárias de pensamento único pretendem educar o povo ignaro usando a linguagem para manipular o pensamento.
07/12/2018
Lost in translation (313) - "Portugal é muito bom a gastar dinheiro", disse ela
«Portugal é muito bom a gastar dinheiro» disse a romena Corina Crețu, a Comissária Europeia para as Políticas Regionais, durante a conclusão do exercício de reprogramação do Portugal 2020, explicando que «Portugal foi o primeiro país que visitei porque foi o único que usou o dinheiro todo um ano antes do deadline».
Antes disso já Pedro Marques, o ministro do Planeamento, tinha demonstrado o seu orgulho por Portugal ter liderado em 2016 o ranking da União Europeia na execução dos fundos comunitários, ou seja no gastar dinheiro dos contribuintes europeus.
A plateia que assistia ao evento riu-se às gargalhadas. Sem razão, porque o que Corina Crețu disse, mais do que ter piada, é um motivo de grande orgulho para Portugal e um exemplo para os outros países.
Bem haja Corina por desta vez nos ter dispensado de sermos nós a constatar que os portugueses estão no topo do mundo. Dirão os detractores, sempre críticos e insatisfeitos, que seria preferível sermos bons a ganhar dinheiro. Pois talvez fosse, mas não se pode ser bom em tudo, não é verdade?
Antes disso já Pedro Marques, o ministro do Planeamento, tinha demonstrado o seu orgulho por Portugal ter liderado em 2016 o ranking da União Europeia na execução dos fundos comunitários, ou seja no gastar dinheiro dos contribuintes europeus.
A plateia que assistia ao evento riu-se às gargalhadas. Sem razão, porque o que Corina Crețu disse, mais do que ter piada, é um motivo de grande orgulho para Portugal e um exemplo para os outros países.
Bem haja Corina por desta vez nos ter dispensado de sermos nós a constatar que os portugueses estão no topo do mundo. Dirão os detractores, sempre críticos e insatisfeitos, que seria preferível sermos bons a ganhar dinheiro. Pois talvez fosse, mas não se pode ser bom em tudo, não é verdade?
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (5)
Uma sequela de (1), (2), (3) e (4)
Já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes deste ano foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy.
Já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes deste ano foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy.
No relatório sobre «Impacto Económico da Web Summit 2016-2028» do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia publicado há dias são feitas várias estimativas sobre o impacto económico e fiscal do evento até 2028. No diagrama seguinte representa-se três cenários dos impactos sobre o valor bruto da produção.
O cenário mais realista (C) está próximo das minhas especulações a olho por cento e é uma coisa, digamos, no domínio do discutível, mas fazível. Outra coisa, mais no domínio do pensamento mágico é o cenário A. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência.
A meio caminho entre o pensamento mágico e o insulto estão as estimativas dos efeitos totais no emprego equivalente anual que no cenário A vão desde quase 2 mil em 2016 a quase 4.700 em 2028. Basta pensar que, num evento que dura três dias, se o envolvimento médio do emprego criado pelo evento for 15 dias de trabalho, os 4.700 empregos em equivalente anual estimados para 2028 corresponderiam a quase 70 mil empregos temporários, ou seja quase 1 trabalhador por cada 1,5 participantes.
06/12/2018
A "contra-reforma" da Eurozona
Na segunda-feira o nosso Ronaldo das Finanças na sua encarnação de presidente da Eurozona anunciou ufano «At the end of a near 19h long meeting, the #Eurogroup reached a breakthrough on the backstop to bank resolution, @ESM_Press role and precautionary tools and EZ budget».
A coisa por cá foi até anunciada como «Reforma da Zona Euro». Afinal, em que consiste a reforma ou, vá lá, o breakthrough?
Segundo a edição europeia do Politico, tratou-se de «The eurozone’s counterreformation», assim descrita em síntese:
«The finance ministers went into the meeting in Brussels on Monday after marking the 20th anniversary of the euro in a jovial photo-op. But by the time they re-emerged some 18 hours later with bags under their eyes, they had managed only to grab what eurozone diplomats had long billed as “the low-hanging fruit” in the shape of the eurozone’s bailout fund, known as the European Stability Mechanism (ESM), which will serve as the financial backstop to the EU’s authority for handling failing banks.»
A coisa por cá foi até anunciada como «Reforma da Zona Euro». Afinal, em que consiste a reforma ou, vá lá, o breakthrough?
Segundo a edição europeia do Politico, tratou-se de «The eurozone’s counterreformation», assim descrita em síntese:
«The finance ministers went into the meeting in Brussels on Monday after marking the 20th anniversary of the euro in a jovial photo-op. But by the time they re-emerged some 18 hours later with bags under their eyes, they had managed only to grab what eurozone diplomats had long billed as “the low-hanging fruit” in the shape of the eurozone’s bailout fund, known as the European Stability Mechanism (ESM), which will serve as the financial backstop to the EU’s authority for handling failing banks.»
05/12/2018
ESTADO DE SÍTIO: Onde é que já vimos isto?
«Sábado passado, Paris ficou a saber em pormenor da agenda dos amarelos (com alguns vermelhos e negros misturados). A verdade é que entre 47 milhões de eleitores, os “gillets jaunes” reuniram no máximo 300.000 cidadãos no sábado 17 de Novembro. E apenas 3.000 em Paris no último sábado. Como era inevitável o movimento passou a ter um “programa” que passa pelas assembleias cidadãs (onde é que eu já ouvi isto?), pela dissolução da Assembleia Nacional e pela renúncia de Macron. Ambos eleitos há pouco mais de um ano, recorde-se.
Como os bloqueios começaram a ganhar anti-corpos (as televisões não puderam esconder a cólera dos que queriam entrar nos centros comerciais e ficaram bloqueados, para não falar dos comerciantes que viram as lojas esvaziadas e destruídas), os amarelos decidiram aterrorizar os deputados do partido de Macron, vandalizando as suas casas com insultos nas paredes, vexames públicos e ameaças ao livre trânsito entre outras medidas “democráticas”. Trata-se de um exemplo clássico das práticas totalitárias que estes vanguardismos justiceiros frequentemente adoptam. Contudo, supor-se-ia que tais atitudes seriam condenadas pelos deputados dos outros partidos. Mas não. A oposição, corajosamente, calou-se.
Está pois aberto o caminho para uma daquelas irrupções, esta sim verdadeiramente populista, que têm marcado a história francesa . Esta “jacquerie” não surpreende. Os “jacobinos”, os “poujadistas”, os “cagoulards” regressaram com coletes amarelos. Estes epifenómenos, a pretexto do direito à indignação, são na sua raiz anti-democráticos.
Ainda que alimentados por preocupações sensíveis (o aumento do custo de vida), combatem a democracia representativa em troca de uma versão de “democracia popular” que, quando não se transforma em criminalidade desorganizada (como vimos em Paris), é apenas a expressão de uma minoria que se julga esclarecida. Não nos iludamos. A luz dos coletes reflectores é sombria!»
Coletes amarelos: reflexos sombrios, Ricardo Leite Pinto no Negócios
Como os bloqueios começaram a ganhar anti-corpos (as televisões não puderam esconder a cólera dos que queriam entrar nos centros comerciais e ficaram bloqueados, para não falar dos comerciantes que viram as lojas esvaziadas e destruídas), os amarelos decidiram aterrorizar os deputados do partido de Macron, vandalizando as suas casas com insultos nas paredes, vexames públicos e ameaças ao livre trânsito entre outras medidas “democráticas”. Trata-se de um exemplo clássico das práticas totalitárias que estes vanguardismos justiceiros frequentemente adoptam. Contudo, supor-se-ia que tais atitudes seriam condenadas pelos deputados dos outros partidos. Mas não. A oposição, corajosamente, calou-se.
Está pois aberto o caminho para uma daquelas irrupções, esta sim verdadeiramente populista, que têm marcado a história francesa . Esta “jacquerie” não surpreende. Os “jacobinos”, os “poujadistas”, os “cagoulards” regressaram com coletes amarelos. Estes epifenómenos, a pretexto do direito à indignação, são na sua raiz anti-democráticos.
Ainda que alimentados por preocupações sensíveis (o aumento do custo de vida), combatem a democracia representativa em troca de uma versão de “democracia popular” que, quando não se transforma em criminalidade desorganizada (como vimos em Paris), é apenas a expressão de uma minoria que se julga esclarecida. Não nos iludamos. A luz dos coletes reflectores é sombria!»
Coletes amarelos: reflexos sombrios, Ricardo Leite Pinto no Negócios
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a memória dos povos é curta,
esquerdalhada,
exception française
A defesa dos centros de decisão nacional (27) - Na iminência de um grande salto em frente
[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14), (15), (16), (17), (18), (19), (20), (21), (22), (23), (24), (25) e (26)]
Recordemos, uma vez mais, os inúmeros manifestos pela defesa dos centros de decisão nacional, alguns deles assinados por empresários que passado algum tempo venderam a estrangeiros as suas empresas e as inúmeras declarações no mesmo sentido da esquerdalhada em geral. Recordemos também que esta necessidade de vender o país aos retalhos surge pelo endividamento gigantesco de públicos e privados e pela consequente descapitalização da economia portuguesa, consequência de décadas a viver acima das posses.
Com a visita em curso do presidente vitalício da República Popular da China Xi Jinping podemos estar à beira de um grande salto em frente (Dà yuèjìn). O presidente Marcelo com o seu talento para as declarações gongóricas vai mais longe e declara ao canal de televisão chinês internacional CGTN que a «Nova Rota da Seda» ou «Uma Faixa, Uma Rota» «podia atravessar Portugal, entrando num dos nossos principais portos».
Por agora, o camarada presidente Xi está mais inclinado para ser pragmático, o que traduzido em português corrente deve querer dizer aproveitar a inclinação portuguesa para o trespasse dos activos que ainda nos restam.
Quem não tem dúvidas sobre o caminho da Nova Rota da Seda atravessar a jangada de pedra é o presidente do Fórum Luso-Asiático que fala entusiasmado dos «portos de Leixões e Sines (que) podem ser alternativas interessantes», da «privatização total ou parcial da CP», de «investimentos tripartidos (...) não só em África, como também na América Latina». Tudo isto, acrescenta, «coloca problemas políticos delicados à União Europeia (sobretudo) num quadro de reemergência do poder russo e da aproximação entre Xi e Putin».
E, acrescento eu, coloca problemas de controlo de activos estratégicos por um poder autocrático de uma potência em expansão agressiva, adversária da aliança a que Portugal pertence, o que é não coisa que se resolva com os afectos do Ti Célinho e as vacas voadoras de Costa.
Recordemos, uma vez mais, os inúmeros manifestos pela defesa dos centros de decisão nacional, alguns deles assinados por empresários que passado algum tempo venderam a estrangeiros as suas empresas e as inúmeras declarações no mesmo sentido da esquerdalhada em geral. Recordemos também que esta necessidade de vender o país aos retalhos surge pelo endividamento gigantesco de públicos e privados e pela consequente descapitalização da economia portuguesa, consequência de décadas a viver acima das posses.
Com a visita em curso do presidente vitalício da República Popular da China Xi Jinping podemos estar à beira de um grande salto em frente (Dà yuèjìn). O presidente Marcelo com o seu talento para as declarações gongóricas vai mais longe e declara ao canal de televisão chinês internacional CGTN que a «Nova Rota da Seda» ou «Uma Faixa, Uma Rota» «podia atravessar Portugal, entrando num dos nossos principais portos».
Por agora, o camarada presidente Xi está mais inclinado para ser pragmático, o que traduzido em português corrente deve querer dizer aproveitar a inclinação portuguesa para o trespasse dos activos que ainda nos restam.
Quem não tem dúvidas sobre o caminho da Nova Rota da Seda atravessar a jangada de pedra é o presidente do Fórum Luso-Asiático que fala entusiasmado dos «portos de Leixões e Sines (que) podem ser alternativas interessantes», da «privatização total ou parcial da CP», de «investimentos tripartidos (...) não só em África, como também na América Latina». Tudo isto, acrescenta, «coloca problemas políticos delicados à União Europeia (sobretudo) num quadro de reemergência do poder russo e da aproximação entre Xi e Putin».
E, acrescento eu, coloca problemas de controlo de activos estratégicos por um poder autocrático de uma potência em expansão agressiva, adversária da aliança a que Portugal pertence, o que é não coisa que se resolva com os afectos do Ti Célinho e as vacas voadoras de Costa.
04/12/2018
Uma espécie de doutrina Somoza simétrica
Na sua coluna habitual do Expresso Diário o ex-comunista, ex-Plataforma de Esquerda, ex-Política XXI, ex-bloquista, ex-Livre, ex-Tempo de Avançar e jornalista de causas / militante / comentador / analista Daniel Oliveira escreveu no contexto [X]:
«A tentativa de circunscrever [Y] a um movimento de extrema-direita não é inocente. [A] quer manter todos os democratas como reféns: ou ele ou [B].»Adivinhe qual o contexto [X], o evento [Y] e os nomes [A] e [B] a que Oliveira se refere:
[X] = eleições no Brasil / eleições nos Estados Unidos / manifestações em França
[Y] = o apoio a Bolsonaro / a vitória de Trump / a contestação dos coletes amarelos
[A] = Fernando Haddad / Hillary Clinton / Emmanuel Macron
[B] = Jair Bolsonaro / Donald Trump / Marine Le Pen.
Se em poucas palavras a doutrina Somoza consiste em considerar «he may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch», a doutrina Somoza simétrica consistirá em considerar «ele não é nosso filho, por isso ele é um filho da puta».
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ESTÓRIA E MORAL: From startup to finish down
Estória
«Foi considerada “Startup do Ano” pela Microsoft Portugal em 2017, mas em 2018 fechou — falida, praticamente sem vendas e sem produto e a dever perto de 1 milhão de euros a 32 credores.»
Como tudo começou:
«Quando os quatro amigos se juntaram em 2014 para lançar a CoolFarm, a ideia era criarem uma app que conseguisse controlar plantas à distância, através de um toque no telemóvel. Mas, depois de terem participado no programa de aceleração de startups da Beta-i, o Lisbon Challenge, em 2015, alteraram o modelo de negócio: em vez de desenvolverem uma solução direcionada ao consumidor final, optaram por direcioná-la às empresas e transformaram a app num sistema de controlo — igualmente à distância — para estufas.»
Como tudo acabou:
«... a 20 de setembro de 2018, uma “inesperada redução” do incentivo europeu que a empresa “tinha a legítima expectativa de receber” precipitou o fim: “por ordem do IAPMEI” foi creditada na conta bancária da CoolFarm 18.923,40 euros oriundos do programa Portugal2020, ao invés dos 402 mil euros que a startup “esperava receber”. “Esta inesperada redução do incentivo veio tornar inviável o plano de reestruturação da empresa”, argumentam os fundadores.»
[Observador]
Moral
Tal como «o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros», os negócios inviáveis duram até acabar o dinheiro dos subsídios.
«Foi considerada “Startup do Ano” pela Microsoft Portugal em 2017, mas em 2018 fechou — falida, praticamente sem vendas e sem produto e a dever perto de 1 milhão de euros a 32 credores.»
Como tudo começou:
«Quando os quatro amigos se juntaram em 2014 para lançar a CoolFarm, a ideia era criarem uma app que conseguisse controlar plantas à distância, através de um toque no telemóvel. Mas, depois de terem participado no programa de aceleração de startups da Beta-i, o Lisbon Challenge, em 2015, alteraram o modelo de negócio: em vez de desenvolverem uma solução direcionada ao consumidor final, optaram por direcioná-la às empresas e transformaram a app num sistema de controlo — igualmente à distância — para estufas.»
Como tudo acabou:
«... a 20 de setembro de 2018, uma “inesperada redução” do incentivo europeu que a empresa “tinha a legítima expectativa de receber” precipitou o fim: “por ordem do IAPMEI” foi creditada na conta bancária da CoolFarm 18.923,40 euros oriundos do programa Portugal2020, ao invés dos 402 mil euros que a startup “esperava receber”. “Esta inesperada redução do incentivo veio tornar inviável o plano de reestruturação da empresa”, argumentam os fundadores.»
[Observador]
Moral
Tal como «o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros», os negócios inviáveis duram até acabar o dinheiro dos subsídios.
03/12/2018
SERVIÇO PÚBLICO: «Apoio do Estado aos jornais? Não, obrigado»
«Os jornais, os meios de comunicação social em geral, devem valer por si, pela sua qualidade, e devem depender, em primeiro lugar, dos acionistas privados que investem o seu capital, da qualidade do seu jornalismo, dos seus leitores e das receitas, sejam de subscrição, seja de publicidade nas suas várias formas, que daí resultam. E arrisco dizer o seguinte: Há muitos anos que a comunicação social portuguesa não tinha o pluralismo e as alternativas que tem hoje, mais opções para os leitores, e em muitos casos mesmo melhor jornalismo do que o que se fazia.»
António Costa (o jornalista, não o político, claro) no Eco
António Costa (o jornalista, não o político, claro) no Eco
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eu diria mesmo mais
Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (164)
Outras avarias da geringonça e do país.
Esclarecimento: nestas crónicas não se pretende anunciar uma recessão da economia portuguesa que é coisa que não carece de ser anunciada - sabe-se de ciência certa que acabará por chegar. Nestas crónicas vai-se constatando que, graças à falta de reformas, à engorda do Estado Sucial para alojar a freguesia eleitoral e à incúria do governo socialista de Costa, Portugal não está preparado para enfrentar a próxima recessão de onde um quarto resgate é uma consequência possível e, pior de tudo, está mal preparado para crescer sustentadamente no futuro.
É sabido que não foi este governo em concreto que mandou a Caixa emprestar 280 milhões a Joe Berardo para ele comprar em 2007 acções do BCP, abrindo caminho ao controlo pelo governo socialista de Sócrates que colocou no BCP os seus homens de mão: Santos Ferreira e Armando Vara, entre outros. Empréstimo irrecuperável garantido com as próprias acções do BCP que hoje valem uma fracção do que valiam nessa época. Por coincidência, nos dois governos de José Sócrates encontraram-se membros do actual governo, como Costa, Santos Silva e Vieira da Silva, para só citar ministros.
Esclarecimento: nestas crónicas não se pretende anunciar uma recessão da economia portuguesa que é coisa que não carece de ser anunciada - sabe-se de ciência certa que acabará por chegar. Nestas crónicas vai-se constatando que, graças à falta de reformas, à engorda do Estado Sucial para alojar a freguesia eleitoral e à incúria do governo socialista de Costa, Portugal não está preparado para enfrentar a próxima recessão de onde um quarto resgate é uma consequência possível e, pior de tudo, está mal preparado para crescer sustentadamente no futuro.É sabido que não foi este governo em concreto que mandou a Caixa emprestar 280 milhões a Joe Berardo para ele comprar em 2007 acções do BCP, abrindo caminho ao controlo pelo governo socialista de Sócrates que colocou no BCP os seus homens de mão: Santos Ferreira e Armando Vara, entre outros. Empréstimo irrecuperável garantido com as próprias acções do BCP que hoje valem uma fracção do que valiam nessa época. Por coincidência, nos dois governos de José Sócrates encontraram-se membros do actual governo, como Costa, Santos Silva e Vieira da Silva, para só citar ministros.
02/12/2018
DIÁRIO DE BORDO: Pensamento do dia
«Hoje entende-se que educar é violar a liberdade do ignorante.»
Jorge Calado na sua coluna semanal A Tabela Periódica na Revista do Expresso
Jorge Calado na sua coluna semanal A Tabela Periódica na Revista do Expresso
Um Rio cada vez mais parecido com um socialista
Pelo seu ideário, Rui Rio sempre se confundiu com um socialista tresmalhado. Distinguia-se dos socialistas vulgares de Lineu, que costumam ter muito jogo de cintura no que chamam ética republicana, quase só pela sua ética agressivamente declarada.
Até aqui o próprio Rio só fora salpicado por nomeações de gente duvidosa, mas ontem o Expresso noticiou que «uma troca de mensagens entre juristas da Câmara do Porto e um consultor externo da autarquia, a 14 de julho de 2009, indicia que Rui Rio deu luz verde para construir na escarpa da Arrábida (contrariando uma decisão do seu executivo com sete anos) como contrapartida para encerrar de vez os processos judiciais de empresas que tinham sido expropriadas de direitos de construção no Parque da Cidade.»
A confirmar-se, Rui Rio passa a outro patamar e confunde-se sem remissão com um socialista encartado.
01/12/2018
DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (67) - Dando ao trivial as honras de assuntos de Estado e aos assuntos de Estado a importância das trivialidades
Outras preces
Há uma diferença entre o transporte por carroças e o jornalismo? Na verdade as carroças não são indispensáveis à democracia mas a democracia não vive sem jornalismo livre e independente. É também por isso que a nossa é uma democracia asmática porque o jornalismo que temos dificilmente se pode classificar como livre e independente e padece frequentemente dos mesmos males que os jornalistas de causas apontam às redes sociais.
É raro o dia em que não tenha razões para me felicitar por não ter votado no candidato Marcelo Rebelo de Sousa (engoliria o sapo na segunda volta, como os comunistas a quem Cunhal mandou votar em Soares). Esta semana não foi excepção. Dos vários episódios, vou citar apenas dois.
O primeiro é típico da verborreia marcelista e da sua imanente incapacidade de ter uma «pose de Estado», para usar uma expressão ridícula, e de conter a sua obsessão de se mostra conhecedor e influente. Qual o propósito de comentar uma suposta «gravação mas que lhe tinham dito que era violenta e horrorosa», que circula «a nível de Estados» e «ninguém em Portugal teve acesso ao vídeo ou o viu» sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, gravação de que lhe falou «um político importante»? Depois de quase dois anos ainda não percebeu a diferença entre ser comentador topa-a-tudo e fazer de presidente da República?
O segundo episódio ilustra a dificuldade de Marcelo distinguir a relevância das coisas dando ao trivial as honras de assuntos de Estado e aos assuntos de Estado a importância das trivialidades. Foi isso que fez a propósito da incapacidade de uma parte dos mídia responderem aos novos desafios da emergência do digital e das redes sociais, incapacidade a que chamam crise da comunicação social, com a mesma lógica com que os carroceiros do início do século passado chamariam crise dos transportes à emergência do automóvel.
Sua Excelência a esse propósito declarou que existe uma «situação de emergência da comunicação social em Portugal (que) de, ano para ano, vai sendo cada vez mais grave (e está) a criar problemas já democráticos, problemas de regime», interrogando-se «até que ponto o Estado não tem a obrigação de intervir?» Só faltou recomendar ao governo socialista de Costa que pagasse com o dinheiro dos contribuintes os jornais que estes não compram. Sugestão que Costa aceitaria de bom grado e teria a virtualidade de converter a totalidade dos mídia, e não apenas uma parte importante, em caixa de ressonância do governo.
Há uma diferença entre o transporte por carroças e o jornalismo? Na verdade as carroças não são indispensáveis à democracia mas a democracia não vive sem jornalismo livre e independente. É também por isso que a nossa é uma democracia asmática porque o jornalismo que temos dificilmente se pode classificar como livre e independente e padece frequentemente dos mesmos males que os jornalistas de causas apontam às redes sociais.
CASE STUDY: Um imenso Portugal (49) - Exortação de uma jornalista brasileira aos jornalistas que ficaram encalhados no anti-fascismo de fancaria
«O bolsonarismo e a nova direita fizeram 52 deputados federais e emergiram com uma força imprevista, mas ainda não os conhecemos muito bem e nem entendemos a dinâmica entre eles.
Há algumas explicações para esse “branco” que atingiu as redações brasileiras. Não discordo que os jornalistas sejam um contingente predominantemente de esquerda ou de centro, e não descarto que a ideologia possa ter minado a cobertura das eleições. É verdade também que o jornalismo tem sido progressivamente contaminado pelo ambiente polarizado das redes sociais e vem transformando opinião em commodity – fazendo parecer necessário todo mundo dar opinião sobre tudo, e gerando uma confusão entre o espaço da opinião e o da informação. Mas, para mim, a principal razão para explicar o que se passou na cobertura das eleições tem a ver com o caráter disruptivo da candidatura Bolsonaro. Nas últimas duas décadas, o jornalismo nacional se acostumou a transitar no ambiente da social-democracia. O jornalismo político mainstream é um integrante ativo do sistema político, e subestimou as chances de vitória de Bolsonaro da mesma forma que todo o sistema. Depois de tantos anos vendo os sociais-democratas petistas e tucanos se alternarem no poder, os jornalistas passaram a se comportar como se o “sistema” fosse invencível, e nem mesmo a onda direitista que vem varrendo algumas partes do mundo nos fez duvidar dessa premissa. Pela mesma razão, subestimamos as redes sociais como arena política, e deixamos de cobri-la como tal. O fato é que Bolsonaro não pode mais ser encarado como esdrúxulo e absurdo. Ele é a nova realidade do poder e assim tem de ser compreendido. (...)
Creio que aí temos um norte. Há um mundo a desbravar, que vem se movimentando há tempos sem que tivéssemos nos dado ao trabalho de investigá-lo com rigor e abrangência. Há uma nova ordem política emergindo, por força das urnas, e o jornalismo não pode mais perder tempo se escandalizando com ele. Que a esquerda esteja perdida ou em crise de identidade é compreensível e natural. Mas o jornalismo profissional não tem (ou não deveria ter) nada a ver com isso. O trabalho diante de nós é gigantesco, e tem de começar com uma reflexão sobre os vacilos, os pré-julgamentos, os erros e a (auto)complacência que turvaram a nossa visão nos últimos tempos. Só assim poderemos aprender com o que aconteceu e não mais deixar a história desfilar na nossa frente como se fosse um vídeo bizarro do YouTube.»
Excerto de Hora de acordar - Um caminho para cobrir o governo Bolsonaro, um lúcido artigo da jornalista Malu Gaspar no piauí da Folha de S. Paulo
Há algumas explicações para esse “branco” que atingiu as redações brasileiras. Não discordo que os jornalistas sejam um contingente predominantemente de esquerda ou de centro, e não descarto que a ideologia possa ter minado a cobertura das eleições. É verdade também que o jornalismo tem sido progressivamente contaminado pelo ambiente polarizado das redes sociais e vem transformando opinião em commodity – fazendo parecer necessário todo mundo dar opinião sobre tudo, e gerando uma confusão entre o espaço da opinião e o da informação. Mas, para mim, a principal razão para explicar o que se passou na cobertura das eleições tem a ver com o caráter disruptivo da candidatura Bolsonaro. Nas últimas duas décadas, o jornalismo nacional se acostumou a transitar no ambiente da social-democracia. O jornalismo político mainstream é um integrante ativo do sistema político, e subestimou as chances de vitória de Bolsonaro da mesma forma que todo o sistema. Depois de tantos anos vendo os sociais-democratas petistas e tucanos se alternarem no poder, os jornalistas passaram a se comportar como se o “sistema” fosse invencível, e nem mesmo a onda direitista que vem varrendo algumas partes do mundo nos fez duvidar dessa premissa. Pela mesma razão, subestimamos as redes sociais como arena política, e deixamos de cobri-la como tal. O fato é que Bolsonaro não pode mais ser encarado como esdrúxulo e absurdo. Ele é a nova realidade do poder e assim tem de ser compreendido. (...)
Creio que aí temos um norte. Há um mundo a desbravar, que vem se movimentando há tempos sem que tivéssemos nos dado ao trabalho de investigá-lo com rigor e abrangência. Há uma nova ordem política emergindo, por força das urnas, e o jornalismo não pode mais perder tempo se escandalizando com ele. Que a esquerda esteja perdida ou em crise de identidade é compreensível e natural. Mas o jornalismo profissional não tem (ou não deveria ter) nada a ver com isso. O trabalho diante de nós é gigantesco, e tem de começar com uma reflexão sobre os vacilos, os pré-julgamentos, os erros e a (auto)complacência que turvaram a nossa visão nos últimos tempos. Só assim poderemos aprender com o que aconteceu e não mais deixar a história desfilar na nossa frente como se fosse um vídeo bizarro do YouTube.»
Excerto de Hora de acordar - Um caminho para cobrir o governo Bolsonaro, um lúcido artigo da jornalista Malu Gaspar no piauí da Folha de S. Paulo
30/11/2018
Pagar para salvar os bancos? Olhe que não doutora, olhe que não!
Num vídeo da colecção «2:59 PARA EXPLICAR O MUNDO» que o Expresso nos oferece na sua edição diária, a jornalista Isabel Vicente diz-nos que «Há dez anos que cada português anda a dar 15 euros por mês para salvar bancos».
Talvez seja certo que cada português anda há dez anos a dar 15 euros por mês ao Estado Sucial para este injectar nos bancos. Porém, falta dizer o mais importante, a saber: que quase todo esse dinheiro se tornou necessário injectar nos bancos devido às imparidades resultantes do crédito malparado e que boa parte desse malparado resultou de elefantes brancos do regime, de empréstimos a figuras de cera do regime, nalguns casos para pagar manobras de governos socialistas (como a compra do BCP financiada pelo crédito da Caixa).
Lost in translation (312) - O que quererá o acólito de Sócrates e de Costa significar com «o nosso próximo Brasil»?
«Santos Silva: “Temos de olhar para Angola como se fosse o nosso próximo Brasil”» (JE)
O que significará isto vindo de uma criatura que foi duas vezes ministro de José Sócrates cujo consolado foi marcado por uma aproximação ao Brasil pêtista de Lula, de Dilma, do Lava Jato, do Quadrilhão do PT? Aproximação que o socialismo socrático fez em aliança com os Espírito Santo, da qual resultou, entre outras coisas, a venda aos espanhóis da Telefónica da Vivo do Brasil (uma operadora que gerava a maior parte dos lucros da PT), a compra da Oi (um buraco gigantesco, actualmente uma participada da Pharol) e a desnatação da PT por Ricardo Salgado para manter a flutuar o GES.
Veja-se a este respeito a etiqueta Vivo por Oi e recorde-se a propósito o lema de estimação do (Im)pertinências:
Os cidadãos deste país não devem ter memória curta e deixar branquear as responsabilidades destas elites merdosas que nos têm desgovernado e pretendem ressuscitar purificadas das suas asneiras, incompetências e cobardias.
29/11/2018
TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A esquerdalhada tem o monopólio do protesto e da oposição
«Dir-se-á: mas se o PCP e o Bloco diminuíram a intensidade dos protestos, porque é que a direita não ocupou o seu lugar? A resposta é simples: porque não o sabe fazer, nem tem estruturas para isso. Existe uma rotina de protesto que foi constituída e alimentada durante 40 anos de democracia. Os sindicatos têm milhares de funcionários cujo trabalho não é outro senão esse, e os meios de comunicação social têm formas de trabalhar que são sempre iguais: directo à porta do protesto, conversa previamente combinada com o sindicalista de serviço, números de adesão estratosféricos, jornalistas a debitar a cassete do trabalhador oprimido, discussão do tema nos canais por cabo à noite, e por aí fora. Esta coreografia está altamente rotinada e não é nada fácil de quebrar. Se a esquerda não dança, a comunicação social fica sem par – e a direita não conhece os passos. Esta foi a grande fragilidade de PSD e CDS nos últimos três anos. Ao mostrarem-se incapazes de ocupar o espaço que PCP e Bloco deixaram ao abandono, a direita ficou não só sem governo, mas também sem oposição.»
Excerto de O monopólio do protesto e a xanaxização do país, João Miguel Tavares no Público
Excerto de O monopólio do protesto e a xanaxização do país, João Miguel Tavares no Público
Dúvidas (243) - Terão as criptomoedas futuro?
Por várias razões que não vem agora ao caso, sou da opinião que as criptomoedas não sendo moedas não terão futuro como moedas, como diria o Senhor de La Palice (se ele tivesse dito o que se diz que disse, mas não disse).
Pelos vistos, Vítor Constâncio, várias vezes ministro, governador do BdP e de seguida secretário-geral do PS (estranho não é? estamos em Portugal, não esqueça) e, até há pouco tempo, o nosso homem em Frankfurt no BCE, é também da mesma opinião: Criptomoedas «não são moeda coisa nenhuma» disse numa conferência no ISEG onde foi assistente e hoje é professor convidado.
E foi aí que as minhas certezas quanto às criptomoedas se transformaram em dúvidas ao recordar que em 23 de Fevereiro de 2000, Vítor Constâncio na tomada de posse como Governador do BdeP, também garantia «...Sem moeda própria não voltaremos a ter problemas de balança de pagamentos iguais aos do passado. Não existe um problema monetário macroeconómico e não há que tomar medidas restritivas por causa da balança de pagamentos. Ninguém analisa a dimensão macro da balança externa do Mississipi ou de qualquer outra região de uma grande união monetária...».
Enfim, todos ainda devemos estar recordados da bancarrota a que nos conduziu Sócrates, de quem Constâncio foi ministro anexo, que também acreditava nos milagres da moeda própria e governou o país como se fosse o estado do Mississipi.
Pelos vistos, Vítor Constâncio, várias vezes ministro, governador do BdP e de seguida secretário-geral do PS (estranho não é? estamos em Portugal, não esqueça) e, até há pouco tempo, o nosso homem em Frankfurt no BCE, é também da mesma opinião: Criptomoedas «não são moeda coisa nenhuma» disse numa conferência no ISEG onde foi assistente e hoje é professor convidado.
E foi aí que as minhas certezas quanto às criptomoedas se transformaram em dúvidas ao recordar que em 23 de Fevereiro de 2000, Vítor Constâncio na tomada de posse como Governador do BdeP, também garantia «...Sem moeda própria não voltaremos a ter problemas de balança de pagamentos iguais aos do passado. Não existe um problema monetário macroeconómico e não há que tomar medidas restritivas por causa da balança de pagamentos. Ninguém analisa a dimensão macro da balança externa do Mississipi ou de qualquer outra região de uma grande união monetária...».
Enfim, todos ainda devemos estar recordados da bancarrota a que nos conduziu Sócrates, de quem Constâncio foi ministro anexo, que também acreditava nos milagres da moeda própria e governou o país como se fosse o estado do Mississipi.
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