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25/02/2014

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (5)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014].

Vai para 4 anos iniciou-se no (Im)pertinências a saga da desmistificação desta fábula. Na continuação, justificada com as últimas indignações sobre a política de ciência e tecnologia e, mais concretamente, com as movimentações das corporações directamente afectadas pelos cortes dos subsídios, vou citar o artigo do professor Avelino de Jesus, ontem publicado, que, com rigor e contenção, contrastando com a histeria e a manipulação, deita por terra o agitprop lobista e confirma as conclusões da saga impertinente.

«Nas últimas semanas temos assistido a uma notável proliferação de pronunciamentos de personalidades acerca da política de ciência e tecnologia, quase todas fortemente críticas mas também assaz superficiais e meramente reaccionárias à mudança.

Seria útil elevar o debate, procurando fundamentos empíricos para a análise.

Uma primeira aproximação obriga a tomar, à partida, os dados básicos sobre a produtividade e a organização dos recursos do sistema de I&D. Por economia de espaço, proponho na tabela anexa seis indicadores, dos quais três de produtividade e três de organização dos recursos.

A ideia dominante, mas não demonstrada da excelência da política científica e tecnológica dos últimos 20 anos - que parece justificar a reacção à mudança - deve ser confrontado com estes indicadores.

Sobre os recursos não se pode deixar de destacar os seguintes factos:

- Temos um número de investigador elevado, de crescimento; muito recente e rápido.

- A totalidade dos recursos humanos na I&D cresceu 155% entre 2005 e 2011. O segmento central, os investigadores, aumentou naquele período 170%.

- Os investigadores representavam, em 2005, 0,74% do emprego total do país, mas em 2012 já eram 2,1%. Na Europa naquele ano só a Finlândia nos superava com 2,3%.

- Os recursos foram mal alocados, com um excesso de investigadores para os recursos financeiros e por pessoal auxiliar da investigação a eles afectos.

- Para manter o actual número de investigadores com a atribuição de recursos médios necessários para uma eficácia normal do sistema, deveríamos mais do que triplicar os recursos financeiros e o número do pessoal auxiliar da investigação.

- Em resumo: um corpo de investigador numeroso, mas mal pago, desenquadrado, desinserido do mundo económico e sem meios materiais e humanos de apoio adequados ao processo de investigação socialmente útil.

Acerca da produtividade do sistema notamos:

- Baixa produtividade, qualquer que seja o indicador relevante que se considere.

- Comparando com a média da Europa, temos: menos de 1/5 do número de patentes por bilião de euros de despesa em I&D, representando o mais baixo valor de todos os países; cerca de 1/20 do número de patentes por 1.000 investigadores; menos de 1/10 do número de patentes por milhão de habitantes.

- Há uma informação não sistematizada na tabela, mas que deve ser aqui referida: as exportações de produtos de alta tecnologia representavam em 2012 apenas 3,2% das exportações; este valor, em quebra acentuada desde 2007, é o mais baixo da Europa (média de 15,6%). Em valor absoluto a quebra destas exportações foi de 43%: passou de €2,6 biliões em 2007 para €1,5 biliões em 2012.

Os recursos que a sociedade põe à disposição dos sistemas de I&D deverão gerar retorno para a mesma sociedade pelo menos nos termos médios observáveis entre os nossos parceiros europeus. Quando tal não acontece durante um período suficiente para se tirarem conclusões - como é manifestamente o caso português - é não só legítimo, mas mesmo exigível a alteração do rumo da política científica


«A produtividade do aparelho de I&D», Avelino de Jesus, Economista e professor do ISEG, no Jornal de Negócios

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