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20/02/2014

A maldição da tabuada (17) – A teoria dos números do emprego só tem números imaginários

A estória está toda contada em vários posts do (Im)pertinências. Começou com o XVII Governo de José Sócrates (para não recuar mais no tempo) cujo programa anunciava a recuperação de 150 mil postos de trabalho perdidos e o governo terminou com mais 150 mil desempregados. Afastou-se do seu próprio objectivo uns módicos 300 mil postos de trabalho ou -200%.

Passados alguns anos, Passos Coelho, cujo programa de governo não continha objectivos de criação de empregos, por razões compreensíveis, visto que até um cego veria que da execução do PAEF começaria por resultar inevitavelmente desemprego, lembrou-se de referir na mensagem de Natal de 2013 que teriam sido criados até ao 3.º trimestre 120 mil novos postos de trabalho.

O erro grosseiro/manipulação grosseira (cortar conforme o gosto) era tão óbvio que até o economista-filósofo político João Galamba lhe descobriu a careca em menos de 2 meses – um grande progresso em relação ao programa do XVII Governo que até hoje Galamba não teve tempo de desmontar. Constata-se, assim, que a criação de emprego se limitou a uns módicos 30 mil em vez dos 120 mil, ou seja um desvio de -90 mil ou -75%. É mau? Bastante, mas ainda assim um progresso face à aritmética socrática.

Porém, pior do que isso é que 30 mil empregos criados no total resultaram da criação de 100,7 mil empregos (1.058,4 mil – 957,7 mil) em 3 secções do CAE (letras O, P e Q, ver quadro neste post) em que só existem funcionários públicos (secção O) ou são claramente a grandíssima maioria (secções P e Q). Dito de outro modo, se foram criados 100 mil empregos nestas secções é porque foram perdidos 70 mil nas restantes onde quase só existem trabalhadores dos sectores privados.

O pior de tudo é que, se foram criados 100 mil empregos naquelas secções, então umas largas dezenas de milhar de funcionários públicos foram acrescentados ao stock. Assim chegamos ao seguinte trilema (será o trilema de Žižek?):
  • As estatísticas do INE estão erradas (serão estatísticas de causas?); 
  • As estatísticas estão certas e a oposição está errada ao criticar o governo por destruir o estado social; 
  • As estatísticas e a oposição estão certas e o governo está errado porque não sabe a tabuada e está a fazer crescer aquilo que pretenderia minguar.

Percebe-se agora a razão por que aqui no (Im)pertinências temos dificuldades em acompanhar os excitados desejos do Dr. Portas e as exaltadas exigências do Dr. Tozé Seguro para fazermos à troika o que os conspiradores patrióticos fizeram ao Miguel de Vasconcelos e Brito no Terreiro do Paço em 1640?

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