[Continuação deste tiro]
Quatro edições até agora do «Caim», não está nada mal para um «trolha semianalfabeto», um «Zé Ninguém» ou um «homenzinho da Golegã». Saramago pode ser, e é, um mau carácter. Saramago pode ter ficado encalhado no tempo das democracias populares de Estaline. Saramago pode ser tudo isto, o que não restam dúvidas é que administra magistralmente a promoção da sua obra. Com a ajuda da sua ex-freira comunista? Talvez. Anda assim mostra que sabe escolher o seu pessoal.
Acima de tudo, Saramago conseguiu o feito extraordinário de transformar os seus detractores em idiotas úteis, para usar o rótulo que era costume dar-se aos ingénuos que ajudavam a causa comunista, e que neste caso são os cínicos que ajudam a causa de Saramago, colocando-se ao serviço da promoção da sua obra.
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
31/10/2009
E não poderíamos ter ficado por aqui?
Decreto do Presidente da República n.º 100-A/2009. DR 207 SÉRIE I, 1º SUPLEMENTO de 2009-10-26
Presidência da República
Exonera do cargo de Primeiro-Ministro o Eng.º José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.
Presidência da República
Exonera do cargo de Primeiro-Ministro o Eng.º José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.
30/10/2009
Massajando o ego nacional
Insultados pela menina Maitê, vítimas da perseguição da Moody’s, com Figo retirado, Cristiano Ronaldo lesionado, precisamos urgentemente de um herói. Enquanto os suecos não atribuem um Nobel a Vasco Pulido Valente, que tal Mark Teixeira? Um rapaz de 29 anos, cheio de talento, assinou um contrato com os Yankees de 180 milhões de dólares por 8 anos. É neto de um português que votou com os pés e foi para a Guiana e posteriormente emigrou para os EU. Apesar de ter nascido no Maryland, Mark Teixeira ganha a vida de cócoras, o que lhe confere um estatuto de legítima nacionalidade.
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Ridendo castigat mores
29/10/2009
ESTADO DE SÍTIO: a pesada herança que este governo recebeu do anterior
A agência Moody’s comunicou hoje a alteração do outlook do rating actual Aa2 de Portugal de estável para negativo, baseado nos «desafios económicos estruturais que o país enfrenta … e a aparente falta de motivação dos decisores políticos para os enfrentarem», acrescentando que Portugal «caminhará para uma muito grave dinâmica de endividamento».
«Falta de motivação dos decisores políticos para os enfrentarem»? Fará a Moody’s parte das forças de bloqueio do governo Sócrates Second Release?
«Falta de motivação dos decisores políticos para os enfrentarem»? Fará a Moody’s parte das forças de bloqueio do governo Sócrates Second Release?
Não será demasiado fumo para não haver incêndios para aquelas bandas?
Num país em que o governo tem o papel que tem, com toda a gente preocupada com o emprego e os riscos de desagradar aos poderes fácticos, a divulgação pública nos últimos anos duma multidão de trapalhadas e de suspeitas à volta de José Sócrates e dos seus amigos não quererá dizer nada? Em particular, a PJ no âmbito da operação «Face Oculta» (belo nome) ter feito buscas em cada de Armando Vara, amigo do peito do querido líder, é uma informação irrelevante ainda para mais tornada pública no Diário Económico?
Devemos continuar debitar a divulgação das trapalhadas e das suspeitas na conta da cabala? Ou, por um mero juízo de probabilidade, estará na altura de inverter o ónus de prova político?
Devemos continuar debitar a divulgação das trapalhadas e das suspeitas na conta da cabala? Ou, por um mero juízo de probabilidade, estará na altura de inverter o ónus de prova político?
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E agora José?
DIÁRIO DE BORDO: atirando no próprio pé
Só ontem tive oportunidade de ler o artigo «Uma farsa» de Vasco Pulido Valente sobre as «patetices» bíblicas de José Saramago. VPV passa ao lado da bola e vai directo às canelas de JS, para usar uma linguagem que seria detestada pela pesporrência que ambos partilham. VPV usa a argumentação preconceituosa e enfatuada do doutorado que esmaga com a sua superioridade intelectual as ideias do «trolha ou tipógrafo semianalfabeto» a quem coube na lotaria sueca um Nobel, «como vários camaradas». É uma argumentação a la Saramago, que poderia dizer de VPV que um filho-família da média burguesia privilegiada, levado ao colo desde o berço, coisa que provavelmente se lhe aplica, não tem autoridade moral para discutir com ele, que fez a vida a pulso. Ou que VPV é um idiota, coisa que provavelmente não se lhe aplica, porque quando fala na TV não consegue articular decentemente um pensamento.
VPV desceu à altura de JS. Ficaram equivalentes.
Declaração de desinteresse:
Não concordo com as ideias, não gosto da pessoa de Saramago e não tenho especial apreço pela sua obra. VPV como pessoa é-me indiferente, estou por vezes de acordo com as suas ideias e leio-o geralmente com agrado (desligo o som quando balbucia na TV).
VPV desceu à altura de JS. Ficaram equivalentes.
Declaração de desinteresse:
Não concordo com as ideias, não gosto da pessoa de Saramago e não tenho especial apreço pela sua obra. VPV como pessoa é-me indiferente, estou por vezes de acordo com as suas ideias e leio-o geralmente com agrado (desligo o som quando balbucia na TV).
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artigo defunto,
pela boca morre o peixe
28/10/2009
Mil estações florescerão
Menezes quer uma estação TGV em Gaia? E Rio? Não quer uma em S. Bento? E o presidente da câmara de Aveiro? E o de Coimbra? E, já agora, o da Figueira da Foz? E o do Entroncamento? E o de Santarém? E o de Loures não quer uma em Alverca?
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Lunatismo
O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: é apenas um pouco exagerado
S alazar
O utrora
C aído
R egressa
A gora
T ransformado
E m
S ocialista
[Enviado por JARF]
O utrora
C aído
R egressa
A gora
T ransformado
E m
S ocialista
[Enviado por JARF]
Pensamentos do dia – dois em um
«O Vasco Pulido Valente diz, e bem, que é difícil explicar a mediocridade aos medíocres, e eu acrescento que é igualmente difícil explicar a falta de ar a quem está habituado a respirar tóxicos»
(JPP no Abrupto)
27/10/2009
CASE STUDY: tudo o que sobe, um dia desce…
E se sobe muito, desce muito. E não foi na pátria do capitalismo selvagem onde subiu mais. Foi na Europa Social, bem regulada, bem comportada.
Fonte: McKinsey Quarterly, Chart Focus Newsletter October 2009
Fonte: McKinsey Quarterly, Chart Focus Newsletter October 2009
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Desfazendo ideias feitas,
Óropa
26/10/2009
O governo do Equador adopta a medicina prescrita pelo bastonário dos economistas portugueses
«O Governo português jamais permitirá que a Galp Energia seja controlada por interesses estrangeiros e, se a italiana ENI quiser assumir o controlo, não o conseguirá», garantiu o bastonário dos economistas presidente do Conselho de Administração da Galp.
«O Governo do Equador rejeitou a proposta da Cimpor para comprar uma fábrica no país … (que) será adquirida pelo Ministério das Indústrias, o qual irá vender até 49% das acções da empresa a comunidades indígenas e a trabalhadores.»
Irá o governo brasileiro seguir os conselhos do presidente da Galp e retirar a Vivo do controlo da PT ou impedir a Galp de ser parceira da Petrobras no pré-sal?
«O Governo do Equador rejeitou a proposta da Cimpor para comprar uma fábrica no país … (que) será adquirida pelo Ministério das Indústrias, o qual irá vender até 49% das acções da empresa a comunidades indígenas e a trabalhadores.»
Irá o governo brasileiro seguir os conselhos do presidente da Galp e retirar a Vivo do controlo da PT ou impedir a Galp de ser parceira da Petrobras no pré-sal?
LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: a bela e a ciência lúgubre
Uma ciência que Thomas Carlyle baptizou de dismal science, adjectivo merecido porque de facto só trata de coisas lúgubres, que muitos nem consideram ciência, praticada por oráculos que não conseguem prever nem mesmo o dia seguinte, não parece muito atractiva para mulheres. Chegado aqui e como defesa preventiva do ataque politicamente correcto, acrescento: os factos demonstram-no, a economia tem sido pouco atractiva para as mulheres.
(*) Conselho Alemão de Peritos Económicos. Curvai-vos, ó machos lobomotizados que nem sequer conseguiríeis pronunciar tal nome.
Porém, as coisas estão a mudar. Nem é preciso citar ao primeiro Nobel da Economia, atribuído a Elinor Ostrom pelos seus trabalhos sobre governação das empresas e a utilização dos comuns. Nada disso, estava a pensar em Beatrice Weder di Mauro, professora de economia internacional da Universidade Gutenberg, membro do Sachverständigenrat zur Begutachtung der gesamtwirtschaftlichen Entwicklung (*), possuidora de um intelecto no percentil 99 (na escala masculina) e com este agradável aspecto.
Beatrice Weder passou pela primeira vez no radar do (Im)pertinências quando a Economist a convidou a escrever e publicou um seu interessante artigo com um título insólito («The dog that didn't bark»), em que descreve uma espécie de síndroma de Estocolmo de que sofrem os reguladores financeiros locais face aos operadores financeiros que supervisionam, causado por um sistema errado de incentivos a começar pelo facto das próprias instituições de regulação não terem geralmente em risco o seu capital porque não gerem os fundos de garantia de depósitos. O remédio que preconiza (a criação de reguladores supranacionais) é bastante discutível e de duvidosos efeitos, mas vale a pena ler o seu diagnóstico das fragilidades da regulação nacional.
(*) Conselho Alemão de Peritos Económicos. Curvai-vos, ó machos lobomotizados que nem sequer conseguiríeis pronunciar tal nome.
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até vi estrelas,
Iguais mas diferentes
25/10/2009
CASE STUDY: quem é o deus ex machina da Ongoing? (7)
[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e 6)]
Com a publicação ontem do artigo «A insidiosa maneira de enriquecer», sequela ela própria insidiosa do «Seremos todos parvos, senhores?», Nicolau Santos passa o conflito para um novo patamar recorrendo ao arsenal de dirty weaponry. Por essa razão, este post poderia tema também enquadrar-se na área «Artigo defunto» do (Im)pertinências, onde se exumam cadáveres que apodrecem em páginas de jornais infestados pelo jornalismo de causas e pelo jornalismo de opiniões. Cadáveres alinhavados umas vezes por falta de vergonha, outras por incompetência.
Nesse artigo, sem nunca chamar os nomes aos bois, expõe-se o processo de criação da Ongoing alavancando uma hipoteca para obter empréstimos garantidos com as acções posteriormente compradas (PT e Impresa, presume-se), empréstimos directamente autorizados, insinua-se, pelo chefe dos Espíritos. Para olear toda esta maquinaria, sempre segundo Nicolau Santos, a Ongoing usa a sucursal da multinacional Heidrick & Struggles, onde Nuno Vasconcelos e o seu sócio Rafael Mora pontificam, para prestar serviços de gestão de carreira, corporate governance, etc. às empresas participadas da Ongoing e usar a «capacidade persuasão junto dos principais quadros dessas empresas» para influenciar decisões e (mais) compra de serviços. A cereja no topo do bolo, segundo Nicolau Santos, será a utilização dos meios de comunicação social «para justificar a sua estratégia e utilizá-los como arma de arremesso … e apoiar o governo de plantão (o que) é um bom cartão de visita para negócios onde o Estado tem influência».
Tudo isto parece suficientemente verosímil e é bom que seja exposto para mitigar a crescente asma da democracia portuguesa. A forma como é escrita a peça de artilharia não é uma honra para o jornalismo profissional.
NOTAS:
As hostilidades visíveis começaram com o artigo «Seremos todos parvos, senhores?» de Nicolau Santos no Expresso (citado aqui), onde se expunha o deus ex machina da Ongoing, que afinal não é deus, é apenas o Espírito Santo que respondeu pela boca do Diário Económico por duas vezes. Primeiro, insinuando que a Impresa também teria um deus ex machina (o BPI) e depois expondo a dependência que as receitas dos canais temáticos da SIC têm da PT, cujos maiores accionistas são, recorde-se os Espíritos e a Ongoing, isto é os Espíritos. Para bom entendedor meia palavra é suficiente.
Com a publicação ontem do artigo «A insidiosa maneira de enriquecer», sequela ela própria insidiosa do «Seremos todos parvos, senhores?», Nicolau Santos passa o conflito para um novo patamar recorrendo ao arsenal de dirty weaponry. Por essa razão, este post poderia tema também enquadrar-se na área «Artigo defunto» do (Im)pertinências, onde se exumam cadáveres que apodrecem em páginas de jornais infestados pelo jornalismo de causas e pelo jornalismo de opiniões. Cadáveres alinhavados umas vezes por falta de vergonha, outras por incompetência.
Nesse artigo, sem nunca chamar os nomes aos bois, expõe-se o processo de criação da Ongoing alavancando uma hipoteca para obter empréstimos garantidos com as acções posteriormente compradas (PT e Impresa, presume-se), empréstimos directamente autorizados, insinua-se, pelo chefe dos Espíritos. Para olear toda esta maquinaria, sempre segundo Nicolau Santos, a Ongoing usa a sucursal da multinacional Heidrick & Struggles, onde Nuno Vasconcelos e o seu sócio Rafael Mora pontificam, para prestar serviços de gestão de carreira, corporate governance, etc. às empresas participadas da Ongoing e usar a «capacidade persuasão junto dos principais quadros dessas empresas» para influenciar decisões e (mais) compra de serviços. A cereja no topo do bolo, segundo Nicolau Santos, será a utilização dos meios de comunicação social «para justificar a sua estratégia e utilizá-los como arma de arremesso … e apoiar o governo de plantão (o que) é um bom cartão de visita para negócios onde o Estado tem influência».
Tudo isto parece suficientemente verosímil e é bom que seja exposto para mitigar a crescente asma da democracia portuguesa. A forma como é escrita a peça de artilharia não é uma honra para o jornalismo profissional.
NOTAS:
- «Apoiar o governo de plantão» é uma afirmação surpreendente vinda de Nicolau Santos, cuja prosa nos últimos 4 anos tem sido bastante dedicada ao lip service do governo socialista.
- Parece haver uma outra frente da mesma guerra, onde se usa armas mais pesadas e onde começam a aparecer os generais. Leia-se a entrevista de Henrique Granadeiro a propósito da entrega para gestão à Ongoing de 75 milhões de fundos da PTP.
24/10/2009
Estado empreendedor – (16) Cosec II
[Continuação de (5) e (11)]
Em Abril o primeiro-ministro anunciou a privatização da COSEC. Em Junho, o BPI numa estratégia de contenção de danos, aceitou vender os seus 50%. Em 1 de Julho ministro das Finanças anunciou no Parlamento o acordo fechado com a Euler Hermes - «o trabalho está feito», disse.
Em 15 de Julho, a Euler Hermes informou que iria estudar a oferta quando a recebesse. Em 17 de Setembro a a Euler Hermes disse que estava à espera que o governo se pronunciasse sobre as suas condições para fazer o acordo. Já nessa altura tudo indicava que a extorsão dos sujeitos passivos teria que aumentar um pouco mais para pagar o preço que a Euler Hermes pretendia. Em 22 de Outubro, «o trabalho feito» em 1 Julho continua por fazer e o governo não dá mostras de perceber que a Euler Hermes do grupo alemão Allianz (o maior grupo segurador mundial) pode fazer e faz vista grossa ao misto de cenoura e pau com que são tratados os empresários que não conseguem deixar de depender do governo (caso do BPI e da Sonae) e, com a mesma facilidade, faz orelhas moucas às cantigas com que se deliciam os empresários que vivem em comunhão de pessoas e bens com o partido Socialista (espécie muito numerosa, encabeçada pelos Espíritos).
É mais um caso paradigmático de intervencionismo socrático, quase sempre arbitrário e muitas vezes ditado por acidentes políticos (choraminguices de empresários numa sessão de propaganda, por exemplo), ignorância e negligência com o dinheiro dos contribuintes.
Em Abril o primeiro-ministro anunciou a privatização da COSEC. Em Junho, o BPI numa estratégia de contenção de danos, aceitou vender os seus 50%. Em 1 de Julho ministro das Finanças anunciou no Parlamento o acordo fechado com a Euler Hermes - «o trabalho está feito», disse.
Em 15 de Julho, a Euler Hermes informou que iria estudar a oferta quando a recebesse. Em 17 de Setembro a a Euler Hermes disse que estava à espera que o governo se pronunciasse sobre as suas condições para fazer o acordo. Já nessa altura tudo indicava que a extorsão dos sujeitos passivos teria que aumentar um pouco mais para pagar o preço que a Euler Hermes pretendia. Em 22 de Outubro, «o trabalho feito» em 1 Julho continua por fazer e o governo não dá mostras de perceber que a Euler Hermes do grupo alemão Allianz (o maior grupo segurador mundial) pode fazer e faz vista grossa ao misto de cenoura e pau com que são tratados os empresários que não conseguem deixar de depender do governo (caso do BPI e da Sonae) e, com a mesma facilidade, faz orelhas moucas às cantigas com que se deliciam os empresários que vivem em comunhão de pessoas e bens com o partido Socialista (espécie muito numerosa, encabeçada pelos Espíritos).
É mais um caso paradigmático de intervencionismo socrático, quase sempre arbitrário e muitas vezes ditado por acidentes políticos (choraminguices de empresários numa sessão de propaganda, por exemplo), ignorância e negligência com o dinheiro dos contribuintes.
23/10/2009
DIÁRIO DE BORDO: estórias do outro mundo
Já tive ocasião de contar o privilégio de ter conhecido pessoalmente Alf, aka Gordon Shumway, no verão de 2002, durante as suas férias com os Tanners na Quinta da Balaia, onde comeu todos os gatos das redondezas, apesar dos seus 245 anos - quando aterrou na casa dos Tanners já tinha uns bons 229 anos.
Uma vez ou outra, Alf telefona-me, via Skype, para confirmar ou saber pormenores de acontecimentos em Portugal que esporadicamente os noticiários de Melmac relatam pela rama. Voltou a telefonar ontem e não foi a propósito do caso Freeport – em tempos já me explicou que os casos de corrupção em Portugal não constituem notícia, segundo o critério jornalístico da Holomac (assim se chama a TV por holograma de Melmac). Foi a propósito das declarações dum tal Murteira Nabo que, segundo a Holomac, seria uma personagem estranha desdobrada em diferentes personas e falando por todas eles num intervalo de poucas horas.
Uma vez falou ao mesmo tempo em nome do governo e de presidente de uma «companhia de petróleos» (palavras do Alf), afirmando «o Governo jamais permitirá que a Galp seja controlada por interesses estrangeiros».
Outra vez, em nome do «capitão dos economistas», foi assim que Alf se lhe referiu, certamente lembrado dos seus tempos de capitão da equipa Bouillabaisseball, manifestando-se «satisfeito» com o novo governo. «Afinal o homem está ou não no governo?», perguntou Alf. Expliquei-lhe que já tinha sido secretário de estado e até ministro, episodicamente, quando em trânsito para a presidência da companhia dos telefones de onde tinha saído para bastonário dos economistas. «Bastonário dos economistas? Mas esses gagos jogam basebol?» perguntou. Não respondi, já sem pachorra. E que mais? perguntei.
«OK. Não percebo, mas adiante. Se ele não faz parte do governo como é "quer juntar ministérios da Economia e Finanças"?» Isso é ele a falar, disse-lhe. O papel do bastonário é falar, expliquei. O homem também fala noutras qualidades, como administrador do BES ou curador da Fundação Oriente ou presidente da Câmara Luso-Chinesa. «Uau, gemeu Alf, é essa coisa de Macau? Tem a ver com o caso do fax do Melão?», questionou excitado, recordando os ecos que ainda ouviu quanto esteve em Portugal. É Melância, mas para o caso não interessa. Tenho uma chamada no telemóvel, vou ter que desligar, ensaiei.
Não desistindo (Alf nunca desiste), «OK, só mais uma coisa». Explicou durante uma longa meia hora o resultado catastrófico da criação dum ministério da Economia em Melmac. Tão desastroso, que o desastre só foi maior quando juntaram o ministério da Economia com o das Finanças. Agradeci, mandei abraços e fui ver o Gato Fedorento a esmiuçar Dupont e Dupond.
Uma vez ou outra, Alf telefona-me, via Skype, para confirmar ou saber pormenores de acontecimentos em Portugal que esporadicamente os noticiários de Melmac relatam pela rama. Voltou a telefonar ontem e não foi a propósito do caso Freeport – em tempos já me explicou que os casos de corrupção em Portugal não constituem notícia, segundo o critério jornalístico da Holomac (assim se chama a TV por holograma de Melmac). Foi a propósito das declarações dum tal Murteira Nabo que, segundo a Holomac, seria uma personagem estranha desdobrada em diferentes personas e falando por todas eles num intervalo de poucas horas.
Uma vez falou ao mesmo tempo em nome do governo e de presidente de uma «companhia de petróleos» (palavras do Alf), afirmando «o Governo jamais permitirá que a Galp seja controlada por interesses estrangeiros».
Outra vez, em nome do «capitão dos economistas», foi assim que Alf se lhe referiu, certamente lembrado dos seus tempos de capitão da equipa Bouillabaisseball, manifestando-se «satisfeito» com o novo governo. «Afinal o homem está ou não no governo?», perguntou Alf. Expliquei-lhe que já tinha sido secretário de estado e até ministro, episodicamente, quando em trânsito para a presidência da companhia dos telefones de onde tinha saído para bastonário dos economistas. «Bastonário dos economistas? Mas esses gagos jogam basebol?» perguntou. Não respondi, já sem pachorra. E que mais? perguntei.
«OK. Não percebo, mas adiante. Se ele não faz parte do governo como é "quer juntar ministérios da Economia e Finanças"?» Isso é ele a falar, disse-lhe. O papel do bastonário é falar, expliquei. O homem também fala noutras qualidades, como administrador do BES ou curador da Fundação Oriente ou presidente da Câmara Luso-Chinesa. «Uau, gemeu Alf, é essa coisa de Macau? Tem a ver com o caso do fax do Melão?», questionou excitado, recordando os ecos que ainda ouviu quanto esteve em Portugal. É Melância, mas para o caso não interessa. Tenho uma chamada no telemóvel, vou ter que desligar, ensaiei.
Não desistindo (Alf nunca desiste), «OK, só mais uma coisa». Explicou durante uma longa meia hora o resultado catastrófico da criação dum ministério da Economia em Melmac. Tão desastroso, que o desastre só foi maior quando juntaram o ministério da Economia com o das Finanças. Agradeci, mandei abraços e fui ver o Gato Fedorento a esmiuçar Dupont e Dupond.
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TRIVIALIDADES: à atenção da vereação alfacinha
Se há coisas aflitivas na cidade de Lisboa, uma das mais dramáticas é a falta de urinóis que, como se sabe, é suprida pelos alfacinhas aliviando-se nos cantos. É um sintoma de subdesenvolvimento urbano. Adopte-se a solução de Houston, por exemplo.
22/10/2009
Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (36) o Sócrates que há em Obama
Nem por sombras quero comparar os dois. Onde Obama tem uma carreira académica e universitária brilhante numa das melhores universidades no mundo, tem Sócrates um carreira baça e cheia de expedientes numa universidade definitivamente rasca. Onde Obama tem um currículo profissional curto mas apresentável, tem Sócrates uma sucessão de trapalhadas e coisas obscuras. Onde Obama tem uma folha (relativamente) limpa, tem Sócrates uma lista de suspeitas de trafulhices, pequenas, médias e grandes, que nos States lhe teriam acabado a carreira há mais de 10 anos.
Não obstante as diferenças, há um je ne sais quoi que partilham. E não estou a pensar no culto do big government. Refiro-me à retórica como modo de vida, ao gosto da manipulação e, é disso que agora se trata, da dificuldade em aceitar as consequências de uma imprensa livre. Sócrates conduziu, com sucesso reconheça-se, a sua guerra contra a TVI. A TVI de Obama é a Fox News a quem acusa de aviar opiniões embrulhadas em notícias (“opinion journalism masquerading as news”). Terá alguma razão, mas não é mais ou menos o que a média que lhe é favorável vem fazendo talvez com menos decoro?
E que dizer da ofensiva da Casa Branca enviando os seus assessores para convencerem as agências de notícias e os canais a não aceitarem as notícias da Fox, sob pretexto de que são o megafone do Partido Republicano ("a Republican Party mouthpiece")?
Não obstante as diferenças, há um je ne sais quoi que partilham. E não estou a pensar no culto do big government. Refiro-me à retórica como modo de vida, ao gosto da manipulação e, é disso que agora se trata, da dificuldade em aceitar as consequências de uma imprensa livre. Sócrates conduziu, com sucesso reconheça-se, a sua guerra contra a TVI. A TVI de Obama é a Fox News a quem acusa de aviar opiniões embrulhadas em notícias (“opinion journalism masquerading as news”). Terá alguma razão, mas não é mais ou menos o que a média que lhe é favorável vem fazendo talvez com menos decoro?
E que dizer da ofensiva da Casa Branca enviando os seus assessores para convencerem as agências de notícias e os canais a não aceitarem as notícias da Fox, sob pretexto de que são o megafone do Partido Republicano ("a Republican Party mouthpiece")?
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ÉTUDE DE CAS: l’exception française – la France suicidaire (2)
[Continuação especulativa de (1)]
Antes de especular sobre a génese das tendências suicidárias dos franceses, deixai que especule sobre as razões que levaram quase toda a imprensa a não considerar dados estatísticos facilmente disponíveis e requerendo apenas uma aritmética elementar para os tratar, consideração que levaria a pôr em causa todo o edifício psico-sindical construído para justificar o que não precisaria de justificação. Ou, precisando, seria para explicar porque só houve 24 suicídios na France Télécom (FT) em 20 meses.
Confesso que alguns leitores do (Im)pertinências foram até mais longe do que a imprensa e concluíram que os dados estatísticos para o caso não interessavam nada face à sua inabalável fé. Pelo meu lado, acredito que a razão para não considerar os factos é o lema por muitos cultivado: se os factos contradizem a sua «teoria», tanto pior para os factos. No caso dum povo de poetas como o nosso, acresce a esse lema a congénita dificuldade de lidar com números, sejam dados estatísticos, sejam contas, sejam orçamentos, e a sublimação freudiana dessa limitação pela retórica, com mais ou menos substrato metafísico.
É diferente o caso da administração da FT, que ontem interrompeu as reestruturações para acabar com a «espiral de suicídios» (a semana passada tinha sido «vaga» o que mostra uma tendência para a coisa se retorcer). Pelo menos os dois administradores enarquistas - estudaram na École Nationale d’Administration, frequentada por la créme de la crème do regime - sabem muito bem fazer contas, saber que também sabem não ser relevante para este problema político - a visível crescente impaciência de Sarko.
Antes de concluir esta minha parte retórica, é preciso esclarecer que nem toda a imprensa desconsiderou os factos. Exemplos: a Economist («Bonjour tristesse») e o Monde («Pas de vague de suicides à France Télécom, selon un statisticien»). Que a taxa de suicídios na FT é inferior à média francesa, está pois suficientemente demonstrado nestes artigos e no meu post. Resta apenas compreender porque se suicidam tanto os franceses? Recorde-se que a taxa de suicídio é 35% mais alta do que a Alemanha, quase 60% mais alta do que Portugal e 2,5 vezes a do Reino Unido.
Qual será então a génese das tendências suicidárias dos franceses? A minha especulação é que a causa reside na grande distância hierárquica (power distance) que caracteriza a sociedade francesa, como foi amplamente constatado nos estudos de Geert Hofstede, inúmeras vezes citados no (Im)pertinências. Escrevi aqui, a propósito duns suicídios na Renault em Março de 2007, que a França é uma sociedade muito hierarquizada em que os subordinados têm muito pouco controlo sobre o seu trabalho e as suas vidas, o que, sabe-se hoje, tem efeitos nefastos no sistema imunitário e na saúde mental. Não é por acaso que todas as mudanças relevantes em França foram pela via de revoluções sangrentas ou por pressão de grandes conflitos sociais. Que outro país europeu queimou nos últimos anos milhares de carros (ainda o mês passado 15 numa noite numa só região) e adoptou legislação para compensar com 4 mil euros os proprietários pobres de veículos incendiados?
No coração da Óropa social, escrevi então a propósito da Renault, no seio dum dos campeões nacionais, as relações de trabalho estão pouco mais do que nos finais da década de sessenta, quando as pedras da calçada foram levantadas e os assustados patrões franceses descobriram Peter Drucker e a sua management by objectives com uma década de atraso e apressaram-se a desfraldar a bandeira da gestion participatif, a que foram timidamente acrescentando par objectifs.
Voilà.
Antes de especular sobre a génese das tendências suicidárias dos franceses, deixai que especule sobre as razões que levaram quase toda a imprensa a não considerar dados estatísticos facilmente disponíveis e requerendo apenas uma aritmética elementar para os tratar, consideração que levaria a pôr em causa todo o edifício psico-sindical construído para justificar o que não precisaria de justificação. Ou, precisando, seria para explicar porque só houve 24 suicídios na France Télécom (FT) em 20 meses.
Confesso que alguns leitores do (Im)pertinências foram até mais longe do que a imprensa e concluíram que os dados estatísticos para o caso não interessavam nada face à sua inabalável fé. Pelo meu lado, acredito que a razão para não considerar os factos é o lema por muitos cultivado: se os factos contradizem a sua «teoria», tanto pior para os factos. No caso dum povo de poetas como o nosso, acresce a esse lema a congénita dificuldade de lidar com números, sejam dados estatísticos, sejam contas, sejam orçamentos, e a sublimação freudiana dessa limitação pela retórica, com mais ou menos substrato metafísico.
É diferente o caso da administração da FT, que ontem interrompeu as reestruturações para acabar com a «espiral de suicídios» (a semana passada tinha sido «vaga» o que mostra uma tendência para a coisa se retorcer). Pelo menos os dois administradores enarquistas - estudaram na École Nationale d’Administration, frequentada por la créme de la crème do regime - sabem muito bem fazer contas, saber que também sabem não ser relevante para este problema político - a visível crescente impaciência de Sarko.
Antes de concluir esta minha parte retórica, é preciso esclarecer que nem toda a imprensa desconsiderou os factos. Exemplos: a Economist («Bonjour tristesse») e o Monde («Pas de vague de suicides à France Télécom, selon un statisticien»). Que a taxa de suicídios na FT é inferior à média francesa, está pois suficientemente demonstrado nestes artigos e no meu post. Resta apenas compreender porque se suicidam tanto os franceses? Recorde-se que a taxa de suicídio é 35% mais alta do que a Alemanha, quase 60% mais alta do que Portugal e 2,5 vezes a do Reino Unido.
Qual será então a génese das tendências suicidárias dos franceses? A minha especulação é que a causa reside na grande distância hierárquica (power distance) que caracteriza a sociedade francesa, como foi amplamente constatado nos estudos de Geert Hofstede, inúmeras vezes citados no (Im)pertinências. Escrevi aqui, a propósito duns suicídios na Renault em Março de 2007, que a França é uma sociedade muito hierarquizada em que os subordinados têm muito pouco controlo sobre o seu trabalho e as suas vidas, o que, sabe-se hoje, tem efeitos nefastos no sistema imunitário e na saúde mental. Não é por acaso que todas as mudanças relevantes em França foram pela via de revoluções sangrentas ou por pressão de grandes conflitos sociais. Que outro país europeu queimou nos últimos anos milhares de carros (ainda o mês passado 15 numa noite numa só região) e adoptou legislação para compensar com 4 mil euros os proprietários pobres de veículos incendiados?
No coração da Óropa social, escrevi então a propósito da Renault, no seio dum dos campeões nacionais, as relações de trabalho estão pouco mais do que nos finais da década de sessenta, quando as pedras da calçada foram levantadas e os assustados patrões franceses descobriram Peter Drucker e a sua management by objectives com uma década de atraso e apressaram-se a desfraldar a bandeira da gestion participatif, a que foram timidamente acrescentando par objectifs.
Voilà.
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