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19/03/2018

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (127)

Outras avarias da geringonça.

Costa, que na sua juventude talvez tenha estado próximo do marxismo na versão Karl, à medida que foi envelhecendo foi adoptando o marxismo na versão Groucho. Não faltam exemplos e o mais recente são as suas juras de fidelidade a Bruxelas, ao equilíbrio orçamental e à redução da dívida pública, depois de anos a verberar o império da austeridade. Se não gostarmos ou não resultarem estes princípios, Costa estará sempre disponível para adoptar outros.

Outro exemplo do marxismo grouchista de Costa é o TGV que tudo indica estar a ser desenterrado às escondidas, um mês depois de Costa ter declarado que é «um tabu e vai sê-lo por muito tempo». É também um exemplo da opacidade da governação social-costista. Sem falar das miudezas de todos os dias, como o ultimato para limpeza das matas com um prazo inadiável que poucas semanas depois foi adiado três meses.

A estes exemplos de falta de princípios e de oportunismo político poderíamos acrescentar muitos outros. Por agora, aponto apenas a distância entre as declarações de defesa do Estado Social e em particular do Serviço Nacional de Saúde, que segundo Costa e a geringonça estariam a ser destruídos pelo governo anterior, e a prática da governação socialista agora ainda mais visível pela tensão entre o Ronaldo das Finanças e o Adalberto do ministério da Saúde a quem, depois de humilhações várias, foi imposta uma espécie de missão da troika privativa do MF, sob a forma de uma «Estrutura de Missão para a Sustentabilidade do Programa Orçamental da Saúde» ficando o Ministério da Saúde "refém" do das Finanças, Enquanto isso o SNS suborçamentado rebenta pelas costuras.

Todos estes problemas que crescem nas entranhas do Estado Sucial não são, como nunca foram, percepcionados pelos eleitores-consumidores que enquanto houver dinheiro, isto é crédito, não querem saber de misérias. E crédito não tem faltado e ninguém já se lembra das 340 mil penhoras de saldos bancários em quatro anos e meio. Só em Janeiro os bancos concederem 563 milhões de crédito ao consumo, mais 20% do que em Janeiro do ano passado, sendo 1/4 destinado à compra de veículos particulares. Sem surpresa, num país que tem quase tantas casinhas como habitantes, os edifícios licenciados aumentaram 10,6% em 2017. É uma espécie de bebedeira geral, como se pode concluir por esta visita aos balcões dos bancos.

Como consequência da bebedeira consumista e como as últimas décadas mostraram amplamente, as contas externas derrapam. Mesmo com as exportações a crescerem quase 10%, o défice da balança comercial subiu em Janeiro 253 milhões para 1.249 milhões, graças a um aumento de 12,4% das importações. Face a este crescimento das importações, mesmo o tão celebrado maior crescimento do século do PIB não aguenta. Aliás, seria prudente moderar a euforia porque os 2,7% de crescimento tornam-se modestos quando comparados com os 3,8% do PIB do G20. Valha-nos a ajuda do turismo que com 2,5 milhões de dormidas em Janeiro aumentou 5%, turismo com que Costa também se enfeita como se fosse uma "reposição de direitos adquiridos" da função pública.

À derrapagem da balança comercial devemos adicionar os custos horários da mão-de-obra que no 4.º trimestre de 2017 aumentaram 4,7% em Portugal contra 1,5% na Zona Euro, com a produtividade a manter, na melhor hipótese ou a diminuir na mais provável.

Se o estado de paz conjugal da geringonça se medisse pelo número de pré-avisos de greves (24 este ano até agora, oito vezes mais do que no ano passado, segundo o Expresso) promovidos pelos sindicatos da função pública controlado pelos comunistas, seríamos forçados a concluir que o divórcio estaria iminente. Mas não está, apesar das inquietações de Jerónimo que acusa o PS de estar em cima do muro - ele deveria saber que Costa é um exímio funambulista e não hesitará em recorrer ao PSD e ao CDS para segurar os ímpetos do PCP e do BE, como na legislação laboral

Por um lado, os comunistas têm-se aguentado nas sondagens e em desespero recuam para os sindicatos e as autarquias que lhes restam e açulam os jornalistas de causas que controlam. Por outro, os berloquistas não têm para onde ir e ficarão na cama com Costa mesmo que os comunistas batam com a porta. Sairão só se e quando Costa tiver a maioria e lhes puser as malas à porta.

Termino a crónica desta semana com o folhetim Montepio que se arrasta há várias temporadas e teve agora um desenvolvimento que mostra vários fenómenos muito característicos do Portugal dos Pequeninos. Primeiro, a criatividade da direcção da Associação Mutualista que, isenta até agora, requer deixar de ser IPSS e passar a pagar IRC e de um só passo as remunerações dos administradores deixam de estar limitadas e são criados créditos fiscais por impostos diferidos de 808 milhões resultantes dos prejuízos passados. Em consequência, os capitais próprios negativos ficam positivos e apresenta-se um resultado do exercício de 588 milhões. Segundo, o governo pela pena do Ronaldo das Finanças (poderia ser outro qualquer), não só dá cobertura à manobra como apadrinha a compra pela Santa Casa e outras Misericórdias de 2% do Montepio Geral por 50 milhões, o que significaria que valeria 2,5 mil milhões - se valesse metade já seria uma festa. Terceiro, a ignorância da maior parte dos comentadores que ainda não perceberam que o esquema é perfeitamente legal se (um gigantesco se) o Montepio pudesse vir a recuperar os créditos fiscais de 808 milhões para o que teria de ter nos próximos anos resultados que nunca teve no passado.

Aditamento:
Já depois de ter escrito sobre o folhetim Montepio, li este artigo de Miranda Sarmento, e para ele remeto, que explica com algum detalhe e rigor quanto baste a engenharia financeira e fiscal da Associação Mutualista.

1 comentário:

Ricardo Amaral disse...

E tudo seria apenas cómico senão fosse acima de tudo trágico.