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27/12/2009

CASE STUDY: o cobrador do fraque vem a caminho


Há uma meia dúzia de anos, começou a ficar para mim evidente que tínhamos entrado no túnel dos défices gémeos (da balança comercial e do orçamento) associados, como de costume, a uma poupança em contracção gerando, num quadro de estagnação da produtividade e do crescimento, um inevitável crescente endividamento. Na ausência de reformas profundas e com a engorda do Estado, esta situação só nos poderia conduzir à espiral onde nos encontramos: mais endividamento, mais juros, mais défices, menos poupança, mais endividamento, …

Lembro-me dum amigo contrariar nessa altura o meu «pessimismo» argumentando que no interior da mesma zona monetária os défices e o endividamento seriam irrelevantes, porque não haveria desvalorização e simplesmente os fluxos monetários compensariam esses desequilíbrios. Para me arrumar, apontou o exemplo do Alentejo que, se houvesse uma contabilidade regional evidenciaria por certo défices gémeos e endividamento crescente, et pourtant. Ainda lhe disse que o problema seria precisamente esse – o Alentejo era já uma região falida com os activos dos alentejanos a passarem para as mãos dos não alentejanos, com os espanhóis à cabeça, e o seu nível de vida estagnado e Portugal arriscava-se a ser um grande Alentejo. Mas perante a inabalável fé há pouco a fazer. A não ser esperar que os factos e o tempo abalem a fé do crente.

Lembrei-me dessa discussão, a propósito da CIMPOR, que está a ser alvo duma OPA, e da ZON de quem a família dos Santos, o czar angolano, comprou 10% do capital, parte à CGD (acções que lhe custaram 12 euros e foram vendidas por 5,20) e as restantes à própria Zon que as andou a recomprar desde há algum tempo - tudo em troca de uma participação de 30% da Zon na empresa de TV por cabo em Angola. Poderá dizer-se que são casos isolados? Pois que sejam, por agora. Mas vai ser preciso pagar uma dívida pública total, incluindo o SEE, que deve ultrapassar os 120% do PIB e uma pantagruélica dívida externa líquida total de uma vez e meia o PIB, com taxas de juros que, depois de baterem no fundo só podem subir, e a que será preciso adicionar um spread igualmente crescente. Tudo isto num quadro de quase estagnação, em que as saídas são estreitas e a socialmente menos dolorosa (por coincidência a pior de todas) é precisamente pagar as dívidas com a venda dos anéis que ainda não estão no prego.

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