Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

09/06/2026

Crónica da passagem de um governo (53b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 53a)

Boa Nova

Por mais do que os 2/3 necessários, Portugal foi eleito pela Assembleia da ONU como membro não-permanente do Conselho de Segurança. Mais do que o alegado prestígio internacional que as elites caseiras e o jornalismo de causas, dando a graxa a si próprios, atribuem aos 134 votos, este resultado é sobretudo a consequência de uma presença inócua na política internacional que não gera anticorpos. Não, esta não é uma consideração negativa do papel de Portugal.

É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença

Ao ficar a saber-se que dos cerca 5,3 milhões de empregados em Portugal mais de um milhão tiveram o ano passado baixas por doença (muitos deles por autodeclaração), cujos subsídios foram em média diária 2,3 milhões de euros, lembrei-me deste post do outro contribuinte, cujo título roubei, que enumera umas dezenas de maleitas que assolam milhões de portugueses explicando assim a pletórica frequência de baixas por doença.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

No mês de Abril bateu-se mais um recorde do número de “utentes” (acho esta palavra um achado para designar os cidadãos que não usam o SNS) sem médico de família (MdF) que atingiu em Abril o bonito número de 1.646.279, segundo o Portal da Transparência do SNS.


Conforme se vê no gráfico, a coisa veio sempre a subir desde Agosto de 2019 e atingiu o máximo em Maio de 2023, depois de dezenas de promessas do Dr. Costa de atribuir um MdF a todos os utentes.

Sem pretender limpar a folha do Dr. Montenegro que em tempos se atribuiu a missão impossível de resolver num ano os problemas do SNS, e que deixou escorregar os 1.565.880 utentes sem MdF que recebeu do Dr. Costa em Abril de 2024, para 1.646.279 dois anos depois, terei de conceder que a missão de salvamento do SNS fica difícil com a propensão dos utentes para a doença.

O Dr. Montenegro está a disparar para o lado a bazuca do Dr. Costa

O Conselho das Finanças Públicas e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental alertam para uma execução de apenas 45% do PRR a um ano do termo. Será que o governo leu “O Vício dos Fundos Europeus” de Nuno Palma e concluiu que o dinheiro de Bruxelas faz parte do problema e não da solução?

O governo chutou as filas de espera para a Bruxelas que as devolve

O governo tentou chutar para Bruxelas a responsabilidade pelos problemas de implementação do Entry/Exit System (EES) para controlo dos passaportes que começou a funcionar em Outubro do ano passado, teve de ser suspenso em Dezembro e voltou a funcionar em Abril multiplicando as filas de espera nos aeroportos. A CE responde que os «tempos de espera mais longos, não estão relacionados com quaisquer problemas no funcionamento do Sistema de Entrada/Saída» e que «na maioria dos Estados-membros o processamento dos registos de primeira vez demora, em média, pouco mais de um minuto». Talvez seja porque nenhum desses países tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA».

08/06/2026

Crónica da passagem de um governo (53a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Os portugueses só apreciam as reformas que dão pensões…

É mais difícil encontrar uma criatura pública que não reclame reformas do que um lince ibérico à solta. No entanto, se há coisa que os portugueses detestam, são reformas, apesar de poucos políticos assumirem publicamente essa falta de gosto, com a notável excepção do Dr. Costa, que algures em 2017 disse aos microfones da Rádio Renascença «A expressão reformas estruturais arrepia-me. Qualquer cidadão normal fica logo alérgico.» Daí, suspeito, a sua bem-sucedida carreira.

De onde, permito-me concluir, não se pense que a escassez de reformas do governo do Dr. Montenegro o vá apear, tanto mais que os numerosos anúncios são, em princípio, compensação suficiente para manter sossegado o eleitorado. O que traria o desassossego não seria a falta de reformas, mas as “reformas estruturais” e, sobretudo, a falta de subsídios de todas as naturezas.

É por isso que o governo não poupa aos contribuintes a extorsão para o pagamento de subsídios para compensar o aumento do preço dos combustíveis (uma política completamente errada), sendo o último desses aos agricultores,

… o que não escapa ao olho perspicaz do Dr. Ventura

Daí que, com a vantagem de não ser governo nem, suspeito, estar com muita pressa de o ser, o Dr. Ventura tenha proposto em Abril a descida da idade da reforma, corrigindo a pontaria depois de admoestado pelo Dr. Passos Coelho para a reforma com 40 anos de descontos ou 65 anos de idade, proposta apimentada com o limite máximo das pensões fixado em € 4.500 limite que abrangeria provavelmente menos de 0,1% do número de pensões.

A “reforma” que todos os governos não falham: aproximar o salário mínimo do salário mediano a caminho do salário médio

Por falar em reformas, o BdP, atravessando a fase interventiva que sempre acompanha um novo governador, chama a atenção no seu boletim de Junho para os riscos dos sucessivos aumentos do salário mínimo o aproximaram cada vez mais do salário mediano (isto é, do montante em que o número de salários mais baixos e mais altos é aproximadamente o mesmo) aumentando a relação (índice de Kaitz, que era o mais alto em 2024 na Zona Euro) entre os dois, de 87% em 2019 para 91% em 2025. Dito de outra maneira, o incentivo para os trabalhadores dos escalões mais baixos de salário melhorarem o seu desempenho é cada vez menor, o que é uma preciosa ajuda para manter a produtividade do trabalho em 76% da média da UE, a 6.ª mais baixa.

Já agora, sublinhe-se que tem sido o aumento do salário mínimo que mais contribuiu para Portugal ter tido nos dois últimos anos o segundo maior crescimento real dos salários nos países da OCDE.

Derrapagem é o outro nome para a gestão das obras do Estado sucial

A derrapagem do prazo de expansão do Metro de Lisboa, que era para estar concluída sucessivamente no final de 2023, no primeiro trimestre de 2025, no final de 2026 e, por último, no início do próximo ano, só é superada pela derrapagem do custo da obra, que, na última revisão, estava 80% acima do orçamento inicial (fonte).

(Continua)

07/06/2026

Por que razão a direita não se une?

A pergunta é o título deste artigo de André Abrantes Amaral (AAA) e poderia ser, mas não é, uma pergunta retórica. A resposta de AAA situa-se no domínio da política portuguesa e não vou comentá-la porque o que me interessa é a questão mais geral, para concluir, uma vez mais, como aqui, por exemplo, o que toda a gente sabe ou deveria saber, mas é quase sempre esquecido ou desconsiderado.

Political Compass

Não há uma direita, há várias direitas, e entre essas direitas, em certos casos, há mais diferenças (por vezes inconciliáveis) do que entre algumas esquerdas e algumas direitas. É o que o próprio AAA reconhece quando conclui que «parte da direita que hoje é maioritária no parlamento defende uma maior intervenção do estado na economia, é socialista em termos económicos».

06/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained (update)

Update to this post


«On January 6, 2021, 19-year-old Elias Irizarry was among the members of a violent mob that broke into the U.S. Capitol and attempted to overturn the recent presidential election. He was convicted of trespassing on government grounds, and videos from that day show him entering through a window with a metal pole in his hand. Now he may have access to sensitive national-security information as an employee of the Department of Defense.»
  (The Atlantic)

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

____________

Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

03/06/2026

BREAKING NEWS: At first it seems strange, then it becomes ingrained

«A convicted Jan. 6 rioter who later said that he regretted his participation in the U.S. Capitol attack has been hired by the Trump administration to work inside a Pentagon office that manages highly classified military operations, according to four people familiar with the matter.

The appointment of Elias Irizarry, who was 19 at the time of the riot in 2021, to a post in the Defense Department’s Special Operations and Low Intensity Conflict office has raised alarm internally among staff who question how anyone convicted in the assault on American democracy could be trusted for such a sensitive role in the U.S. government, these people said. All spoke on the condition of anonymity, citing a fear of retaliation.» Washington Post

At first glance, it seems strange that the Trump Administration would appoint someone convicted of breaking into the Capitol to work in counterterrorism at the U.S. Department of Defense. However, appointing such a person to combat terrorism makes as much sense as hiring a hacker to combat cyber intrusion, which is a normal procedure in the computer industry.

«President Trump lashed out at Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu over Israel's escalation in Lebanon in an expletive-laden call ("You're fucking crazy") on Monday, two U.S. officials and a third source briefed on the call told Axios.» Axios

It may also seem strange that Mr. Trump insulted Mr. Netanyahu, but the truth is that his democrat predecessor, Roosevelt, once said of the dictator Somoza, "He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch."

Unfortunately, not everyone, even among his devotees, understands these subtleties, and that's why President Trump's net approval rating continues to fall.

02/06/2026

Crónica da passagem de um governo (52b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 52a)

Boa Nova. Os alicerces das reformas do Dr. Matias estão prontos até ao verão

O Dr. Matias pode não ter jeito para fazer reformas, mas ninguém lhe pode negar um talento excepcional para fazer anúncios, como se lê nos artigos encomendados pela sua equipa aos jornalistas amigos. Por exemplo, este artigo com o título «Estado: Alicerces da reforma estão construídos até ao verão» que nos garante que «a rentrée será feita num novo quadro» e nos informa que o governo já extinguiu ou fundiu 35 entidades e reduziu 300 cargos dirigentes, mas não nos esclarece o que foi feito dos dirigentes.

A FA vai reformar os F16 e pretende substituí-los por F35

A Força Aérea já fez saber que para substituir os F16 prefere os F35. A 180 milhões a peça, o pretendido lote de 28 ficaria por uns 5 mil milhões, lote que, desconfio, daria para a primeira semana de guerra. Ora aqui está um tema que o ministério das Reformas poderia tomar a seu cargo e estudar uma solução alternativa mais adequada aos países em via de subdesenvolvimento. Por exemplo, seria muitíssimo mais barato encomendar à Ucrânia uns milhares de drones, incluindo assistência técnica, pelo preço de um F35.

Boa Nova. Crescimentos de 3,5 ou 4% ao ano

O Dr. Montenegro considerou que Portugal «tem capacidade para crescer 3,5 ou 4 por cento ao ano de forma consecutiva» e «vale a pena criar instrumentos» para o conseguir.

Choque da Boa Nova com a realidade

O Portugal dos Pequeninos cresceu nos últimos 10 anos a uma taxa média de 2,25%, nos últimos 3 anos cresceu em média 2,4%, e a economia estagnou no 1.º trimestre, apesar do aumento do investimento devido nos processadores do centro de dados de Sines, ainda antes dos impactos da guerra do Golfo Pérsico, a CE baixou as suas previsões deste ano para 1,7%, e as perspectivas para 2027 não são muito diferentes.

O desempenho medíocre dos últimos anos foi apesar de circunstâncias irrepetíveis, como os 15 mil milhões já recebidos do PRR e um crescimento insustentável do turismo. Esgotadas essas circunstâncias irrepetíveis, o Dr. Montenegro vem dizer-nos que o crescimento poderá ser uma e meia ou duas vezes maior do que o conseguido, quando começarem a ser reembolsados os empréstimos do PRR, equivalentes a quase 28% dos montantes recebidos. Qual é o milagre que tem no bolso um Dr. Montenegro que até agora não fez uma reforma com impacto no crescimento potencial?

Serão os imigrantes os canários na mina de carvão da economia portuguesa?

Não se deve dar crédito a conclusões apressadas, baseadas em entrevistas do jornalismo de causas a meia dúzia de pessoas, segundo as quais os imigrantes começam a sair de Portugal em massa. Ainda assim, a informação de que mil TVDE estão parados em Lisboa por falta de motoristas, na sua maioria imigrantes, deve significar algo.

E o que vão fazer os chuis depois de libertos das tarefas administrativas?

Por um lado, o governo fala em aumentar os efectivos policiais no quarto país da UE com mais polícias por 100 mil habitantes, por outro, o mesmo governo quer libertar os polícias do trabalho administrativo.

01/06/2026

Crónica da passagem de um governo (52a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… lançar os concursos para a concessão de exploração do lítio, há dez anos a serem estudados?

O Dr. Passos Coelho tem razão. Um político não deve ser um “prostituto sem carácter

É por isso que o Dr. Passos Coelho deveria ter concorrido à eleição deste fim de semana para escolher o líder do PSD em alternativa a deixar o Dr. Ventura saltar-lhe para o colo.

O Dr. Montenegro também tem razão. Governar é uma maratona

É por isso que há profissionais que correm a maratona em duas horas e amadores que precisam de quatro horas e até há quem faça um passeio durante a prova e nunca termine.

.. e ao km 10 está a alcançar o pior dos dois mundos: não toma medidas impopulares e fica impopular…

A sondagem do Barómetro da Aximage para o DN já mostrava a queda do PSD e dias depois a sondagem Expresso/SIC confirmava que o PS tem mais quatro pontos percentuais de intenções de voto do que a AD e a direita perdeu a maioria, também porque o PUAV (Partido Unipessoal do Dr. Ventura) perdeu cinco pontos percentuais o que prenuncia o megafone do Dr. Ventura a subir os decibéis e a ajustar a pauta ao que ele imagina está nas meninges dos que ele imagina constituem o seu eleitorado.

O pior de tudo para o Dr. Montenegro é que a sua avaliação é negativa e até desceu nos simpatizantes do PSD, os quais, ainda assim, lhe deram nas eleições para presidente uma maioria africana de 95%. Pelo menos esses parecem felizes.

Mais tentáculos do polvo socialista “imergiram” e, uma vez mais o ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor

Continuando a tradição criativa de baptizar as operações, desta vez a Judiciária chamou “imergente” à operação em que investiga e detém por suspeita de «crimes de prevaricação e participação económica em negócio, envolvendo a adjudicação de diversos contratos por parte de câmaras municipais e juntas de freguesia», cinco quadros do PS e entre eles Duarte Moral, diretor de comunicação do Dr. Carneiro, e a sua (do Dr. Moral) mulher, envolvendo contratos no total de 2 milhões incluindo com uma empresa do próprio Dr. Moral. Por não inesperada coincidência, o Dr. Moral, já havia sido assessor do Dr. Costa quando este presidiu à Câmara de Lisboa.

Dois dias antes da “imergência” do caso do Dr. Moral, a mesma Judiciária fez buscas na empresa Águas de Gaia, no âmbito da operação "Águas Turvas" (lá está, a Judite no seu melhor) que envolve a gestão do ex-presidente socialista Eduardo Vítor Rodrigues que perdeu o mandato no ano passado condenado peculato e também a gestão do Dr. Filipe Menezes do PSD (lá está, o Bloco Central a funcionar)

Take Another Plan. Por falar em polvo, a TAP é um operador verdadeiramente internacional

Já sabíamos há muito que, pela mão do Dr. Lacerda Machado, o “melhor amigo de sempre” do Dr. Costa, que esteve envolvido no SIRESP, na compra dos helicópteros Kamov, na reversão da privatização da TAP, na resolução do caso dos lesados do BES, no acordo do CaixaBank com Isabel dos Santos, no caso dos lesados do Banif e na tentativa de solução do crédito malparado da banca, a TAP comprou a VEM que o Dr. Lacerda Machado disse o ano passado no parlamento foi o melhor "negócio dos últimos 50 anos".

Ficámos agora a saber que entre 2015 e 2023 dois funcionários da TAP e um da venezuelana Plus Ultra, estão envolvidos num caso que envolve também o Dr. Zapatero (lá está, a solidariedade socialista) de um esquema de furto de peças à TAP e a várias companhias de aviação portuguesas que lhes rendeu quase 8 milhões de euros de vendas a vários operadores, incluindo a TAP (fonte).

(Continua)

30/05/2026

Dúvida (368) - Um bicho que se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, pode ser um ornitorrinco? (2)

Ceci n'est pas un canard
Outras dúvidas sobre o bicho: (1)

Já confessei o meu espanto por se poder concluir que Viktor Orbán é um democrata e a Hungria sob a sua batuta era uma democracia plena, que as acções erráticas de Donald Trump escondem uma estratégia coerente e que a defesa da redução da idade da reforma pelo Dr. Ventura é uma estratégia sofisticadíssima para atrapalhar o PSD.

Acrescento a esse espanto outro, não menos intrigante. Como é possível que luminárias da comentadoria doméstica se indignem justamente com a corrupção que grassa em partidos moderados e, ao mesmo tempo, mais do que fazerem vista grossa, silenciem, limpem a folha ou mesmo exaltem a administração Trump, provavelmente a governação mais corrupta do mundo ocidental desde os Founding Fathers?

Como explicar que pessoas inteligentes e cultas conseguem imaginar que um bicho que se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, acasala com patas, não é um pato, é um mamífero que põe ovos? Do ponto de vista da psicologia evolucionista, a melhor explicação que encontrei foi a de Leor Zmigrod no seu The Ideological Brain; e, do ponto de vista da ciência política, a melhor referência que encontro é o que baptizámos neste blogue como doutrina Somoza, que pode ser resumida como «He may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch», juízo (ou piada?) atribuído a Franklin D. Roosevelt.

29/05/2026

Is this intended to build the Golden Trump Resort of Gaza?

Fonte

Golden Trump Resort of Gaza

O balão de hidrogénio do Dr. Galamba ou mais um elefante branco que se perdeu pelo caminho (7)

O Dr. Galamba, uma espécie de apoderado do Animal Feroz, ex-secretário de Estado da Energia e ex-ministro das Infraestruturas de governos socialistas, que «frequentou um doutoramento em Filosofia Política na London School of Economics» (não perguntem o que é frequentar um doutoramento), anunciou há seis anos uma «mega fábrica de hidrogénio em Sines» em parceria com a Holanda. Nos anos seguintes, essa megafábrica de hidrogénio e as outras foram-se gradualmente evaporando, como fui relatando em (2), (3), (4), (5), (6). 

Faltava a "mega fábrica" da Galp - o parque eólico com 19 turbinas em Odemira para alimentar projeto de hidrogénio verde. Já não falta. A Galp comunicou há dias à Câmara de Odemira a sua desistência do projecto.

Entretanto, o Dr. Galamba, sem surpresa para quem dispõe de tal currículo, é candidato à presidência da APREN - Associação Portuguesa de Energias Renováveis.

28/05/2026

The news of Mr. Trump's reputation as a great negotiator is more exaggerated than the news of Mark Twain's death while he was still alive

«Donald Trump’s reputation and political career were built on his dealmaking prowess, yet the president keeps demonstrating that he is a terrible negotiator.

Repeatedly over the past nine years, Trump has gotten rolled by counterparts during high-stakes exchanges. North Korea, Russia, Russia again, China, and China again have gotten the better of the United States. Trump has had to slink back to Washington without much to show except empty talk about friendship with whatever dictator has just run circles around him. He’s had some success in brokering agreements when acting as a third party (though not nearly as much as he pretends) but much less luck when his own government is a participant. The one glaring exception came when he was effectively negotiating with himself, getting his own administration to set up a $1.8 billion slush fund for his political allies.

The newest example of Trump’s artlessness is Iran. Let’s review the past few days: Trump posted on Saturday that he was close to striking a deal with Tehran that would end the war he started earlier this year and reopen the Strait of Hormuz. As the outlines of the agreement began to emerge, it looked both incomplete and bad: Trump had postponed discussing the hardest issues—matters, such as nuclear weapons, that led him to go to war—in exchange for opening the strait, which was open before Trump started the war. Hawkish Trump allies promptly criticized the deal, and despite histrionic pushback from Trump aides, the president had begun backing off claims of an imminent agreement by Sunday. “If I make a deal with Iran, it will be a good and proper one, not like the one made by Obama,” he posted. “Our deal is the exact opposite, but nobody has seen it, or knows what it is. It isn’t even fully negotiated yet.” Yesterday, in a sign that a deal might not be near at all, the U.S. military conducted what it called “self-defense strikes” against Iranian targets—directly contradicting the administration’s previous claims about having wiped out any threats to the United States in Iran.»

David A. Graham, The Atlantic

27/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 51a)

Boa Nova

O Dr. Seguro já promulgou as medidas fiscais para promover a construção de habitação (redução do IVA) e do arrendamento (redução do IRS e do IRC). Não se esperem milagres porque a fiscalidade é apenas uma das variáveis da equação e algumas das outras variáveis permanecem inalteradas, como seja a absurda burocracia camarária, diligentemente promovida por resmas de apparatchiks, que envolve os licenciamentos, a que se escapa apenas com os lubrificantes habituais: luvas e cunhas de amigos e/ou do partido.

Quanto aos programas de apoio à construção de habitação, estamos conversados. Por exemplo, o Programa de Apoio ao Acesso à Habitação “1.º Direito”, lançado pelo Dr. Costa e o Dr. Pedro Nuno no início de 2023, dois anos depois, estava contratualizada mais de 90% da primeira tranche do dinheiro disponível e só tinham sido entregues menos de 10% das casas previstas. Três anos depois tinham sido entregues 12% das casas.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Segundo a nota de informação estatística do BdP, em Março o endividamento da economia aumentou 5,4 mil milhões de euros, dos quais 1,7 mM do sector público, 2,2 mM das empresas privadas não financeiras e 1,6 mM das famílias.

Não ajuda muito constatar que as taxas da dívida pública estão a aumentar (a emissão de BT a 12 meses da semana passada foi com uma yield 0,3 pontos percentuais acima da emissão do mesmo prazo há dois meses) e irão continuar no contexto que se avizinha.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Há várias causas para a doença de que sofre o SNS, das quais não é provável que faça parte a falta de dinheiro que continua a ser arremessado sobre os problemas: a despesa total com medicamentos aumentou 15,8% para 4,4 mil milhões de euros, dos quais os hospitais públicos aumentaram 11,2% para 2,5 mM; no 1.º trimestre deste ano, a despesa com medicamentos dos hospitais voltou a aumentar 7,6%. (fonte)

Take Another Plan. «Ser sócio do Estado na TAP? “Jamais”!”»

As palavras em título são de João Tovar Jalles, um economista que Harry Truman talvez considerasse ter uma só mão (*), para sumarizar o absurdo de esperar que um investidor privado torrará dinheiro indefinidamente na TAP com o Estado a mandar. Como que a dar-lhe razão por antecipação, o presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), avisou que poderá haver «um problema na estabilidade laboral» se a Lufthansa for accionista da TAP e sabemos que até agora todos os governos têm levado muito a sério os “avisos” dos pilotos.

Canários na mina de carvão

É cada vez mais ruidoso o coro dos canários a que são surdas as luminárias domésticas sempre tão concentradas nos seus inchados egos. A CE baixou as suas previsões de crescimento para 1,7%, com um défice de 0,1%, antecipa a perda de quota de mercado das exportações portuguesas, alerta para o impacto no turismo, que representa 1/6 da economia, da eventual escassez e da escalada dos preços do jet fuel, e do risco de "estaglação" (inflação a coexistir com um crescimento baixo ou nulo).
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(*) «Give me a one-handed Economist. All my economists say 'on one hand...', then 'but on the other...», disse um dia exasperado o presidente americano.

25/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… pedir ao Claude IA da Anthropic para ajudar os “técnicos” do MAI a desentropiar a implementação do Entry/Exit System (EES) para controlo dos passaportes que começou a funcionar em Outubro do ano passado, teve de ser suspenso em Dezembro e voltou a funcionar em Abril multiplicando as filas de espera nos aeroportos. 

O governo tentou chutar o problema para Bruxelas que já fez saber que os problemas não resultam do EES mas da sua implementação em Portugal. (fonte)

… enquanto isso, é aconselhável estar atento aos próximos passos dos tecnogarcas…

Face aos custos crescentes e ao impacto ambiental das quantidades pantagruélicas de energia consumidas pelos centros de dados usados pela IA, que o Dr. Matias anseia por acolher em Sines, para processar esses dados e para dispersão de quantidades igualmente pantagruélicas de calor produzidas pelos processadores, o Sr. Elon Musk e outros tecnogarcas estão a pensar em lançar centros de dados no espaço para resolver os problemas de potência e arrefecimento.

Take Another Plan. Festeja-se a redução dos prejuízos

O Avante da família Azevedo informa-nos num título celebratório que os «prejuízos da TAP caíram 63% para 39,9 milhões de euros no primeiro trimestre». As perdas continuam, apesar dos 3,2 mil milhões injectados com dinheiro dos contribuintes, a maior parte dos quais nunca assentaram o seu rabito num assento da TAP. Se isto foi no primeiro trimestre, em que ainda não se sentiram os efeitos das aventuras do Sr. Trump no Irão, podemos imaginar o que se seguirá.

O Dr. Montenegro está a alcançar o pior dos dois mundos: não toma medidas impopulares e fica impopular…

Segundo a sondagem do Barómetro da Aximage para o DN, apenas 23,2% dos inquiridos votariam agora na coligação AD que tem menos 10,2 pontos percentuais de intenções de voto do que o PS e menos 0,3 pontos percentuais do que o Chega.

… em parte isso pode dever-se à falta de memória dos portugueses

mais liberdade


Os portugueses parecem não ter ficado agradecidos ao Dr. Montenegro por lhes ter diminuído os impostos, do mesmo modo que não ficaram agradecidos ao Dr. Passos Coelho por os ter feito sair do resgate tornado inevitável pelo Eng. Sócrates que continua a viver tranquilamente dos rendimentos provenientes da Operação Marquês, já esqueceram o Dr. Costa que levou os impostos ao pináculo em 2023, como se pode ver no gráfico.

O Estado sucial pagador do fraque...

O facto de, apesar da redução, continuar a cobrar abundantes impostos não torna o Estado sucial melhor pagador aos seus fornecedores a quem deve há mais de 90 dias 337 milhões de euros, mais 42% do que no ano passado (fonte).

… é o mesmo Estado sucial cobrador do fraque

No final do ano passado segundo a Conta Geral do Estado, os impostos por cobrar voltaram a aumentar e quase atingiram os 30 mil milhões de euros, dos quais cerca de 40% é considerada dívida incobrável.

Contas certas à custa de um futuro incerto

O Conselho das Finanças Públicas parece ser a única instituição a dar-se conta que os tão celebrados excedentes da execução orçamental se devem por inteiro aos Fundos de Segurança Social que são reservas para fazer face às responsabilidades pelas pensões futuras que, o mais tardar por volta de 2028, deixarão de ser cobertas pelas contribuições para a SS, e são tratados como se fossem receitas correntes.

(Continua)

24/05/2026

Donald Trump's ceasefire, or whatever it is, shows how America has changed

«If Operation Epic Fury has truly ended, following the announcement of a two-week ceasefire on April 7th, it will have lasted nearly as long as Operation Desert Storm, the campaign to expel Saddam Hussein’s Iraqi forces from Kuwait in 1991. A comparison of the two wars shows how much America has changed.

Back then, President George H.W. Bush sought approval from Congress and the UN Security Council before opening fire. This time round, Donald Trump did not bother with such formalities. Bush, who died in 2018, patiently persuaded 41 other countries to join America’s military coalition. Mr Trump started the war with one ally, Israel. He did not consult other allies, but then demanded they help when things got hard, and denounced them as “COWARDS” when they proved reluctant.

The elder Bush laid out a clear, limited objective: reversing one country’s seizure of another. Mr Trump offered a shifting array of goals, from destroying Iran’s missiles and nuclear programme to regime change.

Bush, who did not have access to social media, chose his words carefully. His terse response to Iraq’s invasion of Kuwait in 1990 was “This will not stand.” Mr Trump has been more verbose and less measured. “Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell—JUST WATCH! Praise be to Allah,” he posted on Truth Social on April 5th.

The 41st president declared victory only after he had won, and in his victory address praised American soldiers and allies—but not himself. Mr Trump declared victory early and often. “We won. In the first hour it was over,” he boasted on March 11th. Despite being over in the first hour, it lasted nearly six more weeks, snuffed out hundreds of lives and made humanity measurably poorer.

On the morning of April 7th Mr Trump vowed to wipe out Iranian civilisation if the regime did not meet his terms. For ten and a half hours, the world wondered how seriously to take this astounding threat. Then he backed down, citing progress in negotiations. The next day he sounded cheerful. “This could be the Golden Age of the Middle East!!!” he posted on Truth Social, adding: “Big money will be made.”

The liberation of Kuwait from the Middle East’s most torture-happy despot marked a high point of American power—a unipolar moment after the end of the cold war. It also pushed Bush’s approval rating at home to nearly 90%. Democrats as well as Republicans applauded. Mr Trump’s war has been less well-received.»

Donald Trump’s ceasefire shows how America has changed

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This text is part of an article that was published on April 9th, and since then, Mr. Trump has proclaimed victory several times, threatened to annihilate Iran, and announced imminent agreements. There is a chasm between the US with a president like George H.W. Bush and the US with a cheerleader like Donald Trump.

22/05/2026

CASE STUDY: A IN sai mais barata do que a IA

«Em Fevereiro, a Cortical Labs, uma startup australiana, anunciou que um programador havia ensinado um de seus "computadores biológicos" - feito de 200.000 células cerebrais humanas montadas em um chip de silício - a jogar "Doom", um clássico jogo de tiro em primeira pessoa. A empresa já havia ensinado um grupo de neurónios a jogar o muito mais simples "Pong". No entanto, suas ambições são muito maiores do que os videogames. Espera que os neurónios, embalados em "computadores biológicos" supereficientes e encaixados em racks em data centers convencionais, um dia ocupem seu lugar ao lado dos chips de silício carregados de transistores que definiram a computação convencional nos últimos meio século.

No coração do sistema de Cortic está uma matriz de milhares de pequenos electrodos, sobre os quais estão os neurónios criados a partir de células-tronco retiradas de um doador humano. A matriz permite que um computador convencional capte a actividade elétrica gerada por esses neurónios e os estimule com actividade eléctrica própria. Os neurónios são mantidos vivos até seis meses por tubos e bombas que fornecem oxigênio e nutrientes, e removem resíduos celulares como o dióxido de carbono. Tudo está embalado em uma caixa projetada para caber nos racks padrão de servidores usados em data centers comerciais.

Os neurónios oferecem várias vantagens em relação à electrónica na computação, diz Hon Weng Chong, chefe da Cortical. Eficiência é uma delas. Modelos modernos de inteligência artificial consomem energia em milhões de watts. Esse consumo de energia tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do sector. Os neurónios, por outro lado, consomem pouca energia: um cérebro humano típico, composto por quase 90 bilhões deles, consome cerca de 20 watts.

Sofisticação é outra. Os transistores de que são construídos os computadores são pequenos interruptores que podem estar em dois estados: ligado ou desligado. Os neurónios são mais complexos. O comportamento deles depende de vários factores, incluindo a voltagem através da membrana celular e de quanto tempo não recebem sinais de outros neurónios. Arquitecturas de computadores existentes também armazenam informações em locais distantes do processamento real. A Micron, grande fabricante de chips de memória, estima que até metade do orçamento energético de um processador de IA convencional é gasto para transferir dados. Também causa engarrafamentos, pois os dados são trocados de um lado para o outro. Cérebros misturam dados e processamento lado a lado, minimizando tais questões logísticas.»

Why a startup is teaching human brain cells to play “Doom”

21/05/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

Outros portugueses no topo do mundo.

Seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Está a ser um acontecimento muito festejado, com razão, visto que entre as noventa escolas do ranking encontramos seis portuguesas, o que corresponde a 6,7% das escolas do ranking, um excelente resultado para um país que representa apenas 0,13% da população e 0,29% do PIB nominal mundial.


Como é que tão excelente resultado nas escolas de gestão se explica num Portugal dos Pequeninos que é um desastre em matéria de gestão das empresas e, sobretudo, do Estado? Uma vez mais, só me ocorre a explicação de George Bernard Shaw na sua peça "Man and Superman": «Those who can, do; those who can’t, teach».
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A posição das universidades portugueses no ranking das 90 é a da primeira coluna (#).

19/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 50a)

Lost in translation

Uma auditoria do IGF aos Regimes Fiscais de Ex-Residente e Residente Não Habitual concluiu que «a despesa fiscal do regime de RNH registou um acréscimo significativo de 2019 a 2024, respetivamente, de 619,7 milhões de euros (M€) para 1.741 M€, em linha com o aumento do número de beneficiários (41.229 para 128.958)».

Essa conclusão foi traduzida pela imprensa doméstica como «Residentes não habituais ‘custam’ 1,7 mil milhões aos cofres do Estado». Se assim fosse, para não custarem esses milhões ao Estado sucial seria preferível dar-lhes guia de marcha para regressarem aos seus países, poupando assim esses milhões ao Estado sucial, levando consigo os investimentos que fizeram e deixando de pagar os impostos que pagaram.

A flexibilidade segundo o Dr. Centeno chama-se rigidez

Em crónica anterior já citei o Dr. Centeno que numa conferência garantiu, que o «mercado de trabalho não tem défice de flexibilidade», emprestando a sua suposta autoridade de economista do trabalho às teses da UGT, ou, mais exactamente, do PS.


Por coincidência, o economista João Tovar Jalles comentou num artigo recente a confusão dos conceitos e publicou os gráficos acima, os quais, mais do que as palavras, mostram um mercado de trabalho português mais protegido e, em consequência, com mais contratos a prazo e mais desemprego jovem, desfazendo as fantasias do Dr. Centeno.

A palavra-chave aqui é “nominal”

O Volume de Negócios nos Serviços (VNS) registou no 1.º trimestre um crescimento nominal homólogo de 2,1%, o que seria uma boa notícia, não fora a inflação que fez do crescimento uma queda de -1,5% (INE).

Pensamento positivo

O Dr. Miranda Sarmento, que prometeu um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», é o mesmo que admite que a dívida pública no final do ano represente 85% ou 86% do PIB, apesar de no final do 1.º trimestre andar pelos 91% e a conjuntura internacional não mostrar perspectivas cor-de-rosa.

O Dr. Montenegro tem concorrência socialista à esquerda e à direita…

O Dr. Carneiro faz o que entende lhe compete como opositor socialista e leva da UGT ao colo, o Dr. Ventura vai para além da oposição socialista de esquerda e acrescenta o aumento das férias à redução da idade de reforma em troca de um acordo no Código do Trabalho.

… e, não obstante, almeja uma maioria absoluta para o que pretende dilatar Portugal

Pelo menos foi o que disse na apresentação da sua candidatura a líder do PS-D sob a bandeira originalíssima «Fazer Portugal Maior»

18/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O governo do Dr. Montenegro continua a obra de ampliação do Estado sucial

O Dr. Montenegro está a mostrar-se um sucessor à altura do Dr. Costa que recebeu 655 mil funcionários públicos do “neoliberalismo” (que, por sua vez, herdou 730 mil do socialismo socrático) e aumentou esses efectivos para mais de 740 mil. O Dr. Montenegro está a continuar a expansão e só no primeiro trimestre deste ano acrescentou mais uns milhares ao pletórico aparelho atingindo 767 mil utentes da vaca marsupial pública.

O Estado sucial-pulicial

O consenso no seio do governo sobre o aumento dos efectivos policiais não podia ser mais completo. Já sabíamos que o Dr. Luís Neves atribuiu o desgoverno das polícias e a incompetência das respectivas chefias à falta de efectivos, falta que deve ser dos poucos problemas que as polícias portuguesas não têm (cfr. a série de posts Vivemos num estado policial?). Ficámos agora a saber que o próprio Dr. Montenegro prometeu aos autarcas alfacinhas e tripeiros mais 400 polícias e o comandante-geral da GNR já anunciou que vai exigir 1.800 militares para a reactivação da Brigada de Trânsito extinta em 2007 para optimização de meios e eficiência administrativa. 

O Estado sucial já está no futuro

Todas as projecções confiáveis apontam para a insustentabilidade do sistema português de Segurança Social dentro de uma dúzia de anos, isto é, por volta de 2038 as contribuições deixam de ser suficientes para cobrir as despesas com pensões e, a partir daí, outra meia dúzia de anos depois, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social poderá ficar esgotado. 

Com a Caixa Geral de Aposentações (CGA) – a segurança social dos funcionários públicos – não será preciso esperar tanto tempo. As despesas com pensões pagas pela CGA. que cresceu mais de 7% o ano passado (fonte Conta Geral do Estado), vão exigir que os montantes transferidos do OE, que em 2024 já foram superiores a 7 mil milhões de euros, terão de ser uma vez mais aumentados.

A prioridade do governo é antecipar a insustentabilidade da SS

É nesse contexto que ganham sentido as promessas do ministro das Finanças que, parecendo ter mais juízo do que o Dr. Matias, afinal talvez não tenha, ao prometer um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», fazendo depender da gestão de tesouraria a antecipação de um longo prazo insustentável.

O Dr. Matias e a IA

Na falta de reformas com impacto efectivo na máquina burocrática do Estado sucial com os seus referidos 767 mil utentes, que consome 43% do que o país produz, dos quais mais de 86% são despesa primária, o Dr. Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, esfalfa-se a falar dia sim, dia sim na IA, que para ele parece cada vez mais consistir na construção de centros de dados para consumir resmas de MW produzidos por resmas de painéis solares fabricados na China que alimentam resmas de processadores desenhados nos EUA e fabricados em Taiwan para armazenar resmas de dados europeus. É um desperdício de inteligência natural.

A Inteligência Artificial de Sines não é ficção científica, é apenas ficção

Se não fosse a retórica do Dr. Matias não ter aparentemente limites, diria que teria atingido o ápice com a sua grandiloquente afirmação numa qualquer das inúmeras conferências onde derrama as suas visões de que «hoje Sines é um polo tecnológico de ponta. Hoje já é produzida Inteligência Artificial em Sines, não é ficção científica».

(Continua)